A cozinha da casa principal da fazenda estava tomada por um cheiro forte, uma mistura de ervas e óleo sendo aquecido. Maíra, Iracema e Jéssica trabalhavam lado a lado, focadas em preparar o remédio especial que aprenderam com o Tio Rubão. Ele era a única pessoa que conseguia transformar o óleo do Ibirapê em um medicamento eficaz contra o parasita que, por vezes, infectava sua família e outros lobos metamorfos.
Maíra mexia a panela com cuidado, usando uma colher de madeira comprida para garantir que a mistura não queimasse.
— Você acha que vai funcionar? — perguntou Iracema, cortando mais folhas de uma erva específica que Maíra havia pedido.
— Tem que funcionar. Não temos outra opção. Você sabe que o Tio Rubão foi o único que descobriu como tratar isso. — respondeu Maíra, sem tirar os olhos da panela.
Iracema parou por um momento, pensativa.
— Mas… isso não é para nós, certo? É para a estrangeira. Você acha que ela é como nós? — falou em sussurros.
Maíra deu um leve suspiro, ainda mexendo a mistura.
— Não sei, mas ela não é comum. Isso é óbvio. Os remédios normais deveriam ter funcionado nela, mas não funcionaram. Isso só acontece com quem tem… bom, você sabe. Nosso metabolismo.
Iracema ficou imóvel olhando para a tia, enquanto Jéssica alheia a conversa se concentrava na receita.
— E se estivermos erradas? E se isso não ajudar? — Perguntou Iracema.
— Vamos confiar.
Maíra, Jéssica e Iracema seguiram as orientações deixadas pelo Tio Rubão. A preparação exigia precisão e paciência, pois qualquer erro poderia comprometer o remédio.
Primeiro, pegaram os frutos do Ibirapê. A casca dura foi rompida com ferramentas específicas, pois a pressão necessária era maior do que a força humana comum poderia alcançar. Depois, o óleo foi retirado com um pequeno dispositivo manual.
O óleo era colocado em uma panela de barro, junto a açúcar e água, que mantinha a temperatura estável sem correr o risco de queimar o conteúdo. O fogo era aquecido por lenha, com cuidado para mantê-lo baixo e constante. A mistura precisava ser aquecida a cerca de 60 graus Celsius, o que Maíra media com um termômetro antigo que o tio havia deixado.
— Não se esqueça de mexer bem — disse Jéssica, enquanto Iracema colocava as folhas de bananeira na panela.
A mistura precisava ser fervida por cerca de 40 minutos, até que as ervas liberassem suas propriedades no óleo. Durante esse tempo, Maíra, Iracema e Jéssica revezavam para mexer constantemente, evitando que o óleo separasse as ervas ou que algo grudasse no fundo da panela.
Enquanto mexia a mistura, Jéssica olhou para Maíra com curiosidade.
— O que eles estão fazendo aqui? Nas nossas terras?
— Para mim, eles estão procurando algo — disse Maíra.
— Você acha que eles sabem o que estão procurando aqui? — perguntou Iracema.
Maíra fez uma pausa antes de responder.
— Se não soubessem, não teriam vindo. Isso é bem óbvio. Eles vieram pelo óleo do Ibirapê, com certeza.
— Mas como eles souberam disso? — perguntou Iracema, franzindo o cenho.
— Talvez alguém tenha falado mais do que devia.
— Julião? — arriscou Iracema, a voz carregada de suspeita.
Maíra assentiu lentamente.
— Ele sempre foi imprudente. Não gosta de nossas tradições e acha que podemos viver como os outros, sem medo de exposição.
Iracema bufou, voltando a mexer a mistura.
— Esse Julião vai acabar trazendo problemas para todos nós.
Quando o óleo finalmente estava pronto, Jéssica colocou um pouco em um frasco e fechou-o com uma rolha. Ela o segurou com cuidado.
— Vamos levar isso para Emma. Espero que funcione — disse Jéssica, enquanto Iracema assentia em silêncio.
As três sabiam que aquele remédio era mais do que apenas uma tentativa de cura. Era um segredo guardado por gerações, e agora, estava sendo compartilhado com alguém de fora.
O quarto de Emma estava cheio. Ethan estava encostado na parede, os braços cruzados, com uma expressão tensa. Lydia estava sentada em uma cadeira próxima à cama, balançando o pé impaciente. Ambas as presenças deixavam o ambiente carregado de desconfiança quando Jéssica, Maíra e Iracema entraram, carregando o frasco com o remédio.
— Trouxemos o remédio para você — disse Jéssica, tentando soar tranquila.
Ethan foi o primeiro a falar, a voz firme e direta:
— Não. Ela não vai tomar isso.
Lydia assentiu, reforçando:
— É isso mesmo. Eu não confio nesse negócio. Vocês são muito… esquisitos. Sei lá, no Brasil tem muito disso, bruxarias, essas coisas. Isso aí deve ser alguma feitiçaria.
Maíra parou no meio do quarto, olhando fixamente para Lydia. Seus olhos fervendo com indignação, mas sua voz permaneceu controlada.
— Nos respeite. Passamos horas preparando este remédio, com cuidado e dedicação. Fizemos isso para ajudá-la.
Iracema deu um passo à frente, a raiva estampada no rosto.
— Exatamente. E minha tia te recebeu com carinho, abriu as portas da casa dela, e vocês vêm com essa falta de respeito? Se dependesse de mim, vocês já estariam fora daqui!
— Iracema, calma — disse Maíra, tentando evitar que a situação saísse do controle.
— Não! — retrucou Iracema, elevando a voz. — Quero saber: você vai ou não vai tomar o remédio?
— Gente… Vamos com calma. Nervosismo aqui não vai adiantar nada — disse Jéssica.
Emma, deitada na cama, observava a cena, claramente desconfortável. Ethan se aproximou, sua voz baixa, mas firme:
— Não tome, Emma. Não sabemos o que é isso. Eles podem estar mentindo.
Lydia concordou, sussurrando:
— Isso aqui tá muito estranho.
Antes que Emma pudesse responder, a porta do quarto se abriu, e Aruanã entrou. Sua presença fez o ambiente inteiro mudar. A tensão continuava, mas havia algo na sua postura que chamou a atenção de todos.
— Deixe ela decidir — disse Aruanã, com a voz calma, mas firme. Ela se aproximou de Emma, ignorando o olhar acusador de Ethan e Lydia. — Esse remédio foi feito com base nos ensinamentos do nosso tio, o Tio Rubão. Ele era médico, cuidava de todos da nossa família e das pessoas da região. Sempre que alguém tinha doenças ou parasitas, ele sabia o que fazer.
Emma olhou para Aruanã, tentando encontrar uma verdade em suas palavras. Algo na forma como ela falava e na conexão inexplicável que sentia a atraía mais do que os conselhos de seus amigos.
— Emma, não faça isso — insistiu Ethan. — Confie em mim.
Lydia balançou a cabeça.
— É, escuta o Ethan. Essa gente é muito estranha.
Emma respirou fundo, erguendo a mão.
— Chega. Todo mundo, fiquem quietos.
O quarto caiu em um silêncio tenso. Emma estendeu a mão para Jéssica, pegando o pequeno frasco. Ela o observou por um momento, pensativa, antes de levar à boca e tomar o conteúdo.
— Agora, todo mundo, saiam. Quero ficar sozinha.
Maíra e Iracema trocaram olhares, mas não discutiram. Saíram imediatamente, junto a Jéssica, seguidas por Aruanã, que hesitou por um instante, mas acabou deixando o quarto. Ethan e Lydia ficaram parados, mas Emma lançou um olhar firme para eles.
— Eu disse, saiam.
Ethan parecia prestes a argumentar, mas Lydia segurou seu braço, puxando-o em direção à porta. Quando estavam no corredor, Ethan se soltou bruscamente.
— Você está louca? Não devia ter deixado ela tomar isso!
— Ethan, para com isso! — retrucou Lydia, segurando novamente o braço dele. — Você está agindo como um louco.
Ethan bufou, soltando-se de Lydia, e saiu andando a passos largos. Lydia, irritada, seguiu pelo corredor, mas estava tão distraída que tropeçou e caiu direto nos braços de Cauê, que passava por ali.
Cauê segurou Lydia antes que ela caísse no chão e riu, divertido.
— Você está sempre caindo por aí?
Lydia levantou o olhar para ele, e por um momento, os dois ficaram se encarando. O ar parecia diferente...
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Atualizado até capítulo 26
Comments
Ana Faneco
Continua amando a história 😍❤️
2024-12-18
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