O sol do Cerrado se erguia com força, lançando sua luz amarela sobre a paisagem vasta e cheia de vida. Aruanã Pari ajustou o chapéu de palha enquanto enchia a cesta com os frutos do Ibirapê.
O aroma doce e levemente amendoado do coquinho invadia o ar, misturado ao som da brisa e dos pássaros.
O Ibirapê era um fruto pequeno, de casca dura e textura oleosa. Seu sabor lembrava azeite, mas com uma doçura peculiar. Mais importante que o gosto, eram suas propriedades únicas. Apenas a família Pari sabia como extrair corretamente o líquido do fruto, um processo que exigia paciência, técnica e cuidado. Dimas, o pai de Aruanã, sempre dizia:
— Esse é o nosso legado, filha.
Afinal, não era só colher e estava pronto para o consumo, tinha que saber extrair-los.
Aruanã ergueu o olhar para a vastidão da fazenda. A casa principal, grande e feita de barro, dominava a paisagem. Apesar de simples, tinha dois andares e um charme rústico, com varandas largas e janelas adornadas com cortinas bordadas à mão. Ao lado, um prédio menor, moderno e discreto, servia como centro administrativo. Ali, a família gerenciava as vendas e os contratos da produção, mas sempre mantinham um pé firme na tradição.
De repente, o som de motores distantes chamou sua atenção. Aruanã virou-se, franzindo a testa ao ver uma nuvem de poeira ao longe, levantada por carros grandes que se aproximavam. Ela deixou a cesta no chão e limpou as mãos no avental.
— Pai! — gritou, chamando Dimas. — Tem gente chegando.
Os carros estacionaram na entrada da fazenda, e Emma Winterbourne desceu do primeiro veículo. Seu porte elegante e os olhos determinados denunciavam sua posição de liderança. Ao seu lado, dois lobos cinzentos disfarçados de humanos, Ethan e Lydia — olhavam ao redor com curiosidade e cautela.
A fazenda parecia simples demais para esconder algo tão valioso. Emma observou a casa de barro, os campos extensos e as plantações de Ibirapê espalhadas ao longo da propriedade. Havia uma harmonia ali, algo que ela não via há tempos em sua terra natal.
Dimas Pari saiu da casa principal, com um chapéu na cabeça e um sorriso educado. Aruanã o seguia de perto, cruzando os braços enquanto avaliava os estranhos.
Seus olhos encontram o de Emma. E Emma que não sabia o porque, sentiu uma sensação de familiaridade, como estivesse próximo de uma parte sua.
— Bem-vindos à fazenda Pari — disse Dimas, apertando a mão de Emma. — O que traz vocês aqui?
Emma respirou fundo, decidindo ser direta.
— Estamos interessados no fruto que vocês produzem, o Ibirapê. Sabemos que é raro e extremamente valioso. Queremos negociar um contrato.
Dimas assentiu lentamente, mas antes que pudesse responder, Emma continuou.
— Sabemos também que houve uma venda recente para uma empresa madeireira. Isso nos preocupa, porque estamos cientes de que o fruto pode ser mal utilizado.
Dimas franziu a testa, cruzando os braços.
— Venda para madeireiros? Isso nunca aconteceu. Nossa família é cuidadosa. Só vendemos para quem conhecemos bem. Houve uma invasão nas nossas terras há alguns meses, mas desde então reforçamos nossa segurança. E posso garantir que não fizemos negócios com ninguém desse tipo.
Os olhos de Emma se estreitaram. Aquela informação mudava tudo. Ela trocou um olhar com Ethan e Lydia Tompson, ambos atentos ao que estava sendo dito, mesmo com pouco familiaridade, com a Língua, o grupo entendeu. Embora os irmãos Tompson tivessem um don de aprender idiomas rápido.
— Se não houve venda, isso significa que esses madeireiros podem ter roubado o fruto — Emma deduziu. — Precisamos garantir que algo assim não aconteça de novo. O que vocês precisam para fecharem um contrato conosco?
Dimas sorriu de canto, mas seu olhar era firme.
— Aqui, nós não fechamos negócios só com papéis. Precisamos conhecer vocês, saber quem são, quais suas intenções. Já fomos enganados antes.
Ele deu uma pausa, apontando para as plantações.
— Além disso, o Ibirapê não é fácil de manusear. Vocês acham que podem simplesmente colher e usar? É preciso conhecer o fruto, entender o Cerrado e o que ele significa. Isso leva tempo. Se vocês realmente querem fazer negócios, terão que passar um tempo aqui conosco.
— Quanto tempo? — perguntou Emma, com uma expressão de leve irritação.
— Duas semanas, pelo menos. É o suficiente para entenderem como trabalhamos e para garantirmos que vocês não estão aqui para nos prejudicar.
Emma suspirou, avaliando as possibilidades. Eles não tinham escolha. O antídoto dependia daquele fruto, e o clã estava cada vez mais enfraquecido. Finalmente, ela assentiu.
— Muito bem. Ficaremos. Mas precisamos começar o quanto antes.
Dimas deu um leve sorriso e olhou para Maíra, e Aruanã.
— Mostrem os quartos para os nossos visitantes.
Maíra assentiu, embora sua expressão mostrasse desconfiança. Ela não gostava da ideia de estranhos na fazenda, mas obedeceu. Enquanto caminhava ao lado de Emma e dos outros, apontou para os campos ao redor.
— Vocês sabiam que São Paulo já foi um grande Cerrado? Hoje, menos de 1% do bioma original ainda existe. Se não fossem as leis de proteção, tudo isso teria sido devastado há décadas. — falava enquanto levavam ele para dentro da casa.
Emma ouviu em silêncio, observando os campos de Ibirapê. Algo na força daquela família parecia diferente. Ela sentia que havia mais ali do que os olhos podiam ver.
Mais tarde, enquanto se acomodava no quarto simples, Emma refletia sobre o que ouvira. A ideia de passar uma semana ali não era confortável, mas algo no lugar a intrigava.
O quarto tinha uma cama de madeira, com lençóis de tecido grosso e remendado, e uma cortina, provavelmente feita artesanalmente. Ao lado da cama, havia uma mesinha com um jarro de barro, que Emma supôs ser para água. Um guarda-roupa simples completava o ambiente.
Antes de dormir, Maíra trouxe uma bacia de aço e disse que era para eles lavarem os pés antes de se deitarem, pois a casa feita de barro costumava deixar poeira nos pés. Logo em seguida, apareceu uma menina tímida, de cabeça baixa, carregando água quente. Até então, Emma não havia percebido a poeira por conta de suas botas.
— Aruanã, deixa a água na mesinha aqui — disse Maíra, com um tom firme, mas gentil.
— Sim, mãe — respondeu a jovem, concordando.
Maíra se virou para Emma, com um sorriso acolhedor.
— Devo apresentar minha filha a você. Ela pode ajudar a auxiliar no que precisar. O nome dela é Aruanã, mas sei que, para vocês gringos, o nome dela seria um trava língua, então podem chamá-la de Nã.
Aruanã evitava olhar diretamente nos olhos de Emma, que a observava com curiosidade. Havia algo fascinante nela. Apesar de morar em condições tão simples, seus cabelos eram lindos e bem cuidados, caindo de forma sedosa sobre os ombros, em um contraste notável com a rusticidade ao redor.
— Posso ir, mãe? — perguntou Aruanã, apressada, enquanto olhava de relance para a porta.
— Sim, mas não fique conversando com seu noivo até tarde, pois amanhã levantamos às quatro e meia da madrugada — respondeu Maíra, com firmeza.
Quando ambas saíram, Emma suspirou profundamente. Ela estava destinada a ser a Luna do Alfa aristocrático Jean-Pierre Pondé, um francês arrogante. O acordo era crucial para alianças com os lobos europeus, e ela sabia que seu destino já estava selado.
Ela tinha uma reunião daqui um mês, com a família de seu noivo, mas... estava presa em compromissos, e temia não conseguir ir a França a tempo.
"Para salvar seu clã, Emma precisará de muito mais do que apenas o fruto do Ibirapê. Ela precisará enfrentar um mundo que vai além da razão... e talvez encontrar algo que nunca procurou." o vínculo inquebrável.
— Espero que essa família não empaque as negociações.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 26
Comments