CAPÍTULO 6

A manhã trouxe com ela o silêncio que eu tanto odiava. Sentado em meu escritório, analisava relatórios de nossos "negócios". Um novo carregamento de armas havia chegado ao porto, e uma negociação com os Panchenko, uma família rival, estava marcada para o fim da semana. Tudo seguia como planejado, até o celular vibrar no bolso do meu paletó. O nome na tela fez meu maxilar travar.

"Lyudmila Volkov". Minha mãe.

Respirei fundo antes de atender, sabendo que cada palavra dela era um jogo perigoso, mascarado por um tom maternal que ninguém ousaria questionar.

— Viktor, meu querido. — A voz dela era doce, carregada de um russo impecável que, para os despreparados, soaria quase reconfortante. — Espero que você não tenha esquecido a data.

— Difícil esquecer, mãe. O pai sempre fez questão de marcar sua presença até na morte. — Minha resposta foi cortante, mas ela apenas riu suavemente.

— Tolo, como sempre. Quero você aqui no jantar de domingo. Um jantar em homenagem ao seu pai. Nada mais justo para um homem que construiu o império onde você se senta agora.

A armadilha era clara, mas recusar não era uma opção.

— Estarei lá.

Ela fez uma pausa antes de continuar, e eu quase pude visualizar o sorriso calculado no rosto dela.

— Não me decepcione, Viktor. Venha preparado. Você sabe como certos convidados gostam de testar limites.

A ligação terminou antes que eu pudesse responder, e o silêncio voltou a me envolver. Logo depois me preparei, havia um assunto para resolver: um acordo milionário envolvendo redes de tráfico de armas com a família Panchenko. O dinheiro corria em volumes absurdos, com quantias ocultas em contas espalhadas pelo mundo, e o sucesso da operação dependia de cada detalhe.

Subi as escadas com passos calculados até o quarto onde minha mais nova hóspede estava alojada. A porta estava entreaberta, e a ouvi antes de entrar. Stella falava ao telefone, a voz fria e direta, provavelmente avaliando um alvo.

Bati levemente na porta antes de empurrá-la para abrir mais, sem esperar permissão.

— Tem um minuto? — Perguntei, entrando sem cerimônia.

Ela ergueu os olhos, encerrando a ligação com um gesto rápido.

— O que você quer agora, Volkov? — A impaciência estava estampada em cada palavra.

— Preciso de você em um trabalho. Vamos negociar com traficantes esta tarde. Quero você como sniper.

Ela arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Eu sou uma assassina de aluguel, não sua segurança particular.

Sorri de lado, aproximando-me um pouco mais, deliberadamente invadindo o espaço pessoal dela.

— Para mim, não faz diferença. Você tem um rifle, sabe atirar, e está sendo muito bem paga. Isso é o suficiente.

Ela revirou os olhos, mas o olhar calculado denunciava que ela considerava minhas palavras. Por fim, soltou um suspiro.

— Tudo bem.

— Boa garota!— Respondi com um sorriso cínico, antes de me virar e sair do quarto.

...---------------...

A noite estava fria, com uma brisa cortante que parecia carregar o cheiro metálico de problemas. O galpão abandonado, localizado nos arredores da cidade, tinha um ar de desolação que combinava com o tipo de gente que eu estava prestes a encontrar.

O comboio de SUVs pretos estacionou a uma distância segura, seus motores rugindo antes de silenciar. Saí do carro ajustando meu paletó, o peso da pistola no coldre sob o braço era reconfortante. Meus homens formaram um círculo apertado ao meu redor, como sombras letais prontas para atacar.

Ao longe, a estrutura do galpão se erguia como um monstro adormecido. A luz fraca de holofotes iluminava o perímetro, e figuras se moviam nas sombras. Eram os homens de Sergey Panchenko, traficantes conhecidos tanto por sua eficiência quanto por sua imprevisibilidade.

— Fique perto e alerta. — Murmurei para Mikhail. Ele acenou com a cabeça, o olhar fixo nos arredores.

Caminhamos até as portas enormes e enferrujadas do galpão. Elas rangeram como um lamento quando dois capangas as abriram para nossa entrada. Lá dentro, o ar era pesado, misturado com o cheiro de poeira, óleo e cigarros. A luz de lâmpadas penduradas criava sombras dançantes nas paredes.

No centro do espaço, uma mesa improvisada estava montada com cadeiras espalhadas ao redor. Sergey estava sentado em uma delas, um sorriso que não alcançava os olhos estampado no rosto. Ele se levantou quando me viu entrar, abrindo os braços como se eu fosse um velho amigo.

— Viktor Volkov! Sempre pontual.

— Diferente de você, Sergey. — Respondi, minha voz firme como aço. Não houve aperto de mão, apenas um olhar que dizia tudo: este não era um encontro social.

Sergey riu, um som gutural que parecia mais ameaçador do que amigável.

— Não seja tão frio, Volkov. Estamos aqui para negócios, não para brigar.

Meus olhos varreram o ambiente enquanto ele falava. Vi dois atiradores posicionados no mezanino, uma metralhadora de cano longo descansando em cada uma das mãos. Homens armados estavam espalhados pelo galpão, suas posturas descontraídas contrastando com o perigo que representavam.

— Vamos acabar logo com isso, Sergey. — Disse, jogando uma maleta preta sobre a mesa. O som ecoou pelo espaço, chamando a atenção de todos os presentes.

Ele olhou para a maleta, mas não a abriu imediatamente. Em vez disso, gesticulou para um de seus homens, que se aproximou e inspecionou o conteúdo.

— Tudo aqui? — Perguntou Sergey, o sorriso agora um pouco mais calculado.

— Sempre é. Você sabe que não trabalho com amadores.

Sergey se inclinou para frente, seus olhos semicerrados encontrando os meus.

— Nem todos confiam tão facilmente, Volkov. Especialmente quando se trata de você.

Eu sorri, mas o gesto não alcançou meus olhos.

— Confiança é algo caro, Sergey. Mas posso garantir que meu preço está sempre à altura.

Enquanto falávamos, senti o peso invisível do olhar de Stella. Ela estava posicionada no telhado do galpão, o rifle apontado, pronta para intervir a qualquer sinal de traição. Era como um fantasma, invisível, mas sempre presente.

— Bem, vamos ao negócio. — Disse Sergey, batendo palmas para chamar a atenção de seus homens.

O carregamento de armas foi trazido para perto. Grandes caixotes de madeira, lacrados com pregos e pintados com símbolos militares, foram colocados na minha frente. Mikhail se aproximou para inspecionar, abrindo um dos caixotes com uma barra de ferro.

Dentro, fileiras de rifles automáticos reluziam sob a luz das lâmpadas. Eram de última geração, o tipo de equipamento que podia virar o jogo em uma guerra.

— Satisfeito? — Perguntou Sergey, cruzando os braços.

— Até agora, sim. Mas você sabe que sempre verifico tudo antes de confirmar.

Enquanto Mikhail e meus homens analisavam o restante do carregamento, Sergey manteve o olhar fixo em mim. Ele sabia que qualquer erro, por menor que fosse, poderia significar um banho de sangue ali mesmo.

Quando a inspeção terminou, Mikhail deu um aceno discreto.

— Parece que fizemos um bom negócio hoje, Sergey. — Falei, minha voz carregando uma nota de encerramento.

— Assim espero. — Ele respondeu, o sorriso voltando ao rosto.

Enquanto voltávamos para os carros, senti a tensão começar a dissipar, mas jamais completamente. Com homens como Sergey, nunca era o fim; era apenas o começo de outro jogo perigoso.

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Comments

Heloísa Garbin

Heloísa Garbin

já imagino que ele vai querer levar ela no almoço de domingo

2025-01-09

16

Mônica Wachholz

Mônica Wachholz

mafioso é assim mesmo, muita ganância e não importa quem vai morrer contanto que não se intrometam; não tem mãe nem pai que sai ileso

2025-03-05

1

Elenilda Soares

Elenilda Soares

show 👏 👏 👏 👏 parabéns autora arrasou demais viu 👏

2025-02-22

1

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