Sumir sem deixar rastros era uma das minhas especialidades. Eu não era uma mulher que corria riscos desnecessários. O fracasso no primeiro ataque me irritava, mas não me enfraquecia. Eu nunca deixava um serviço inacabado, e Viktor Volkov não seria o primeiro.
Minha casa era minha fortaleza, isolada do mundo. Uma ilha pequena, sem nome, afastada da agitação e cheia de armadilhas que tornariam quase impossível alguém me encontrar. Era onde eu podia pensar com clareza e planejar meu próximo movimento.
Naquela manhã, o cheiro do café amargo se espalhava pela sala enquanto eu analisava arquivos digitais enviados por Sasha Koval, a única pessoa em quem confiava. Sasha era uma hacker brilhante e a única que sabia o suficiente sobre mim para ser útil sem se tornar uma ameaça.
— Ele vai a uma boate chamada Noir com frequência. Um lugar de luxo, exclusivo para os figurões como ele — Sasha disse através da tela do notebook, a imagem dela iluminada pela luz fraca da minha sala. — E, Stella, você vai odiar essa parte...
— Fala logo, Sasha.
— Ele sempre reserva um dos quartos privados lá. Usa o “serviço especial” das garotas do lugar. Você sabe do que estou falando.
Fiz uma careta.
— Prostitutas. Claro que sim. Esses caras são previsíveis até na podridão.
— Se quer chegar perto dele rápido, você sabe o que fazer.
Suspirei, esfregando o rosto. Disfarces eram a parte que eu mais desprezava no meu trabalho, especialmente se envolviam contato físico. Eu odiava ser tocada, era como uma barreira invisível que eu precisava manter para não me perder. Mas odiar algo nunca me impediu de fazer o que precisava ser feito.
— Envia tudo o que tiver sobre a segurança do lugar. Horários, rotas, detalhes dos seguranças. Eu vou resolver isso.
Sasha sorriu de lado.
— Sabia que você não ia desistir. Boa sorte, Stella.
...----------------...
A transformação levou mais tempo do que eu gostaria. Uma peruca loira, lentes de contato azuis, maquiagem pesada que destacava meus traços, e um vestido justo, ousado, que revelava mais do que eu estava confortável em mostrar. Em uma das meias-calças, escondi um pequeno punhal de cerâmica, indetectável em detectores de metal,e uma pistola SIG Sauer P365 modificada presa discretamente à coxa. Eu estava pronta.
A Noir era um espetáculo de decadência. Luzes néon pulsavam em vermelho e dourado, refletindo nos rostos de homens ricos e mulheres maquiadas demais. O cheiro de álcool, cigarro e perfume caro saturava o ar.
Passei pela entrada sem dificuldades, minha falsa identidade garantindo acesso. Caminhei até o bar, meus saltos ecoando no mármore brilhante. Pedi uma bebida, algo forte, mas que eu sabia que não beberia.
Enquanto segurava o copo, examinei o ambiente com cuidado, disfarçando minha análise com um sorriso misterioso. Meus olhos o encontraram antes que eu esperasse.
Viktor Volkov.
Ele estava sentado em um sofá de couro preto, cercado por seguranças e um pequeno grupo de homens e mulheres rindo alto. Seu terno impecável era escuro, como o olhar predador que lançou pelo salão.
Minha respiração permaneceu estável, mas por dentro, eu já começava a calcular os próximos passos. Para chegar até ele, eu precisaria de algo audacioso.
O palco central chamou minha atenção: um pole dance.
Eu hesitei. Detestava esse tipo de coisa, mas sabia que era o que atrairia os olhos de Viktor. Ele não era um homem que se deixava enganar facilmente, mas era um homem.
Engoli o orgulho e caminhei até o palco. As luzes me envolveram enquanto subia. O vestido já era justo o suficiente para chamar atenção; não precisaria de muito mais.
A música começou, lenta e hipnótica. Movi-me com precisão, cada gesto calculado para parecer natural. Segurei no poste, girando com sensualidade, deixando o vestido subir o suficiente para revelar as pernas.
O salão pareceu prender a respiração. Mas não era qualquer um que me importava.
Era ele.
Nossos olhos se encontraram, e Viktor inclinou o corpo para frente, interessado. Ele sorriu de lado, um sorriso perigoso, mas cheio de desejo. Era isso que eu precisava.
Continuei dançando, girando e arqueando o corpo com uma sensualidade que parecia fluir naturalmente. Cada movimento era um convite silencioso, um desafio.
Quando a música terminou, os olhos dele ainda estavam em mim. Ele não desviou o olhar. Com um simples gesto da mão, ele chamou um de seus homens.
Um segurança enorme se aproximou de mim assim que desci do palco.
— Senhor Volkov gostaria de falar com você. No quarto dele.
Fingi hesitar, mordendo o lábio como se estivesse nervosa, mas com interesse.
— Bem... acho que não posso recusar um convite assim, posso?
Ele não respondeu, apenas me guiou pelos corredores luxuosos até uma porta decorada em dourado.
O quarto era amplo, decorado com mármore negro e cortinas vermelhas. Viktor estava ali, servindo dois copos de um uísque caro. Ele virou-se lentamente quando entrei, os olhos me analisando da cabeça aos pés.
— Você tem um jeito interessante de chamar atenção — ele disse, a voz profunda carregada de diversão.
— E parece que funcionou — respondi com um sorriso sedutor, aproximando-me lentamente.
Ele entregou um dos copos, suas mãos tocando as minhas por um breve segundo.
— Como devo te chamar?
— Chame-me do que quiser esta noite. — Minha voz era baixa, mas cada palavra estava impregnada de confiança.
Ele riu, aproximando-se mais. Eu podia sentir a intensidade no olhar dele, o calor. Viktor Volkov era perigoso, mas não invencível.
Ele se inclinou, quase beijando meus lábios. Eu desviei discretamente, deixando que ele sentisse o gostinho da frustração.
— Você é intrigante — murmurou ele, os olhos brilhando com algo mais profundo do que desejo.
Quando ele virou de costas para pegar algo na mesa, eu movi a mão para a arma presa à coxa. Minha respiração estava calma, meu coração, frio.
Mas, antes que eu pudesse agir, Viktor se virou rapidamente, como se já soubesse. Ele agarrou meu pulso, sua força me desequilibrando.
— Achei que você fosse boa, Stella.
O choque durou apenas um segundo.
— E eu achei que você fosse esperto o suficiente para não virar as costas.
Em um movimento rápido, girei o corpo para me soltar, usando o impulso para desferir um golpe com a perna. Ele bloqueou com o braço, um sorriso divertido se formando em seus lábios.
— Você luta bem, mas precisa ser melhor.
Respondi com um soco que ele desviou por pouco, mas consegui desferir um chute em seu abdômen, afastando-o alguns passos.
— Quer testar isso? — desafiei, puxando o punhal de cerâmica escondido na meia.
Viktor não parecia preocupado. Ele avançou, e nossa luta se tornou um frenesi de golpes rápidos e calculados. O punhal cortou o ar várias vezes, mas ele era ágil, desviando com precisão.
Quando ele conseguiu segurar meu braço, girei o corpo, usando o peso dele contra si, e o empurrei para a parede. Ele riu, mesmo preso.
— Impressionante. Pena que não é o suficiente.
Antes que eu pudesse reagir, ele inverteu a posição, pressionando-me contra a parede com o corpo. Seu peso era uma prisão quente e sufocante.
— Solte-me, Viktor, ou juro que vou te matar.
— Acha mesmo? — Sua voz estava carregada de provocação. Ele segurou meu punho, apertando apenas o suficiente para fazer a faca cair, mas sem me machucar. — Você é incrível, Stella. Mas não consegue fugir disso.
Tentei me soltar, mas ele manteve o controle, os olhos queimando nos meus. Seus dedos tocaram meu rosto, traçando uma linha pela minha mandíbula.
— Não gosta de ser tocada, não é? — murmurou, com um sorriso predador. — Que pena.
Avancei com a cabeça, quase o atingindo, mas ele desviou, rindo mais uma vez. Ele segurou meu rosto com firmeza, os lábios pairando tão próximos que eu podia sentir o calor deles.
— Você é um desafio. E eu adoro desafios.
A raiva queimava em mim. Aproveitei o momento para desferir um chute na lateral de sua perna, mas ele reagiu rapidamente, girando meu corpo e me prendendo novamente, desta vez de costas para ele.
— Acabou. — Sua voz era firme, mas havia algo mais ali. Admiração?
Respirando com dificuldade, relaxei os músculos, aceitando momentaneamente a derrota.
Ele finalmente recuou, deixando-me respirar. Apesar do calor da luta, meu coração permanecia frio, calculando cada detalhe. Viktor Volkov era um adversário formidável, mas havia algo nele que o tornava mais perigoso do que apenas força ou habilidade: o controle absoluto que ele exalava. Ele sabia exatamente o que estava fazendo e, pior, sabia como me desestabilizar.
— Você é uma peça rara, Stella — ele disse, o tom baixo e carregado de admiração, enquanto eu ajeitava o vestido e recolhia o punhal que ele havia me forçado a soltar. — Não tenho dúvidas de que poderia ter me matado se tivesse mais alguns segundos.
— E o que te faz pensar que não vou tentar de novo? — rebati, a voz fria como aço.
Ele sorriu. O tipo de sorriso que não alcança os olhos, mas carrega uma promessa de caos.
— Porque eu não quero você morta. Quero você do meu lado.
Parei. Aquilo era inesperado, embora não fosse exatamente surpreendente. Ele não parecia o tipo de homem que tomava medidas desesperadas. Se estava me oferecendo algo, era porque já tinha calculado os riscos.
— Que interessante. Viktor Volkov contratando uma assassina. Não deveria ser o contrário? — retruquei, cruzando os braços para esconder qualquer resquício de hesitação.
Ele deu de ombros, casual, como se estivéssemos discutindo o tempo.
— O mundo está cheio de assassinos baratos. Mercenários sem princípios. Mas você... — Ele deu um passo à frente, os olhos queimando como carvão em brasa. — Você é diferente. Precisa de algo mais do que dinheiro para se mover.
Fiquei em silêncio, deixando-o falar. Quanto mais ele falava, mais eu entendia sobre ele. Viktor não era apenas poderoso; ele era manipulador. Cada palavra, cada movimento, era uma dança cuidadosamente ensaiada.
— Qual é o seu preço? — Ele perguntou finalmente, direto.
— Dez vezes o que qualquer um me paga. — Não hesitei, mantendo minha voz firme. — E um detalhe: eu escolho meus alvos. Não faço trabalho sujo para covardes ou tiranos.
Ele riu, mas era um som seco, sem humor.
— Já esperava algo assim. Você parece gostar de brincar com códigos de honra, Stella.
— Não é honra, Viktor. É lógica. Se meus alvos não merecem morrer, isso me torna igual a eles.
Ele assentiu lentamente, os olhos fixos nos meus, como se tentasse decifrar um enigma.
— Aceito suas condições. Você terá o que quiser, Stella: dinheiro, proteção, o mundo, se precisar. Mas há uma exigência minha.
— Claro que há. — Rolei os olhos, mas minha mente estava afiada, esperando o golpe.
— Trabalhe apenas para mim. Exclusividade.
Aquilo me fez rir. Não porque fosse absurdo, mas porque era exatamente o que eu esperava. Viktor queria controle, e isso significava me manter sob sua sombra.
— Parece que você ainda não me conhece. Eu trabalho para quem pagar mais, Volkov. Essa é minha única regra.
Ele se aproximou, rápido e silencioso, cortando a distância entre nós antes que eu pudesse recuar. Perto demais. O cheiro de uísque e algo amadeirado o cercava, tão intenso quanto a presença dele.
— E se eu prometer pagar mais do que qualquer um jamais ousaria oferecer? — murmurou, a voz quase um sussurro, carregada de algo entre desafio e provocação.
— Não basta dinheiro. — Levantei o queixo, forçando-me a não recuar. — E eu tenho mais uma regra: sem contato físico.
Ele parou, os olhos estreitando como se analisasse o limite que eu acabara de impor. Então, sorriu de lado.
— Sem contato físico? Difícil para uma mulher que gosta de jogar tão perto do fogo.
— Suas regras, suas condições. As minhas, as minhas. Sem exceções.
Ele deu um passo para trás, levantando as mãos em rendição fingida, mas ainda sorrindo.
— Justo. Mas prove seu valor antes de fecharmos o acordo.
— Já provei. Você ainda está vivo.
O sorriso dele se alargou, mas havia algo de sombrio por trás da expressão.
— Justamente por isso. Considere minha proposta um teste. Seu primeiro alvo será o homem que a contratou para me matar.
Ele se aproximou novamente, dessa vez sem pressa. Entregou-me um pedaço de papel com um nome escrito. Dmitri Orlov.
A ideia me pegou desprevenida, mas não deixei transparecer.
— Está me pedindo para matar meu cliente? Isso não é exatamente profissional.
— É o preço de trabalhar comigo. Ele me subestimou ao contratar você. Quero que o veja como um ensaio. E quero que entenda, Stella, que comigo, não há limites para o que podemos alcançar.
Havia algo na maneira como ele falava, na confiança quase sufocante de suas palavras, que fazia parecer que ele já tinha vencido.
Cruzei os braços, fingindo indiferença, mas minha mente trabalhava rápido. Aceitar significava dar a ele um controle parcial sobre meu trabalho, algo que eu evitava a todo custo. Por outro lado, Viktor não era o tipo de homem que aceitava um “não” sem consequências.
— Com uma condição. — Minha voz era firme, os olhos fixos nos dele. — Se eu aceitar isso, você não interfere no meu trabalho. Não quero que me diga como ou quando.
Ele assentiu, o sorriso agora quase cordial.
— Combinado.
— Então você tem um acordo, Volkov. Mas lembre-se: eu só trabalho para quem pagar mais. E, no momento, você está na liderança.
Ele ergueu o copo em um brinde silencioso, os olhos nunca deixando os meus.
— Que assim seja. Aos negócios.
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Renascida das cinzas
Não entendi... ela decidiu que ele deveria morrer. Aí vacila, e do nada, se junta a ele. Qual a moral dela? Ela não o estudou bem? Por qual motivo exatamente ela desistiu?
2025-02-09
4
Fatima Leal Oliveira
Isso vai ficar muitooooo intenso 😉
2025-01-15
12
Magna Figueiredo
Né...qual a diferença agora???/Chuckle//Chuckle//Chuckle//Joyful//Joyful//Joyful/
2025-02-07
8