Amor sem Freio
Capítulo 1 - Mel
O tempo passa mais rápido do que gostaríamos de admitir. Desde que fui para Boston, a distância não foi só geográfica, mas emocional também. Cada dia, uma tentativa de apagar os resquícios do que aconteceu aqui, com Mia, com Tom, e com todo o resto. Eu queria apenas esquecer, mas o passado tem essa mania de nos perseguir, não importa o quanto tentemos nos esconder.
A volta à Virgínia não foi por escolha. Minha mãe, que sempre teve uma relação conturbada com as bebidas, estava piorando. Não podia deixá-la sozinha, mesmo que a ideia de voltar me causasse um nó no estômago. O que me restava era aceitar que, para tentar salvar algo que fosse dela, eu teria que sacrificar minhas próprias vontades.
Eu nunca imaginei que voltaria a este lugar, mas aqui estou. Com a casa vazia, minha mãe em outro estado, fazendo tratamento. Subi para o quarto, larguei as malas na sala e, em seguida, me joguei na cama, como se pudesse simplesmente dormir até o mundo desaparecer.
Os fantasmas voltaram mais uma vez.
— "Onde estou dessa vez?" Eu me perguntei, enquanto as lembranças se materializavam diante dos meus olhos. A imagem de mia me confrontava, e eu ouvia sua voz, tão clara quanto antes, ecoando em minha mente.
— “Você não cansa, Mel?”
— “Nada se trata sobre você, sua putinha! Por que você complicou tudo por causa de um garoto?”
As palavras de Mia cortavam como facas, e as lágrimas não demoraram a surgir. Eu tentei afastar a sensação, fechei os olhos, tapando os ouvidos. Mas o pesadelo continuava.
Acordei sobressaltada, com o som do meu celular tocando. Era Mario.
— "Mel, você voltou e nem me avisou! Vou passar na sua casa. Me espera! " Ele desligou sem deixar que eu falasse uma palavra.
Suspirei fundo e me levantei. Tentei me recompor antes de atender a ele. Escovei o cabelo, passei um pouco de maquiagem, e quando comecei a comer um cereal, a campainha tocou.
— "Amiga, que saudade!"
Mario me abraçou com força. Ele estava diferente: mais confiante, com o cabelo agora tingido de loiro, e o sorriso sempre contagiante. A pele bronzeada pelo sol deixava claro que ele não tinha ficado parado enquanto eu estava fora.
— Amigo, quanto tempo! Eu estava morrendo de saudade de você! Me afastei um pouco, ainda surpresa com a visita dele. — *Como soube que voltei?*
— *Mel, eu sei de tudo aqui. Não tem nada que eu não saiba! E você, como foi em Harvard?*
— *Foi bom, mas vamos falar disso depois. Me conta tudo que rolou por aqui!*
Ele então se aproximou, com aquele ar de quem estava prestes a soltar uma bomba. — *Bom, a Mia começou a namorar o Tom. Mas olha, o cara é um pau no cu com ela. Você se livrou deles, Mel. Não faz ideia. Ah, e tem uma festa hoje. Vai, né?*
— *Ah, não sei... tô cansada.* Eu não queria ir, mas Mario insistiu. Ele sempre sabia como me convencer.
— *Você vai sim! Quem mais vai me acompanhar nessa noite e arrumar uns boys para mim? Senti falta de você nos rolês!*
— *Tá bom, tá bom... eu vou!* Eu não tinha mais escolha. Quando Mario estava decidido, era impossível dizer não.
Passamos a tarde fofocando e atualizando um ao outro sobre os últimos acontecimentos. Quando o relógio se aproximou das 18:00, começamos a nos arrumar. Eu não estava a fim de fazer nada extravagante, mas não pude evitar quando Mario encontrou minha jaqueta de Harvard e fez questão de que eu a vestisse. Ela me parecia um tanto forçada, mas até que não estava tão mal.
Minha saia era simples, o tênis confortável, e a jaqueta me dava uma sensação de confiança. Ao me olhar no espelho, notei que estava bonita. Nada de exageros, mas o visual estava bom.
Mario, por outro lado, estava impossível. O look dele estava impecável: um cropped de glitter azul e calça combinando, e a maquiagem, como sempre, estava perfeita. Ele parecia ter saído de um desfile de moda.
— *Vai mesmo ficar sem glitter, Mel?* — Ele me perguntou, dando uma risada enquanto termina sua maquiagem.
— *Dessa vez, passo.* Respondi, me sentindo bem o suficiente.
Quando chegamos à festa, o ambiente me surpreendeu. Era um campo aberto, cheio de carros luxuosos e gente dançando, bebendo e se divertindo. Estava claro que a festa era grande, e todo o tipo de gente estava ali. Meu carro, uma Ferrari 812 Superfast 2020, chamava atenção, mas de uma forma que eu já estava acostumada.
Mario desceu do carro e saiu desfilando, atraindo todos os olhares. Quando saí do carro, o clima parecia mudar, os olhares agora se voltavam para mim, como se eu fosse a novidade da noite. Não pude deixar de perceber que alguns rostos estavam faltando, e outros eram completamente novos. Eu estava de volta ao meu antigo grupo de amigos, mas uma presença se destacou imediatamente.
Lá estava ele: Liam.
Ele estava encostado em um canto, com seu estilo único — tatuagens que cobriam seus braços e um olhar que parecia ler a minha alma. Era difícil não notar aquele magnetismo. Nossos olhos se encontraram, e por um momento, fiquei sem saber o que fazer. Algo nele me atraía de uma forma que eu não conseguia entender.
— *Mel, que bom que você veio!* — Henrique abraçou apertado, me trazendo de volta ao presente.
— *Oi, Mel! Esse aqui é o Liam, nosso mais novo amigo.* Henrique sorriu, e Liam me olhou com aquele olhar enigmático.
Ele apertou minha mão, e um arrepio percorreu minha espinha. Sua presença parecia tão imponente quanto silenciosa. Ele não parecia o tipo de cara que falaria muito, mas seu olhar dizia tudo. E, de repente, eu não conseguia mais desviar os olhos dele.
— *Prazer, Mel.* — Liam disse, sua voz profunda e calma.
Meu coração deu um salto. Algo nele me fazia querer saber mais, mas também me fazia hesitar. A atração era óbvia, mas eu não sabia se estava pronta para enfrentar o que isso significava.
A festa estava em um ritmo frenético, com as pessoas dançando, bebendo e se divertindo. Mario, como sempre, estava cercado de atenção, enquanto eu me sentia um pouco deslocada. Eu sabia que parte de mim ainda não estava pronta para estar ali. O passado, os sentimentos enterrados, tudo parecia prestes a explodir.
Mas algo na atmosfera da festa estava diferente. Eu me vi observando os carros e a movimentação frenética das pessoas, até que, sem querer, meu olhar encontrou o de Liam. Ele estava encostado em um canto, com seu estilo único —a postura relaxada, mas com aquele ar enigmático que era impossível de ignorar. Era como se ele fosse uma força silenciosa naquele ambiente cheio de ruído.
Nossos olhares se cruzaram, e por um instante, senti um arrepio estranho, como se algo ali estivesse se conectando sem palavras. Mas logo fui puxada de volta para a realidade quando Mario apareceu, sorrindo de orelha a orelha.
— *Mel, você tem que participar de uma aposta!* — Ele disse, com um brilho malicioso nos olhos. — *Todo mundo aqui vai ver quem é o melhor no volante, a aposta é de 10 mil e 5 carros vão correr, ao todo o prêmio é 50 mil. Vai nessa!*
— *Ah, não sei...* — Eu hesitei. Parte de mim não queria participar. Estava cansada das jogadas de poder, das competições de sempre, mas, no fundo, havia algo em mim que estava se aquecendo com a ideia.
— *Mel, você não pode dizer não! Vai ser uma corrida incrível!* — Mario insistiu.
Foi quando a voz de Tom se fez ouvir, com aquele tom de sempre — arrogante, presunçoso.
— *Você vai correr com esse brinquedinho de garota? Vai perder feio, Mel!* — Ele provocou, se aproximando com um sorriso vitorioso. — *Vamos ver se você tem coragem.*
Eu senti a raiva subir. Tom sempre foi um babaca, e sua arrogância só piorava com o tempo.
— *Mel, você não vai deixar ele falar assim com você, vai?* — Mario me cutucou, enquanto todos ao redor começavam a se alinhar para a corrida.
Meu olhar se fixou em Liam novamente, e, talvez impulsivamente, talvez por um desejo de não deixar Tom sair vitorioso, eu decidi aceitar o desafio. Mas, quando me preparei para entrar no meu carro, algo inesperado aconteceu.
Liam, que estava observando a movimentação com um olhar atento, deu um passo à frente. Ele não parecia se importar com a competição ou com as provocações de Tom, mas, quando ele viu o jeito como o ambiente estava esquentando, fez algo que me surpreendeu.
Sem avisar, ele deu um pulo para dentro da minha Ferrari. Não entrou pela porta do passageiro, não. Ele simplesmente saltou sobre a lateral do carro e pousou no banco do motorista, se posicionando de forma protetora, como se quisesse assumir o controle da situação.
— *Sai do carro, Mel. Você não vai correr sozinha aqui.* — Sua voz era firme, quase desafiadora, como se estivesse tomando a frente de algo que nem sequer me perguntou se eu queria.
Eu me congelei por um momento, sem saber como reagir. Ele parecia... proteger-me? Ou talvez, estivesse apenas querendo chamar a atenção. Mas o que me deixou mais desconfortável foi o fato de que ele estava fazendo isso sem me consultar. Eu não pedi para ele pular no meu carro. Não pedi para ele se meter na minha corrida.
— *Oi? Você está maluco?* — Eu disse, tentando manter a calma, mas meu tom estava carregado de confusão. — *Eu não pedi a sua ajuda.*
Mas ele apenas me olhou com um sorriso torto, que era mais desafiador do que gentil.
— *Você está prestes a fazer uma grande besteira, Mel.* — Ele respondeu, seu olhar agora focado, com um toque de seriedade que me fez hesitar. — *Você pode até ser boa no volante, mas o Tom não vai facilitar para você. Deixa comigo.*
Antes que eu pudesse protestar mais, Tom, que já estava com seu Mustang GT500 posicionado para a corrida, riu alto de nossa direção. Ele parecia completamente convencido de que venceria.
— *Ah, olha quem se juntou à festa...* — Tom zombou, apontando para Liam, que estava ao meu lado. — *você acha que pode nos salvar, hein? Que fofo. Mas não vai adiantar nada, melhore sua rota, porque você vai perder feio, Mel. Vai deixar esse cara do seu lado te ajudar, ou vai tentar fazer tudo sozinha e acabar com o orgulho ferido?*
A provocação de Tom fez o sangue de Mel ferver. Mas ela não se intimidou.
— *Cala a boca, seu filho da puta.* — Ela respondeu com um sorriso desdenhoso, já se preparando para ligar o motor da Ferrari.
E, então, a largada foi dada.
Mel não pensou duas vezes. Pisou fundo no acelerador, e a Ferrari disparou pela pista improvisada, enquanto Tom imediatamente começou a acelerar também. O Mustang rugia atrás deles, mas Mel, com sua experiência, logo tomou a liderança. Liam, ao seu lado, não estava fazendo nada — pelo menos, não parecia. Ele estava só observando, suas mãos firmes no volante, pronto para qualquer coisa que viesse a acontecer.
A corrida não era só uma disputa de velocidade; era um campo de batalha de egos. Mas o que ninguém esperava, nem mesmo Liam, era a habilidade de Mel ao volante. Ela fez uma manobra ousada, aproveitando uma curva apertada para escapar de Tom, que não conseguiu manter o controle. A Ferrari deslizou de forma precisa, e Mel, com seu sorriso no rosto, não hesitou em avançar.
A sensação de controle e liberdade parecia percorrer suas veias com a mesma intensidade com que a adrenalina tomava conta do corpo. Ela estava completamente imersa no momento, em sintonia com a máquina e consigo mesma.
Mas, logo, Tom se aproximou com raiva, não aceitando perder assim. O Mustang acelerou forte, e a disputa ficou ainda mais acirrada. Mel, no entanto, não dava espaço. Quando a linha de chegada estava perto, o Mustang tentou ultrapassar de novo, mas foi em vão. Mel fez uma curva final, fechando o espaço, e cruzou a linha de chegada na frente.
Ela deu uma risada de satisfação, mas não teve muito tempo para saborear a vitória. Quando o carro parou, Tom já estava saindo do seu veículo, furioso.
— *Você não sabe perder, Tom?* — Mel disse, ainda com o sorriso de quem acabou de ganhar. — *Vai dizer que a Ferrari não é boa o suficiente para você?*
Tom não gostou nem um pouco. Ele avançou, com os punhos cerrados. — *Sua vadia! Isso foi uma manobra suja! Não tem nem graça!* — Ele cuspiu, avançando para empurrá-la.
Antes que Mel pudesse reagir, Liam se colocou entre eles, bloqueando Tom com uma postura imponente. — *Sai fora, Tom.* — Liam falou, sua voz firme, sem hesitação. — *Está com raiva porque perdeu? Não é minha culpa que você tenha ficado para trás.*
Tom, enfurecido, olhou para Liam com desprezo. — *Você acha que pode me intimidar, garotão?* — Ele rosnou, se aproximando de Liam. — *O que você vai fazer? Vai me proteger agora?*
Liam estava calmo, como sempre, mas não hesitou em dar um empurrão em Tom, fazendo-o dar um passo atrás. — *Isso não é sobre você, Tom. Já perdeu. Aceita.*
A situação ficou ainda mais tensa, e Mel percebeu que as coisas estavam prestes a sair do controle. Mas, antes que pudesse intervir, Tom avançou novamente, com o punho erguido, mas Mel foi mais rápida. Em um movimento rápido, ela deu um soco preciso no olho de Tom. O impacto foi forte o suficiente para derrubá-lo no chão, enquanto ele gritava de dor.
A tensão explodiu de vez. Sirenes de polícia começaram a soar à distância, e a situação rapidamente se transformou em uma fuga iminente.
Mel olhou para Liam com um sorriso decidido.
— *Vamos sair daqui. Agora!*
Sem perder tempo, ela jogou a chave da Ferrari para ele, e ele não hesitou. Com a pressão subindo, os dois dispararam em alta velocidade, a Ferrari rugindo enquanto escapavam pelas ruas da cidade. O som das sirenes ainda ecoava, mas, com Mel no volante, a liberdade parecia estar a apenas alguns segundos de distância.
— *Você realmente sabe como sair de uma enrascada.* — Liam disse, enquanto olhava para ela, admirado, mas também ciente de que algo mais estava começando entre os dois.
A Ferrari cortava a noite com a velocidade de um foguete, as luzes da cidade ficando para trás enquanto a adrenalina ainda pulsava nas veias de Mel. Ela não sabia exatamente o que estava acontecendo ali, mas havia algo em Liam que fazia tudo parecer... diferente. Ele estava ao seu lado, em silêncio, mas ela podia sentir o peso da sua presença, como se ele estivesse segurando algo dentro de si.
Mel foi a primeira a quebrar o silêncio.
— *Você não é daqui, é?* — Ela perguntou, seu olhar fixo na estrada à frente, mas com a curiosidade evidente na voz.
Liam levou um tempo para responder, como se estivesse medindo suas palavras.
— *Não.* — Sua voz soou mais baixa, como se o vento da corrida ainda estivesse carregando os pensamentos. — *Eu vim para longe de tudo.*
Mel não pôde evitar, sentiu um leve arrepio. Algo nele parecia se distanciar da cidade, das pessoas, do que quer que fosse que ele tivesse deixado para trás.
— *O que você está fugindo?* — A pergunta escapou, direta, como uma flecha. Ela sentia que ele não estava apenas fugindo de algo tangível, mas de algo mais profundo.
Liam hesitou antes de responder, os olhos fixos no horizonte, como se procurasse as palavras no próprio caminho.
— *Eu estou fugindo de mim mesmo.* — Ele disse, com um tom suave, mas carregado de algo que Mel não soube identificar de imediato. Era como se ele estivesse se abrindo, mesmo sem querer.
Mel o olhou rapidamente, tentando decifrar aquele enigma. Aquelas palavras, mesmo ditas de maneira simples, mexeram com ela de uma forma que ela não esperava.
— O que você quer dizer? — Ela questionou, a voz mais suave agora, como se estivesse ouvindo mais do que apenas as palavras.
Liam sorriu levemente, um sorriso que parecia carregar uma mistura de dor e resignação, mas também algo misterioso.
— *Você vai descobrir.* — Ele respondeu, quase em um sussurro, como se a resposta estivesse ali, na estrada à frente, esperando por ela.
O silêncio se estendeu por alguns segundos, mas Mel não conseguiu tirar os olhos dele. A noite estava diante deles, cheia de possibilidades e incertezas, e, de alguma forma, ela sabia que aquilo — o que quer que fosse — estava apenas começando.
Eles continuaram dirigindo, as estrelas brilhando acima, e a estrada à frente parecendo infinita. O que encontrariam lá na frente? Mel não sabia, mas algo dentro dela dizia que nada seria como antes.
**Continua...**
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Atualizado até capítulo 22
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