lembranças?

Meus amores, lembrando para avisar, que todo dia sai 2 episódios, o episódio 6 sai ainda hoje, não esqueçam de interagir.

**Capítulo 5**

— Mãe? — minha voz sai embargada, surpresa demais para disfarçar. Ali, na porta de casa, minha mãe surge ao lado de um homem desconhecido. Não é só isso. Ela está tão… bem. Melhor do que eu imaginava que fosse possível depois de todo aquele drama de hospital. Na minha cabeça, eu me preparava para encontrar alguém quebrada, acabada pela doença. Mas ali está ela, com um brilho nos olhos e a postura de quem acabou de voltar de férias.

Ao perceber meu olhar fixo no homem, o rosto dela muda. Surge uma expressão de culpa, talvez até vergonha.

— Mel, precisamos conversar — ela diz, com a voz mansa, mas claramente desconfortável.

Sinto uma confusão crescendo dentro de mim. Não entendo. Minha mãe estava internada, doente, uma cirrose grave que poderia acabar com a vida dela, e agora surge aqui, com mais cor no rosto do que eu jamais vi. Sinto que o chão escapa sob os meus pés.

O homem ao lado dela, percebendo o peso do silêncio, decide se intrometer, tentando, quem sabe, salvar o momento.

— Muito prazer, Mel. Sou o Miguel — diz ele, olhando diretamente nos meus olhos, com um sorriso simpático que parece forçado, um sorriso que não consegue encobrir a tensão no ar.

Olho para ele sem saber o que responder. Miguel tem uma aparência até normal, mas algo nele me incomoda. Corpo atlético, talvez uns quarenta anos, olhos verdes que tentam ser amistosos e um sorriso que me parece mais ensaiado que sincero. Minha mãe, ao lado dele, parece uma outra pessoa. Sempre impecável, maquiada e arrumada. Ela se esforça tanto para parecer jovem que às vezes até esqueço sua idade real. Por fora, parece uma mulher de trinta, mas por dentro... agora eu já não sei.

— Mel, esse é o meu namorado, Miguel — minha mãe diz, e dessa vez o sorriso dela é uma tentativa desesperada de suavizar as coisas, como se esperasse que eu sorrisse de volta e abraçasse os dois, como se fosse um conto de fadas.

Sinto um vazio crescendo no meu peito. As palavras dela vão se embaralhando dentro da minha cabeça. Namorado? Miguel? Minha mãe, doente, tão frágil. Meu corpo trava. Tento juntar as peças, mas nenhuma faz sentido.

— Filha, eu… Eu não estou doente. Não mais. Depois que você foi embora, melhorei. Quis te chamar, mas… fiquei com medo. Eu e o Miguel estamos juntos. Me desculpa por não ter dito nada antes, mas eu sabia que essa era a única forma de te trazer de volta pra Virgínia — ela diz, tentando sorrir, mas vejo o tremor nos lábios dela. Minha mãe, vulnerável? Nunca pensei que veria isso. O chão parece escapar de novo, e estou perdida.

Ela olha para Miguel, depois para mim, e toma fôlego antes de soltar a bomba final.

— Eu… Eu estou grávida, Mel. De cinco meses. Eu sabia que, se contasse a verdade, você não voltaria para nós — ela diz, a voz embargada, e ao fim das palavras, ela tenta sorrir. Um sorriso esperançoso, quase como uma menina esperando aprovação.

Minha cabeça gira. Então era tudo mentira. Cada chamada de vídeo onde ela estava abatida, cada palavra que me fez largar tudo em Harvard para cuidar dela… era tudo encenação? Ela mentiu para mim, manipulou cada um dos meus sentimentos e, agora, está aqui, achando que eu vou aceitar isso tudo com um sorriso e dizer que está tudo bem? Não acredito.

Sinto o peito apertar, a raiva misturada à tristeza me sufoca. Meus olhos ardem, mas não posso chorar. Não agora.

— Mãe, como você teve a coragem de fazer isso comigo? Você só pensa em si mesma, no que você quer! Eu deixei a minha vida para trás para cuidar de você! Sabe o quão difícil foi entrar em Harvard? Você jogou isso fora como se fosse nada! Eu abandonei tudo por você. Amigos, sonhos… E agora você me diz que está grávida e quer que eu faça parte dessa sua “família feliz”? Não estamos em um conto de fadas, mãe! — minha voz sai trêmula, quase um grito, as lágrimas finalmente escapam, mas agora é impossível contê-las. Meu corpo todo treme, e não sei se de raiva, tristeza ou exaustão.

Minha mãe me olha chocada, com a boca entreaberta. Ela tenta dizer algo, mas Miguel a interrompe, com um ar protetor que me dá ainda mais ódio.

— Você não sabe o que sua mãe passou, Mel. Ela te ama, precisa de você. Ela está grávida, está criando uma nova vida — ele diz, com um tom de repreensão que me faz querer gritar.

Afonso, nosso governante, que sempre foi como uma figura paterna para mim, observa tudo de longe, com o rosto preocupado. Eu sinto que vou explodir. Não quero ouvir mais nada. Sem pensar, viro e saio em direção ao carro, sem olhar para trás. Meu peito arde de raiva e frustração, e a única coisa que consigo pensar é em fugir.

Entro no carro e acelero, sem rumo, sem direção. As lágrimas escorrem pelo meu rosto, minha respiração está ofegante, o peito dói. Minha mãe me traiu de uma forma que eu nunca imaginei ser possível. Ela brincou com meus sentimentos, com minha vida. E agora? Agora sou eu que estou sozinha, sem futuro, sem ninguém. Acelero mais e mais, sem me importar com a estrada, com o limite de velocidade. Preciso fugir, sair desse sufoco. É então que ouço o som das sirenes.

— Droga… polícia — murmuro, ainda acelerando, mas, por fim, sou obrigada a parar.

Um policial se aproxima e bate na janela. Respiro fundo e abaixo o vidro, entregando os documentos sem sequer olhar para ele.

— A senhorita sabe que estava acima do limite de velocidade? Aqui o máximo é 30 km/h, e você passou dos 200. Eu posso te prender por isso — ele diz, com um olhar que parece julgar cada pedaço de mim.

— Droga — murmuro, a cabeça ainda a mil.

Ele olha para os lados, como se quisesse ter certeza de que não há ninguém por perto, e então, com um sorriso perturbador, pede que eu desça do carro. Sinto um arrepio de desconforto, mas obedeço, sem forças para questionar.

— Sabe… eu posso simplesmente esquecer isso — ele murmura, aproximando-se demais, e coloca a mão na minha cintura. Meu estômago revira. Dou um passo para trás, mas ele continua se aproximando.

— Sai fora, nojento! — grito, mas ele não se intimida. Ao contrário, avança, agarra meus braços e murmura ao pé do meu ouvido.

— Vamos lá, eu sei que você também quer — ele sussurra, com uma voz repugnante que me dá náuseas.

Meu corpo congela por um segundo, o medo misturado ao nojo me paralisa. Mas então, algo dentro de mim grita para reagir. Lembro do canivete no meu bolso. Num impulso, empurro-o com toda a força, fecho o punho e acerto um soco no rosto dele. Quando ele se aproxima para me segurar, acerto um chute entre as pernas e, sem pensar, enfio o canivete na coxa dele. Ele cai no chão, gritando de dor, mas, mesmo assim, consegue se levantar, me algemar e me empurrar contra o carro. Sinto o mundo escurecer, meus olhos pesam, e tudo fica turvo.

Quando volto a mim, minha visão está embaçada, minha cabeça lateja. Estou encostada no carro, sem entender o que aconteceu. Então, vejo alguém conhecido.

— Liam? — sussurro, quase sem forças.

Ele está ali, socando o policial com uma fúria que eu nunca vi antes. O rosto de Liam está ensanguentado, mas ele não para. O policial está jogado no chão, tentando respirar, sem forças para reagir. Liam não vai parar até matá-lo, e isso me assusta.

Com o que resta de forças, levanto e corro até ele, abraçando-o por trás, segurando-o com toda a força que consigo.

— Liam, por favor, para. Por favor… — digo, minha voz trêmula e carregada de desespero.

Ele se vira, ainda ofegante, e nos ajoelhamos juntos no chão. Ele me segura, os olhos cheios de ódio e dor.

— Esse cara merece morrer, Mel. Ele tocou em você. Ninguém faz isso com você — ele murmura, a voz carregada de raiva.

Num impulso, sem pensar, beijo-o. Meus lábios encontram os dele, e é como se o mundo inteiro desaparecesse. Por um instante, todo o medo, toda a dor, tudo se dissolve. Quando nos separamos, estou sem ar. Mas então, o mundo começa a escurecer de novo, e apago em seus braços.

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Mel:

— Eu quero esse carrinho! — digo, irritada, puxando o brinquedo das mãos do garoto a minha frente com um olhar desafiador.

— Esse carrinho é meu, Mel! Você já tem um monte. Não vou deixar você brincar com ele! — ele responde, apertando o carrinho contra o peito, tentando proteger seu brinquedo favorito.

Sem paciência, puxo o carrinho de volta, e com toda a minha autoridade infantil, declaro: — É meu! Eu vou brincar com ele, sim!

Em um impulso, o garoto me empurra. Perco o equilíbrio e caio no chão, com os olhos cheios de lágrimas que logo começam a escorrer. Ele olha para mim, assustado, e de repente, o menino seguro e teimoso de um segundo atrás parece tão arrependido quanto eu estou magoada.

— Mel, não chora, por favor! Me desculpa! — ele pede, desesperado, tentando me consolar, mas eu só consigo chorar mais alto. E então, como se fôssemos sincronizados em nossa dor, ele também começa a chorar ao meu lado, soluçando tão alto que era possível ouvir até do outro lado da casa.

Nesse exato momento, a porta se abre e meu pai aparece, confuso e preocupado.

— O que está acontecendo aqui? Vocês não conseguem brincar sem brigar? — ele pergunta, franzindo a testa enquanto tenta entender o caos na sala de brinquedos.

O garoto para de chorar por um instante e, sem hesitar, me abraça com força. Seu abraço é quentinho, reconfortante, e naquele momento, toda a mágoa se dissolve. Não consigo evitar sorrir um pouco.

Minha mãe surge logo depois, parada na porta, segurando o riso ao ver a cena de nós dois, abraçados, cobertos de lágrimas e soluços.

— São só crianças, amor — ela diz ao meu pai, rindo baixinho enquanto troca um olhar cúmplice com ele. O Afonso, nosso fiel governante, aparece logo atrás dela, segurando a gargalhada ao nos ver.

 

Vejo o garoto escondido atrás da porta do closet, envergonhado, tentando disfarçar, mas eu o puxo para fora, rindo da cara dele.

— Você ficou lindo com o vestido! — eu digo, gargalhando tanto que minha barriga chega a doer.

O garoto, corado de vergonha, cruza os braços e me olha com uma expressão emburrada. — Isso não tem graça, Mel.

— Então agora você aceita meu pedido de casamento? — O garotinho pergunta. — Você prometeu que, se vestisse o vestido, ia casar comigo!

Ele suspira, mudando a expressão para algo quase solene, e diz com um tom sério, apesar do vestidinho rosa que eu o obriguei a vestir: — Tá bom… Eu caso com você.

Saio correndo pela casa, chamando atenção de todo mundo. — Mamãe! Papai! Ele não tá lindo? Ele vai casar comigo!

Afonso, surpreso, solta uma gargalhada alta. — Meu Deus, criança! O que a Mel fez com você?

O garoto tenta se explicar, ainda mais corado. — Ela disse que só ia casar comigo se eu vestisse o vestido de princesa!

Minha mãe e o Afonso caem na risada, enquanto meu pai revira os olhos e diz, tentando manter um tom sério: — Vocês estão muito novos para pensar em casamento… mas quem sabe no futuro?

O gatoto olha para ele, com um sorriso de determinação, e responde: — Mas tá muito longe, tio!

Meu pai ri, balançando a cabeça, e coloca a mão no ombro do pequeno garoto, olhando-o nos olhos. — Escuta aqui, campeão. Você vai cuidar da Mel, proteger ela, entendeu? Se alguém machucar minha filha, você dá uma boa lição nessas pessoas, combinado?

— Sim, senhor! — responde o menino, cheio de orgulho, enquanto todo mundo cai na gargalhada de novo.

 

— Esse carrinho é meu! — O menino grita, tentando segurar seu brinquedo, mas um dos garotos maiores o empurra.

— E olha só quem veio te defender… a sua namoradinha? — um dos valentões zomba, apontando para mim, que já me aproximo com os punhos cerrados.

— Devolvam o carrinho, seus idiotas! — eu grito, marchando até eles com toda a fúria que uma criança pode ter.

Os valentões riem, mas antes que percebam, eu dou um chute certeiro nas partes baixas do líder do grupo. Ele cai no chão, contorcendo-se de dor, e eu aproveito para pegar o carrinho e entregá-lo de volta para o garotinho, que me olha com admiração.

Os outros garotos, vendo seu líder derrotado, saem correndo, soltando ameaças.

— Isso não vai ficar assim! — grita um deles, enquanto desaparecem no horizonte.

O menino sorri para mim, e naquele momento, ele parece entender que somos uma equipe. E talvez seja esse o momento em que, pela primeira vez, ele decide que realmente quer me proteger.

 

— Você vai embora, você prometeu lembra? — pergunto, a voz trêmula, sabendo que ele vai, mas ainda incapaz de aceitar.

— Mel… eu tenho que ir. Minha mãe precisa ir para a Itália, e eu tenho que ir com ela. Mas eu prometo que vou voltarpararometo te proteger para sempre — ele diz, segurando minha mão com tanta força que chega a doer, como se ele tentasse, de alguma forma, me levar com ele.

Antes de ir, ele coloca algo na minha mão. Quando abro os dedos, vejo que é o carrinho dele, aquele que ele sempre guardou com tanto carinho.

— Mas ele é seu… — digo, já chorando, enquanto ele limpa minhas lágrimas.

— Eu pego ele de volta no nosso casamento, Mel. Vou crescer, vou ficar forte e bonito, para casar com você, tá bem? — ele promete, com um sorriso corajoso, mas cheio de tristeza.

Ele se despede com um beijo no meu rosto, e eu corro atrás do carro enquanto ele se afasta, chorando e gritando, tentando segurar aquele momento com todas as forças que uma criança pode ter.

 

Mel

Acordo com uma dor insuportável na cabeça, uma dor que parece rasgar minha consciência em pedaços. Piscar dói. Meus olhos estão pesados, e tudo ao redor parece envolto em uma névoa fria. Tento lembrar o que aconteceu, mas minha mente é uma bagunça. Aos poucos, percebo que estou em uma cama de hospital. O cheiro estéril de desinfetante e os sons abafados de máquinas monitorando batimentos cardíacos me trazem de volta à realidade.

— Mel… filha? — ouço a voz da minha mãe, ansiosa, como se eu fosse um fantasma voltando à vida. Sinto os dedos dela acariciando meu rosto, mas o toque, que deveria ser reconfortante, só me causa desconforto.

Viro o rosto lentamente, ainda com a cabeça latejando, e encaro minha mãe. O olhar dela está cheio de lágrimas, e percebo que, pela primeira vez, ela parece verdadeiramente preocupada. Mas não consigo sentir nada além de um vazio gelado. Ela tenta sorrir, um sorriso hesitante, enquanto a mão dela continua na minha.

— Onde eu estou? O que… o que aconteceu? — minha voz sai rouca, quase um sussurro. Sinto minha garganta arranhando, e o esforço para falar me faz ver estrelas.

— Você está no hospital, filha. Um policial… — ela para por um momento, a voz trêmula — Um policial tentou te machucar, Mel. Foi horrível, mas… felizmente você foi ajudada. Liam chegou a tempo, e ele te salvou. As câmeras de segurança registraram tudo, e o policial foi detido. Você foi julgada em legítima defesa, filha, e ele vai pagar pelo que fez. Você está segura agora, meu amor.

Aquelas palavras deveriam me confortar, mas elas não significam nada para mim. Seguro o lençol com força, sentindo as lágrimas ameaçarem cair de novo, mas me recuso a chorar na frente dela. Lembro da mentira, da manipulação, de tudo o que ela fez. E, por algum motivo, isso dói ainda mais agora, me deixando completamente vazia.

— Mãe… eu preciso de um tempo sozinha. Por favor, sai do quarto — digo, a voz trêmula, mas firme.

Ela me olha com os olhos arregalados, surpresa e ferida, mas respeita meu pedido. Com os ombros caídos e um olhar cheio de tristeza, minha mãe sai do quarto sem dizer uma palavra. A porta se fecha atrás dela, e um silêncio pesado toma conta do ambiente. Respiro fundo, tentando encontrar algum resquício de paz, mas a dor na cabeça parece aumentar, como se meu próprio corpo estivesse me punindo.

Quando finalmente volto a focar, vejo Liam. Ele está ali, em pé, observando cada movimento meu. Suas mãos estão machucadas, o rosto levemente inchado, e a boca ainda tem um corte fresco, resultado da briga com o policial. Seu olhar, antes feroz e cheio de ódio, agora está suavizado pela preocupação.

— Liam… — digo, sem conseguir segurar o suspiro de alívio. Por alguma razão, a presença dele me faz sentir segura.

Ele se aproxima, mas hesita antes de se sentar na beira da cama. Ele parece querer me dizer algo, mas é como se não soubesse por onde começar. Ficamos em silêncio por alguns segundos, e sinto o coração acelerando, o peito apertando.

— Mel… eu só queria que você soubesse que eu… eu não estou acostumado a ter alguém com quem me importar assim — ele murmura, a voz falhando um pouco, como se fosse difícil admitir isso. — Sobre tudo o que aconteceu… me perdoa, por favor. Eu só quero estar aqui pra você, de verdade. Sobre a pietra eu vou cortar relaç…

— não estrague o clima, Liam.

Liam parece tão vulnerável que, por um momento, esqueço tudo o que aconteceu. Seguro sua mão, e um silêncio reconfortante preenche o quarto. Ele aperta minha mão de volta, e nesse simples toque, sinto um calor que eu achava que nunca mais ia sentir. Fecho os olhos, apenas aproveitando o momento, sem pensar em nada, sem deixar as dores do passado me sufocarem.

— Obrigada, Liam. Por tudo — sussurro, e então o abraço, segurando-o como se ele fosse a única coisa real no mundo.

O abraço dura segundos, mas parece uma eternidade. Sinto o cheiro dele, o toque dele, e percebo que, pela primeira vez em dias, estou respirando de verdade. Quando ele se afasta, seus olhos encontram os meus, e o silêncio entre nós diz mais do que qualquer palavra.

 

Os dias seguintes são uma montanha-russa de sentimentos. Meus ferimentos físicos são leves e se curam rápido, mas o peso emocional ainda está lá, me acompanhando como uma sombra. Depois que saio do hospital, passo a evitar Liam. Não sei bem por quê. Talvez seja o medo de me envolver de novo, talvez seja vergonha ou um misto de todas as confusões que estão aqui dentro.

Minha relação com minha mãe só piora. Cada vez que a vejo, lembro de todas as mentiras, das manipulações. Ela nunca foi verdadeiramente uma mãe, e agora, com essa gravidez e o Miguel, parece que ela quer me substituir, construir uma nova vida onde eu não caiba. Meu aniversário está se aproximando, mas até isso parece um detalhe insignificante para ela.

Então, um dia, enquanto desço as escadas para sair de casa, minha mãe me encontra no corredor. Ela parece animada, um brilho nos olhos que chega a ser irritante.

— Filha, sábado vou viajar com o Miguel. Vamos para fora do continente. Só voltamos quarta-feira, tudo bem para você? — ela pergunta, como se fosse algo banal, como se aquilo não fosse me atingir.

Engulo em seco, sentindo o estômago se revirar. Sábado. Meu aniversário é no sábado. Ela não lembra. Nem sequer se deu o trabalho de lembrar. É como se eu fosse invisível.

— Claro, mãe. Tudo bem — murmuro, com um sorriso frio, sem coragem para confrontá-la.

Ela parece satisfeita, dá um leve sorriso e sobe as escadas, enquanto eu fico ali, paralisada. A raiva começa a subir, um sentimento de abandono que quase me faz chorar, mas, em vez disso, engulo as lágrimas e saio de casa. Vou encontrar Rafa e Mario, meus amigos de sempre, e vou ao salão de beleza com eles. Preciso de qualquer coisa que me distraia desse caos.

No salão, enquanto os cabeleireiros massageiam nossos cabelos, Mario se vira para mim, com aquele ar divertido e provocador de sempre.

— Então é seu aniversário sábado e você não vai dar uma festa? Sério, Mel? — ele pergunta, levantando uma sobrancelha, claramente desapontado.

— Amiga, sua mãe vai estar fora. É a oportunidade perfeita pra fazer uma festa épica — Rafa diz, com um sorriso travesso.

Sinto um sorriso se formando no meu rosto. Pela primeira vez em dias, uma ideia boa surge na minha cabeça. Se minha mãe acha que pode simplesmente esquecer meu aniversário e fugir com o Miguel, ela está enganada. Vou dar a festa mais louca que essa cidade já viu. Vou encher essa casa de gente, de música, de bebida, vou fazer ela lembrar que eu existo.

— Sabe de uma coisa? Mudei de ideia. Vou dar uma festa. E vai ser uma festa para entrar na história! — digo, sentindo uma onda de animação percorrer meu corpo. Fecho os olhos, relaxo na cadeira e deixo que eles coloquem as fatias de pepino nos meus olhos, sentindo uma satisfação que há muito eu não sentia.

Minha mãe quer esquecer de mim? Ótimo. Vou garantir que ninguém mais me esqueça.

Continua…

O que você acha que acontecerá nessa festa?

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