Desabafo

Capítulo 17

Nos corredores da faculdade, a tensão que eu sentia no peito era quase palpável. Eu sabia que tinha que enfrentar Gabriel, que precisaria ser clara com ele e explicar tudo. Eu estava confusa, sim, mas o que eu sentia por Liam não era algo que eu queria colocar em risco por nada. Eu não podia deixar que Gabriel entrasse no meu coração dessa maneira, não sem que eu primeiro entendesse o que realmente queria.

Quando avistei Gabriel encostado na parede do corredor, meu coração apertou. Ele estava ali, esperando por mim, com aquela expressão calma no rosto, mas eu sabia que ele já devia estar antecipando o que viria. Seus olhos, um pouco inchados, mostravam que ele já sabia o que eu estava prestes a dizer, mas ainda assim, ele esperava que eu falasse. Era como se ele estivesse preparado para isso, mesmo que fosse doloroso. Gabriel nunca foi de esconder o que sentia, mas eu sentia que, naquele momento, ele estava se fechando para mim, se tornando uma versão mais distante de quem ele sempre foi.

Eu tomei um ar fundo, as palavras pesando na minha garganta. Eu sabia que tinha que ser firme, que tinha que deixar claro onde eu estava em relação a tudo aquilo, porque não era justo com ele nem comigo mesma ficar me iludindo.

— Gabriel — minha voz soou mais baixa do que eu queria, mas não pude evitar. — Eu preciso te falar uma coisa. Não posso continuar com isso. Eu amo o Liam, Gabriel. Ele é tudo o que eu quero, e você... você merece alguém que possa te dar tudo. Eu não posso ser essa pessoa.

Ele não disse nada de imediato, apenas me olhou com aqueles olhos profundos, como se estivesse absorvendo minhas palavras, mas não com raiva, apenas com uma melancolia silenciosa. Por um momento, parecia que ele queria dizer algo, mas as palavras não saíam. Em vez disso, ele deu um passo para trás, e os cantos de sua boca se curvaram em um sorriso amargo. Isso me cortou mais do que qualquer palavra agressiva que ele pudesse ter dito. Ele estava sofrendo, e eu tinha sido a causa disso.

— Eu entendo, Mel. Eu só... não queria que fosse assim. Mas eu entendo. Você precisa seguir o que está no seu coração, e se o Liam é esse alguém, então eu vou respeitar isso — ele disse, a voz baixa e carregada de emoção.

Ele deu um último olhar em minha direção antes de começar a se afastar. Seus passos estavam lentos, como se ele quisesse prolongar esse momento, como se estivesse tentando digerir tudo o que acontecera entre nós. Eu fiquei parada ali, observando-o partir. Algo dentro de mim se apertou, mas sabia que não havia outra escolha. Eu amava Liam. Não havia mais espaço para mais ninguém.

Eu respirei fundo e tentei seguir meu caminho, mas a visão de Gabriel se afastando mexeu comigo mais do que eu gostaria de admitir. Eu o vi se afastar, e por um momento, desejei ter sido mais forte, mais corajosa para lidar com isso de outra forma. Mas era tarde demais para arrependimentos. Eu já havia tomado minha decisão.

Segui em direção à lanchonete da faculdade, tentando afastar esses pensamentos. Eu precisava de algo para ocupar a minha mente, algo que me fizesse parar de pensar no que acabou de acontecer.

A lanchonete estava tranquila, com as luzes suaves e o cheiro do café fresquinho no ar. Eu precisava de um tempo sozinha, longe da bagunça na minha cabeça. Havia tantas coisas acontecendo, tantas emoções misturadas, que me senti perdida. Sentei-me em uma mesa perto da janela, tentando esfriar a mente. Mas, como sempre, o turbilhão de sentimentos estava me consumindo.

Fiquei mexendo no celular sem prestar muita atenção ao redor até ouvir uma voz suave que me chamou a atenção.

— Oi, posso te ajudar com alguma coisa? — Era o atendente. Ele tinha um sorriso amigável e uma postura descontraída. Era um homem alto, com cabelos cacheados, e um olhar atencioso, mas eu não estava no clima para ser social. Tentei forçar um sorriso e acenei com a cabeça.

— Só uma água, obrigada — respondi, tentando ser educada, mas com a mente ainda distante.

Ele parecia perceber que algo estava errado. Seu olhar atento ficou mais focado em mim, como se ele pudesse sentir a tensão que eu tentava esconder. Se aproximou um pouco mais e, em vez de simplesmente anotar o pedido, se inclinou um pouco para a frente, curioso, mas respeitoso.

— Você está bem? — Ele perguntou com uma suavidade que me fez desviar o olhar, me sentindo desconfortável. Eu não sabia se deveria contar o que estava acontecendo ou apenas ficar calada. Mas, com sua expressão genuína, não pude deixar de hesitar.

Eu respirei fundo antes de responder, tentando não parecer tão vulnerável.

— Não é nada, só... algumas coisas pessoais. — Eu disse, tentando desviar a conversa para outro assunto, mas a tristeza que se misturava na minha voz não passou despercebida.

Ele permaneceu em silêncio por um momento, observando-me de perto. A sensação de ser vista, realmente vista, não me agradou, mas ao mesmo tempo, algo em seu olhar me fez perceber que ele não estava tentando invadir minha privacidade. Só queria ajudar. Por mais estranho que fosse, isso me fez querer falar.

— Eu... — comecei, tentando encontrar as palavras certas. — Eu tenho namorado.

Ele deu um pequeno sorriso, e nesse momento, percebi que ele estava tentando entender a situação. Mas, para a minha surpresa, ele soltou uma risada baixa e disse, com uma suavidade que me fez dar um meio sorriso:

— Ah, gata, eu gosto da mesma fruta que você.

Eu fiquei surpresa e, por um momento, pensei que ele estivesse apenas tentando me dar em cima. Mas logo percebi que ele não estava sendo atrevido. Ele estava sendo sincero. Não havia segundas intenções em sua fala, apenas uma tentativa de me fazer entender que ele não estava ali para me julgar, mas para ouvir.

Eu o olhei, meio atordoada, processando o que ele tinha acabado de dizer. Só então entendi. Ele estava apenas me oferecendo seu apoio, sem esperar nada em troca.

— Você é gay? — Perguntei, meio sem jeito, mas a curiosidade tomou conta de mim. Ele assentiu com a cabeça, um sorriso leve nos lábios.

— Sim, gata. Eu sei como é ter complicações no coração. Às vezes, é bom ter alguém para conversar. E eu estou aqui para te ouvir, se você quiser falar.

Aquela sinceridade me pegou de surpresa. A sensação de ser compreendida, sem julgamentos, foi algo que eu não esperava de um estranho. E, ao ouvir suas palavras, percebi que talvez, só talvez, ele fosse a pessoa certa para me ajudar a organizar meus pensamentos.

Eu respirei fundo, me sentindo um pouco mais leve. Eu não sabia bem o que estava acontecendo comigo, mas precisava desabafar. A pressão no meu peito estava me sufocando.

— Eu não sei o que fazer, sabe? — comecei a falar, agora mais tranquila, e ele me ouviu atentamente. — Eu gosto do meu namorado, mas tem o meu amigo também, e eu não sei como lidar com isso. Eu... me sinto culpada por gostar de dois ao mesmo tempo. E o pior é que não sei o que fazer com esses sentimentos. Às vezes, sinto que estou sendo injusta com o Liam, mas ao mesmo tempo, algo no Gabriel me atrai.

Ele ficou em silêncio por um momento, processando minhas palavras. Quando falou, sua voz foi calma, quase como se estivesse tentando me dar a melhor perspectiva.

— Olha, não se sinta culpada por sentir o que sente. Às vezes, a gente não pode controlar o que o coração faz. A gente sente o que sente, e não tem como mudar isso de imediato. O que importa é como você vai lidar com isso. Eu entendo a confusão. Eu já passei por algo parecido, e é um processo difícil.

Eu olhei para ele, mais tranquila agora. Ele não estava tentando me pressionar ou dar conselhos apressados. Ele simplesmente estava me ouvindo, e isso já me fazia me sentir menos sozinha em meio àquela bagunça emocional.

— Eu tenho medo de magoar alguém, sabe? — Eu disse, sentindo as palavras saírem com um peso. — E se eu machucar o Liam? Eu não quero fazer isso, mas Gabriel... ele me faz ver o mundo de uma maneira diferente. E isso me assusta.

Ele sorriu de forma compreensiva, como se já tivesse ouvido esse tipo de confusão antes.

— Eu entendo, mas você precisa ser honesta consigo mesma. Não dá para ignorar o que você sente. Você não vai resolver isso de uma vez só, mas, passo a passo, você vai descobrir o que é melhor para você. O importante é ser honesta com os outros e com você mesma. Não se pressione demais, tá? E, acima de tudo, não tenha medo de seguir o seu coração.

Eu respirei fundo, mais leve do que antes. Ele estava certo. Eu não poderia continuar vivendo essa confusão interna sem dar um passo para entender melhor os meus próprios sentimentos.

— Obrigada — eu disse, genuinamente agradecida. — Eu precisava ouvir isso.

Ele sorriu de novo, e dessa vez, havia algo de reconfortante em sua expressão, algo que me fez acreditar que tudo ficaria bem, independentemente do caminho que eu escolhesse seguir.

— Sempre que precisar conversar, sabe onde me encontrar. Eu estou aqui para você.

Eu sorri de volta, sentindo um peso a menos nos meus ombros. Ele não tinha me julgado, e, mais importante, ele me fez perceber que não precisava ter todas as respostas agora. Eu estava no caminho para entender o que meu coração realmente queria.

Depois de um último sorriso, ele afastou-se para atender outra mesa, e eu fiquei ali, sozinha com os meus pensamentos, mas com uma sensação de alívio. Eu dei o primeiro passo para lidar com a minha confusão, e agora só me restava esperar que, com o tempo, eu encontrasse o caminho certo para mim.

A sensação de estar perdida me consumia. Eu não sabia mais para onde estava indo, nem o que estava fazendo. Cada passo que eu dava parecia me afastar da realidade, como se o mundo ao meu redor estivesse distorcido, um borrão de formas e sons que se misturavam de maneira desconexa. As ruas que conhecia agora pareciam estranhas, e a leve brisa que antes me fazia me sentir viva agora só trazia um calafrio frio e incômodo.

Eu estava tão distraída com meus próprios pensamentos que não percebi o quanto me distanciava dos lugares familiares. O que estava acontecendo comigo? Eu não sabia o que pensar, não sabia se devia confiar nos sentimentos que tinha por Gabriel ou se estava simplesmente me iludindo. Ele... ele estava sempre lá, uma presença constante e intensa, e algo dentro de mim pulsava forte toda vez que ele estava perto. Mas Liam... Liam sempre teve meu coração. Ele era calmo, romântico, a base que me dava segurança. Então, por que eu me sentia tão confusa? Por que minha mente me levava para Gabriel em momentos em que eu deveria estar com Liam?

As minhas pernas pareciam mais pesadas a cada passo. Meus olhos estavam cansados, como se o peso dos meus próprios pensamentos fosse maior do que eu pudesse suportar. As ruas estavam mais escuras agora, e o ambiente ao redor parecia ter se fechado de uma maneira sufocante, como se algo estivesse me observando, me encurralando. Eu tentei focar nos sons da cidade, mas tudo parecia abafado, distante. O som do meu coração batendo rapidamente no peito parecia ser o único som claro e nítido que eu conseguia ouvir.

E então, de repente, meu corpo ficou estranho. Meu estômago deu um nó e um frio se espalhou por minhas veias. Eu parei de andar, olhando ao redor, tentando entender onde estava. Onde eu fui? Eu estava tão imersa nos meus pensamentos que nem percebi que havia virado em uma rua desconhecida. O beco na minha frente não me parecia certo, mas eu estava tão perdida dentro de mim mesma que nem liguei. O mundo ao meu redor estava se tornando mais e mais sombrio, como se a noite tivesse caído repentinamente.

Eu precisava sair dali, precisava voltar para casa, para algum lugar seguro...

De repente, a minha visão começou a escurecer , e tudo ao meu redor começou a desvanecer. A última coisa que ouvi antes de desmaiar foi o som de uma voz, uma tentativa frustrada de tentar se manter ali, de não perder tudo. Mas a escuridão veio e uma grande dor atrás da cabeça. Ela engoliu-me por completo.

continua...

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