Você Vai Morrer!

Capítulo 15

Subi as escadas, apressada, ignorando a risada animada que vinha da sala. A minha mãe, meu padrasto e a mãe do Gabriel estavam se divertindo como se tudo estivesse perfeitamente normal, enquanto eu sentia o meu coração disparar no peito. Mal podia acreditar no que acabou de acontecer no jardim. Ele me beijou. Gabriel me beijou.

Fechei a porta do meu quarto com força, encostando-me nela enquanto tentava recuperar o fôlego. Meu rosto ainda estava quente, uma mistura de raiva, vergonha e uma faísca desconfortável de algo que eu não queria admitir. “Isso não deveria ter acontecido,” pensei, repetindo essas palavras como um mantra, tentando convencê-las a apagar a memória do toque dele.

Aquele beijo foi um erro. Eu empurrei Gabriel, dito a ele que estava com o Liam, mas mesmo assim, não conseguia afastar a lembrança do momento. Havia sido breve, mas intenso, e isso só me fazia sentir mais culpada. Eu amo Liam. Certo? Certo.

O sol brilhava forte naquela tarde, e o calor fazia com que as crianças corressem de um lado para o outro no quintal espaçoso da casa de Mel. Ela, Liam e Gabriel eram inseparáveis, sempre inventando jogos e aventuras que só eles entendiam. A risada deles ecoava como música, misturada ao som do vento balançando as árvores.

Mel, com seus cabelos presos em um rabo de cavalo e os joelhos ralados das brincadeiras, estava sentada na grama, enquanto Gabriel e Liam disputavam quem conseguia fazer a pedra mais plana pular na superfície da água do pequeno lago que ficava perto. Gabriel, rechonchudo, sempre ficava para trás nas competições, mas compensava com determinação.

— Acho que foi minha vez de ganhar! — Liam exclamou, erguendo as mãos para o céu depois de ver sua pedra pular três vezes.

Gabriel bufou, cruzando os braços. — Você só ganhou porque está mais perto da água.

Mel riu, levantando-se e sacudindo as mãos. — Vocês dois são tão bobos! Nenhum de vocês vai ganhar se ficarem brigando.

Gabriel, com as bochechas coradas, olhou para Mel, seu olhar brilhando com algo que ele ainda não sabia explicar. Sem perceber, ele soltou uma pergunta que tinha guardado dentro de si por semanas.

— Mel, se eu emagrecer... você namoraria comigo?

A pergunta pairou no ar por alguns segundos. Mel arregalou os olhos, surpresa, enquanto Liam soltava uma gargalhada alta, quase caindo na grama de tanto rir.

— Gabriel, você é tão dramático! — Liam disse, ainda rindo. — Mel não vai namorar com você, sabe por quê? Porque ela vai casar comigo quando crescer!

Mel cruzou os braços, o rosto levemente vermelho, mas uma mistura de irritação e diversão surgiu em sua expressão. — Quem disse isso? Eu nunca disse que ia casar com você, Liam!

Gabriel, no entanto, não levou o comentário de Liam na brincadeira. Ele ficou de pé, cerrando os punhos e encarando o amigo mais velho e alto. — Você não manda nela, Liam! E ela não vai casar com você, porque ela gosta mais de mim!

Liam, mais alto e mais confiante, apenas sorriu desafiador. — Está com ciúmes, Gabriel? Só porque eu sou mais velho e a Mel gosta mais de mim?

As palavras foram como gasolina em uma fogueira. Gabriel deu um empurrão desajeitado em Liam, que cambaleou para trás, mas logo avançou de volta, segurando Gabriel pelos ombros.

— Para com isso, Liam! — Mel gritou, correndo para separá-los, mas antes que pudesse fazer algo, a porta dos fundos da casa se abriu.

O pai de Mel apareceu, com as sobrancelhas franzidas e um ar de autoridade que fez os dois garotos congelarem no mesmo instante.

— O que está acontecendo aqui? — Ele perguntou, olhando de Liam para Gabriel.

Liam foi o primeiro a responder, soltando Gabriel e abaixando a cabeça. — Nada, senhor. Só estávamos brincando.

O pai de Mel suspirou, mas seus olhos suavizaram ao olhar para Liam. Ele sempre tivera um carinho especial por aquele garoto. Sabia que Liam não tinha um pai presente e, por isso, sempre o tratava como se fosse parte da família.

— Brincadeira que termina em briga não é brincadeira — disse, cruzando os braços. — Vocês dois vão pedir desculpas um ao outro. Agora.

Gabriel murmurou algo que soou como um pedido de desculpas, e Liam fez o mesmo, ainda com o olhar desafiador. O pai de Mel balançou a cabeça, mas sorriu levemente. — Vão brincar direito, e nada de empurrões.

Quando o pai de Mel voltou para casa, os três subiram até o alto do escorregador do quintal, onde costumavam se sentar para conversar e ver o céu. A tensão entre Liam e Gabriel diminuiu, e Mel olhou para os dois com um suspiro exagerado.

— Vocês são tão bobos. Por que brigam tanto?

Gabriel olhou para Liam e depois para Mel. Ele ainda parecia emburrado, mas finalmente deixou escapar um sorriso tímido. — Porque eu gosto de você mais do que ele.

— E eu gosto de você mais do que ele — Liam respondeu, provocando Gabriel, mas sem a mesma intenção de antes.

Mel revirou os olhos, mas um sorriso dançou em seus lábios. Respondendo inocentemente.

— Vocês dois gostam mais de mim, mas eu gosto dos dois igual. Então parem de ser idiotas, tá bom?

Os três riram, e a tarde continuou cheia de risadas e histórias. Mesmo com todas as provocações e brigas, havia um laço entre eles que parecia impossível de ser quebrado. Por enquanto, pelo menos, eles eram só crianças, juntos contra o mundo.

Caminhei até a cama, jogando-me nela e encarando o teto. Era como se minha mente estivesse em guerra. Gabriel era meu amigo de infância, um fragmento de um passado que eu pensava ter perdido para sempre. Mas agora ele era muito mais que isso: ele era confiante, atraente e, de alguma forma, estava se infiltrando nos cantos da minha mente onde só o Liam deveria estar.

Peguei meu celular, precisando de uma distração. Talvez uma mensagem para o Liam pudesse clarear meus pensamentos. No entanto, antes que eu pudesse sequer abrir a tela inicial, uma notificação apareceu.

Mensagem anônima.

Fiquei encarando a notificação por alguns segundos, o estômago revirando. Com as mãos trêmulas, abri a mensagem. Era um vídeo curto, apenas alguns segundos, mas o suficiente para fazer o mundo ao meu redor parar.

No vídeo, eu e Gabriel estávamos no jardim. A câmera tremia um pouco, como se quem estivesse filmando tivesse que se esconder para capturar a cena. Mostrava exatamente o momento do beijo. Ele se inclinando para mim, o toque dele no meu rosto, meus olhos fechados... e então, eu o empurrando, claramente dizendo algo.

“Namoro o Liam,” a minha voz fraca ecoou na minha cabeça, mesmo que o vídeo não tivesse áudio.

Sob o vídeo, havia uma legenda. Simples, mas carregada de ameaça:

“Você vai pagar caro por brincar com o Liam. Vai morrer por isso.”

O celular quase escorregou das minhas mãos. Uma onda de choque percorreu meu corpo, seguida por um frio intenso na espinha. Quem tinha enviado isso? Quem estava me observando?

Olhei em volta do quarto, como se esperasse encontrar alguém escondido ali, me vigiando. As cortinas estavam fechadas, mas isso não me dava conforto. Alguém esteve no jardim, próximo o suficiente para gravar aquele momento. Alguém sabia sobre o beijo e, pior, interpretou tudo de forma errada.

— Não... — sussurrei para mim mesma. — Isso não pode estar acontecendo.

Voltei a assistir ao vídeo, dessa vez com mais atenção. Eu precisava de pistas, qualquer coisa que me ajudasse a descobrir quem estava por trás disso. A câmera parecia posicionada entre as plantas do lado direito do jardim. A imagem tremia levemente, mas era nítida o suficiente para que não houvesse dúvidas do que estava acontecendo.

Meu peito se apertou. Quem poderia ter feito isso? Era impossível ignorar a possibilidade de que alguém estivesse me seguindo, monitorando cada movimento meu. E o Liam? Será que ele tinha algo a ver com isso? Não... Ele jamais faria algo assim. Mas o vídeo era sobre ele, uma ameaça direta sobre meu relacionamento com ele.

De repente, senti uma necessidade urgente de falar com alguém. Não sabia se era medo ou confusão, mas eu precisava tirar aquilo de mim. Olhei para o celular novamente, ponderando se deveria responder à mensagem. Mas o medo me dominou. Se eu reagisse, estaria entrando no jogo de quem quer que fosse o autor da ameaça.

Meus pensamentos foram interrompidos por uma batida leve na porta. Meu coração disparou novamente. Levantei-me devagar, como se o simples ato de abrir a porta pudesse me expor ainda mais.

— Mel? — Era a voz de Gabriel. Ele parecia hesitante. — Está tudo bem?

Tudo bem? Não, nada estava bem. Parte de mim queria gritar com ele por ter me beijado, por ter começado tudo isso. Outra parte queria abrir a porta e desabafar, pedir que ele explicasse o que estava acontecendo. Mas, em vez disso, permaneci em silêncio.

— Mel, eu sinto muito... — Ele continuou do lado de fora. — Não queria te deixar desconfortável. Por favor, só me diga que você está bem.

Não respondi. Não conseguia. As palavras ficaram presas na minha garganta. Gabriel suspirou do outro lado da porta, e ouvi seus passos se afastando lentamente.

Afundei-me novamente na cama, tentando organizar meus pensamentos. Quem enviou aquele vídeo? Por quê? Olhei novamente para o celular, ainda com a mensagem aberta. O coração batia pesado contra meu peito, como se tentasse me avisar que aquilo era só o começo.

Fechei os olhos e tentei respirar fundo, mas a ameaça ecoava na minha mente como um tambor constante. “Vai morrer por isso.”

Segurei o celular com força, determinada a encontrar uma solução. Eu não era alguém que se deixava intimidar facilmente, mas isso... isso era diferente. Quem quer que fosse, sabia exatamente como me atingir. E, de alguma forma, eu sabia que essa pessoa não iria parar por ali.

Encarei o teto, tentando decidir o que fazer. Liam precisava saber? E Gabriel? De alguma forma, aquilo parecia um aviso de que a minha vida estava prestes a mudar, e não para melhor.

Acordei com um sobressalto ao som das batidas na porta. A luz do abajur ainda iluminava o quarto, e percebi que tinha adormecido sem perceber. O dia havia sido pesado, e o cansaço físico e mental finalmente me vencera. Esfreguei os olhos, tentando me situar. As batidas se repetiram, firmes e insistentes, cortando o silêncio da noite.

— Quem é? — minha voz saiu hesitante, ainda grogue.

— Sou eu, Gabriel. Podemos conversar?

Imediatamente, meu corpo ficou tenso. O que ele queria agora? Não tinha sido o suficiente todo o caos ? Respirei fundo e, contra meu melhor julgamento, levantei-me e fui até a porta.

Quando abri, lá estava ele, parado no corredor, com os braços cruzados e uma expressão que misturava seriedade e nervosismo. Seus olhos me estudaram por um momento, como se procurassem um sinal de que ele era bem-vindo.

— Entra — sussurrei, dando um passo para o lado.

Gabriel entrou devagar, mas não se sentou. Ele ficou ali, parado no meio do quarto, olhando para mim com uma intensidade que me fez sentir pequena. Tentei fingir indiferença, mas algo em seu olhar me desarmava.

— Mel, eu preciso falar com você.

Engoli em seco. — Sobre o quê?

— Sobre o que eu sinto. Sobre você.

Minha mente congelou. Tentei manter a compostura, mas meu coração disparou. Gabriel estava tão sério, tão vulnerável, que foi impossível ignorar o peso de suas palavras.

— Gabriel... — comecei, mas ele ergueu a mão, pedindo que eu o deixasse continuar.

— Por favor, me escuta antes de dizer qualquer coisa.

Assenti, sentindo um nó na garganta.

— Eu sei que você está com o Liam — ele começou, a voz carregada de emoções. — E sei que talvez eu não tenha o direito de dizer isso, mas não consigo mais guardar para mim. Desde o momento em que te reencontrei, algo mudou dentro de mim. Você sempre foi especial para mim, Mel. Mesmo quando éramos crianças, eu sabia disso.

Minhas mãos começaram a tremer. As palavras dele despertaram algo que eu tinha tentado enterrar. Eu não sabia o que sentir. Culpada? Confusa? Talvez ambas.

— Gabriel, isso não é certo... — sussurrei, mas ele balançou a cabeça, interrompendo-me.

— Eu não espero nada de você. Só precisava que soubesse o que eu sinto. Você sempre foi importante para mim, Mel. Sempre.

Minhas emoções estavam à flor da pele, um turbilhão impossível de controlar. Encarei o chão, evitando seu olhar, mas as palavras começaram a escapar.

— Eu amo o Liam. Amo mesmo. Mas... desde que você apareceu, eu... — minha voz falhou, e eu apertei as mãos em punhos. — Eu me sinto confusa, mas... Eu não acho isso certo, antes de tudo sempre será o Liam. Eu digo relutante com uma lágrima escorrendo dos meus olhos.

Houve um silêncio pesado entre nós. Senti Gabriel se aproximar, e quando ergui os olhos, ele estava ali, tão perto que o calor de sua presença parecia queimar minha pele.

Antes que pudesse reagir, o som do meu celular vibrando sobre a mesinha de cabeceira cortou o momento. Peguei o aparelho rapidamente, ansiosa por uma distração.

Mas o que vi na tela fez meu coração parar.

Era uma mensagem anônima. Uma foto.

Meus olhos arregalaram-se ao ver a imagem: a sombra de duas pessoas projetada na parede de meu quarto, visível pela janela aberta. Era a silhueta minha e de Gabriel, claramente capturada enquanto conversávamos.

Minhas mãos começaram a tremer ainda mais enquanto lia a legenda: “Você vai pagar o preço. Vadia.”

Minha mente entrou em pânico. Meu quarto ficava no segundo andar. Quem poderia estar lá fora, no escuro, observando tudo?

Gabriel percebeu a mudança em minha expressão e deu um passo à frente, preocupado.

— Mel? O que foi?

Eu não sabia como responder. Não sabia o que pensar. O medo e a confusão tomaram conta de mim.

— Gabriel... — minha voz saiu quase inaudível. — Tem algo que você precisa saber.

Ele franziu o cenho, claramente preocupado. — O que está acontecendo?

Respirei fundo, tentando acalmar meu coração acelerado. Finalmente, reuni coragem para encará-lo. — Desde ontem, tenho recebido mensagens... ameaças. Primeiro, foi um vídeo do beijo... agora isso.

Mostrei-lhe a foto. Seus olhos se estreitaram enquanto ele analisava a imagem. Sua mandíbula travou, e ele parecia estar lutando contra uma onda de raiva.

— Isso é grave, Mel. Quem quer que esteja fazendo isso, está te perseguindo. — Ele olhou para mim com seriedade. — Você contou para alguém?

Balancei a cabeça. — Não. Eu não queria preocupar minha mãe ou... Liam.

Gabriel respirou fundo, passando a mão pelos cabelos em frustração. — Isso não é algo que você pode ignorar. Prometa que vai me contar tudo o que receber, Mel. Não importa o que seja.

Eu assenti, mas meu corpo tremia. Saber que alguém estava lá fora, vigiando cada movimento meu, me enchia de pavor.

Gabriel deu um passo à frente e colocou as mãos sobre meus ombros, me forçando a olhar diretamente em seus olhos. — Eu vou te proteger, Mel. Não importa o que aconteça.

Eu queria acreditar nele. Queria confiar que Gabriel poderia manter sua promessa. Mas naquele momento, tudo o que eu conseguia sentir era medo.

continua...

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