O Peso da Escolha

**Capítulo 3**

**O Peso da Escolha**

Sabe o que é mais engraçado? Em menos de 24 horas desde que cheguei à cidade, minha vida virou de cabeça para baixo. Eu não queria desistir de Harvard. Era o meu sonho, o meu futuro. Mas minha mãe chega amanhã do hospital e não posso deixá-la sozinha. Não sou o tipo de pessoa que abandona a mãe doente com as empregadas. Então, não tem muito o que escolher. Harvard precisa esperar.

Levantei cedo, e a primeira coisa que fiz foi escovar os dentes, me olhando no espelho, como se ele fosse me dar uma resposta. Mas ele não disse nada. Então, segui com a rotina. Me arrumei, mas não para parecer a Mel de antes. Eu queria ser outra Mel, alguém que precisava se reerguer. Hoje era o dia de pedir a transferência. O bom de ter um histórico acadêmico sólido como o meu é que, com um estalar de dedos, eu poderia ser aceita em qualquer lugar. Mas não era isso que eu queria. Não mais.

A única coisa que realmente me preocupava agora era minha mãe. E, claro, a faculdade. As coisas estavam saindo de controle, e eu me sentia impotente.

Ao sair do quarto, vi que os empregados haviam deixado meu café da manhã pronto: panquecas. O meu favorito. Mas não consegui sentir o gosto. Eu sempre preferia quando minha mãe as preparava. Aquilo só me lembrava de tudo o que estava perdido. A saudade apertou, e a dor de ter que escolher entre seguir a minha vida e ficar ao lado dela se tornou mais real do que nunca.

Antes de sair, fui até o carro, mas ao olhar a lateral, vi o arranhão. Eu não sabia o que me irritava mais: a situação ou o fato de que o carro era meu, o único bem que eu realmente prezava. A raiva tomou conta de mim enquanto eu acelerava pelas ruas, tentando tirar da cabeça as perguntas sem respostas.

Cheguei à faculdade, mas não estava preparada para o que me aguardava. Ao sair do carro, todos os olhares estavam voltados para mim. Se fosse a Mel de antes, eu adoraria isso, mas agora… só queria me esconder.

— Oi, você é a Mel, né? — Uma voz doce me chamou. Eu virei e encontrei Pietra. Ela era ainda mais bonita de perto, com seus cabelos loiros, pele bronzeada artificialmente, e aquele sorriso encantador que parecia hipnotizar todos à sua volta. Não que eu não tivesse curvas também, mas ela… era uma perfeição que eu não sabia como lidar. Um ciúmes repentino começou a corroer meu estômago.

— Oi… — respondi, tentando disfarçar o desconforto. — Você é a Pietra, certo?

— Isso! Vou ser sua guia hoje. Vou te mostrar o campus e te levar até a direção. — Ela falou com um sorriso simpático e me puxou suavemente pelo braço, me guiando pelos corredores. Seu jeito confiante me deixava inquieta, e eu tentava não demonstrar, mas não conseguia desviar o olhar.

Logo, passamos por um corredor onde vi Liam. Ele estava encostado na parede, o cabelo bagunçado de maneira irresistível, e aquela expressão de quem sabe exatamente o que está fazendo. Ele me viu antes mesmo de eu olhar para ele, e seus olhos se fixaram nos meus com uma intensidade que eu não soube lidar.

— Oi, neném — Liam disse, com aquele tom de voz baixo e provocante que sempre me fazia perder o foco. Ele parecia estar se divertindo com a situação. — Acho que você já conhece a Mel? Eu estou mostrando o campus para ela.

Antes que eu pudesse reagir, Pietra deu um selinho nele, e Liam, mesmo beijando-a, não desviou os olhos de mim. Aquela cena… não sei como descrever o que senti, mas foi como um soco no estômago. A dor era física, a sensação de estar invisível para ele enquanto ele estava ali, com ela.

— Bom te ver de novo, Mel. — Liam continuou, a voz carregada de uma provocação que me fez me perguntar por que ainda me importava.

Pietra sorriu, se despedindo com naturalidade, como se nada estivesse acontecendo. Ela estava completamente à vontade, como se já soubesse como Liam jogava esse jogo. Ela me puxou novamente, mas eu estava em silêncio, tentando processar o que acabara de acontecer.

Enquanto caminhávamos para a direção, uma pergunta me consumia: *"Você e o Liam... namoram?"*

Pietra riu suavemente, como se a questão fosse inusitada.

— Que? Não! O Liam não é de namorar, Mel. Se eu quiser algo com ele, o máximo que consigo ser é uma ficante, e olhe lá. — Ela disse com uma risada forçada, talvez para não demonstrar o que realmente sentia. — Ele tem se aproximado de mim, mas não é de compromisso. Ele é o tipo de cara que se aproxima quando está afim, mas nunca fica. Não se engane.

Eu fiquei em silêncio. Aquelas palavras me martelavam, mas eu não sabia o que dizer. Era um alívio, mas ao mesmo tempo, algo em mim doía. Continuamos o caminho até a direção, e eu fui preenchendo os papéis da transferência em um silêncio constrangedor. A conversa com Pietra, a cena com Liam… tudo isso parecia se repetir na minha cabeça.

O intervalo chegou rápido. Quando saí para o refeitório, vi meus amigos e, como sempre, Mario estava lá. Ele sorriu assim que me viu, mas algo em seu olhar me disse que ele sabia exatamente o que estava se passando comigo.

— Mel, eu estava te procurando! Como você está? — Mario disse, me dando um abraço caloroso, como sempre fazia. Ele era meu melhor amigo e, como sempre, o único que sabia exatamente o que dizer para me fazer sentir melhor.

Eu estava prestes a responder quando um rosto novo apareceu na cena. Um rapaz alto, de cabelo escuro e com um sorriso maroto que imediatamente chamou minha atenção. Ele se aproximou de mim com uma confiança quase excessiva, mas algo sobre ele me fez sentir que ele estava ali não apenas para dar oi.

— Oi, você deve ser a Mel, certo? — O cara disse com um sorriso ousado. — Meu nome é Robert. Eu não pude deixar de notar como você é linda. — Ele disse com um tom de voz suave, mas cheio de interesse. Eu ri sem jeito, não sabendo se ele estava só sendo simpático ou se realmente estava interessado.

— Oi, Robert — respondi, um pouco desconcertada. Ele era bonito, de uma beleza quase arrogante, e parecia saber disso. Ele deu um passo à frente, com um olhar direto e determinado.

— Então, Mel, que tal a gente se encontrar para tomar um café depois? Eu posso te mostrar uns lugares por aqui. — Ele disse, com um sorriso provocante. Eu estava tentando não demonstrar, mas me senti lisonjeada.

Antes que eu pudesse responder, a expressão no rosto de Liam, que estava mais ao fundo do refeitório, fez minha espinha gelar. Ele me observava com os olhos estreitados, claramente incomodado. Ele se levantou da mesa e caminhou em nossa direção com um passo firme e decidido. A atmosfera ao redor ficou tensa, e eu sabia exatamente o que estava acontecendo.

Robert percebeu a mudança na energia e olhou para Liam, mas não se intimidou.

— E aí, cara, tem algum problema? — Robert perguntou, com um sorriso desafiador.

Liam não respondeu diretamente, mas olhou para mim com uma intensidade feroz antes de lançar uma resposta que foi mais uma ameaça disfarçada do que uma conversa.

— Se você acha que vai dar em cima dela assim, está muito enganado — Liam disse, a voz baixa e cheia de veneno. Ele não estava mais brincando. Seus olhos estavam fixos em Robert, como se ele estivesse prestes a arrancar a cabeça dele.

Eu me senti desconfortável com a situação. Não queria que ninguém brigasse por minha causa, mas ao mesmo tempo, algo em mim não conseguiu evitar sentir uma ponta de excitação com o confronto. Mas antes que o clima ficasse ainda mais pesado, Liam puxou minha mão, me arrastando para longe de tudo aquilo.

— Vamos sair daqui, Mel — Liam disse com um tom mais calmo, mas cheio de uma possessividade que não podia ignorar.

Ele me levou para um canto privado do prédio, longe da agitação do refeitório. O ar estava pesado entre nós, e a tensão era palpável. Liam me olhou com aqueles olhos penetrantes que pareciam ler minha alma.

— Você sabe que eu não gosto de ver outro cara perto de você, Mel — ele disse, a voz suave, mas carregada de uma intensidade que me fez engolir em seco. Ele estava se aproximando de mim lentamente, e eu não sabia o que fazer. O melhor amigo dele, Mario, tinha me avisado, e agora eu via a verdade em sua atitude: Liam era um galinha, e eu não queria ser mais uma das suas conquistas.

Tentei me afastar um pouco, mas ele não me deixou.

— Liam, não sou mais uma das suas, sabe disso, né? — falei, tentando manter minha postura, mesmo que minha respiração estivesse mais rápida do que o normal.

Liam sorriu, mas foi um sorriso enigmático, algo que me deixou ainda mais nervosa. Ele se aproximou mais, tocando meu rosto com a ponta dos dedos.

— Eu sei, Mel, mas não me faça trabalhar tanto para te ter. Eu gosto do desafio.

Eu ainda estava absorvendo a presença de Pietra em minha mente. Aquela loira perfeita, com sua confiança impecável e aquele sorriso que parecia desarmar qualquer um. A maneira como ela se aproximou de Liam, como se soubesse exatamente onde ele estava, quem ele era… Tudo nela era feito para chamar atenção. Eu não sabia se me sentia atraída por ela ou se simplesmente me sentia ofuscada.

Pietra parecia ter tudo o que eu não tinha. Ela era a garota que sempre soubera como agir nas situações mais difíceis, enquanto eu estava perdida, tentando entender onde estava e o que queria. Mesmo que a minha mente insistisse em me distrair com essas comparações, o que me incomodava era a cena com Liam, o beijo entre eles. Não que isso fosse algo sério, mas *aquilo*… Aquela cena me deixou com um peso no peito que eu não sabia como lidar.

Liam estava ali, tão perto de mim. Sua presença era imponente, mas ao mesmo tempo, tinha algo quase suave no jeito como ele se movia ao meu redor. Ele ainda estava me olhando, aguardando alguma reação minha. Eu não sabia o que ele queria de mim, mas uma parte de mim gostava daquele jogo, gostava da tensão entre nós. Mas a outra parte sabia que eu não era boba, e o que ele estava tentando fazer não me enganava.

Ele estava tão perto, tão envolvente, que eu sentia o calor dele, o perfume amadeirado e, por um momento, quase esqueci onde estava. Ele estava ali, com a respiração próxima, como se estivesse esperando para ver o que eu faria. E, por um momento, eu queria me entregar àquele momento, àquela tensão, àquele magnetismo que ele tinha sobre mim. Mas algo dentro de mim me fez voltar à realidade, e eu não podia deixar que ele tivesse tanto poder sobre mim.

— Não me olhe assim, Liam — falei, forçando a calma na minha voz. — Não é porque você está perto que vou te dar o que você quer. Não sou uma das suas ficantes.

Eu vi o sorriso no rosto dele desaparecer por um segundo. Ele parecia irritado, mas não o suficiente para me afastar. Ele se aproximou mais, a expressão mudando, mais possessiva. Como se estivesse em guerra consigo mesmo, tentando manter o controle.

— Você me entende, Mel, sabe como eu sou. — A voz dele ficou mais baixa, quase um sussurro. Ele se inclinou levemente, tocando minha mandíbula com a ponta dos dedos, de uma maneira tão intimista que meu corpo reagiu antes da minha mente. Eu podia sentir a força da sua presença, a intensidade da sua obsessão. Ele me queria, e eu sabia disso. Mas a dúvida persistia. Eu não queria ser só mais uma conquista.

Eu não o deixei continuar. Meu corpo reagiu antes da minha mente, e eu me afastei ligeiramente, sentindo a necessidade de respirar. Era como se, ao estar tão perto dele, o ar tivesse se tornado denso e pesado. Ele me olhou com uma mistura de surpresa e frustração, o que me fez questionar por que eu estava reagindo assim.

Foi quando a palavra "Pietra" escapou da minha boca.

— Não é porque você está aqui comigo agora que isso significa algo, Liam. Não sei, você me lembra tanto ela, sabe? A Pietra… — as palavras saíram mais baixas do que eu esperava, mas ele captou cada sílaba.

Liam, que parecia estar tentando manter o controle, mudou sua expressão imediatamente. Seus olhos brilharam com um brilho possessivo e irritado.

— Pietra? Não é nada, Mel. Nada. — A maneira como ele falou, como se estivesse tentando apagar a existência dela, me deixou brava. Ele não tinha o direito de falar dela assim. A maneira como ele ignorava qualquer coisa que não fosse ele e suas conquistas… Isso me incomodava. Não era só a Pietra que estava na conversa, era a forma como ele via as pessoas. Como se elas fossem descartáveis, trocáveis.

Eu senti algo em meu peito apertar. A raiva subiu, e eu precisava sair dali. Eu não ia ser apenas mais uma na coleção dele. Não, não ia. Não importava o quão perto ele estivesse, não importava o quanto ele fosse atraente ou o que ele provocava em mim.

— Você não tem direito de falar assim dela. — A raiva era palpável em minha voz, mas eu me dei conta disso muito tarde. Ele parecia surpreso com a reação, mas não foi o suficiente para me impedir de dar as costas.

— Não vou ficar aqui ouvindo você falar dela assim. — Gritei, sem me importar com a forma como minha voz soou. Ele se afastou um pouco, e eu senti meu corpo começar a se mover sozinho. Eu precisava de ar. Eu precisava de distância.

E assim, sem mais palavras, virei as costas e saí daquele canto privado. O som dos meus passos no corredor ecoava no meu ouvido, mas eu não me importava. Eu precisava ir embora, não só daquele lugar, mas de tudo. De toda aquela confusão que ele tinha criado dentro de mim.

O corredor estava vazio. O ar frio parecia me trazer um pouco de alívio, uma sensação de clareza que eu não tinha ali dentro. Eu parei por um momento, tentando acalmar a respiração, sentindo a brisa fria contra o meu rosto, como se isso fosse capaz de me fazer esquecer o que acabara de acontecer.

Mas, ao olhar para trás, vi alguém se aproximando. Ele parecia um pouco fora de lugar naquele cenário. Alto, com cabelos castanhos bem cortados e um olhar curioso. Era Robert, o rapaz que havia me falado antes. Ele estava com aquele sorriso confiante no rosto, e eu não sabia o que ele queria, mas estava disposta a ouvir.

— Eu estava esperando você sair para dar uma olhada. — Ele disse, um tom de provocação claro na sua voz. — Então… você sempre sai assim, sozinha, após um drama?

Eu não sabia o que pensar. O que ele queria? Ele parecia mais um observador curioso do que alguém que realmente estava interessado. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que ele estava tentando me distrair, me tirar daquele lugar, daquele momento.

— Eu só preciso de um pouco de paz, Robert. — Falei, com um sorriso fraco. Mas, de alguma forma, ele parecia entender o que eu estava passando, ou pelo menos, não estava forçando nada.

Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, ouvi passos pesados atrás de mim. Era Liam. Ele apareceu na esquina do corredor, com os olhos fixos em mim, como se estivesse pronto para confrontar o que quer que fosse que eu estivesse fazendo. Ele parecia furioso, mas ao mesmo tempo, algo mais intenso estava ali, uma necessidade desesperada de me ter de volta.

Robert, percebendo a situação, me olhou rapidamente e deu um passo para trás.

— Bom, acho que vou deixar você com… sua situação — ele disse, sorrindo de forma enigmática, e se afastou rapidamente, sem esperar minha resposta.

Eu fiquei ali, em silêncio, com Liam se aproximando com aquela intensidade habitual. Ele me observava como se tivesse algo a dizer, como se ainda quisesse me provocar, mas eu não sabia se estava pronta para ouvir.

A tensão no ar entre nós dois era quase insuportável. Eu me senti vulnerável, mas também sabia que, ao mesmo tempo, ele também estava em uma posição em que não sabia o que fazer comigo.

continua ...

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Comments

Martin victoriano Nava villalba

Martin victoriano Nava villalba

Sem palavras para descrever, simplesmente maravilhoso. 😍

2024-11-12

1

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