Isso Foi Um Erro

14: Isso Foi Um Erro

O calor do sol tocava meu rosto como uma carícia suave, forçando-me a abrir os olhos lentamente. Minha cabeça latejava, e um gosto amargo preenchia minha boca. Onde eu estava? Pisquei algumas vezes, tentando ajustar minha visão à luz que preenchia o ambiente. O sofá onde eu estava deitada não era o meu. O que tinha acontecido?

Foi quando o vi. Liam. Ele estava sentado no chão, ao meu lado, a cabeça inclinada para frente, e sua mão segurava a minha com firmeza. Meu coração deu um salto. Ele parecia tão exausto, como se tivesse passado a noite inteira ali. Mas por que ele estava comigo?

As lembranças começaram a invadir minha mente, uma atrás da outra, como peças de um quebra-cabeça doloroso. O bar. Gabriel. Minhas lágrimas. A briga. Meu descontrole. Meu rosto esquentou enquanto as imagens se repetiam, trazendo com elas uma sensação amarga de vergonha. Eu queria esquecer tudo aquilo, apagar aquela noite da minha memória.

Olhei novamente para Liam. Ele ainda segurava minha mão, como se precisasse daquele contato para garantir que eu estava bem. Meu coração apertou. Como ele sempre acabava sendo a pessoa que ficava ao meu lado, mesmo quando eu não merecia? Mesmo quando eu estava machucada demais para perceber que precisava dele?

Antes que pudesse me perder em mais pensamentos, meu celular começou a tocar. O som cortou o silêncio do ambiente como uma lâmina. Tentei me mover devagar, sem acordá-lo, mas ele abriu os olhos no mesmo instante.

Nosso olhar se encontrou, e algo em mim se estilhaçou. A intensidade nos olhos dele, mesmo cansados, fez meu peito apertar ainda mais. Ele soltou minha mão com um movimento lento, quase relutante, e eu me senti... vazia.

— Meu celular... — murmurei, tentando parecer indiferente, mas sabendo que ele podia perceber o tremor na minha voz.

Ele não disse nada. Apenas alcançou o aparelho e o colocou na minha mão. Respirei fundo antes de atender, torcendo para que minha voz não revelasse o turbilhão dentro de mim.

— Alô?

A voz da minha mãe atravessou a linha com uma urgência que não combinava com o horário.

— Melinda, onde você está?

Fechei os olhos, exalando lentamente.

— Estou... por aí. Por quê?

— Quero você em casa agora. Hoje é um dia especial, e você precisa estar aqui para o almoço.

— Especial? — perguntei, tentando esconder a confusão na minha voz.

— Sim, muito especial. Minha amiga voltou para a Virgínia, e o filho dela também está aqui. Você se lembra da Helena, não lembra?

Helena? Lembrava vagamente dela, mas minha mente ainda estava embaralhada demais para montar qualquer conexão.

— Tá bom, mãe. Estou indo.

Desliguei e encarei o celular por alguns segundos antes de suspirar. Eu precisava sair dali. Precisava organizar meus pensamentos antes que eles me consumissem. Olhei para Liam, ainda sem saber como encarar tudo o que havia acontecido entre nós.

— Minha mãe quer que eu volte pra casa — falei, a voz hesitante.

Ele apenas assentiu, a expressão séria. Eu sabia que deveria agradecê-lo, mas as palavras não saíam. Depois de tudo o que ele fez por mim na noite passada, como eu poderia explicar o que estava sentindo?

— Você pode me levar? — perguntei finalmente.

Ele olhou para mim por um instante que pareceu longo demais antes de concordar com um aceno.

O caminho para casa foi silencioso, e minha mente não parava de repetir os eventos da noite anterior. Cada palavra, cada lágrima, cada movimento. Por que as coisas tinham que ser tão complicadas entre nós?

Quando chegamos, minha mãe abriu a porta com um sorriso ensaiado, mas assim que ela viu Liam, sua expressão mudou. Eu sabia que ela não gostava dele. Não desde que éramos crianças e sempre acabávamos em alguma confusão juntos.

— Até mais, Liam — falei, virando para ele e, impulsivamente, me inclinando para dar um selinho em sua bochecha. Ele ficou estático, os olhos fixos nos meus, mas eu não esperei por uma resposta.

Entrei rapidamente, tentando ignorar o olhar pesado da minha mãe. Assim que fechei a porta, ouvi a voz dela, dura e baixa, mas clara o suficiente para eu entender.

— Fique longe da minha filha, Liam. Você sempre a mete em problemas.

Meu coração apertou, mas continuei andando. Não queria lidar com isso agora.

Em casa, a minha mãe já estava no seu papel de anfitriã, organizando as coisas para o tal almoço especial.

— Melinda, vá tomar um banho e vista algo apropriado. Hoje é importante.

— Quem está vindo? — perguntei, exausta demais para disfarçar o cansaço na minha voz.

— Helena e o filho dela. Você vai lembrar dele, tenho certeza. Agora, vá.

Obedeci sem protestar, embora minha mente estivesse cheia de perguntas. Depois do banho, ela me entregou um vestido vermelho deslumbrante. Era justo e elegante, com um caimento perfeito que acentuava cada curva do meu corpo. Quando me olhei no espelho, senti um nó no estômago. Estava linda, mas algo em mim dizia que o dia seria mais complicado do que eu imaginava.

Quando desci para o almoço, estava pronta para qualquer coisa... menos para o que vi. Gabriel. Ele estava ali, sentado à mesa, conversando casualmente com minha mãe e Helena. Meu coração parou por um momento. Gabriel era o filho da amiga da minha mãe.

Aquele garoto redondo e sorridente da minha infância tinha se transformado em um homem atlético e gostoso. E ele estava ali, sentado na minha sala de jantar, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Tentei esconder meu choque, cumprimentando-o com um sorriso ensaiado.

— Olá, Gabriel.

Ele devolveu o sorriso, seus olhos fixos nos meus. Havia algo na maneira como ele me olhava que me fazia lembrar de nosso passado, mas não podia deixar transparecer que já havíamos nos encontrado. Não na frente da minha mãe.

O almoço foi um turbilhão de emoções. Gabriel parecia confortável, mas cada palavra dele me deixava inquieta. Quando finalmente acabou, ele me convidou para uma conversa no jardim de minha casa.

O jardim estava tranquilo, o som suave do vento acariciando as folhas preenchia o espaço ao nosso redor. Caminhei ao lado de Gabriel, sentindo o vestido vermelho moldar meu corpo a cada passo. A grama macia sob meus pés era um contraste com o peso das perguntas que carregava na mente. Ele estava ao meu lado, mas parecia tão distante, como se ainda estivesse tentando encontrar as palavras certas para o que queria dizer.

Chegamos até um pequeno banco de madeira, escondido entre flores que minha mãe cuidava com tanto zelo. Gabriel parou e se virou para mim, um leve sorriso no rosto, mas havia algo nos olhos dele — talvez nervosismo, talvez culpa.

— Eu não sabia como começar isso, Mel — ele finalmente disse, quebrando o silêncio. Sua voz era calma, mas carregada de um peso que eu não entendia completamente. — Acho que eu devia ter contado tudo desde o início.

Eu cruzei os braços, tentando esconder a confusão que me consumia. Ele era Gabriel, sim, mas também não era. Não era o garoto redondo e sorridente que costumava segurar minha mão quando Liam ia embora correndo durante nossas brincadeiras.

— Por que você não contou? — perguntei, minha voz saindo mais dura do que eu pretendia. — Você sabia quem eu era desde o começo, Gabriel. Por que fingir que não?

Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos platinados. Parecia tão diferente, mas naquele gesto, pude vislumbrar o garoto que um dia ele foi.

— Eu não sabia se você se lembrava de mim — respondeu, finalmente. — E, pra ser sincero, eu não queria forçar nada. Queria que você me visse... como eu sou agora.

Fiquei em silêncio, tentando processar suas palavras. Ele parecia tão sincero, mas ao mesmo tempo, havia algo que eu não conseguia identificar.

— Você mudou tanto... — admiti, deixando escapar sem pensar. — Quero dizer, fisicamente. Quando minha mãe disse que você era o filho da Helena, foi como se tudo fizesse sentido, mas ao mesmo tempo, não consigo ligar o garoto que você era ao homem que está aqui agora.

Gabriel soltou uma risada baixa, mas havia melancolia nela.

— Todos mudamos, Mel. Inclusive você. — Ele olhou para mim, os olhos percorrendo meu rosto descendo pelo meu corpo de um jeito que me fez corar. — Mas, de alguma forma, você ainda é a mesma.

— E você também é, de certa forma — respondi, mais para mim mesma do que para ele. — Ainda se preocupa demais, ainda tem aquele jeito de querer estar por perto.

Ele sorriu, mas seu olhar estava fixo no chão agora.

— Eu precisava estar por perto. Não sabia o que esperar quando voltei para cá, mas sabia que queria te encontrar.

Minha respiração ficou presa por um momento. Era como se ele estivesse confessando algo que eu não sabia se estava pronta para ouvir.

— Eu senti sua falta, Mel. — A voz dele era baixa, mas carregava um peso que me atingiu em cheio. — Depois que Liam foi embora, foi como se eu tivesse perdido tudo de uma vez. Não só ele, mas você também. E quando minha família decidiu sair da cidade, foi... insuportável.

— Você nem se despediu — acusei, sem conseguir esconder a mágoa em minha voz.

Ele levantou a cabeça, os olhos encontrando os meus com uma intensidade que quase me fez recuar.

— Eu queria, mas... eu não sabia como. Como dizer adeus pra única pessoa que me fazia sentir que eu era suficiente?

Minhas palavras ficaram presas na garganta. Aquele Gabriel que estava diante de mim era ao mesmo tempo um estranho e alguém profundamente familiar. Ele estava se abrindo de um jeito que eu nunca imaginei.

— E agora? — perguntei, minha voz quase um sussurro. — Por que voltou agora?

Ele hesitou por um momento antes de responder, mas quando o fez, foi com uma sinceridade que me desarmou.

— Porque quero recuperar o tempo perdido. Quero entender o que aconteceu com a gente.

Fiquei em silêncio, processando cada palavra. Ele estendeu a mão hesitante, e quando a colocou sobre a minha, senti um calor que me surpreendeu.

— Me perdoa por não ter contado antes? — Gabriel perguntou, sua voz carregada de vulnerabilidade.

Olhei para ele, para aquele garoto que um dia segurou minhas lágrimas em suas mãos e agora estava diante de mim como um homem tentando consertar o passado. Não consegui resistir. Dei um passo à frente e o abracei, sentindo seus braços fortes ao meu redor.

— Eu senti saudades, Gabriel — murmurei, fechando os olhos enquanto deixava meu coração se abrir, pelo menos um pouco.

Ele não disse nada, apenas me segurou com força, como se estivesse a garantir que nunca mais perderia o que encontrou.

Gabriel ainda me segurava em seus braços quando senti sua respiração mudar. Era como se ele estivesse lutando contra algo dentro de si, algo que estava prestes a transbordar. Seus dedos tocaram delicadamente as minhas costas, e, por um breve momento, eu me senti completamente envolvida naquele abraço. Era quente, confortável... quase familiar.

— Mel... — ele murmurou meu nome, sua voz baixa e carregada de emoção.

Levantei o rosto, e nossos olhos se encontraram. Havia algo ali que me fez prender a respiração. A intensidade em seu olhar não era só de saudade ou arrependimento. Era algo mais profundo, mais íntimo. Antes que eu pudesse reagir ou sequer entender o que estava acontecendo e recuar, Gabriel inclinou-se para mim, e seus lábios encontraram os meus.

O beijo foi suave no início, como se ele estivesse testando o terreno, mas logo se tornou mais firme, mais determinado. Meu coração disparou no peito, e, por um instante, não consegui pensar em mais nada além da sensação. Seus lábios eram quentes, sua proximidade me envolvia como uma tempestade calma.

Uma onda de calor subiu pelo meu corpo, e meus dedos quase automaticamente seguraram sua camisa, como se buscassem estabilidade em meio ao caos que ele estava despertando dentro de mim. Por um breve instante, senti-me rendida, como se o mundo tivesse parado e tudo o que importasse fosse aquele momento.

Mas então, a realidade me atingiu como um balde de água fria. Meu coração ainda estava acelerado, mas não era só pela conexão que senti. Era também pelo erro. Empurrei Gabriel para trás com mais força do que pretendia, rompendo o contato entre nós.

— O que você está fazendo? — perguntei, minha voz tremendo enquanto eu dava um passo para trás.

Gabriel olhou para mim, surpreso, mas sem arrependimento nos olhos. Ele passou a mão pelos cabelos platinados, respirando fundo antes de falar.

— Eu... Não consegui evitar. — Sua voz era firme, mas carregava uma vulnerabilidade que fez meu peito apertar. — Desculpe, Mel, mas eu precisava fazer isso. Precisava te mostrar o que eu sinto.

Eu balancei a cabeça, tentando afastar a confusão que tomava conta de mim.

— Isso não pode acontecer, Gabriel. Não pode!

— Por quê? — Ele deu um passo em minha direção, e eu recuei instintivamente. — Você sentiu, Mel. Eu sei que sentiu.

Minha respiração estava pesada, e o calor em meu rosto denunciava minha vergonha. Eu não podia negar que, por um breve instante, havia algo naquele beijo que mexeu comigo. Mas isso não importava.

— Eu namoro o Liam. — As palavras saíram como uma declaração, um lembrete tanto para ele quanto para mim.

Gabriel ficou em silêncio por um momento, o maxilar tenso, como se estivesse lutando para processar o que eu havia dito.

— O Liam... — Ele disse o nome como se fosse um peso em sua língua. — Mel, você realmente acha que ele te merece?

— Isso não importa. — Minha voz era firme agora, embora meu coração ainda estivesse descompassado. — O que importa é que eu amo ele.

Os olhos de Gabriel vacilaram, como se ele não soubesse o que dizer a seguir. Finalmente, ele suspirou, parecendo aceitar, mesmo que relutantemente.

— Me desculpe, Mel. Eu não queria complicar as coisas.

Eu apenas assenti, ainda tentando recuperar meu equilíbrio. Aquele momento no jardim, que deveria ter sido sobre reconciliação e nostalgia, agora estava repleto de tensão e sentimentos conflitantes.

— Acho melhor eu voltar pra dentro. — Minha voz era baixa, quase um sussurro.

Gabriel deu um pequeno aceno de cabeça, mas não disse mais nada. Enquanto eu me afastava, pude sentir o seu olhar em mim, como se ele ainda tentasse decifrar o que havia acabado de acontecer. E, enquanto eu caminhava de volta para a mansão, percebi que eu também tentava.

o que acabou de acontecer foi um erro, por mais que algo estranho rolou, meu coração pertence ao Liam.

Continua…

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