Episódio 10: Entre Segredos e Cicatrizes
Liam
Mel tentava seguir em frente, mas o peso da culpa ainda pairava sobre seus ombros. Sentada no sofá da minha casa, ela olhava fixamente para o copo de chá que eu havia trazido. As sombras do início da tarde entravam pelas cortinas semifechadas, criando um ambiente melancólico.
— Mel, olha pra mim. — Eu me inclinei à sua frente, tentando alcançar seus olhos.
Ela relutou por um instante, mas finalmente ergueu o olhar. Seus olhos castanhos estavam carregados de tristeza.
— Eu tô bem, Liam. — Ela forçou um sorriso que eu vi através imediatamente.
Eu soltei um suspiro frustrado, passando a mão pelos meus cabelos desarrumados.
— Não, você não tá. E tá tudo bem não estar. — Eu fiquei de pé e peguei as chaves do meu carro que estava na mesa de centro. — Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.
— O quê? — Ela perguntou, surpresa com o tom repentino dele.
— Você vai ver. Confia em mim.
Mel hesitou por um instante, mas o meu olhar determinado a convenceu. Ela pegou o casaco e me seguiu até o carro.
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Mel
O som do motor do carro ecoava na estrada vazia enquanto o vento batia suavemente nas janelas abertas. Eu estava lá, ao lado de Liam, em um silêncio estranho, mas não desconfortável. Algo em mim estava inquieto, não sabia exatamente o que era. O que começou como uma "amizade" se transformou em algo mais, algo que eu mal conseguia entender, e, ao mesmo tempo, algo que me fazia sentir mais viva do que nunca.
Liam dirigia com uma confiança tranquila, mas seus olhos, que antes estavam focados na estrada, agora lançavam olhares rápidos para mim, como se estivesse tentando medir o que eu estava pensando. O silêncio entre nós parecia pesar, mas de uma maneira boa, como se estivéssemos tentando entender o que essa nova fase significava para nós.
— Onde estamos indo? — Eu perguntei, quebrando o silêncio, minha voz baixa.
Ele sorriu ligeiramente, mas havia algo de quase melancólico nesse sorriso.
— Um lugar só nosso.
O que ele disse me fez sentir uma mistura de curiosidade e apreensão. Onde ele estava me levando? O carro parou e eu saí do veículo, sentindo a brisa suave no rosto, o cheiro fresco da terra e das árvores ao redor. O lugar estava tranquilo, isolado, longe do caos da cidade. À nossa frente, uma grande árvore com galhos robustos se estendia, como se nos convidasse a parar ali, a respirar.
— Eu... Eu já estive aqui antes? — Perguntei, sentindo uma estranha familiaridade com o ambiente.
Liam olhou para a árvore com uma expressão distante, como se estivesse relembrando algo.
— Talvez. Quando éramos crianças, costumávamos vir aqui. Eu costumava te trazer aqui para fugir do mundo. Era nosso lugar secreto.
Aquelas palavras me acertaram como uma flecha. Uma dor antiga e doce apareceu no fundo do meu peito. O sonho que eu tive dias atrás não éra um sonho? Eu me lembrei de como era antes, da época em que éramos inseparáveis. Mas o tempo passou, e então ele se foi, desaparecendo da minha vida. Agora ele estava aqui na minha frente, mas tudo parecia diferente.
— Como você se lembra disso? — Minha voz tremia, não de medo, mas de algo muito mais forte.
Ele deu um passo na minha direção e tocou suavemente minha mão.
— Não há um dia que eu não tenha me lembrado de você. — Sua voz estava suave, quase como uma confissão.
Eu o olhei, os olhos se fixando no dele, tentando entender o que ele queria dizer com isso. Então, como se tudo tivesse acontecido de uma vez só, ele se inclinou e me beijou. Não foi um beijo apressado ou cheio de urgência, mas um beijo longo, profundo, como se ele quisesse preencher todos os anos que perdemos.
Eu me afastei, ainda sentindo o calor daquele beijo em minha pele, meu coração acelerado.
— Liam... — sussurrei, minha voz quase imperceptível.
Ele sorriu, um sorriso que parecia preencher todas as lacunas do meu coração.
— Eu voltei para você. Sempre foi você, Mel.
Não consegui mais dizer nada. Eu sentia que tudo que acontecia entre nós era tão natural, tão real, que parecia impossível de ser ignorado. Ele sempre foi minha paixão de infância, e agora parecia que o destino finalmente nos havia reunido.
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No dia seguinte, enquanto caminhávamos juntos pelos corredores da faculdade, algo em meu peito me dizia que a euforia do dia anterior estava prestes a ser testada. Mario, meu melhor amigo e protetor de sempre, me observava com um olhar mais sério do que o normal. Ele sabia que algo estava acontecendo entre mim e Liam, e isso o deixava desconfortável, como se estivesse prestes a perder o controle de alguma coisa.
— Você e o Liam... — Ele começou, sua voz baixa, mas cheia de uma preocupação latente.
— O que há, Mario? — Perguntei, parando para olhar em seus olhos.
— Eu só quero que você saiba que, se ele te machucar de novo... Eu vou acabar com ele. — Ele disse, a intensidade em sua voz era quase assustadora.
Eu o encarei, sentindo uma mistura de raiva e desconfiança.
— Mario, não seja ridículo. Ele não vai me machucar.
Mas, mesmo sabendo que ele estava apenas tentando me proteger, algo dentro de mim não conseguiu afastar a sensação de que, talvez, Mario tivesse razão. Liam estava carregando uma dor que eu não compreendia completamente, e isso me deixava insegura.
— Eu só estou dizendo... — Mario continuou, com a voz mais firme, como se estivesse gravando suas palavras na minha mente.
Eu apenas balancei a cabeça e continuei a caminhar, tentando afastar os pensamentos que agora invadiam a minha mente. Eu confiava em Liam, mas o que se passava dentro dele parecia mais complexo do que eu imaginava.
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Liam
Eu estava me trocando nos vestiários, a respiração ainda pesada após a corrida do dia. O som do ambiente abafado, o calor das lâmpadas e o odor de suor misturado com o cheiro do sabonete me deixavam inquieto. Mas, ao mesmo tempo, me sentia tranquilo, até que a voz de alguns garotos chamou minha atenção.
— *Pô, aquela Mel é uma gostosa, né?* — Uma risada se seguiu, leve e despreocupada.
Minha pele formigou. Eu conhecia aquela voz. Era um dos caras do time de futebol, alguém que nunca tinha dado atenção à Mel antes.
— *É, mano. Eu vi ela ontem. Ela tem corpo de causar. Aposto que o Liam não dá o valor que ela merece. Ela é muito mais que ele.*
Aquilo foi como uma lâmina afiada entrando direto no meu peito. O nome dela sendo jogado daquela forma, como se fosse só um corpo, como se eu fosse invisível. A raiva começou a ferver em minhas veias, quente e incontrolável. Eu me aproximei sem fazer barulho, um monstro controlado esperando pelo momento certo para atacar.
— *Cuidado, cara. O Liam é bem... possessivo com ela. Se ele souber que a gente tá falando disso...* — outro garoto disse, com um tom de advertência na voz.
Eu parei, meu corpo tenso, ainda fora de vista. Como se falassem de um objeto que eu tinha em casa. Como se Mel fosse apenas um troféu. Mel não era um troféu. Ela nunca seria. Ela era tudo para mim.
*Possessivo.* A palavra ecoava na minha mente. Eles não sabiam o que estavam dizendo. Mas eu sabia o que ia acontecer se não os fizesse entender o que significava tocar nela.
A raiva crescia dentro de mim, minha visão ficando turva. Eles estavam zombando dela, falando sobre ela como se fosse um prêmio de competição. O pior de tudo era que eles nem sabiam o que estavam fazendo. Mel não estava ali para se defender. Mas eu estava. Eu sempre estaria.
Com um passo firme, entrei na sala, a porta se fechando atrás de mim com um estalo seco. Os meninos estavam ao fundo, ainda rindo e comentando. Quando perceberam minha presença, o sorriso deles se esvaiu em um instante.
— *O que vocês estavam dizendo sobre a Mel?* — Minha voz saiu baixa, mas cheia de uma ameaça silenciosa.
Um deles deu um passo para trás, engolindo em seco, enquanto outro tentou sorrir, mas sua tentativa falhou.
— *Eu… a gente só tava brincando, cara.* — Um deles tentou disfarçar, mas a tremedeira na voz era óbvia.
Eu dei um passo à frente, minhas mãos fechando em punhos. A raiva estava consumindo minha razão, e eu sabia que, se não parasse, algo terrível aconteceria. Mas a palavra "brincando" me feriu mais do que qualquer soco poderia.
— *Brincando?* — Repeti, me aproximando mais, com o olhar fixo neles. Cada palavra que saía de minha boca era impregnada com a raiva crescente, a necessidade de mostrar a eles quem Mel realmente era. — *A Mel não é uma piada, ela é minha. E eu não vou deixar nenhum de vocês falar sobre ela como se fosse um brinquedo.*
Um dos garotos tentou fazer uma piada, mas eu estava além de qualquer razão. Em um movimento rápido e violento, puxei o celular da mão de um deles, o quebrando contra a parede com um estrondo alto. O som do plástico estilhaçando parecia satisfatório, mas não o suficiente.
— *Você é louco?!* — O garoto gritou, tentando avançar, mas eu já estava no controle. A raiva que eu sentia não era mais apenas por Mel, mas por tudo o que eu tinha guardado e que estava prestes a explodir. Eu não estava apenas defendendo Mel; estava defendendo a mim mesmo.
Sem pensar duas vezes, me aproximei mais rápido, agarrando o próximo garoto pela gola da camisa e levantando-o no ar. O medo em seus olhos me fazia sentir um prazer sombrio, um desejo de fazê-los entender o quanto eu podia ser perigoso. Eles não sabiam o que eu era capaz de fazer para proteger o que era meu.
— *Você vai pensar duas vezes antes de falar dela de novo, entendeu?* — Minha voz estava rasgada, o ódio transbordando.
Antes que eu pudesse fazer mais, alguém gritou. Era Mel.
— *Liam, não!* — Ela entrou no vestiário, seu rosto pálido e olhos assustados.
A dor no meu peito foi instantânea. Eu a vi, e tudo que tinha feito até então pareceu errado. Como se eu tivesse cometido um erro irreparável. Ela estava ali, me vendo como o monstro que eu estava me tornando.
Eu soltei o garoto que estava suspenso no ar e dei um passo para trás, meus olhos presos aos dela. O som da briga se desvanecia enquanto ela me olhava, esperando por explicações.
— *Liam...* — Ela sussurrou, sua voz cheia de medo.
Minha garganta apertou, e a culpa me atingiu como um soco no estômago. O que eu estava fazendo? Eu estava agindo como um lunático, como algo fora de controle, e ela estava ali, tentando me alcançar.
Fui até ela, minha mente uma bagunça, mas eu precisava dela. Eu precisava fazer ela entender que eu não queria fazer isso. Que eu estava com medo de perder o controle.
— *Mel, eu... Eu não queria que você visse isso. Não queria que você me visse assim.* — Minha voz falhou, o peso da culpa esmagando-me por dentro.
Ela levantou a mão, tocando suavemente meu peito.
— *Eu sei que você não queria. Eu sei, Liam.* — Ela olhou em meus olhos, seus olhos cheios de compreensão, mas ao mesmo tempo com um medo que eu não queria que existisse.
— *Eu não quero que você se machuque, não quero que ninguém fale sobre você assim.* — Eu sussurrei, desesperado para ela entender.
Ela sorriu suavemente, tocando minha bochecha.
— *Eu sei. E eu te amo por isso, mas... Não precisa ser assim...*
Mas eu não conseguia controlar. Eu estava perdido na raiva, e Mel estava tentando me salvar.
Eu respirei fundo, tentando acalmar meu coração. Mas ainda assim, a culpa me consumia. Eu tinha machucado os outros, e agora estava machucando ela.
— *Me desculpa...* — Eu sussurrei.
Antes que ela pudesse responder, um dos meninos do grupo se levantou, tentando falar, mas eu o cortei com um olhar feroz. Eles sabiam que o perigo estava ali.
Mel pegou minha mão, seus dedos entrelaçando os meus, me dando um pouco de paz.
Eu me abaixei, meu rosto perto do dela, e disse:
— *Eu não quero te perder, Mel. Nunca mais.*
Ela fechou os olhos por um momento, e depois, com uma suavidade que eu nunca vou esquecer, disse:
— *Eu sei, Liam. Eu sei.*
Mas quando ela se afastou, de longe eu vi algo que me gelou por completo.
Ao abrir o armário, um bilhete caiu em seu caminho. Ela se agachou para pegar, e a leitura das palavras fez sua expressão mudar de preocupação para pavor. Eu vi o medo tomar conta dela antes que ela tentasse disfarçar.
Eu a vi tremer. Eu vi o mundo dela desmoronar, e o que eu já sabia se concretizou. Ela estava em perigo. E agora, tudo o que eu precisava fazer era protegê-la, a qualquer custo.
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Mel
O barulho dos meus passos ecoava no corredor. Eu estava cansada, exausta depois de tudo o que havia acontecido. Quando abri a porta do meu armário, um pedaço de papel caiu no chão.
Com as mãos tremendo, me agachei e peguei o bilhete. A escrita era brusca, feita de forma rápida, mas as palavras me atingiram como uma descarga elétrica:
"VOCÊ ESTÁ SENDO OBSERVADA. SE CUIDE."
O medo apertou minha garganta. Eu olhei ao redor, mas o corredor estava vazio. O que eu estava lendo parecia irreal, mas, ao mesmo tempo, fazia todo o sentido. Eu sabia que algo não estava certo, que eu estava sendo observada. E o pior de tudo... Eu sabia que isso tinha algo a ver com Liam. Eu estava me afundando em um mar de incertezas, e não sabia como sair dele.
Fechei o armário rapidamente, o meu coração disparando. Olhei para a porta do corredor, esperando que ninguém me visse. Mas, por dentro, eu sabia que havia algo muito maior acontecendo. Algo que eu não poderia ignorar. E, talvez, eu nunca mais seria a mesma.
Continua...
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Atualizado até capítulo 22
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