Sobrevive, Eu Imploro !

Capítulo 20 -

Eu ainda estava sem palavras, os pensamentos se atropelando dentro da minha cabeça. Gabriel segurava meu celular com uma expressão tensa e, por um momento, pareceu que o mundo parou. Eu estava ali, olhando para ele, tentando processar o que estava acontecendo, mas nada parecia fazer sentido. O que era aquele lugar? Como alguém sabia da localização de Mel? O mistério só aumentava.

Gabriel olhou fixamente para a tela, os dedos tocando a tela do celular como se procurasse entender cada palavra. Suas sobrancelhas se franziram, e seus lábios se apertaram em uma linha fina. Por um segundo, ele parecia completamente distante, quase como se estivesse revisitando um passado que ele não queria mais lembrar.

— Você conhece esse lugar? — A pergunta dele foi tão baixa que mal consegui ouvir. Era como se ele não quisesse acreditar no que estava vendo, mas, ao mesmo tempo, não podia ignorar a verdade.

Fiquei em silêncio por um momento, olhando para o celular. O endereço era claro, mas o que mais me assombrou foi o nome do lugar. Um galpão velho, na periferia da cidade, que antigamente havia sido de um homem chamado Bartolomeu, o açougueiro. Eu conhecia a história, mas não sabia que ele ainda estava relacionado a isso.

— Eu... conheço. — A resposta saiu baixa, quase como um suspiro. O peso do reconhecimento caiu sobre mim como uma pedra. Eu não esperava que Gabriel estivesse tão ligado a tudo aquilo.

Gabriel olhou para mim, os olhos fixos na tela do celular. Ele parecia tentar entender tudo ao mesmo tempo. O silêncio entre nós era pesado, como se ambos estivéssemos esperando que o outro dissesse algo mais, mas sem coragem de quebrar o que estava entre nós.

— O que é isso, Liam? — Gabriel perguntou, a voz baixa, mas carregada de uma tensão que eu nunca havia ouvido nele antes. A raiva e a dor estavam se misturando. Eu podia ver no rosto dele o quanto aquilo o afetava, mais do que qualquer coisa. Ele estava revivendo algo que talvez quisesse esquecer.

Eu sabia o que ele queria dizer, o que ele queria perguntar. O tio Bartolomeu tinha sido alguém importante para Gabriel, e, por mais que o homem fosse estranho, ele nunca tinha sido uma ameaça para ninguém. Mas, de repente, aquele galpão, esse maldito galpão, se tornava a chave para tudo o que estava acontecendo.

— Bartolomeu era... o seu tio de consideração. — Eu disse, minha voz soando como se estivesse testando as palavras que saíam. Gabriel balançou a cabeça, como se tentasse negar, como se não quisesse acreditar no que estava acontecendo. Mas ele sabia que era verdade. Ele tinha conhecido aquele lugar, conhecido aquele homem.

Gabriel olhou para o chão, os punhos fechados. Ele estava segurando a raiva, mas eu podia ver os músculos de seus braços tensos, o corpo todo parecia vibrar com a tensão. Era óbvio que ele não gostava de estar ali, naquele lugar, revivendo aquele passado. Não era apenas sobre Mel, sobre o que havia acontecido com ela. Era sobre o tio dele, sobre a conexão que ele tinha com aquele lugar e, provavelmente, sobre as lembranças que ele não queria mais trazer à tona.

— Eu... — Gabriel começou, mas parou, como se as palavras não fossem suficientes para expressar o que ele estava sentindo. — Tio Bartolomeu... ele não estava envolvido nisso, não era para ele...

Ele se afastou um passo, como se estivesse tentando se distanciar de seus próprios pensamentos. A confusão e a dor eram visíveis em seu rosto. Eu podia ver o quanto ele estava lutando para não deixar que o passado tomasse conta dele. Ele havia perdido algo ali, e, ao mesmo tempo, ele sabia que estava prestes a perder ainda mais. A raiva dele era palpável, mas havia algo mais, algo que eu não entendia completamente.

— O que aconteceu com Bartolomeu, Gabriel? — Perguntei, minha voz baixa, sem saber o que esperar da resposta. Eu sabia que ele não queria falar sobre isso, mas eu precisava entender. Precisava saber mais sobre aquele homem, sobre o galpão e como isso estava de alguma forma conectado ao desaparecimento de Mel.

Gabriel se virou de volta para mim, seus olhos marejados pela raiva, pela dor. Ele respirou fundo antes de falar, a tensão em seu corpo não diminuindo nem um pouco.

— Ele... ele morreu, Liam.— As palavras saíram secas, como se ele tivesse que engolir a verdade, mesmo sabendo que ela estava ali. — Ele morreu há uns anos, mas... esse galpão, esse lugar, ele sempre foi dele. Foi onde ele fazia o que... o que fazia, e ninguém sabia disso.

Havia algo pesado na maneira como ele disse isso, uma revelação que ele estava segurando há muito tempo. Eu sabia que ele estava tentando proteger algo, ou alguém, mas agora não havia mais como esconder. O galpão, aquele lugar sujo e antigo, estava de volta à vida. E eu sabia, sem sombra de dúvida, que isso era algo que não podíamos ignorar.

— Aquele lugar... não pode ser bom.— Eu disse, mais para mim mesmo do que para Gabriel. A sensação de pavor se instalava novamente, essa sensação de que estávamos sendo manipulados por forças além do nosso controle. Quem quer que estivesse atrás disso sabia o que estava fazendo, sabia como nos colocar em movimento.

Gabriel assentiu, a raiva ainda visível em seus olhos. Eu poderia sentir que ele estava tentando processar tudo o que estava acontecendo, tentando entender o que aquele galpão tinha a ver com Mel, com tudo o que estava acontecendo.

— Isso não vai acabar bem, Liam. — Gabriel murmurou, mais para ele mesmo do que para mim. Ele parecia falar com uma voz rouca, cheia de frustração. Mas, no fundo, sabia que ele estava certo. O que quer que nos aguardasse ali, no galpão, não era algo que poderíamos controlar.

O ar ao nosso redor parecia denso, carregado de uma tensão que eu não conseguia dissipar. Sabíamos que Mel estava em algum lugar, provavelmente em perigo, e o relógio estava a correr. Mas agora, com a revelação de Gabriel, algo mais havia mudado. Eu sentia que, de alguma forma, nós dois estávamos ligados a esse lugar, ao passado de Gabriel. E, no fundo, eu sabia que, ao entrar naquele galpão, nunca mais seríamos os mesmos.

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O motor da Lamborghini rugia como um predador em busca de sua presa. Eu estava concentrado, as mãos firmes no volante, mas o pensamento de Mel, de sua segurança, fazia meu coração bater mais rápido. Cada quilômetro que passávamos parecia um lembrete de que o tempo estava se esgotando, e o que quer que estivesse nos aguardando no galpão seria um teste que nenhum de nós estava realmente preparado para enfrentar.

Gabriel estava quieto ao meu lado, seus olhos fixos na estrada, mas o clima pesado entre nós era inegável. Ele sabia o que estava em jogo. Sabia que a situação não era só uma questão de resgatar Mel. Era uma questão de... sobreviver a isso, de lidar com o que viria depois. Eu podia sentir a tensão vindo dele, e algo me dizia que ele estava tão preocupado quanto eu, mas não dizia uma palavra sobre isso. Ele sabia o que significava isso para mim.

— Você acha que vamos conseguir? — Gabriel perguntou, a voz tensa, como se ele estivesse tentando manter o controle.

A pergunta fez meu corpo se apertar. O que quer que estivesse no galpão, o que quer que Mel estivesse passando, nada disso poderia nos deter. Nada. Ela era minha prioridade agora, e qualquer coisa que estivesse entre nós e ela, seria destruído.

— Não sei... mas não temos outra escolha. — minha voz saiu mais fria do que eu pretendia, mas não conseguia me preocupar com mais nada além de chegar lá.

Gabriel não respondeu imediatamente. Ele parecia estar pensando, talvez pesando as implicações da nossa corrida frenética em direção ao que quer que fosse. Eu percebi que, apesar de tudo, havia algo de estranho entre nós. Ele não parecia tão seguro como costumava ser, e isso me incomodava. Não era como se ele fosse uma pessoa fraca, mas eu sabia que ele também estava carregando seus próprios fantasmas. E Mel, para ele, não era só uma amiga. Talvez ele ainda estivesse lidando com isso de uma forma mais pessoal do que eu imaginava.

O silêncio se arrastou por alguns segundos, e a sensação de tensão aumentava a cada segundo. Cada curva que tomávamos era uma mudança no nosso destino. Eu podia ouvir a respiração de Gabriel, mais pesada, mais agitada, o som do vento batendo no carro. Parecia que tudo estava mais alto agora, mais iminente.

— Liam... — Gabriel finalmente disse, sua voz mais suave, mas cheia de algo que eu não conseguia identificar. Ele olhou para mim, seus olhos buscando algo. Talvez um sinal de que eu sabia o que estava fazendo, que eu tinha um plano. Eu não tinha um plano. O plano era apenas ir até o galpão e fazer o que fosse necessário para trazer Mel de volta. Nada mais importava.

— Eu sei o que você está pensando, e eu... — Gabriel hesitou, parecia procurar as palavras certas. — Você acha que ela me vê de verdade como... amigo? A pergunta dele pegou-me de surpresa, e eu não sabia se deveria responder.

Eu não sabia o que dizer. Havia algo no tom de Gabriel que me fez perceber que ele estava se colocando em segundo plano, como se estivesse pronto para se sacrificar, para deixar Mel ir, se fosse necessário. Isso me incomodava. Me deixava confuso, porque eu não queria que ele estivesse pensando dessa maneira.

— Isso não é sobre você, Gabriel. Isso é sobre ela. — respondi, a voz mais dura do que eu queria. Eu sabia que ele queria algo mais, mas não tinha tempo para isso agora. Eu precisava dele focado, porque, se Mel estivesse no galpão, precisávamos ser rápidos. A última coisa que eu queria era que ele ficasse distraído com qualquer coisa que não fosse ela.

Gabriel olhou para mim, seus olhos parecendo pesar minhas palavras. Ele respirou fundo, como se estivesse se preparando para uma batalha interna. — Eu entendo. Ele disse finalmente, mas sua voz tinha uma ressonância de algo não resolvido. Algo que ainda pairava no ar entre nós. Mas ele não continuou. Havia uma frieza agora, um reconhecimento de que nossas prioridades estavam diferentes, mas não mais distantes.

O som do motor aumentando nossa velocidade parecia ser o único ruído que quebrava o silêncio pesado entre nós. Eu pressionava o acelerador, meu corpo se movendo em harmonia com o carro. Eu podia sentir cada fibra do meu ser direcionada para o galpão, para a Mel. A raiva, o medo e a preocupação estavam borbulhando dentro de mim como uma tempestade. Mas Gabriel... Gabriel estava calado agora. Ele sabia, eu sabia, que o que quer que fosse que nos esperava lá, nada mais seria o mesmo.

— Vai dar tudo certo, Liam. — Gabriel murmurou, mais para si mesmo do que para mim, como se tentasse se convencer. Mas eu não estava mais certo de nada.

Nós sabíamos que as próximas horas, as próximas decisões, nos definiriam. O que quer que tivesse nos guiado até esse ponto... a jornada estava chegando ao fim, e eu não tinha certeza se estava pronto para o que isso significava. Mas, por Mel, eu estaria. Eu faria qualquer coisa.

Mel

A dor era insuportável. Cada movimento, cada respiração que tentava tomar, fazia com que o mundo ao meu redor ficasse turvo. Minhas mãos estavam amarradas atrás de mim, e o mesmo acontecia com meus pés. Eu sentia a pele das minhas mãos queimando, com a fricção das cordas cortando a carne. O gosto metálico de sangue ainda estava na minha boca, e meu corpo estava exausto, mas a mente estava alerta. Eu precisava fazer algo. Algo para sair daqui.

O galpão estava silencioso, exceto pelos ecos distantes de passos que pareciam me vigiar. Eles haviam me deixado sozinha. Talvez por engano, talvez não. O fato era que eu tinha uma chance, e não podia deixá-la escapar. **Eu precisava sair dali.**

Eu não sabia quanto tempo se passou desde que fui capturada, mas a sensação de estar trancada naquele lugar me consumia. Aquelas paredes sujas, o ar pesado, o cheiro de ferro misturado com algo podre, tudo isso me fazia querer vomitar. Mas mais do que qualquer coisa, o medo estava se tornando uma companhia constante. **O que aconteceria comigo? O que queriam de mim?**

De repente, uma memória se formou em minha mente, uma lembrança de algo que meu pai me dera antes de falecer. Um canivete. Ele sempre dizia que, quando o tivesse em mãos, nunca deveria confiar apenas na força, mas na inteligência. “Em qualquer situação, tenha sempre uma saída, Mel,” ele me dizia. Eu sempre carregava aquele canivete comigo, como uma espécie de amuleto. Ele estava comigo no momento mais importante, quando mais precisava de coragem.

**Onde está?** Eu procurei ao meu redor, tentando focalizar meus pensamentos, enquanto a dor me consumia. Eu sabia que ele estava perto, escondido, sob as minhas roupas. **Ali.** Eu senti a lâmina fria contra minha pele. O canivete. Minhas mãos estavam trêmulas, mas, com um esforço desesperado, consegui pegar a lâmina. **A única chance que eu teria.**

Eu mordi o lábio, sentindo as lágrimas se misturando com o suor. As cordas que prendiam meus pés eram tão apertadas que eu já não sentia mais os dedos. Mas, com o canivete em mãos, comecei a cortar as cordas, cada centímetro parecia uma eternidade. Eu sabia que tinha que ser rápida. O tempo estava correndo.

A lâmina cortou, e com um suspiro de alívio, consegui libertar meus pés. A dor nos meus pulsos, onde as cordas estavam mais apertadas, ainda me deixava quase insana. Mas não era hora de fraquejar. Eu tinha que ir. Eu tinha que fugir.

Com as mãos finalmente livres, levei um tempo para tentar aliviar a dor. O sangue estava escorrendo pelos meus pulsos, mas não era isso que me importava agora. Eu estava livre.

Eu me arrastei lentamente para longe da cadeira, tentando não fazer barulho. A sala onde eu estava parecia ter apenas uma entrada, mas a janela à minha direita estava um pouco aberta. Isso poderia ser a minha única chance. Mas o que fazer agora? Eu olhei ao redor, procurando uma maneira de me proteger, de ganhar tempo.

Foi então que vi. No canto da sala, uma corda, pendurada de forma estranha, uma isca. **Uma armadilha.** Sem perder tempo, peguei a corda e escondi-me atrás de uma pilha de caixas, me preparando para o pior. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém viria verificar a sala. E eu não poderia ser pega de surpresa.

Ouvi passos. **Eles estavam chegando.**

Eu me encolhi atrás da pilha, sentindo meu corpo inteiro em alerta máximo. Cada fibra de mim estava tensa, pronta para qualquer movimento. A porta se abriu, e eu não sabia quem seria. Mas a figura que entrou fez meu coração gelar. Era Pietra. Eu a reconheci pelo movimento, pela postura. Ela estava sozinha, o que me deu uma leve sensação de alívio, mas não por muito tempo. Ela estava olhando ao redor, procurando por mim.

**Ela pensa que eu fugi.**

Eu me movi, com a agilidade de alguém que sabia que aquela era a única chance. Não importava o que acontecesse agora. **Ela não poderia me encontrar.**

Pietra se aproximou da porta, com a intenção de sair e chamar mais reforços, mas foi nesse momento que eu avancei, silenciosa, com a força da raiva e do desespero me dando coragem. Me atirei contra ela, envolvendo meu braço em volta do seu pescoço, apertando até ela perder as forças.

Ela tentou se debater, mas sua luta foi inútil. **Eu não deixaria que ela escapasse.** Era eu ou ela.

Eu podia sentir sua respiração ofegante e, conforme as forças dela diminuíam, meu foco se intensificava. Pietra foi ficando mais fraca, seus movimentos tornando-se mais lentos até que seu corpo cedeu e ela desmaiou nos meus braços.

Respirei fundo, tentando recuperar a compostura. **Eu tinha derrubado Pietra.**

Agora eu precisava sair dali. Com cuidado, arrastei o corpo dela para o canto, fazendo o máximo de silêncio possível. Não podia correr o risco de mais alguém entrar e me pegar ali. Eu precisava ir embora antes que o pior acontecesse.

Com as pernas tremendo e o coração acelerado, comecei a me arrastar para a porta, tentando fazer o mínimo de barulho possível. O galpão estava escuro e os ecos de minhas ações eram como um lembrete constante de que, se não fosse cuidadosa, alguém poderia me ouvir. Eu passei por um corredor escuro, sentindo uma sensação de claustrofobia se formando, mas ao olhar para frente, vi uma nova porta.

Eu corria agora, movendo-me o mais rápido que podia, minha mente martelando uma única pergunta: **O que mais estava esperando por mim aqui?**

Mas, por enquanto, eu tinha que sair. Eu precisava sobreviver.

Liam

Eu mal podia acreditar no que estava prestes a fazer. Cada músculo do meu corpo estava tenso, a adrenalina correndo veloz pelas minhas veias. O silêncio na garagem era perturbador, mas logo me vi saindo do carro, meus pés batendo no concreto com uma força controlada. O galpão estava ali, a poucos metros, e eu sabia que dentro dele, estava a resposta para todos os meus pesadelos. Mel.

"Mel, eu vou te tirar daí", pensei, minha mente completamente focada na missão. Não havia mais espaço para dúvidas. A imagem dela, toda ensanguentada, me torturava por dentro. Mas, mais do que nunca, o meu instinto sociopata estava no controle. **Ninguém mexe com a Mel e sai impune.**

Antes de dar qualquer passo, abri a tampa do painel de controle do Lamborghini, e sem hesitar, puxei a gaveta secreta onde guardava o que sempre considerei essencial. A Glock estava ali, fria e pronta, como uma extensão da minha própria mão. Passando a arma para Gabriel, falei com firmeza:

— Use isso apenas em caso de emergência. E, Gabriel, se você vir qualquer coisa que ameace a Mel... sem hesitação.

Ele pegou a arma com a seriedade de alguém que entendia o peso das minhas palavras, e sem uma palavra, apenas um aceno de cabeça, seguimos para fora do carro.

O galpão estava a poucos metros, a entrada dos fundos escondida em sombras, e eu sabia que qualquer erro ali seria fatal. Passei a mão no bolso e senti a faca que sempre mantinha comigo. Meu olhar estava fixo, como uma máquina, meus sentidos aguçados e prontos. Nossos passos eram silenciosos, mas rápidos. A tensão no ar era palpável, e o peso da responsabilidade em resgatar Mel me dava uma clareza assustadora. **Ela precisa estar viva.**

Ao chegarmos à porta dos fundos, dei uma olhada rápida para Gabriel. Ele estava pronto, seus olhos fixos na entrada, esperando por qualquer sinal. Nossos corpos estavam alinhados, sincronizados. Ele já sabia o que fazer. Com um movimento rápido, empurrei a porta, que rangeu ao ser aberta. O som ecoou, mas logo nos movemos para dentro, esgueirando-nos nas sombras, indo em direção ao que parecia ser o centro do galpão.

Não precisávamos de palavras. As luzes baixas e as sombras densas tornavam a visibilidade limitada, mas nossa visão estava adaptada, e a tensão era um campo aberto. O cheiro de mofo e ferrugem estava no ar, e eu podia sentir cada respiração se tornando mais difícil conforme avançávamos.

De repente, ouvimos passos. Lentos, pesados. Não havia dúvida, eram os capangas. Eles estavam próximos.

— Vamos, Gabriel — sussurrei, ajustando a posição da faca em minha mão, sentindo a lâmina com precisão. Ele assentiu, e com um simples movimento de nossa parte, entramos em ação.

Com uma rapidez quase predatória, me lancei contra o primeiro homem, usando a força da surpresa para desferir um golpe certeiro no estômago dele. Ele tentou me empurrar para trás, mas não foi suficiente. Em um movimento rápido, usei o cotovelo dele para me impulsionar e acertei um soco direto no queixo, fazendo com que o homem caísse para o lado. Ele ficou desacordado antes mesmo de tocar o chão.

Gabriel , ao meu lado, não perdia tempo. Ele acertava os capangas com golpes rápidos e certeiros, seus punhos não eram apenas fortes, mas rápidos como uma tempestade. O som de socos sendo desferidos e corpos caindo ao chão preenchia a atmosfera pesada. Tudo o que importava naquele momento era a luta, a dança. Era como se o mundo inteiro tivesse se reduzido àqueles instantes de pura adrenalina.

Eu me movia como uma sombra, o corpo flexível e rápido, me aproveitando de cada fraqueza no corpo do inimigo. Uma joelhada na barriga, um soco no pescoço, a sensação da carne batendo nos meus punhos se misturava com uma satisfação sombria. Cada capanga caído era uma vitória silenciosa. Cada movimento meu estava sendo feito com uma precisão que poderia ser comparada à de um mestre.

O barulho da luta ecoava no galpão. As lâmpadas que piscavam, a gritaria e os sons de corpos colidindo com o chão. Mas, mesmo entre todo o caos, eu não perdia o foco. **Mel.** Eu só pensava nela. Na dor que ela estava sentindo e na necessidade de resgatá-la a qualquer custo. **Eu faria o que fosse necessário para trazê-la de volta.**

Gabriel estava ao meu lado, seu ritmo compatível com o meu, uma conexão rara entre dois homens com um único objetivo: garantir a segurança de Mel. Ele desferiu um golpe no rosto de um capanga, fazendo com que ele caísse em um montinho, quase sem forças para reagir. Eu não podia deixar isso durar mais. Precisava chegar até ela.

De repente, uma voz grave ecoou pelo galpão, vinda de algum lugar à frente:

— Eles estão aqui! — O capanga mais à frente gritou, e a luta se intensificou.

Mas não havia mais tempo para recuar. Já estávamos no centro do galpão, e eu podia sentir a presença de Mel, mas não a via. A adrenalina estava a mil. Meu corpo se movia sem pensar, um ciclo instintivo de ação e reação. Mais capangas surgiram de uma porta lateral, mas não havia mais espaço para hesitação. Eles não sabiam com quem estavam lidando. Eles estavam prestes a aprender.

Um deles tentou se aproximar de mim com uma faca. Eu vi o movimento em câmera lenta, e, com a precisão de um animal selvagem, desviei para o lado, pegando seu braço e torcendo até ouvir o som de um osso quebrando. Ele gritou de dor, mas eu não parei. Com um movimento rápido, o puxei para o chão, imobilizando-o.

Do meu lado, Gabriel estava agora ocupando um espaço, enfrentando dois homens ao mesmo tempo. Cada golpe dele era uma ameaça, e a maneira como ele se movia era quase... perfeita. Ele não fazia barulho, seus punhos estavam em sincronia com os meus, e juntos, estávamos destruindo qualquer um que ousasse ficar no nosso caminho.

Os últimos capangas estavam caindo, e eu podia sentir o peso da vitória, mas não deixei a guarda baixar. **Mel ainda não estava aqui.**

Quando todos os inimigos foram neutralizados, o silêncio caiu abruptamente. Eu estava ofegante, meu corpo coberto de suor, os punhos ainda cerrados. Olhei para Gabriel, que estava limpando o sangue de suas mãos com uma expressão tranquila, mas tensa.

— Vamos acabar com isso — disse, ainda ofegante, já me preparando para o que viria a seguir.

A luta tinha terminado, mas a missão estava longe de ser cumprida. **Onde está Mel?**

E, antes que pudéssemos fazer qualquer movimento, ouvimos uma porta se abrindo ao longe. O som era ameaçador, e eu sabia que algo ainda estava por vir. Mas nós estávamos prontos.

A porta do galpão se abriu com um rangido metálico, e eu vi Mel aparecer, correndo em nossa direção. Cada passo dela parecia pesado, como se o mundo estivesse tentando afastá-la de mim. Eu estendi os braços, pronto para a proteger, mas no momento em que ela chegou perto, um som cortou o ar, o som de um disparo.

O tempo desacelerou. O disparo ecoou pelas paredes do galpão, e eu vi Mel ser atingida. O corpo dela foi jogado para trás como se uma força invisível tivesse a derrubado. Ela caiu de joelhos no chão, sua expressão uma mistura de surpresa e dor, antes de se curvar para frente, suas mãos tentando encontrar algum apoio. Foi como se o mundo tivesse parado naquele momento. **Mel não podia morrer. Não assim.** Sem pensar duas vezes, Gabriel disparou várias vezes a arma em direção ao Tom , atingindo e o deixando desacordado.

Eu não consegui pensar. Apenas corri até ela. Quando cheguei perto, a cena que se desenrolava diante de mim fez meu coração parar. O sangue dela se espalhava pelo chão enquanto seus olhos, antes vivos e cheios de determinação, estavam começando a se perder, sem foco. O ar se apertava em meu peito. Eu sabia que algo estava errado, muito errado, mas não queria acreditar. **Não podia acreditar.**

Ela estava ali, na minha frente, sangrando. **Mel, não. Não você.**

Eu me ajoelhei ao lado dela, desesperado, segurando sua mão, sentindo a fraqueza dela se espalhar por mim. Eu precisava de uma resposta, precisava que ela me olhasse, que ela me falasse, que dissesse qualquer coisa, só para saber que estava viva.

— Mel, por favor, olhe para mim. — Minha voz saiu trêmula, quebrada pela dor. Eu levantei sua cabeça, tentando ver seus olhos, tentando ver alguma vida ali. Mas eles estavam começando a se fechar lentamente.

Eu sabia que o tempo estava se esgotando.

Gabriel apareceu ao meu lado, e pela expressão em seu rosto, ele também sabia o que estava acontecendo. Ele colocou as mãos no rosto de Mel, tentando, assim como eu, encontrar algum sinal de vida. As lágrimas começaram a escorrer de seus olhos, mas nada parecia funcionar. Ele a balançava levemente, chamando seu nome, mas Mel não respondia.

— Mel, por favor, não. Não faça isso! — Ele estava desesperado, a voz falha, a dor clara em seus olhos.

Eu ainda segurava sua mão, tentando forçar algum movimento, alguma reação. Eu só queria ouvi-la, sentir sua presença, mas o silêncio era absoluto. Ela estava se indo. E a cada segundo que passava, eu sentia mais e mais a vida dela escapando.

— Mel... — Sussurrei, o nome dela um murmúrio perdido no ar. Eu sentia o vazio se expandir ao meu redor, uma escuridão tomando conta do meu coração, mas eu ainda tentava lutar. Não!

Mas foi aí que, antes que eu pudesse reagir, ela abriu os olhos. Eles se fixaram nos meus, e eu senti uma esperança renovada. Ela estava aqui. Ela estava comigo.

Então, com uma respiração fraca, ela disse, em um suspiro quase inaudível:

— Eu... amo vocês.

E, com essas palavras, ela fechou os olhos novamente. E sua respiração, que tinha sido tão leve e frágil, parou.

O mundo caiu. Ela se foi.

Eu senti como se o chão tivesse desaparecido debaixo de mim. A dor me atravessou de uma forma que eu nunca imaginei ser possível. Tudo ao meu redor desapareceu. Eu não sabia mais onde estava, ou o que estava acontecendo. Tudo o que eu conseguia sentir era o vazio, um abismo negro engolindo tudo o que restava de mim. Ela não estava mais ali. **Mel não estava mais aqui.**

Gabriel estava ao meu lado, mas eu mal o ouvi. Ele estava chorando, chamando por ela, gritando seu nome como se aquilo fosse de alguma forma trazer ela de volta, mas eu sabia... Eu sabia que ela não voltaria. O sofrimento no rosto de Gabriel também era imenso, mas eu estava perdido. Não conseguia mais processar nada.

Ela havia dito que nos amava, mas... mas eu não podia aceitar isso. Não daquela maneira. Eu não sabia lidar com isso. **Eu não podia perder ela.**

Eu a segurei em meus braços por um tempo que parecia eterno, esperando que, de alguma forma, ela voltasse. Mas o corpo dela estava frio. **Ela estava tão fria.** Não havia mais nada ali. Não havia mais Mel. Não havia mais nada que eu reconhecesse.

— Mel... — Eu sussurrei novamente, mais uma vez tentando desesperadamente segurar a sua mão, mas ela estava vazia. Fria.

Gabriel estava no telefone, tentando chamar a ambulância, mas a única coisa que ele conseguiu fazer foi aumentar o peso da dor em nosso peito. Ele estava lutando para manter a calma, mas tudo ao nosso redor parecia ruir. Eu ainda não conseguia compreender. **Como ela se foi? Como?**

O choro de Gabriel se intensificava, mas a dor em meu peito não parava de crescer. Eu não conseguia mais me controlar. Algo dentro de mim se quebrou, se partiu de uma maneira irreversível. Eu vi tudo se desintegrar à minha volta. **Eu havia perdido ela.** E, no instante em que isso se fez claro em minha mente, a raiva tomou conta de mim.

Minha raiva, o desespero, o medo... tudo isso tomou conta de mim. Eu estava fora de controle. A dor, o vazio, era insuportável. Mel não merecia isso. **Ela não merecia morrer assim.** Eu olhei para os capangas que estavam vindo em nossa direção, e naquele momento, não houve mais racionalidade. Apenas a vontade de descontar tudo o que eu estava sentindo.

Gabriel estava ao telefone, ainda tentando ligar para a ambulância, mas eu já não podia mais ouvir suas palavras. Tudo o que eu ouvia era o barulho da minha respiração pesada, e então o som dos passos se aproximando. Eu estava completamente fora de mim.

Eu me levantei, ainda com Mel em meus braços, o peso da sua morte em meu peito. Não sabia mais quem eu era. Não sabia mais o que fazer. Mas eu sabia que esses capangas não iriam viver para contar a história.

**Eles estavam prestes a pagar.**

Os capangas estavam nos cercando, e antes que pudessem entender o que estava acontecendo, me lancei contra o primeiro deles. A força da minha raiva era imensurável. Eu não pensei. Não senti. Apenas agi. Cada soco que eu desferia, cada golpe que eu dava, era um reflexo da minha dor. Eu queria que eles sentissem o que eu estava sentindo. Eu queria destruir tudo ao meu redor.

Os homens caíam ao meu redor, um após o outro. Eu não estava mais em mim. Cada movimento meu era feito de forma brutal, sem consideração. Meu soco foi certeiro no estômago de um dos capangas, fazendo-o dobrar e cair no chão, ofegante. Eu não dei chance para nenhum deles. Nenhum deles merecia ser poupado.

Gabriel ainda estava ao telefone, mas eu não ouvi mais o que ele dizia. Eu estava cegado pela raiva. Meu punho encontrou a mandíbula de um dos capangas, e ele caiu desmaiado. Um outro tentou me pegar por trás, mas eu o derrubei no chão, com uma força que eu não sabia que tinha. Cada golpe meu estava imbuído de uma fúria quase animalesca.

Eu não podia mais sentir. Não sentia mais nada além da necessidade de fazer cada um deles sofrer. Quando o último capanga caiu, ajoelhei-me diante dele, a raiva ainda queimando dentro de mim. Ele tentou se levantar, mas eu não deixei. Coloquei a arma sobre sua cabeça.

— **Você vai pagar por isso.** — Minha voz saiu fria e calculada, sem emoção. Eu não era mais humano. Eu era um monstro.

E então, com um único disparo, a cabeça do capanga explodiu. O silêncio retornou ao galpão, mas ele era pesado. Eu estava ali, de joelhos, o sangue ainda nos meus punhos, a dor de Mel ainda ecoando em cada célula do meu corpo.

Gabriel ainda estava no telefone, chorando, mas eu não conseguia mais me conectar com ele. Eu só conseguia olhar para Mel. O silêncio se arrastava enquanto ele tentava ligar para a ambulância, mas nada mais importava.

Eu tinha perdido tudo. E agora, estava sozinho.

Ao lado dos corpos, eu ajoelhei-me e gritei. Um grito que saiu da minha alma, profundo e desesperado, como se isso pudesse, de alguma forma, apagar a dor. Mas ela estava sempre ali, no fundo de mim, e agora, ela era insuportável.

Mel havia partido. E o vazio que ela deixou era tudo o que restava.

Continua ou o Fim ?

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