Heitor

Eles continuaram procurando pelo orfanato até achar uma sala, era um verdadeiro cenário de pesadelo. O cheiro metálico do sangue impregnava o ar, e cada passo que Lashy, Natan e Leo davam produzia um som úmido no chão encharcado. As paredes estavam cobertas de respingos escuros, como se alguém tivesse usado o local para um ritual macabro. Pedaços de carne ressequida e ossos antigos estavam espalhados pelos cantos, como oferendas esquecidas.

Leo, ainda massageando o braço dolorido, caminhou até uma antiga escrivaninha no fundo da sala. O móvel de madeira escura parecia deslocado naquele cenário grotesco, mas intacto. Ele puxou a gaveta com cuidado, enquanto Lashy e Natan mantinham-se atentos a qualquer movimentação ao redor.

Dentro da gaveta, documentos amarelados pelo tempo estavam empilhados de forma desordenada. Leo retirou o primeiro conjunto de papéis e começou a ler, sua expressão ficando mais séria a cada palavra.

— “Gilberto Macedo de Andrade... Heitor do orfanato em 1976.” — Leo murmurou, a voz pesada com a descoberta.

Lashy se aproximou, olhando por cima do ombro de Leo.

— Heitor? Ele era o responsável por isso aqui?

Leo assentiu, passando os papéis com dedos trêmulos. O que encontraram era mais do que registros administrativos; eram confissões detalhadas, escritas à mão, como um diário perturbador.

— “Ele era obcecado pelo paranormal... Sangue, carne e sofrimento. Ele acreditava que esses elementos poderiam transformar o orfanato em uma ‘toca de criaturas paranormais’.” — Leo leu em voz alta, a voz carregada de nojo.

Natan, de pé ao lado da porta, observava em silêncio, o rosto impassível, mas os olhos vermelhos brilhando com uma intensidade perturbadora.

— “Ele queria criar medo e ressentimento. Achava que esses sentimentos impregnariam o local, tornando-o um portal para entidades de outro mundo.” — Leo continuou, virando outra página. — “E para isso... Ele matou.”

Lashy franziu o cenho.

— Matou? Quem?

Leo respirou fundo antes de responder.

— As crianças. As cuidadoras. Todos que estavam aqui. Ele os assassinou de formas brutais, usando o sangue deles como catalisador para seus rituais.”

A sala ficou em silêncio por alguns segundos, enquanto o peso das palavras afundava sobre eles. Lashy olhou ao redor, como se as paredes manchadas pudessem testemunhar o horror que ali aconteceu.

— E o que aconteceu com ele? — Lashy perguntou.

Leo folheou mais algumas páginas antes de parar em um trecho final, escrito com uma caligrafia irregular e apressada.

— “Ele planejou o próprio suicídio.” — Leo respondeu, com a voz tensa. — “Queria se matar para ‘se unir ao paranormal’. Acreditava que, ao tirar sua própria vida dentro deste lugar já saturado de sofrimento, ele se tornaria uma entidade, um guardião desse reino sombrio que ele mesmo criou.”

Natan, ainda em silêncio, se aproximou lentamente, seus olhos fixos no documento. Ele passou a mão pela borda da escrivaninha, sentindo o toque frio da madeira.

— “Ele conseguiu?” — Natan perguntou, com a voz baixa, mas carregada de uma calma sombria.

Leo não respondeu imediatamente. Ele olhou ao redor, para o sangue, para as paredes que pareciam sussurrar histórias antigas.

— “Talvez... Talvez ele ainda esteja aqui, em alguma forma. Algo que fez aqui não foi embora.”

O silêncio que se seguiu foi interrompido por um ruído baixo, um som distante, quase como uma risada rouca ecoando pelos corredores do casarão. Lashy, Leo e Natan se entreolharam, todos com a mesma sensação: eles não estavam sozinhos. Algo — ou alguém — ainda habitava aquele lugar.

Um som grotesco vindo do corredor. Um som úmido, como carne sendo arrastada e sangue pingando pesadamente no chão. Lentamente, a figura começou a emergir das sombras.

A criatura era uma amálgama horrenda de carne pulsante e sangue coagulado, moldada de forma humanoide. Seus membros se contorciam de maneira irregular, com braços longos e deformados, terminando em garras afiadas como lâminas. Sua cabeça, ou o que restava dela, ainda tinha traços grotescos de um rosto humano, os olhos vazios e fundos, e a boca escorrendo um líquido viscoso que parecia ser uma mistura de sangue e bile. Era Gilberto Macedo de Andrade, o antigo Heitor, agora transformado em algo muito pior do que um simples espírito.

Leo, com os olhos fixos na criatura, respirou fundo, a tensão evidente em seu rosto.

— "É um ghoul de sangue..." — ele murmurou. — "Mais forte que um zumbi de carne. Às vezes, eles ainda têm resquícios de consciência, e esse... é ele. O Heitor."

A criatura soltou uma risada rouca e perturbadora, um som que parecia ecoar das profundezas do inferno. Sua voz era distorcida, mas ainda assim, pedaços de frases escapavam de sua boca.

— "Vocês... Todos vão sentir... O mesmo medo... Que eles sentiram..." — a voz gorgolejou, misturada com o som do sangue borbulhando.

Antes que pudessem reagir, a criatura avançou com uma velocidade assustadora. Suas garras rasgaram o ar em direção a Leo, que rolou para o lado, desviando por pouco. Lashy rapidamente puxou seu estilingue, disparando uma pedra que acertou o peito do monstro, mas o projétil foi inútil, afundando no sangue sem causar dano.

— "Droga! Isso não vai funcionar!" — Lashy gritou.

Manco Toco, apesar do braço ainda ferido, puxou a Glock que havia pego com Kath e disparou uma série de tiros. As balas perfuraram o corpo da criatura, mas ela apenas vacilou levemente antes de continuar avançando.

— "Essa coisa não vai cair fácil!" — Manco Toco exclamou, recuando.

Natan, até então em silêncio, segurava a katana com firmeza. Seus olhos vermelhos brilhavam intensamente, refletindo a luz fraca da sala ensanguentada. Ele observou a criatura com uma calma assustadora, como se estivesse analisando cada movimento.

A criatura avançou novamente, desta vez em direção a Lashy. Antes que pudesse alcançá-lo, Natan se moveu. Sua velocidade era impressionante, um borrão que cruzou a sala em segundos. Ele interceptou o monstro com um corte preciso, a lâmina negra da katana rasgando através do sangue coagulado que compunha o braço da criatura.

O ghoul soltou um grito agudo de dor e fúria, recuando brevemente. Leo, que observava tudo, ficou boquiaberto.

— "Esse garoto... Ele é rápido demais."

Natan não deu tempo para o monstro se recuperar. Ele avançou novamente, desferindo uma série de golpes rápidos e calculados. Cada corte atingia pontos cruciais, desmembrando pedaços do ghoul com precisão. Seus movimentos eram fluidos, quase como uma dança mortal, cada passo e golpe executados com uma maestria que parecia impossível para alguém tão jovem.

A criatura tentou revidar, suas garras rasgando o ar em direção a Natan. Mas o garoto esquivava-se com facilidade, seus reflexos sobre-humanos lhe permitindo desviar de ataques que teriam sido fatais para qualquer outra pessoa. Ele girou a katana em um arco largo, cortando profundamente o peito do monstro, fazendo mais sangue jorrar.

Manco Toco, assistindo a cena, mal conseguia acreditar.

— "Esse moleque... Tá lutando melhor que qualquer soldado que já vi."

Lashy, ainda com o estilingue em mãos, tentava encontrar uma oportunidade para ajudar, mas a luta era rápida demais. Ele sabia que interferir poderia atrapalhar Natan, e por isso, mantinha-se atento, pronto para agir caso necessário.

O ghoul, agora ferido, soltou um rugido de fúria. Sua voz ecoou pela sala, e o sangue ao seu redor começou a se mover, como se estivesse respondendo ao seu chamado. Tentáculos de sangue começaram a emergir do chão, chicoteando em direção a Natan e aos outros.

— "Cuidado!" — Leo gritou, enquanto um dos tentáculos passava raspando por ele.

Natan girou a katana, cortando um dos tentáculos que se aproximava. Ele olhou para os outros, seus olhos brilhando com determinação.

— "Fiquem atrás de mim." — sua voz era fria, mas firme. — "Eu vou acabar com isso."

Leo levantou a doze, mirando com precisão nas partes vulneráveis do ghoul de sangue, enquanto Natan continuava a pressionar a criatura com sua katana. O disparo ecoou pela sala, o impacto brutal fazendo com que o monstro vacilasse para trás. Pedaços de carne pútrida e sangue coagulado voaram pelas paredes.

— "Não vou deixar você lutar sozinho, garoto!" — Leo gritou, recarregando a arma com rapidez.

Manco Toco, ao lado, manteve a Glock firme em sua mão, disparando tiros certeiros que atingiam os tentáculos e partes expostas da criatura. As balas perfuravam o monstro, que rugia de dor a cada disparo.

— "Vamos acabar com essa aberração juntos!" — Manco exclamou, sentindo a adrenalina correr por seu corpo.

Lashy, mantendo-se em movimento constante, alternava entre disparos rápidos e precisos. Ele mirava nos olhos e na cabeça do ghoul, buscando desestabilizá-lo a cada tiro do estilingue. Cada projétil que acertava o monstro abria pequenas brechas que Natan aproveitava com precisão mortal.

— "Vocês abrem o caminho, e eu corto a cabeça!" — Natan disse, os olhos vermelhos fixos no monstro.

O grupo agora trabalhava em perfeita sincronia. Leo dava suporte com a força bruta da doze, cada tiro empurrando o ghoul para trás. Manco Toco complementava com disparos rápidos da Glock, mantendo os tentáculos afastados. Lashy, com uma calma quase sobre-humana, mirava nos pontos críticos, enfraquecendo ainda mais a criatura.

Natan, no centro do caos, era o fio da espada que guiava a batalha. Ele avançava sem hesitar, cada movimento fluido e preciso, como se soubesse exatamente onde atacar. Seus golpes eram brutais, cortando profundamente o corpo do ghoul e forçando-o a recuar a cada investida.

A criatura, agora acuada, começou a mudar sua estratégia. Tentáculos de sangue emergiram novamente, chicoteando violentamente em todas as direções. Um deles se lançou em direção a Leo, que saltou para o lado, disparando no ar e destruindo o tentáculo antes que pudesse alcançá-lo.

— "Esses tentáculos estão ficando mais agressivos!" — Leo avisou, recarregando rapidamente.

Manco Toco desviou de outro tentáculo que quase o acertou, respondendo com uma rajada de tiros que fez o monstro estremecer.

— "Não podemos deixar ele se regenerar! Continuem pressionando!"

Lashy deu um passo à frente, aproveitando uma abertura criada por Natan. Ele mirou no peito da criatura e disparou, um tiro certeiro que fez o ghoul cambalear.

— "Agora, Natan!" — Lashy gritou.

Natan viu a oportunidade. Com um salto ágil, ele se lançou no ar, girando a katana em um arco perfeito. O brilho da lâmina refletiu a luz fraca do corredor antes de atingir o pescoço do ghoul. Um corte limpo e profundo, que fez a cabeça da criatura se separar parcialmente do corpo.

O ghoul soltou um último grito de agonia, mas ainda não estava completamente derrotado. Seus tentáculos se debatiam freneticamente, tentando agarrar qualquer coisa em seu alcance.

— "Ainda não acabou!" — Leo rosnou, preparando-se para o golpe final.

A sala tremia com o caos, mas o grupo não mostrava sinais de recuar. A vitória estava próxima, e eles sabiam que, juntos, poderiam derrubar até mesmo a criatura mais horrenda.

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