Adrian tentou mais uma vez ajustar o rádio, girando o dial com cuidado, enquanto caminhavam pelos corredores escuros e empoeirados do orfanato. Apenas estática. Um chiado constante e irregular preenchia o ar, frustrando cada tentativa de contato.
— Equipe A, respondam. Aqui é Adrian. Estão aí? — sua voz, baixa e controlada, era engolida pelo ruído estático.
Léo, ao seu lado, olhou ao redor com um olhar preocupado, o corredor vazio parecia se estender infinitamente, cada sombra dançando com intenções ocultas.
— Nada... — Adrian suspirou, desligando o rádio. — Devemos continuar. Eles podem estar fora de alcance.
Will, atento e sempre observador, assentiu, seus olhos avaliando cada canto do espaço à frente. — Se perderam no sinal. Não quer dizer que algo tenha acontecido. — Ele tentava manter a calma, mas havia uma tensão crescente em seu tom.
Lashy, entretanto, parou por um momento. Algo chamou sua atenção, um som suave e quase imperceptível. Uma voz feminina, sussurrada, o chamou pelo nome.
— Lashy...
Ele virou a cabeça lentamente, mas não viu ninguém. Seus olhos varreram o corredor à sua esquerda, a luz fraca tremeluzindo nas paredes desgastadas.
— Vocês ouviram isso? — perguntou ele, sua voz saindo em um murmúrio tenso.
— Ouvir o quê? — Adrian olhou para trás, os olhos franzidos em desconfiança.
Lashy hesitou. A voz soava... familiar. **Convidativa, mas estranha**, como um eco distante, algo que mexia com suas memórias, mas que ele não conseguia localizar.
— Nada... deve ter sido só minha cabeça. — Mas seu corpo dizia o contrário. Os passos ficaram mais lentos, os olhos mais atentos ao espaço ao redor.
Enquanto o grupo continuava avançando, Lashy sentiu novamente. A voz. Agora mais clara, mais próxima.
— Lashy... venha... estou esperando...
O chamado fez seu peito apertar, a respiração acelerar. Ele olhou de relance para os outros, mas ninguém parecia ter notado. Eles estavam focados, avançando, atentos ao caminho à frente.
Sem perceber, seus pés começaram a segui-la. Cada passo que dava parecia guiá-lo para longe do grupo, sem que ele soubesse o porquê. Como se aquela voz tivesse algo importante, algo que ele precisava ver.
Passos suaves. Um após o outro.
Logo, ele se viu em um corredor diferente, mais estreito e úmido, as paredes cobertas por musgo e rachaduras. O cheiro de mofo e ferrugem era forte, mas a voz continuava, levando-o cada vez mais longe.
Até que finalmente chegou a uma porta velha, de madeira escura, parcialmente aberta. O lugar parecia abandonado há muito tempo, mas havia algo... vivo ali dentro. Lashy empurrou a porta devagar, e ela rangeu em protesto.
O ambiente do outro lado era um quarto pequeno, repleto de caixotes de madeira empilhados contra as paredes. O chão estava coberto por poeira e teias de aranha, e o ar era pesado e sufocante. A única iluminação vinha de uma janela estreita no alto da parede, por onde a luz fraca da lua entrava.
Por um momento, o silêncio tomou conta do espaço.
Então, um dos caixotes, no fundo do quarto, se mexeu.
A madeira rangeu levemente, como se algo estivesse lá dentro, tentando sair. O movimento foi breve, mas suficiente para fazer o coração de Lashy disparar. Ele deu um passo para trás, instintivamente, os olhos fixos naquele caixote.
— Quem está aí? — ele perguntou, tentando manter a voz firme, mas o tremor sutil na última palavra o traiu.
O caixote permaneceu imóvel por alguns segundos, mas a sensação de que algo o observava era intensa. Lashy apertou o estilingue com força nas mãos, o único objeto que tinha para se defender. Ele sabia que não era uma arma convencional, mas era tudo que precisava, como Davi contra Golias.
Respirando fundo, deu um passo hesitante para frente. Depois outro. O chão rangia sob seus pés. A cada passo, ele sentia como se algo estivesse crescendo dentro de si — uma mistura de medo e determinação.
Quando estava a poucos passos do caixote, ele parou. O silêncio agora era absoluto, quebrado apenas pelo som abafado de sua respiração.
Com uma mão trêmula, ele puxou o elástico do estilingue, pronto para atirar no que quer que estivesse ali. Então, com o coração batendo forte no peito, ele se aproximou ainda mais, cada movimento milimetricamente calculado.
O caixote se mexeu novamente, um pouco mais forte desta vez.
Lashy engoliu em seco, seu dedo firme no estilingue, os olhos fixos na caixa.
— Seja o que for... vou estar pronto. — ele sussurrou para si mesmo, enquanto dava o último passo, esticando a mão lentamente em direção à tampa do caixote.
O coração de Lashy quase parou quando a tampa do caixote abriu de repente, revelando não um monstro, mas um garoto. Ele parecia ter cerca de oito anos, pequeno e frágil, mas havia algo nele que fazia o ar ao redor ficar pesado. O menino tinha cabelos curtos, desgrenhados, escuros como uma noite sem estrelas, caindo sobre o rosto e cobrindo parcialmente um dos olhos. O olho visível era de um vermelho intenso, brilhando na penumbra como uma chama que nunca se apaga, enquanto sua pele pálida, quase azulada, refletia a luz fraca do quarto.
Por um momento, os dois apenas se encararam, o silêncio sendo quebrado apenas pela respiração pesada de Lashy.
— Qual... qual o seu nome? — Lashy perguntou, tentando controlar o tremor na voz, ainda com o estilingue pronto.
O garoto o observou com um olhar melancólico e distante, como se estivesse em um mundo próprio. Então, após um longo momento, respondeu de forma calma, mas fria:
— Natan.
A simplicidade com que ele disse o nome fez Lashy sentir um calafrio na espinha. Algo em Natan parecia... fora do lugar. Como se ele estivesse ali há tempo demais.
— O que você está fazendo aqui, Natan? — Lashy tentou se aproximar lentamente, abaixando o estilingue. — É perigoso ficar sozinho.
Natan não respondeu imediatamente. Ele desviou o olhar para o chão, seus olhos vermelhos perdidos em pensamentos. Lashy, ainda tenso, deu mais um passo.
— Você não entende. — A voz de Natan era baixa, quase um sussurro. — Eles... eles me trouxeram aqui.
— Eles? Quem? — Lashy insistiu, tentando entender.
Natan suspirou, sua expressão inalterada, mas seus olhos brilharam com uma dor contida. — Aquela coisa. A criatura que rasteja. Ela nos arrastou para cá. Eu... Eu estava com meus pais. Eles não conseguiram escapar. Ela... os devorou.
As palavras do menino soaram como um soco no estômago de Lashy. Ele tentou dizer algo, mas a voz ficou presa.
— E você? Como sobreviveu? — Lashy perguntou depois de um momento de silêncio.
— Me escondi... aqui. — Natan apontou para os caixotes. — Ela não me viu. Eu fiquei quieto. Muito tempo... até vocês chegarem.
Lashy respirou fundo. A dor nos olhos de Natan era inconfundível. Mesmo sendo tão jovem, ele já tinha visto mais do que qualquer criança deveria. Ele hesitou por um segundo antes de se ajoelhar à altura do garoto.
— Nós vamos sair daqui. Você vem comigo. — A tentativa de ser convincente foi difícil, o menino parecia hesitar, sua mente presa entre a dor do que viveu e a incerteza do futuro.
Após um longo silêncio, Natan assentiu lentamente. Havia uma desconfiança natural, mas a necessidade de sobreviver falou mais alto.
Antes de sair do quarto, Lashy vasculhou rapidamente o restante dos caixotes, procurando qualquer coisa que pudesse ser útil. Em um dos caixotes, encontrou uma katana preta, a lâmina fina e afiada ainda reluzindo sob a fraca luz. Ele olhou para a espada por um instante antes de mostrá-la a Natan.
— Sabe usar isso? — Lashy perguntou.
O menino olhou para a katana com uma familiaridade desconcertante. — Meu pai... ele era professor de kendo. Ele me ensinou.
Lashy observou a firmeza no olhar de Natan ao segurar a katana. Não havia dúvida, apenas habilidade contida em um corpo pequeno.
— Então é sua. Vamos sair daqui juntos.
Eles mal haviam saído do quarto quando o som de passos lentos e arrastados ecoou pelo corredor. Um zumbi de carne emergiu das sombras, os olhos mortos fixos nos dois. Lashy agiu rápido, puxando o estilingue, mirando com precisão e atirando uma pedra diretamente na cabeça do zumbi. O projétil acertou com força, quebrando o crânio e derrubando o monstro ao chão com um som oco.
— Vamos, rápido! — Lashy puxou Natan pela mão, mas outro zumbi apareceu, mais rápido que o anterior. Antes que pudesse reagir, o monstro avançou, suas unhas sujas e afiadas rasgando o braço de Lashy, que gritou de dor, cambaleando para trás.
O zumbi avançava para um segundo golpe quando Natan se moveu. Em um movimento preciso e calculado, ele girou a katana nas mãos pequenas, avançando com uma técnica impecável. A lâmina cortou o ar com um assobio baixo antes de atingir o pescoço do zumbi, decepando-o com um golpe limpo. O corpo caiu com um baque pesado.
Lashy, pressionando a mão sobre o ferimento no braço, olhou incrédulo para Natan, que permanecia firme, o olhar frio e sério.
— Você... você fez isso. — Lashy estava surpreso, a dor no braço momentaneamente esquecida.
Natan se ajoelhou ao lado dele, sua expressão ainda impassível. — Minha mãe... era médica. Ela me ensinou algumas coisas.
Com movimentos rápidos e eficientes, Natan rasgou um pedaço da camisa de Lashy e improvisou um curativo para estancar o sangramento.
— Isso vai ajudar. — Natan murmurou, seus olhos vermelhos fixos no ferimento, sem tremer, como se tivesse feito isso inúmeras vezes antes.
Lashy, ainda respirando com dificuldade, olhou para o menino à sua frente. Tão jovem, mas tão calejado. E naquele momento, Lashy percebeu que Natan era mais do que apenas uma criança assustada. Ele era um sobrevivente, forjado no horror daquele lugar.
— Vamos continuar. — Natan disse calmamente, a katana ainda firme em suas mãos pequenas.
Lashy assentiu, tentando ignorar a dor. — Sim... vamos sair daqui juntos.
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Atualizado até capítulo 37
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