O silêncio pesado e sufocante que tomou conta da tubulação após a morte de Gabriel e Ana foi rapidamente interrompido por um som que fez o sangue de todos gelar: passos arrastados, gemidos grotescos e o som viscoso de carne se movendo.
— Eles estão vindo... — murmurou Cleberson, seus olhos fixos em algo que apenas ele podia ver com o ritual Visão Vivida. A energia paranormal no local pulsava com intensidade, e ele sabia que estavam cercados. — Zumbis de carne. Muitos. Preparem-se!
De dentro das sombras das tubulações, 23 zumbis de carne emergiram, criaturas deformadas, seus corpos compostos por músculos expostos, pele retorcida e veias pulsando como se fossem fios elétricos prestes a explodir. Alguns rastejavam no chão, deixando para trás rastros de sangue e muco ácido, enquanto outros vinham de pé, com braços alongados terminando em garras afiadas.
— Kath, encontre uma posição elevada! Cleberson, cobre Tesla! Arthur, comigo! — Manco Toco, mesmo ferido, assumiu o comando improvisado.
Kath rapidamente escalou uma plataforma lateral da tubulação, posicionando sua sniper enquanto ajustava o foco. Arthur empunhou o cano de metal com força, os nós dos dedos brancos de tanto apertar, enquanto Cleberson girava suas duas facas grandes, pronto para atacar.
Os primeiros zumbis investiram em um ataque desordenado. Kath, de cima, foi a primeira a agir.
— Alvo na mira...
BANG! A cabeça de um dos zumbis explodiu em um borrão vermelho, mas a criatura não caiu imediatamente. Cambaleou por alguns segundos antes de desabar.
— São resistentes! Mire no núcleo deles! — gritou Cleberson ao perceber que cada zumbi tinha um coração pulsante de carne enegrecida visível no peito.
Dois zumbis avançaram contra Arthur. Ele usou o cano de metal para bloquear o ataque de um, girando rapidamente para acertar o outro na lateral da cabeça, derrubando-o momentaneamente. Mas o primeiro zumbi agarrou o cano com força.
— Maldito... Larga! — Arthur puxou o cano de volta com força, empurrando o zumbi contra a parede e esmagando seu crânio.
Enquanto isso, três zumbis cercaram Tesla e Cleberson. Cleberson ativou a Visão Vivida por reflexo, suas pupilas dilatando enquanto ele via a energia sombria dos zumbis se movimentando como fios invisíveis. Ele se esquivou rapidamente de um ataque, suas facas cortando o tendão de uma das criaturas.
— Tesla, à direita! — avisou Cleberson.
Tesla ergueu as mãos, murmurando o Ritual de Reversão de Sangue. Veias negras apareceram em suas mãos enquanto ele roubava o sangue da criatura, causando dor suficiente para desacelerá-la. A criatura tropeçou, permitindo que Cleberson cravasse uma das facas no núcleo do monstro.
— Um a menos! — Cleberson puxou a faca de volta, o sangue negro espirrando no chão.
Mais zumbis apareceram, forçando o grupo a recuar para um espaço mais estreito. Kath disparava tiros precisos de sua sniper, derrubando os zumbis que tentavam flanquear o grupo.
— Dois à esquerda, Arthur! — ela gritou.
Arthur correu para interceptar, girando o cano com força contra um dos zumbis, acertando seu núcleo com precisão. O outro zumbi avançou com uma velocidade inesperada, arranhando o braço dele.
— Droga! — Arthur recuou, sentindo o sangue escorrer, mas não parou. Ele girou o cano em um golpe lateral, derrubando o inimigo.
Tesla correu para ele, ativando o Ritual de Reversão de Sangue novamente. O ferimento no braço de Arthur começou a fechar lentamente, enquanto o zumbi caído se contorcia em agonia.
— Valeu, Tesla! — Arthur sorriu de forma cansada.
Enquanto cobria o grupo, Kath sentiu algo errado. Um zumbi havia escalado silenciosamente pela lateral da plataforma. Ele estava quase em cima dela.
— Kath! Cuidado! — gritou Manco Toco.
Ela se virou a tempo de disparar, mas o zumbi a empurrou. Eles caíram juntos da plataforma. No impacto, ela perdeu a sniper. O zumbi tentou mordê-la, mas Kath, rápida, puxou uma faca pequena que tinha escondida e cravou no olho da criatura.
— Sai de cima de mim, maldito! — Ela empurrou o corpo para o lado, levantando-se rapidamente.
Arthur apareceu logo depois, ajudando-a a levantar.
— Você tá bem?
— Estou. Mas eles continuam vindo...
Restavam poucos zumbis, mas eles eram os mais fortes. Um deles, maior que os outros, avançou contra Tesla e Cleberson.
— Esse é meu! — disse Cleberson, seus olhos ainda brilhando com a Visão Vivida. Ele se esquivou dos golpes rápidos da criatura, movendo-se com agilidade impressionante.
Tesla usou o Ritual para enfraquecer o monstro, enquanto Cleberson, em um movimento preciso, cravou as duas facas simultaneamente no núcleo da criatura. O zumbi explodiu em uma nuvem de sangue e carne.
Arthur, ao lado de Kath, encarou o último zumbi. Com um golpe coordenado, ele bateu com o cano na cabeça da criatura enquanto Kath cravava sua faca no coração. O monstro caiu, finalmente derrotado.
Todos respiravam pesadamente, feridos, exaustos, mas vivos.
— Conseguimos... — murmurou Kath, olhando para os corpos espalhados ao redor.
Arthur limpou o sangue do rosto e olhou para a tubulação escura à frente.
— Mas por quanto tempo?
Exaustos, cobertos de ferimentos e com a respiração pesada, o grupo continuou avançando pelas tubulações escuras e úmidas. Cada passo era um desafio, cada som ecoava com a promessa de novos perigos. Arthur, ainda ressentido por ter desmaiado durante a luta, liderava o caminho ao lado de Cleberson, que ainda mantinha uma expressão séria, atento a qualquer ameaça.
— Temos que achar uma saída logo... — disse Kath, limpando o sangue seco que escorria de um corte na testa. — Ninguém aqui aguenta mais uma luta assim.
Tesla, ao lado de Kath, carregava o corpo pequeno de Ana nos braços, enquanto Arthur e Cleberson dividiam o peso do corpo de Gabriel. O silêncio entre eles era pesado, carregado pela dor e pelo sentimento de impotência.
Finalmente, após o que pareceram horas de caminhada, eles avistaram uma luz fraca à frente.
— Ali! — apontou Tesla, sua voz carregando um misto de alívio e urgência.
A luz vinha de uma abertura na parede da tubulação. Quando se aproximaram, perceberam que ela desembocava em um rio negro, cuja água corria suavemente pela paisagem desolada. Era a saída que tanto precisavam.
Sem hesitar, Arthur foi o primeiro a entrar na água, sentindo o frio cortante envolver seu corpo. Cleberson, Kath e Tesla seguiram logo atrás, cada um lutando contra o cansaço e o peso das correntes. O grupo nadou em silêncio, os corpos de Gabriel e Ana cuidadosamente mantidos acima da superfície.
O trajeto foi curto, mas cada braçada parecia uma eternidade. Quando finalmente alcançaram a outra margem, caíram na terra úmida, ofegantes e completamente exaustos.
Por alguns minutos, ninguém se moveu. O silêncio foi interrompido apenas pelo som da água corrente e do vento suave que soprava entre as árvores próximas. Arthur, com um esforço final, se levantou.
— Não podemos deixá-los aqui assim... — disse ele, olhando para os corpos pálidos de Gabriel e Ana. — Eles merecem um descanso digno.
— Concordo... — murmurou Kath, seus olhos marejados de lágrimas que ela se esforçava para conter.
Com as mãos trêmulas e corpos doloridos, eles começaram a cavar duas covas nas margens do rio. A terra era pesada e úmida, mas ninguém reclamou. Cada pá de terra era um gesto de respeito, um ato de despedida para as duas crianças que não deveriam ter conhecido aquele destino.
Quando as covas ficaram prontas, Tesla, com cuidado, colocou o corpo de Ana em uma delas, enquanto Arthur e Cleberson depositaram **Gabriel** na outra. Kath se ajoelhou ao lado das sepulturas, respirando fundo antes de falar:
— Desculpem... Por não termos chegado antes. Por não termos conseguido salvá-los.
O silêncio foi a única resposta.
Arthur, com o olhar fixo no horizonte, pegou uma pequena pedra lisa e colocou sobre o túmulo de Gabriel. Em seguida, fez o mesmo no de Ana.
— Que eles encontrem paz... Onde quer que estejam. — disse ele, a voz baixa, mas firme.
Tesla, com o rosto ainda marcado pelo choque e a tristeza, murmurou uma prece antiga, enquanto Cleberson permaneceu de pé, observando a água correr, perdido em pensamentos.
— Vamos voltar. — Cleberson finalmente quebrou o silêncio. — A equipe B pode cuidar do resto. Fizemos tudo o que podíamos.
Sem dizer mais nada, o grupo reuniu suas forças e começou a caminhada de volta para a Oculta. O caminho parecia mais longo, o peso do que presenciaram refletindo em cada passo dado. Mas eles sabiam que precisavam seguir em frente.
Ao se afastarem das margens do rio, Kath olhou uma última vez para trás, para as duas pequenas pedras que marcavam o lugar onde haviam enterrado Gabriel e Ana.
— Vocês estarão livres agora... Livres para ver o céu. — ela sussurrou, antes de se virar e seguir em frente com o grupo, desaparecendo entre as sombras da floresta.
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Atualizado até capítulo 37
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