Manco Toco estava sentado em uma lanchonete simples, o cheiro de óleo quente e hambúrgueres grelhados preenchendo o ar. Sua camisa estava rasgada e manchada de sangue seco, resultado da batalha recente. Apesar de ter feito os primeiros socorros em si mesmo, ainda sentia dores pelo corpo, especialmente no braço ferido. Diante dele, um prato com um hambúrguer pela metade e uma porção de batatas fritas esfriava lentamente, intocado nos últimos minutos.
Ele tamborilava os dedos na mesa, distraído, enquanto seus olhos fitavam a entrada da lanchonete. A Glock que Kath havia lhe dado estava presa em seu coldre improvisado, um lembrete constante de que o perigo ainda não havia terminado.
Apesar de saber que a equipe A estava a caminho da Oculta, seus pensamentos estavam fixos na equipe B. Lashy, Adrian, Will e Leo... Algo não parecia certo. O rádio havia ficado mudo, e o último contato foi apenas um chiado estranho e inquietante.
— Droga... — murmurou para si mesmo, passando a mão pelo rosto cansado. — Eu devia ter ido com eles.
Uma sensação incômoda de responsabilidade pesava sobre seus ombros. Ele sempre foi alguém que preferia agir sozinho, mas agora, havia se tornado parte de algo maior. E essa conexão o puxava de volta.
Respirando fundo, Manco Toco puxou o celular do bolso e abriu o aplicativo de transporte. Seus dedos hesitaram por um segundo antes de confirmar o destino: Orfanato São Gabriel. Ele sabia que estava cansado, sabia que poderia ser perigoso, mas não podia deixar seus companheiros para trás.
O carro chegou rapidamente, um sedã preto com vidros escurecidos. Ele entrou, ajustando a Glock discretamente na cintura, e deu um breve aceno ao motorista.
— Orfanato São Gabriel? — perguntou o motorista, lançando-lhe um olhar curioso pelo retrovisor.
— Sim. E rápido. — respondeu Manco Toco, a voz firme, mas serena. Ele olhou pela janela enquanto o carro acelerava pelas ruas escuras da cidade, cada quilômetro o aproximando do desconhecido.
Enquanto a cidade ficava para trás, os seus pensamentos continuaram a girar em torno da equipe B e do que poderia estar a acontecer naquele lugar esquecido. Ele sabia que algo estava errado. E mesmo que não fosse um herói típico, sabia ter que voltar. Não apenas para lutar, mas para garantir que todos saíssem vivos daquele pesadelo.
Manco Toco desceu do carro diante do Orfanato São Gabriel, suas botas esmagando pequenas poças de água na calçada. O prédio antigo estava envolto por uma atmosfera densa e pesada, como se o próprio local tivesse vida. Ele respirou fundo, sentindo o peso da decisão de voltar, e cruzou os portões enferrujados.
Ao entrar, o cheiro familiar de mofo e podridão invadiu suas narinas, mas ele ignorou, seus olhos analisando cada canto. Seguindo seu instinto, decidiu subir as escadas rangentes até o andar superior. Cada passo parecia ecoar pelo vazio, mas ele não hesitou.
No fim de um corredor escuro, encontrou Leo, encostado em uma parede com sua espingarda calibre 12 em mãos. O soldado experiente estava alerta, os olhos atentos a cada sombra que se movia.
— Manco Toco? O que você está fazendo aqui? — Leo perguntou, a voz baixa e controlada, mas com um leve tom de surpresa.
— Decidi voltar. Algo não me parecia certo... e estava certo. A equipe A foi para a Oculta, mas a B... vocês sumiram. — Manco Toco respondeu, olhando ao redor. — Adrian e Will entraram por uma porta estranha e desapareceram. Não consegui contato com ninguém.
Leo franziu a testa, preocupado, e assentiu.
— Droga... Isso explica o silêncio no rádio. — Ele ajustou a espingarda em mãos. — Precisamos achá-los e sair daqui. Esse lugar está mais errado do que parece.
Manco Toco concordou, e os dois começaram a vasculhar o corredor. As paredes estavam cobertas de manchas escuras, e o ar parecia mais pesado a cada passo. Eles se moviam com cuidado, atentos a qualquer ruído.
Enquanto verificavam uma das salas abandonadas, o som de algo se arrastando no corredor os fez parar. Zumbis de carne surgiram da escuridão, seus corpos grotescos e deformados se movendo em direção a eles, olhos vazios e bocas abertas em um sorriso perturbador.
— Merda... Eles vieram nos dar boas-vindas. — Leo disse com um sorriso sarcástico, erguendo a espingarda.
— Vamos acabar com isso rápido. Não quero mais surpresas. — Manco Toco sacou a Glock, o olhar frio.
O corredor se encheu com o estrondo dos tiros. Leo disparou a espingarda com precisão mortal, cada tiro ecoando enquanto os zumbis eram despedaçados. A força das balas arrancava pedaços dos monstros, mas eles continuavam avançando, famintos.
Manco Toco, com movimentos precisos, disparava a Glock em tiros curtos e certeiros, mirando nas cabeças deformadas. Dois zumbis caíram rapidamente, mas outros surgiam, atraídos pelo barulho.
Leo avançou, golpeando um dos zumbis com a coronha da espingarda, esmagando-lhe o crânio com um estalo grotesco. Outro monstro tentou agarrá-lo, mas Manco Toco disparou rapidamente, salvando o soldado de ser mordido.
— Esses desgraçados não param! — Leo gritou, recarregando a espingarda com destreza.
— Continue atirando! Não podemos deixar nenhum vivo! — Manco Toco respondeu, disparando contra outro zumbi que se aproximava.
A batalha foi intensa, mas os dois eram habilidosos e experientes. Em questão de minutos, os zumbis estavam caídos ao chão, seus corpos grotescos espalhados pelo corredor.
O silêncio voltou a dominar o lugar, mas o cheiro de pólvora e carne podre permaneceu.
Antes que pudessem relaxar, passos rápidos ecoaram pelo corredor. Lashy e Natan apareceram correndo, alertados pelos tiros.
— Manco! Leo! O que está acontecendo? — Lashy perguntou, ofegante, segurando seu estilingue com uma pedra já preparada.
Natan, ao lado dele, segurava firmemente a katana negra, o olhar frio e determinado, mas uma sombra de curiosidade passava por seus olhos vermelhos ao ver os dois homens.
— Zumbis. Limpamos o corredor. — Manco Toco respondeu, guardando a Glock. — Mas isso não é bom... Estamos atraindo atenção demais. Precisamos achar Adrian e Will e sair daqui.
Natan deu um passo à frente, os olhos fixos nos corpos dos zumbis.
— Ainda há mais dessas coisas neste lugar... Eu posso sentir. — ele disse, a voz fria, mas com uma fúria contida. — E vou acabar com todos eles.
Lashy lançou um olhar para Manco Toco e Leo, sabendo que a vingança ardia no garoto. Eles estavam longe de terminar.
Leo observou o garoto por alguns segundos, franzindo a testa. O menino tinha uma postura firme, olhos intensamente vermelhos e uma expressão que parecia pertencer a alguém muito mais velho. Segurava a katana negra com uma naturalidade perturbadora, como se já tivesse enfrentado coisas muito piores do que qualquer criança deveria.
— Lashy, quem é esse garoto? — Leo perguntou, ainda avaliando Natan com um olhar crítico.
Lashy suspirou, ajeitando o estilingue no bolso.
— Ele se chama Natan. Estava preso aqui... A criatura que matou os pais dele o deixou para trás. Mas ele não é uma criança comum. Consegue se defender, Leo. Acredite, ele sabe o que está fazendo.
Leo bufou, descrente.
— Não importa o quão bem ele luta. Aqui não é lugar para uma criança. Isso não é brincadeira, Lashy. Ele pode morrer.
Natan permaneceu em silêncio, mas seus olhos vermelhos brilharam com um leve toque de irritação. Ele apertou a katana com mais força.
Leo deu um passo à frente, os olhos fixos na espada.
— Olha, garoto... Isso aqui não é pra você. Me dá essa espada e sai daqui. Vamos cuidar disso.
Natan levantou o olhar, firme, sem se mover.
— Eu já disse. Não vou sair. — Sua voz era fria, firme, quase sem emoção.
Leo tentou se aproximar rapidamente e pegar a espada, mas Natan se esquivou com agilidade surpreendente, recuando um passo para fora de seu alcance.
— Droga... Você é rápido. — Leo comentou, irritado, mas ainda mantendo um tom calmo. — Tudo bem, você pode ficar.
Ele deu de ombros, fingindo relaxar. O soldado esperou até que o garoto baixasse um pouco a guarda. Quando viu uma abertura, agiu rapidamente, avançando para imobilizá-lo com um golpe preciso, com a intenção de desmaiá-lo.
Mas Natan não era uma criança comum.
Antes que a mão de Leo pudesse alcançá-lo, Natan girou rapidamente, agarrando o braço de Leo com uma precisão cirúrgica. Ele torceu o braço do soldado, forçando-o a se ajoelhar, enquanto aplicava pressão em um ponto específico.
Leo sentiu uma dor aguda e intensa subir pelo braço, seus músculos gritando em protesto.
— Porra...! — Leo grunhiu, tentando se soltar, mas a força do garoto era impressionante. Cada movimento que tentava fazer só aumentava a pressão.
Natan inclinou-se levemente, os olhos frios encarando Leo de perto.
— Não tente me parar. — Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas carregava uma determinação inabalável. — Eu vou matar todos eles. Eu vou terminar o que meus pais não puderam.
Leo, mesmo com a dor, percebeu que se o garoto aplicasse mais um pouco de força, seu braço estaria quebrado. Ele respirou fundo, desistindo da tentativa de dominá-lo.
— Tudo bem, garoto. Você venceu. — Leo disse, forçando um sorriso enquanto Natan finalmente soltava seu braço. — Você aguenta. Admito.
Ao se levantar, massageando o braço dolorido, Leo lançou um olhar curioso e impressionado para Natan. Por mais que não dissesse em voz alta, em sua mente ecoava uma única conclusão:
“Esse moleque... Ele não é normal. Com um pouco mais de força, ele teria quebrado meu braço.”
Agora, Leo não via mais apenas uma criança. Ele via um guerreiro. E isso o deixou inquieto.
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Atualizado até capítulo 37
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