O som dos passos ecoou pela tubulação, cada batida pesada contra a superfície de metal fazendo o grupo se preparar para o pior. Kath segurou sua arma com firmeza, enquanto Cleberson, ainda sentindo os resquícios de dor, ajustava sua postura para proteger os outros. Manco Toco, mancando levemente, segurou sua perna ferida, mas manteve-se alerta.
Quando as figuras surgiram na luz fraca que iluminava o túnel, todos relaxaram imediatamente. Não eram monstros, mas duas crianças.
O mais velho, um garoto, aparentava ter cerca de 13 anos. Ele era magro, com cabelos negros bagunçados que desciam até os ombros, claramente sem cortes há meses. Sua pele pálida estava marcada por sujeira e pequenos arranhões, e seus olhos castanhos estavam fundos, cercados por olheiras escuras que revelavam noites sem descanso. Vestia uma camiseta surrada e desbotada, com calças de moletom rasgadas nos joelhos e tênis velhos.
A menina, que parecia ser apenas um pouco mais nova, tinha os cabelos castanhos claros presos em um rabo de cavalo desalinhado. Sua pele também estava pálida e manchada de sujeira, mas seus olhos verdes tinham um brilho inquieto de esperança misturado com medo. Ela vestia um vestido azul simples que estava sujo e rasgado na barra, junto com meias que pareciam ter sido brancas um dia, mas agora estavam cinzas de sujeira.
Ambos estavam descalços, com os pés cobertos por cortes e hematomas. O garoto, claramente protetor, segurava a mão da irmã firmemente.
O garoto deu um passo à frente, sua voz trêmula mas determinada.
— Vocês... não são como as coisas que rastejam aqui, são?
Kath, abaixando a arma com cuidado, tentou parecer menos intimidante.
— Não, não somos. Somos pessoas como vocês. Qual é o nome de vocês?
O menino hesitou antes de responder.
— Eu sou Gabriel, e essa é minha irmã, Ana. Estamos presos aqui há... — Ele parou, franzindo a testa, como se tentasse lembrar. — Acho que faz mais de quatro meses.
Cleberson franziu o cenho.
— Quatro meses? Como sobreviveram por tanto tempo aqui?
Gabriel apertou mais forte a mão de Ana, que ficou em silêncio, escondendo-se parcialmente atrás dele.
— Há... coisas aqui. Monstros. Mas às vezes, elas... deixam comida. Como se quisessem que a gente sobrevivesse.
Ana finalmente falou, sua voz baixa e hesitante.
— Tem algo se rastejando... algo grande. Mas a gente nunca viu o que é. Só ouve os sons.
Arthur, que começava a recobrar a consciência, olhou para eles com um sorriso fraco.
— Bem, pelo menos vocês estão vivos. Isso é um começo.
Kath se ajoelhou para ficar na altura dos irmãos, falando com gentileza.
— Nós vamos tirar vocês daqui. Mas precisamos de todas as informações que puderem nos dar. O que é essa coisa que rasteja?
Gabriel balançou a cabeça, os olhos arregalados.
— Eu... eu não sei. Só ouvimos o som, como se algo grande estivesse arrastando partes do corpo pelo chão. Às vezes é mais perto, às vezes mais longe.
Ana completou, segurando o braço do irmão.
— E tem vozes. Como... como se fossem muitas pessoas sussurrando juntas.
Um calafrio passou pelo grupo.
Manco Toco suspirou, tentando aliviar o clima.
— Vocês ouviram isso antes da gente chegar aqui?
Gabriel assentiu.
— Sim. O som estava mais forte. Como se estivesse vindo da tubulação à esquerda.
Cleberson, olhando para a tubulação mencionada, estreitou os olhos.
— Então seja o que for, ainda está por aí.
Ana puxou o vestido nervosamente.
— Vocês... podem nos proteger, certo?
Arthur, ainda se recompondo, deu um sorriso confiante.
— É claro. Estamos aqui exatamente pra isso.
Mas no fundo, todos sabiam que isso era apenas o começo. Enquanto Gabriel e Ana se juntavam ao grupo, os sons de algo rastejando ao longe ficaram mais audíveis, como se o monstro soubesse que eles estavam perto
Enquanto o grupo seguia pela tubulação escura e úmida, Kath caminhava ao lado das crianças, aproveitando o tempo para conhecê-las melhor. Ela mantinha um tom suave, tentando aliviar a tensão evidente no rosto de Gabriel e Ana.
— Então, Gabriel, como vocês chegaram aqui? — perguntou, olhando para o garoto com curiosidade.
Gabriel hesitou por um momento, franzindo a testa como se não quisesse se lembrar.
— Nós morávamos em um abrigo... depois que nossos pais morreram. Um dia, fomos brincar lá fora, e... alguém nos pegou. Quando acordamos, estávamos aqui.
Kath franziu o cenho, sentindo uma mistura de tristeza e raiva.
— Vocês eram só crianças brincando. Isso é terrível.
Ana, que segurava a mão de Gabriel com força, olhou para Kath com seus grandes olhos verdes.
— Eu só queria ver o céu de novo... — disse baixinho, com um tom que partia o coração.
Kath se ajoelhou ligeiramente, colocando uma mão no ombro da menina.
— Você vai ver o céu de novo, Ana. Eu prometo.
O pequeno momento de esperança trouxe um sorriso tímido ao rosto de Ana, mas Gabriel parecia menos convencido. Ele olhou para Kath com uma maturidade que era incomum para sua idade.
— Você não pode prometer isso. Esse lugar é diferente. Parece... errado. Como se não fosse um lugar de onde pudéssemos simplesmente sair.
Cleberson, ouvindo a conversa, virou-se para Gabriel enquanto mantinha sua atenção no caminho à frente.
— Errado ou não, nós temos um objetivo aqui. E vocês dois vão sair vivos, custe o que custar.
Arthur, que caminhava mais atrás, ainda se recuperando da pancada que levara, soltou uma risada fraca.
— Cleberson tem razão. Você tem que parar de carregar o peso do mundo nos ombros, garoto. Não é seu trabalho cuidar de tudo sozinho.
Gabriel deu de ombros, mas não respondeu. Era claro que ele sentia o peso da responsabilidade como se fosse um adulto.
Manco Toco, mancando ligeiramente, olhou para Ana e tentou quebrar o clima.
— E você, pequena? O que mais sente falta lá fora?
Ana pensou por um momento antes de responder, com um tom animado apesar das circunstâncias.
— Sinto falta de desenhar. Eu gostava de desenhar flores, animais... o sol. — Ela olhou para Gabriel com um sorriso tímido. — O Gabriel desenha bem melhor que eu, mas ele não quer admitir.
Gabriel corou levemente, mas manteve a expressão séria.
— Não era nada demais. Só fazia isso pra distrair a Ana.
Kath percebeu que, apesar da maturidade de Gabriel, ele era apenas um menino tentando proteger sua irmã. Sua força emocional era admirável, mas também profundamente triste.
— Eu aposto que seus desenhos são incríveis, Gabriel, mesmo que você não queira admitir. Quando sairmos daqui, vocês podem desenhar o quanto quiserem — disse Kath, sorrindo para ele.
Enquanto conversavam, o som de algo rastejando voltou a ser ouvido, desta vez mais próximo. O grupo parou imediatamente, trocando olhares preocupados.
— Está vindo daquela direção... — sussurrou Cleberson, apontando para uma bifurcação à frente, onde uma sombra longa e grotesca se movia lentamente.
Ana apertou a mão de Gabriel com força, e ele deu um passo à frente, como se quisesse protegê-la novamente.
— O que quer que seja, é grande... — murmurou Gabriel, com uma voz quase inaudível.
Arthur, agora mais alerta, preparou sua arma improvisada e olhou para o grupo.
— Certo. Chegou a hora de sermos ainda mais cuidadosos.
Com as crianças entre eles, o grupo avançou em direção ao som, seus corações batendo forte enquanto o rastejar se tornava mais alto.
A criatura emergiu do buraco com um som horrível, como carne sendo rasgada e ossos estalando. Seu torso humano deformado se contorcia em cima de um corpo serpentino coberto de pele apodrecida e escamas brilhantes de muco ácido. A cabeça parecia uma paródia grotesca de um rosto humano, com olhos vazios que brilhavam com uma luz macabra, enquanto uma boca desproporcionalmente grande revelava fileiras de dentes pontiagudos e retorcidos.
O rastro viscoso que deixava queimava lentamente o chão da tubulação, soltando um fedor insuportável de carne queimada e enxofre. Enquanto se aproximava, a criatura falou com uma voz cavernosa e fragmentada, como se cada palavra fosse um esforço:
— Aquele que comanda... trará o caos novamente. Estas... crianças... são tão deliciosas...
Ana segurou o braço de Gabriel com força, o rosto pálido de medo, mas ele se posicionou à sua frente, o olhar firme apesar do tremor em seu corpo.
Arthur rangeu os dentes e avançou com sua arma improvisada, gritando:
— Isso é nojento até para os padrões do inferno!
Manco Toco estendeu a mão, começando a canalizar seu ritual de Reversão de Sangue, mas a criatura moveu-se com velocidade surpreendente, golpeando o chão com sua cauda e espalhando ácido. Todos se jogaram para o lado, mas Gabriel, em um esforço desesperado para proteger Ana, usou seu corpo como escudo. O ácido atingiu o lado esquerdo de seu rosto, queimando profundamente. Ele gritou de dor, mas não se moveu, segurando Ana com força.
— Gabriel! — gritou Kath, correndo para tentar ajudar, mas a criatura avançou, bloqueando seu caminho com a cauda.
Cleberson ativou seu ritual de Aceleração de Pensamento, movendo-se rapidamente para distrair o monstro. Ele girou ao redor da criatura, analisando suas fraquezas enquanto usava um pedaço de metal como arma improvisada, tentando acertar as escamas que protegiam seu corpo inferior.
— Temos que tirá-los daqui! — gritou Cleberson. — Kath, cuide do garoto! Nós seguramos essa coisa!
Arthur tentou atacar a cabeça do monstro, mas foi repelido pela cauda que o arremessou contra uma parede, fazendo-o desmaiar brevemente. Manco Toco finalmente lançou seu ritual, sugando o sangue da criatura. Apesar de se contorcer e rugir, a criatura parecia se regenerar rapidamente, os ferimentos se fechando em questão de segundos.
— Droga! Essa coisa se cura rápido demais! — rosnou Manco Toco.
Ana começou a chorar, tentando segurar o rosto de Gabriel enquanto Kath aplicava os primeiros socorros com pressa. Apesar da dor insuportável, Gabriel continuava imóvel, protegendo a irmã com determinação feroz.
A criatura se ergueu, mais ameaçadora do que nunca, sua língua longa e bifurcada dançando no ar enquanto repetia:
— Vocês não entendem... ele voltará... e todos serão devorados.
O grupo preparou-se para o próximo ataque, sabendo que precisavam encontrar uma maneira de derrubar aquela abominação antes que fosse tarde demais.
A criatura lançou um rugido ensurdecedor, sua cauda chicoteando o ar enquanto avançava novamente. Gabriel, com o rosto queimado e as mãos tremendo, ainda se posicionava entre Ana e o monstro, determinado a protegê-la a qualquer custo.
— Eu não vou deixar você tocá-la! — ele gritou, sua voz firme apesar da dor evidente.
O monstro atacou, sua língua grotesca disparando como um chicote em direção a Gabriel. Ele tentou se esquivar, mas antes que pudesse reagir, Ana gritou:
— Gabriel, cuidado!
Com uma força inesperada, ela puxou o irmão para trás, colocando-se entre ele e o ataque. A língua da criatura atravessou seu peito, rasgando carne e ossos. O grito de dor de Ana ecoou pela tubulação, silenciando momentaneamente todos os outros sons.
— ANA! NÃO! — Gabriel gritou, agarrando o corpo pequeno de sua irmã enquanto ela caía em seus braços.
Kath correu, desesperada, mas sabia que não havia nada que pudesse fazer. O ferimento era fatal, e o sangue de Ana encharcava suas roupas.
— Você está bem agora... Gabriel... — ela sussurrou com dificuldade, um sorriso fraco em seu rosto enquanto lágrimas escorriam. — Obrigada por sempre me proteger...
Com essas palavras, ela fechou os olhos pela última vez. Gabriel, ainda segurando o corpo sem vida da irmã, ficou paralisado por um momento.
O monstro não deu tempo para luto. Ele rugiu novamente, preparando outro ataque. Mas algo dentro de Gabriel mudou. Ele soltou o corpo de Ana com cuidado, lágrimas queimando seu rosto já desfigurado pelo ácido. Seus olhos, antes cheios de medo, agora brilhavam com pura fúria.
Ele pegou um cano de metal jogado no chão, seus dedos firmes apesar das queimaduras e feridas. Sem hesitar, ele avançou contra a criatura.
— VOCÊ VAI PAGAR POR ELA! — ele berrou, sua voz reverberando pelo local.
A criatura tentou atacá-lo com a cauda, mas Gabriel desviou, movendo-se com uma determinação quase sobrenatural. Ele cravou o cano no flanco da criatura, que rugiu em agonia, espirrando ácido por toda parte. Gabriel gritou de dor enquanto o ácido corroía sua pele, mas não parou.
Ele se aproximou ainda mais, o cano enterrando-se mais fundo no monstro. Com um último esforço, ele empurrou o cano até o final, atingindo o núcleo pulsante da criatura. O monstro contorceu-se violentamente, suas forças começando a falhar.
Mas o preço foi alto. O ácido o queimou gravemente, cobrindo seu corpo com feridas abertas. Mesmo assim, Gabriel se arrastou de volta até o cadáver de Ana. Ele a abraçou, ignorando sua própria dor, lágrimas silenciosas escorrendo enquanto murmurava:
— Agora... você pode ver o céu... tanto quanto quiser...
Kath caiu de joelhos, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto murmurava:
— Não pode ser... eles eram só crianças...
Cleberson permaneceu sério, mas o aperto de suas mãos mostrava a raiva e frustração que ele sentia. Manco Toco estava paralisado, sem saber o que fazer, enquanto murmurava algo inaudível, os olhos fixos no chão.
Arthur, que acabara de acordar, gritou de raiva, socando a parede ao perceber o que havia acontecido:
— Droga! Eu devia ter feito mais!
A criatura, agora sem forças, desmoronou em um monte grotesco de carne e ácido, deixando apenas o silêncio e a dor para trás.
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Atualizado até capítulo 37
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