Um dia atrás....
O céu de São Paulo ainda estava encoberto por nuvens cinzentas, resquício da chuva que havia caído algumas horas antes. O ar estava úmido, e as poças de água suja refletiam o brilho das luzes dos postes e dos carros que passavam ao longe. Lashy Sakamoto caminhava despreocupado pelo parque, seus passos ecoando pelo chão molhado.
Ele era um jovem de 16 anos, com uma aparência marcante que o destacava na multidão. Seus cabelos platinados estavam raspados nas laterais, enquanto o topo permanecia bagunçado, com uma franja que quase cobria seus olhos verdes. Havia um brilho gentil em seu olhar, uma espécie de curiosidade inocente misturada com a serenidade de alguém que carregava fé em seu coração. Sua pele bronzeada contrastava com a cruz prateada que pendia em seu colar, um símbolo de sua devoção e das raízes cristãs de sua família.
Lashy usava roupas largas, escolhidas mais pelo conforto do que pela moda. Uma camiseta branca de algodão escondia parcialmente uma corrente com uma cruz, enquanto uma jaqueta preta lhe caía frouxa sobre os ombros. Calças jeans desgastadas completavam o visual, junto com seus tênis brancos sujos de lama. Na diagonal de seu peito, uma mochila de uma alça repousava, carregando o item que ele nunca deixava para trás: sua Bíblia. O jovem Sakamoto, filho de cristãos japoneses devotos, crescera imerso nos ensinamentos das Escrituras e via no livro sagrado uma fonte de força e orientação em cada aspecto de sua vida.
Enquanto caminhava, Lashy percebeu uma criança sentada à beira de um bueiro, soluçando baixinho. Curioso e, como sempre, pronto para ajudar, ele se aproximou.
"Oi, o que aconteceu?" perguntou, ajoelhando-se ao lado do garoto.
"Meu barquinho de papel... caiu ali," respondeu a criança, apontando para dentro do bueiro. Os olhos do menino estavam cheios de lágrimas, e sua expressão era de pura tristeza.
Lashy olhou para o bueiro e viu o pequeno barco de papel flutuando na água suja, preso em uma poça dentro de uma grande galeria de esgoto que se estendia para o desconhecido. Ele sorriu gentilmente para a criança. "Espera aqui. Eu vou buscar para você."
Sem pensar muito nas consequências, ele tentou descer pela lateral, mas não encontrou uma escada. Não querendo desistir, ele se pendurou na borda de uma ponte de concreto, tentando alcançar o chão quatro metros abaixo. No entanto, o lodo e a umidade tornaram a superfície escorregadia, e antes que pudesse se segurar, seus dedos perderam a aderência.
Com um grito abafado, Lashy caiu, o impacto ecoando pelas paredes de concreto da galeria. Sua cabeça bateu forte contra o chão, e tudo ficou escuro. Ele desmaiou ali, sozinho e ensopado pela água suja que escorria das margens.
Quando ele finalmente abriu os olhos, já era noite. O lugar estava envolto em uma escuridão quase palpável, interrompida apenas por um fraco feixe de luz que vinha da rua, bem longe de onde ele estava. O cheiro de podridão era intenso, e o som da água escorrendo ecoava pelas galerias, criando uma sensação de isolamento e derrota. Lashy ainda sentia uma dor latejante na cabeça e tentava se levantar quando notou que não estava sozinho.
A alguns metros dele, de pé na escuridão, havia um homem. O estranho usava um chapéu de aba larga que escondia grande parte de seu rosto. Ele estava imóvel, encostado na parede úmida e suja, uma silhueta vaga no meio da penumbra. O brilho vermelho de um cigarro aceso iluminava brevemente seus traços, revelando um sorriso sinistro e largo. Era um sorriso dourado, os dentes revestidos de ouro que brilhavam em contraste com a escuridão ao redor.
Por um instante, o tempo pareceu parar. O ar ficou mais pesado, e Lashy sentiu um arrepio percorrer sua espinha, como se estivesse diante de algo que não pertencia a este mundo. O cheiro de podridão ficou mais forte, quase insuportável. A fumaça do cigarro enchia o ar com um odor acre e pesado.
O homem não disse nada, apenas continuou a sorrir, o brilho dourado de seus dentes cintilando na escuridão, enquanto o olhar dele parecia perfurar Lashy, deixando-o paralisado no lugar, incapaz de desviar o olhar.
Lashy congelou ao ver aquele sorriso dourado brilhando na escuridão. Seus pensamentos corriam, tentando entender o que estava acontecendo. Ele já havia ouvido histórias de criaturas estranhas nas galerias subterrâneas de São Paulo, mas uma em particular fez seu coração acelerar. **Boca de Ouro**, uma lenda urbana temida entre os moradores. Diziam que era um homem que havia vendido sua alma em troca de riqueza e poder, e que, agora, vagava pelas galerias escuras em busca de almas perdidas para levar consigo. Sua marca registrada? O sorriso dourado e o cheiro insuportável de tabaco que sempre o acompanhava.
"Não pode ser... Isso é só uma lenda," pensou Lashy, tentando se acalmar. Mas o sorriso, o cheiro e o olhar penetrante do homem à sua frente diziam o contrário. A realidade parecia se fundir com o mito naquele instante, e o jovem sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
Sem perder mais tempo, Lashy virou-se e começou a correr pela galeria, seus passos ecoando na água suja. O som reverberava pelos tubos, aumentando a sensação de claustrofobia e urgência. Ele olhou por cima do ombro e viu a silhueta do homem ainda parada, mas seus passos começaram a ecoar logo atrás dele. Cada passo parecia um som de botas pesadas arrastando-se pelo chão, um ritmo lento e deliberado que parecia zombar da pressa de Lashy.
O pavor crescia em seu peito. Ele se movia mais rápido, passando por pedaços de lixo, restos de madeira e detritos que se acumulavam nas laterais. O cheiro de esgoto era quase insuportável, mas o aroma de tabaco podre que o perseguia era ainda pior. Ele sabia que não poderia correr para sempre; as galerias eram um labirinto sem fim.
Finalmente, ele avistou um tubo que se conectava ao caminho que ele seguia. Este descia bruscamente, terminando em um poço de água suja abaixo. Não havia outra rota; ele precisaria se arriscar. Sem hesitar, Lashy se jogou, caindo de barriga na água. O líquido fétido o engoliu, e ele rapidamente se forçou a ficar submerso, prendendo a respiração.
Enquanto ele tentava controlar o pânico, o som dos passos se aproximava. A criatura estava entrando no tubo. Lashy manteve os olhos abertos debaixo d'água, tentando ver alguma coisa, mas a escuridão era total. O único sinal de que não estava sozinho era o cheiro de tabaco e o som do arrastar, cada vez mais perto.
"Venha para mim, garoto..." uma voz sussurrou, rouca e zombeteira. "Está escuro demais aí dentro, não é? Deixe-me iluminar seu caminho..." A voz ecoava de uma maneira distorcida, o som parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo. Uma risada baixa e macabra se seguiu, reverberando nas paredes do tubo. Lashy sentiu o corpo estremecer, cada segundo submerso parecia uma eternidade.
Ele tentou contar o tempo, mas o medo distorcia sua percepção. O ar nos pulmões começava a se esgotar. Ele sabia que precisava resistir.
Minutos se passaram. A pressão na cabeça aumentava, e seus músculos tremiam. Seus lábios estavam fortemente selados, e ele lutava para não engolir a água suja. O cheiro de podridão estava impregnado em seus sentidos, quase como se a própria água estivesse carregada daquele aroma fétido de cigarro velho. Ele desmaiou uma vez, perdendo a consciência por breves segundos. Mas o instinto de sobrevivência o fez acordar rapidamente, um reflexo que o fez abrir os olhos de repente, mantendo-se submerso.
Finalmente, o som dos passos parou. Lashy ouviu a respiração pesada da criatura, como se estivesse farejando o ar. "Você está aqui em algum lugar... Eu sei que está. Não adianta se esconder de mim," sussurrou a voz, cheia de malícia.
Lashy viu um brilho na superfície da água, como a ponta de um cigarro aceso. Ele se esforçou para não se mover, mesmo com a vontade de emergir para respirar queimando seus pulmões. Ele ficou imóvel, como uma estátua debaixo d'água, apenas observando a luz sumir aos poucos. Mais uma vez, ele desmaiou, mas despertou quase instantaneamente com o impacto da dor e o desespero de respirar.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, a criatura finalmente se afastou, o som de seus passos diminuindo. Uma risada baixa e distante ecoou pelos tubos antes de sumir completamente. Lashy esperou um pouco mais, até ter certeza de que estava seguro, antes de emergir com um grande suspiro, inalando o ar fétido e tossindo.
Ele estava ensopado, com frio e tremendo, mas estava vivo. Sua mente corria, pensando em quem poderia ajudá-lo a sair daquele pesadelo. Ele sabia que não conseguiria escapar sozinho.
Com dedos trêmulos, ele abriu sua mochila e pegou o celular. O medo ainda estava impregnado em seus ossos, e ele respirou fundo, tentando se acalmar antes de fazer a ligação.
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Atualizado até capítulo 37
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