No terceiro andar do orfanato, a tensão era quase tangível. Cleberson e Will avançavam cautelosamente pelos corredores escuros, iluminando o caminho com suas lanternas. O ar ali estava ainda mais pesado, saturado de um cheiro rançoso e metálico que fazia seus estômagos revirarem. As portas antigas pareciam sussurrar, como se o próprio prédio estivesse vivo, observando cada movimento deles.
Will parou diante de uma porta entreaberta. O interior parecia ser um antigo quarto de criança, vazio e coberto de poeira. Ele empurrou a porta devagar, o ranger estridente ecoando como um grito de alerta pelo andar. "Vou dar uma olhada aqui. Mantenha a cobertura", disse ele para Cleberson, que assentiu, ficando de vigia do lado de fora.
O quarto era pequeno e minimalista, com uma cama de ferro enferrujada encostada na parede e um espelho grande, parcialmente coberto de manchas escuras, pendurado acima de uma cômoda. Will começou a vasculhar o lugar, verificando gavetas e procurando qualquer pista que pudesse explicar os desaparecimentos. O silêncio era opressivo, apenas o som de sua própria respiração preenchia o ambiente.
Ao se aproximar do espelho para examinar uma marca estranha, ele sentiu um arrepio correr pela espinha. No reflexo, algo chamou sua atenção: uma figura pequena, uma criança. Will parou de se mexer, congelado pelo horror que o atingiu quando focou nos detalhes do reflexo. Era um menino, mas seus olhos eram vazios, duas órbitas negras sem fim. As laterais de sua boca estavam cortadas até as bochechas, um sorriso macabro e eterno se estendendo por seu rosto.
O coração de Will disparou, e ele virou-se instantaneamente, o corpo tenso e preparado para lutar. Mas... não havia ninguém ali. O quarto estava vazio, a cama coberta de poeira e o espelho refletindo apenas o próprio Will. Ele respirou fundo, tentando controlar a adrenalina que bombeava pelo corpo. "Que diabos...?" murmurou para si mesmo, olhando novamente para o espelho. Agora, apenas seu próprio reflexo o encarava, mas a sensação de estar sendo observado continuava.
Nesse momento, Cleberson entrou na sala, o rosto sério e atento. "Encontrou alguma coisa, Will?"
Mas antes que Will pudesse responder, seus olhos se arregalaram. Ele viu Cleberson, mas não como ele deveria estar. A figura diante dele era uma criatura grotesca e humanoide, coberta de olhos que se espalhavam pelo rosto e pelo corpo. Alguns olhos estavam completamente abertos, enquanto outros piscavam e reviravam freneticamente. Era uma visão horrível, uma aberração que não deveria existir. Will deu um passo para trás, instintivamente adotando uma postura defensiva.
Cleberson, do outro lado, também estava vendo algo que não fazia sentido. No lugar de Will, ele via uma entidade monstruosa, uma sombra distorcida e grotesca. Os traços humanos haviam desaparecido, substituídos por garras longas e uma boca cheia de dentes afiados que sussurravam ameaças. "O que... Will, o que aconteceu com você?!" Cleberson exclamou, dando um passo para trás, a mão instintivamente indo para o coldre de sua arma.
As palavras de ambos saíam distorcidas, como se estivessem sendo filtradas por um pesadelo. Para os dois, as vozes do outro soavam ameaçadoras e inumanas, cheias de um tom de malícia que fazia seus instintos gritarem para lutar ou fugir. Eles se encararam por um longo momento, a tensão aumentando enquanto avaliavam a situação.
Will estreitou os olhos, tentando compreender o que estava acontecendo. Ele notou que, apesar do terror e da aparência monstruosa, a figura diante dele — que ele acreditava ser Cleberson — não atacou. Cleberson, por sua vez, também hesitou. Mesmo achando que Will havia se transformado em uma criatura infernal, algo em sua mente parecia resistir à ideia de que ele deveria atacar seu aliado.
"Espere... há algo errado aqui", murmurou Will, percebendo que, apesar da visão grotesca, seus instintos não gritavam perigo imediato, como fariam se estivesse realmente enfrentando uma ameaça física. Ele precisava se livrar dessa ilusão, e rápido.
Com uma decisão repentina, ele caminhou em direção à parede e, sem hesitar, bateu a cabeça contra o reboco duro. A dor explodiu em sua mente, um clarão de branco e vermelho que quase o fez desmaiar. Mas o efeito foi imediato: a visão distorcida desapareceu, a ilusão desfeita em um instante de dor excruciante.
Will respirou fundo, sentindo o sangue escorrer de um pequeno corte em sua testa. Ele olhou para Cleberson e viu seu colega, não a criatura monstruosa de antes. Cleberson também pareceu piscar várias vezes, como se estivesse acordando de um transe. Quando seus olhos se focaram em Will, o alívio passou por seu rosto.
"O que diabos foi isso?" perguntou Cleberson, ainda recuperando o fôlego.
"Uma ilusão... algo ou alguém está tentando nos fazer atacar um ao outro. Estávamos sendo manipulados", respondeu Will, limpando o sangue de sua testa com as costas da mão.
Cleberson assentiu, ainda respirando pesadamente. "Precisamos encontrar o que está fazendo isso. Se for uma entidade, ela é poderosa o suficiente para brincar com nossas mentes. Temos que alertar os outros."
Will concordou, já puxando o rádio. "Aqui é Will. Atenção, todos. Cleberson e eu fomos vítimas de uma forte ilusão. Alguém ou algo está manipulando nossa percepção. Mantenham-se juntos e fiquem atentos. Repito, não confiem naquilo que veem."
O rádio chiou, e a voz de Leo veio do outro lado, com um tom urgente. "Recebido, Will. Estamos ouvindo sons estranhos no andar de baixo também. Vamos nos reagrupar no saguão."
Will deu uma última olhada ao redor do quarto antes de sair. Agora, o local parecia ainda mais sinistro, como se as paredes estivessem vivas, observando-os com um interesse faminto. Ele e Cleberson trocaram um olhar e, sem mais palavras, saíram em direção ao corredor, sabendo que o verdadeiro perigo ainda estava escondido nas sombras daquele lugar amaldiçoado.
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Atualizado até capítulo 37
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