Dethi e Briza

Em quanto isso em outro lugar, a dupla de novos agentes, Dethi e Brisa, chegou ao portão enferrujado da antiga mansão Valentine em meio à escuridão da noite. A propriedade exalava uma atmosfera de abandono, com janelas quebradas, paredes cobertas de musgo e uma sensação opressora que parecia pesar no ar. O vento frio passava por entre as árvores, fazendo um som que lembrava sussurros. No topo do portão, uma placa desbotada indicava o nome do local.

Dethi, com sua guia de Iemanjá discretamente pendurada no pescoço, ajustava as luvas de boxe que trazia consigo. Seu olhar azul analisava o casarão com uma expressão séria.

— Cara... Tem certeza de que isso é só uma investigação normal? — perguntou Dethi, com um tom de cautela, enquanto seus dedos traçavam o contorno de uma das tatuagens de olho em seu braço.

Brisa, por outro lado, estava completamente relaxado. Ele deu uma longa tragada no cigarro diferenciado que carregava, soltando a fumaça enquanto exibia um sorriso descontraído. Seu cabelo branco bagunçado e as lentes vermelhas davam-lhe uma aparência quase caricata, que contrastava com o tom pesado do ambiente.

— Relaxa, parceiro. Deve ser só mais um caso daqueles "barulhos que ninguém entende". Gente reclamando de vento ou coisa assim. — Brisa riu de leve, batendo as cinzas no chão antes de se encostar no portão. — Olha esse lugar! É até bonito, se você não pensar que a qualquer momento pode cair um pedaço de teto na sua cabeça.

Dethi não parecia convencido. Ele olhou para o céu, onde as nuvens encobriam a lua, deixando o ambiente ainda mais sombrio. De longe, um gemido baixo e gutural cortou o silêncio da noite. A expressão de Brisa mudou por um breve instante, mas ele rapidamente disfarçou, soltando uma risada.

— Tá vendo? É só o vento... Bem, um vento que parece um demônio morrendo, mas ainda assim, vento.

— Não é o vento, Brisa. Isso é algo... diferente. — Dethi respondeu, fechando os punhos com força. — Vamos entrar. Quanto antes terminarmos, melhor.

Os dois abriram o portão, que rangeu alto como se estivesse protestando contra a invasão, e começaram a caminhar pela trilha de pedras que levava à entrada principal. As luvas de boxe de Dethi balançavam suavemente enquanto ele se preparava para o que viesse, enquanto Brisa seguia ao lado, com o cigarro aceso e as mãos nos bolsos.

Ao chegarem à porta principal da mansão, notaram que estava ligeiramente aberta, como se alguém já tivesse entrado. Um frio inexplicável emanava do interior, fazendo os pelos da nuca de Dethi se arrepiarem.

— Acha que algum engraçadinho resolveu acampar aqui? — Brisa perguntou, tentando aliviar a tensão com seu habitual humor.

Dethi ignorou o comentário, empurrando a porta com cuidado. O interior do casarão era ainda mais assustador. O piso de madeira rangia a cada passo, e o cheiro de mofo preenchia o ar. As paredes eram adornadas com quadros antigos de pessoas cujos olhos pareciam segui-los conforme avançavam.

De repente, um som de passos ecoou acima deles, seguidos por um gemido que soava terrivelmente humano, mas ao mesmo tempo inumano.

Brisa parou de andar e olhou para o teto.

— Beleza, talvez não seja só o vento.

— Você tá achando engraçado ainda? — Dethi rebateu, seu tom mostrando que ele já estava em estado de alerta.

Outro som de passos surgiu, desta vez mais próximo, e parecia estar vindo do corredor à frente. A dupla trocou um olhar breve antes de continuar.

— Se der ruim, eu fico atrás de você. — Brisa disse com um sorriso debochado, dando mais uma tragada no cigarro.

— Corta o drama e anda. — Dethi respondeu, ajustando a postura e encarando o corredor à frente com determinação.

Ambos seguiram para dentro da mansão, onde a escuridão parecia mais densa do que do lado de fora, cada som amplificado pelo silêncio opressivo. Seja lá o que estivesse dentro da mansão Valentine, eles estavam prestes a descobrir.

O salão principal da mansão Valentine era espaçoso, com um enorme lustre quebrado pendurado no teto, refletindo sombras distorcidas nas paredes de madeira escura. Poeira preenchia o ar, e o lugar tinha o cheiro metálico e nauseante de carne decomposta. Brisa e Dethi avançavam com cautela, seus passos ecoando pelo espaço vazio. O silêncio pesado era interrompido apenas por estalos ocasionais da madeira sob seus pés.

Dethi olhava ao redor, atento a cada detalhe. Sua guia de Iemanjá balançava levemente em seu pescoço enquanto ele ajustava as luvas de boxe. Brisa, como sempre, parecia despreocupado, mas havia um brilho de alerta em seus olhos vermelhos por trás da descontração. Ele segurava sua Desert Eagle, apontada casualmente para o chão, mas pronta para agir.

No centro do salão, perto de uma lareira antiga, algo se moveu nas sombras. Era uma figura retorcida e grotesca, com carne podre pendurada em seus ossos expostos. A criatura tinha um rosto deformado, com partes da mandíbula visíveis, e seus olhos eram poços negros de vazio. Um grunhido gutural reverberou pelo salão enquanto a coisa avançava com movimentos erráticos, como se cada passo fosse um espasmo de dor.

— Que diabos é isso? — murmurou Brisa, franzindo o cenho, embora sua mão segurasse firmemente a pistola.

Dethi não perdeu tempo. Ele deu um passo à frente, seus punhos cerrados, enquanto a criatura investia contra eles. O "zumbi de carne" era rápido, mas Dethi era mais. Com um movimento ágil, ele esquivou de um ataque e acertou um golpe direto no torso da criatura, o impacto soando como um trovão abafado.

Brisa aproveitou a abertura e disparou sua Desert Eagle, o tiro ecoando pelo salão. A bala atingiu a cabeça do monstro, que cambaleou para trás. A sincronia entre os dois agentes era impecável. Dethi, em um movimento fluido, girou e desferiu um golpe de esquerda no pescoço da criatura, enquanto Brisa atirava novamente, dessa vez no peito.

O zumbi de carne caiu ao chão, convulsionando por alguns segundos antes de finalmente ficar imóvel. O silêncio retornou, mas o ar parecia ainda mais pesado.

— Fácil demais, — Brisa comentou, soprando a fumaça de seu cigarro.

Antes que Dethi pudesse responder, um som de passos ecoou atrás deles. Os dois viraram-se rapidamente, armas prontas, apenas para ver um homem de aparência chapada entrando pela porta da frente. Ele usava uma roupa amassada, tinha olhos avermelhados e um sorriso bobo no rosto.

— E aí, galera? Ouvi barulho de tiro e vim ver o que tava rolando. — O homem disse, cambaleando para dentro como se estivesse em uma festa.

Brisa olhou para ele com uma mistura de incredulidade e irritação. — Esse lugar não parece gritar "saia agora"? O que você tá fazendo aqui? — perguntou, gesticulando para o cadáver deformado no chão.

— Ah, sei lá, só curiosidade, tá ligado? — o homem respondeu, dando de ombros.

Antes que pudessem expulsá-lo, um barulho alto reverberou do andar de cima. Era como se algo enorme tivesse se movido, seguido por um som de arranhão profundo, como unhas gigantes raspando contra a madeira.

O homem chapado arregalou os olhos. — Que som foi esse? Eu vou lá ver! — E, antes que alguém pudesse impedi-lo, ele correu escada acima.

— Ei, volta aqui, idiota! — gritou Dethi, mas o homem já havia desaparecido no corredor do segundo andar.

Brisa e Dethi ouviram o som de passos rápidos acima deles, seguido de um silêncio. Então, um barulho ensurdecedor quebrou o silêncio. Eles ouviram um grito abafado e o som de carne sendo esmagada. De repente, o corpo do homem foi arremessado de volta pelo corredor, atingindo a parede do salão principal com uma força brutal. O impacto fez o corpo explodir em pedaços, espalhando sangue e vísceras pelo chão e pelas paredes.

— Que porra foi essa?! — Brisa sussurrou, congelado por um instante, sua máscara de descontração se desfazendo.

Uma mão gigante, grotesca e deformada, apareceu na entrada do corredor, antes de voltar para dentro do cômodo escuro.

Os dois ficaram parados, tentando processar o que acabara de acontecer. A respiração de Brisa estava pesada, e até mesmo Dethi parecia abalado.

— Tá, é oficial... Tamo ferrado. — Brisa murmurou, engolindo em seco. — Eu vou lá fora ligar pro Mr. Oculto. Você... faz o que quiser, mas eu tô fora desse andar por agora.

Dethi apenas acenou, ainda encarando o corredor com cautela.

Brisa saiu apressado pela porta principal. Lá fora, o vento parecia mais frio do que antes, e o silêncio da noite era quase ensurdecedor. Ele pegou o celular e discou rapidamente o número de contato do Mr. Oculto.

— Brisa, situação? — a voz grave do Mr. Oculto atendeu quase imediatamente.

— Situação? Meu chefe, eu vou te dizer: tá uma merda. Entramos na mansão, tinha um zumbi ou sei lá o que, resolvemos ele. Até aí, suave. Aí apareceu um doidão chapado, correu lá pra cima, e, bom... Ele foi arremessado contra a parede por uma mão gigante. Explodiu. Tá morto. — Brisa falava rapidamente, seu tom nervoso, mas tentando manter a compostura.

Do outro lado da linha, houve um silêncio breve antes de Mr. Oculto responder: — Uma mão gigante? Descreva melhor.

— Gigante, deformada, parecia... Sei lá, de um monstro, de um demônio. Tava no corredor do segundo andar. Dethi tá lá dentro, descendo pro porão ou alguma coisa assim. Não sei o que tem lá, mas isso aqui tá além da nossa alçada, chefe.

— Fique onde está e mantenha contato. Estou enviando reforços. Não entre no segundo andar até nova ordem. — A voz de Mr. Oculto era firme, mas Brisa conseguia perceber a tensão por trás dela.

— Reforços? Melhor mandar um exército. — Brisa comentou, desligando e dando mais uma tragada em seu cigarro para tentar se acalmar. Ele olhou para a mansão atrás de si, uma sensação de que as coisas estavam prestes a piorar o consumindo.

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