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Rio de Janeiro 2022

Maria Eduarda

Eu sabia que uma festa organizada pelo Coronel não seria uma coisa simples, mas nada me preparou para o que encontrei naquela casa com piscina no morro. Assim que entrei, a música alta e as risadas animadas me fizeram relaxar um pouco. Pessoas iam e vinham, brindando, dançando, e o clima estava carregado de uma energia que era difícil ignorar. Depois de uma semana de tantas descobertas, eu só queria uma noite para esquecer tudo, nem que fosse por algumas horas.

– até que a mãe de Terror e Ingrid, uma mulher de presença marcante, se aproxima com um sorriso acolhedor.

– Você é a Duda, né? Já ouvi falar tanto de você. – A mãe de Terror comenta, rindo de leve e dando um abraço surpreendentemente caloroso.

– Fico lisonjeada. Espero que sejam coisas boas. – Duda responde, tentando manter a leveza enquanto encara o olhar experiente da mulher.

– A gente sempre escuta o que é preciso. E, pelo jeito, você não se intimida por estar por aqui. Gosto disso, viu?

Entre sorrisos e uma troca cheia de sutilezas, Duda sente uma empatia imediata. A mãe de Terror se revela atenciosa, fazendo com que eu me sinta mais à vontade. Ingrid, que observava de longe, parece mais relaxada após ver essa interação, e o vínculo inicial com a mãe de Terror me fez perceber que Ingrid talvez tenha mantido um certo receio dela.

Passei pela área da piscina e estava prestes a procurar um lugar para ficar sozinha quando me deparei com uma figura conhecida do outro lado da água.

– Gasparzinho? – Chamei, surpresa.

Ele estava lá, deitado numa espreguiçadeira, como se fosse o dono do lugar, com aquele jeito descontraído de sempre. Ele olhou pra mim e deu um sorriso largo.

– Duda! Você por aqui? Achei que não gostasse desse tipo de festa.

– Você me conhece pouco, então. – Respondi, sorrindo enquanto me aproximava.

Sentei ao lado dele, e, naquele momento, todo o burburinho ao redor pareceu ficar em segundo plano. Começamos a conversar como velhos amigos, rindo e relembrando nossa história.

– Acho que a gente nunca contou pro pessoal como a gente se conheceu de verdade, né? – Ele comentou, me lançando um olhar divertido.

E assim começamos a contar sobre o dia em que me deparei com Gaspar armado em um shopping. Ele ria ao lembrar do pânico da mulher que viu a arma dele, e eu imitei a cara de choque dela, o que fez Gaspar gargalhar. Quando expliquei como improvisei, fingindo ser esposa dele e dizendo que a arma era minha, todos ao redor riram. E, ao final, percebi que até Ingrid estava rindo junto, o que me deu um certo alívio. A relação entre eu e ela parecia ter virado uma página ali.

Mas nem tudo estava tranquilo. Enquanto eu me divertia com o pessoal, senti o olhar de Terror. Ele estava à distância, me observando de um jeito que me fez gelar. Não era só desconfiança. Parecia mais… tensão, talvez até ciúme. Resolvi encarar.

– Tá tudo bem aí? – Perguntei, tentando decifrar a expressão dele.

– Só observando. Você se enturma rápido, né? – Ele respondeu, e o tom frio me fez hesitar.

– Isso te incomoda? – Retruquei, tentando não soar desafiadora.

– Nada me incomoda, Duda. Só… interessante ver como você se adapta. Mas é só isso. – E ele encerrou a conversa, me deixando ali com a sensação de que tinha mais alguma coisa.

Afastei qualquer suposição e voltei a me distrair com os outros. Mas algo nele ainda me incomodava.

Depois que contamos nossa história no shopping e a risada coletiva finalmente se dissipou, Gaspar me olhou com um brilho diferente nos olhos. Como se estivesse esperando o momento certo para falar algo.

– Sabe, Duda, tem uma coisa que não contei ainda… – Ele começou, parecendo meio sem jeito.

Levantei uma sobrancelha, curiosa. Conhecia Gasparzinho tempo o suficiente para saber que ele não era o tipo de se abrir com facilidade, muito menos sobre algo sentimental.

– Encontrei uma garota, numa roda de samba. Ela era… especial, entende? – Ele passou a mão pelo rosto, rindo, quase como se estivesse se perguntando o que diabos estava fazendo.

– Ah, não acredito! O Gasparzinho apaixonado! Quem é essa garota que conseguiu fazer isso com você? – brinquei, tentando tirar mais detalhes.

Ele suspirou e continuou:

– Foi uma dessas coisas doidas. A gente se encontrou, a química foi instantânea, passamos a noite juntos… e, quando acordei, ela tinha ido embora. Me deixou sozinho, como se nada tivesse acontecido.

Olhei para ele surpresa. Gaspar não era do tipo que se apegava a ninguém, mas o fato de ele ter ficado obcecado a ponto de ir à mesma roda de samba várias vezes só para procurá-la… isso era outra história.

– Você… voltou na roda? – perguntei, segurando uma risada.

– Mais de uma vez. Tava certo de que ia encontrar ela de novo. Mas nunca apareceu. E, pior, toda vez que eu contava para alguém, eles diziam que nunca tinham visto ninguém com as características dela. Comecei a achar que era coisa da minha cabeça.

Gaspar suspirou antes de começar a falar, como se a lembrança fosse um tanto intensa.

– Ela tinha um cabelo incrível, cheio de cachos dourados que caíam como uma cascata ao redor do rosto. Parecia que cada cacho tinha vida própria. A pele dela, morena clara, parecia macia, como se fosse feita para ser admirada de longe. E os olhos... – ele parou, olhando para o vazio por um momento, como se ainda estivesse preso na imagem dela. – Eram grandes, com um brilho meio sonhador, e o jeito que ela me olhava era como se estivesse vendo alguma coisa além do que eu mostrava.

Ele riu, balançando a cabeça.

– E ela era direta, sabe? Não tinha medo de chegar perto, de me encarar. Mas ao mesmo tempo... parecia uma daquelas pessoas que, por mais que você conheça, sempre tem um segredo escondido.

Enquanto ele descrevia a garota, senti um arrepio. Ela parecia muito com alguém que eu conhecia. Só podia ser uma coincidência, mas… não, as coincidências não costumam ser tão exatas assim.

– E se eu te disser que acho que conheço a sua “musa do samba”? – falei, rindo, mas por dentro surpresa.

A expressão dele foi de puro choque.

– Tá brincando, né? – ele disse, entre surpreso e esperançoso.

– Não tô, Gasparzinho. Mas, se for quem estou pensando, já aviso que isso aí pode ser só uma obsessão. Sabe como é, ela tem esse jeito de encantar e sumir… mas relaxa, tenho um nome pra isso: "Morro: Nosso Samba". Sério dava um livro. – Brinquei, e ele riu junto, embora a expressão dele ainda mostrasse um misto de alívio e surpresa.

Mais tarde naquela noite, fui dar uma volta pela casa, tentando processar tudo que tinha descoberto. Foi quando, ao passar por um corredor, ouvi vozes baixas e um sussurro familiar. Era Abelha.

– ...ela pensa que manda, mas logo vai ver quem tá no controle. Não tem ideia do que vem por aí. – Sua voz tinha um tom frio, quase ameaçador.

Fiquei imóvel, ouvindo cada palavra. Ele continuava, falando para alguém, como se planejasse uma jogada há tempos, uma forma de derrubar tudo que o Coronel e seus aliados tinham feito.

– Já tá na hora de dar um basta. Ela se acha, mas não passa de uma peona nesse jogo. Só precisa de uma oportunidade. Logo tudo vai pro ralo. – Ele sussurrou com intensidade, e cada palavra fazia meu estômago revirar.

Assim que ele se afastou, percebi que eu tinha mais uma peça nesse quebra-cabeça.

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