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Rio de Janeiro 2022

Beto:

Deixei a Gina na casa da Ingrid depois de um tempo longo conversando no carro. Ela tava abalada, o olhar distante, como se carregasse o peso de um mundo que eu nem conseguia imaginar. Passei quase a viagem toda tentando arrancar um sorriso dela, contando piadas bobas, falando das coisas que a gente fez na infância... Qualquer coisa pra ver aquele brilho nos olhos dela, aquele que eu admirava desde sempre. Só que, por dentro, eu sentia uma mistura estranha de emoções, um redemoinho de pensamentos que eu nunca soube descrever muito bem. Talvez fosse algo próximo do amor. Mas amor era uma palavra que sempre me soou estranha, pesada demais, algo que nunca tive direito de sentir.

Sempre admirei a Gina de longe, mas eu sabia qual era o meu lugar. Ela sempre pareceu coisa de outro mundo pra mim. Merecia mais, muito mais, e eu sempre soube que nunca poderia dar o que ela realmente precisava. Mas naquela noite, vendo ela tão frágil, me dei conta de uma coisa: eu ia lutar por ela, não importava como. Esse pensamento me deu uma energia nova, uma determinação que queimava no peito.

Mas Gina não era o motivo de eu estar ali na boca naquela noite. Hoje, meu foco era outro. Pedro. Aquele safado vinha cruzando meus limites há um tempo, me desafiando de maneiras que ele achava que eu não ia perceber. Mas eu percebi. A gente sempre percebe. E naquela noite, ele ia entender o erro que cometeu.

Ao entrar na boca, eu andei direto até a sala de tortura, onde ele me aguardava, amarrado na cadeira com as mãos presas atrás das costas. A cabeça dele tava baixa, e quando levantei o olhar, ele me encarou com aquela cara de coitado, o medo estampado no rosto. Mesmo tentando manter a postura de sempre, eu sentia o pavor exalando dele, como um cheiro que enchia o ambiente.

Caminhei devagar, meus passos ecoando no silêncio do lugar. A sala era escura, com uma lâmpada pendurada no teto, balançando levemente, projetando sombras que dançavam nas paredes sujas. O cheiro de ferrugem, sangue e mofo impregnava o ar, como um lembrete do que aquela sala realmente significava. Era um lugar onde se passava a sentença, e poucos saíam vivos dali.

Pedro levantou o rosto, tentando se manter firme. Eu dei um sorriso frio, cínico.

— E aí, Pedro. Tá confortável? — perguntei, a voz carregada de sarcasmo.

Ele engoliu em seco, desviando o olhar, mas tentou manter a pose de sempre.

— Qual foi, Beto? Não precisa disso... — ele murmurou, tentando soar confiante. — A gente é parceiro, lembra? Eu... eu não fiz nada contra você.

Soltei uma risada baixa, carregada de desprezo.

— Parceiro? Tu acha mesmo que é parceiro, Pedro? — perguntei, balançando a cabeça. — Cê acha que eu não sei das tuas jogadas? Cê acha que pode mexer com o que é meu e sair de boa?

A confusão tomou conta do olhar dele. Ele tava tentando entender onde tinha pisado na bola, mas eu via que, aos poucos, a ficha caía. Ele tava em desvantagem, e eu queria que ele sentisse o peso disso. Caminhei ao redor dele, deixando o silêncio se estender enquanto eu observava cada reação dele, cada tentativa desesperada de manter o controle.

— Eu sempre te dei moral, te tratei como um dos nossos... mas cê pisou na bola, Pedro. E isso... — apertei o ombro dele com força, e ele se encolheu, sentindo a dor — isso tem um preço.

Pedro começou a se debater, tentando se soltar, mas as amarras eram firmes demais. A sala, escura e úmida, parecia se fechar ao nosso redor, como se até as paredes sentissem o peso daquela conversa.

— Beto... calma aí, irmão. A gente pode resolver isso de outra forma... Eu faço o que cê quiser. Juro! — ele disse, a voz tremendo, implorando.

Cheguei perto do rosto dele, deixando que ele visse o ódio no meu olhar, aquela raiva fria e calculada que fazia qualquer um se borrar de medo.

— Resolver? Pedro, resolver era antes. Agora é tarde.

Ele respirou fundo, tentando recompor a postura, buscando alguma força que ele já não tinha.

— Tá achando que pode brincar comigo, Beto? — ele disse, a voz vacilando, mas com uma tentativa de firmeza. — Eu sei de muita coisa também. Cê acha que pode me ameaçar e sair ileso?

As palavras dele foram a gota d’água. Agarrei o colarinho dele com força e puxei, deixando ele cara a cara comigo.

— Fala mais uma vez — sussurrei, os olhos cravados nos dele. — Fala mais uma vez que eu não saio ileso. Vamos ver quem é que manda aqui.

O rosto dele ficou pálido. A bravata desmoronou num instante, e ele sabia que tava diante de um ponto sem volta. O medo tomou conta de cada centímetro dele.

Puxei um canivete do meu bolso, abrindo a lâmina na frente dele. Era uma lâmina afiada, fria, que refletia a pouca luz que a lâmpada pendurada conseguia projetar. Coloquei a ponta da lâmina no rosto dele, devagar, traçando uma linha superficial que começou a sangrar, o corte pequeno mas suficiente pra mostrar o que tava por vir.

— Últimas palavras, Pedro? — perguntei, o tom cheio de sarcasmo, deixando que ele sentisse o peso da pergunta.

Ele ficou em silêncio, os olhos arregalados, incapaz de formular qualquer resposta. Ali, naquele momento, ele percebeu que tinha cruzado a linha e que não havia mais volta.

Apertei a lâmina um pouco mais, e o sangue começou a escorrer. Ele engoliu em seco, tentando manter a respiração sob controle, mas a expressão dele era de completo desespero.

— Então é isso? Nada pra dizer? — perguntei, apertando a lâmina contra a pele dele, aumentando o corte. — Pois eu vou te dizer uma coisa, Pedro: quem brinca com fogo se queima.

Ele tentou balbuciar alguma coisa, mas eu já tava sem paciência. Puxei minha arma, apontando pro peito dele, e ele arregalou os olhos, o medo dominando cada célula do corpo.

— Cê escolheu o teu fim, Pedro — murmurei, o dedo firme no gatilho.

Sem hesitar, apertei o gatilho. O tiro ecoou pela sala, quebrando o silêncio. O corpo dele caiu pra trás, os olhos vidrados, o sangue escorrendo e se misturando ao chão sujo.

Fiquei ali por um momento, respirando fundo, sentindo a adrenalina se dissipar, o peso do ato ainda pulsando dentro de mim. Olhei pro corpo inerte e pensei, com um misto de desprezo e alívio, que ele tinha merecido aquilo. Na nossa vida, traição sempre tem um preço, e ele acabou de pagar o dele.

Quando saí da sala, deixando o silêncio tomar conta, uma única coisa martelava na minha cabeça: Gina.

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