RIO DE JANEIRO 2022
Eu estava no sofá, observando Samuel brincar no chão. Ele riu, feliz, alheio a tudo o que se passava na minha cabeça. A imagem de Terror continuava assombrando minha mente, aquele mistério que eu tentava, sem sucesso, afastar. Ainda assim, estava decidida: não queria mais vê-lo. Pelo menos, não até resolver o caos que se formava ao meu redor.
O toque da campainha me fez pular. Quem viria à minha casa sem aviso? Quando abri a porta, foi como ser jogada de volta ao passado. Paulo. Ele estava ali, parado com aquele sorriso cínico que eu sempre odiei.
"Posso entrar?" Ele perguntou, mas já empurrava a porta antes de eu responder.
"Que você quer, Paulo?" Perguntei, tentando não tremer.
Ele nem me olhou diretamente. Puxou o celular do bolso e, sem rodeios, me mostrou uma série de fotos. Lá estava eu, no baile funk, com aquele body apertado. As imagens me expunham completamente. Ele sabia como me fazer sentir impotente.
"Você sabe o que isso pode fazer com a sua vida, né, Duda?"
"É só uma foto num baile. Qualquer um pode estar lá. Até os famosos aparecem nessas festas. Isso não vai manchar minha reputação." Minha voz soou firme, mas ele sabia o ponto fraco.
Paulo deu um passo à frente, os olhos predadores. "Mas não é só isso. Ouvi gente por aí dizendo que você ficou com o Terror também. Um pouco mais de esforço, e conseguir uma foto disso vai ser moleza."
Senti a raiva crescendo dentro de mim. Ele não ia parar com aquelas ameaças. "Você nunca vai conseguir acabar comigo com essas fotos, Paulo. Eu já vi gente muito pior sair ilesa disso."
"Mas eu não sou qualquer um", ele retrucou, o sorriso aumentando. "Eu conheço o suficiente sobre você, Duda. E conheço gente que vai fazer o trabalho sujo se eu pedir."
Minha respiração acelerou, e eu dei um passo para trás. Ele tinha o poder, e sempre soube como usá-lo contra mim. Antes que eu pudesse reagir, ele se aproximou mais, segurando meu braço com força. O toque dele me enojava.
"Você vai atrás do Terror. Vai descobrir quem ele é, o nome, a vida, as fotos. Tudo. E vai trazer pra mim."
Eu puxei meu braço, me soltando dele. "E se eu não fizer isso?"
Ele me encarou, sem piscar. "Aí você já sabe o que acontece."
O silêncio era sufocante. Eu sabia que não tinha escolha, não naquele momento. "Tá bom, Paulo. Eu vou fazer o que você quer." Mas por dentro, já traçava meus próprios planos.
Cheguei à boca de fumo, a cabeça ainda girando com a ameaça de Paulo. Eu precisava encontrar Terror, descobrir algo. Mas o destino parecia gostar de jogar na minha cara as piores surpresas, porque quem eu encontrei foi Fernando. Meu irmão que sempre me disse que não era pra frequentar esse tipo de ambiente. Ele estava pleno fumando maconha com o terror e não parecia que ele era só um simples usuário.
– Nando?– , perguntei, incrédula. –O que você tá fazendo aqui?–
Ele levantou o queixo, a expressão fria.
–Eu que te pergunto isso, Duda. O que você tá fazendo aqui?–
Eu mal conseguia acreditar no que via. Meu irmão, ali, naquele lugar, agindo como se fosse dono de tudo.
–Você é dono de algum morro agora? É isso?— As palavras saíram carregadas de sarcasmo e raiva.
– Não pô sou só o juiz do crime. – disse como se não fosse nada .– O Coronel na verdade. –
A revelação me atingiu como um soco. Aquele nome, "Coronel", que eu já ouvira falar nas ruas, era meu irmão o tempo todo.
–Por que ninguém me contou? Por que você me deixou acreditar que tava fora dessa vida?–
– Pra te proteger–, ele respondeu sem emoção.
— Proteger? Você me jogou no escuro, Nando! Me deixou na ignorância enquanto todo mundo sabia quem você era. Até nossos pais sabiam não é?– Minhas palavras saíram em um misto de dor e revolta. Ele respirou fundo, impaciente.
– Você não entende. Quanto menos soubesse, mais segura estaria.–
– Segura? Eu tô envolvida nisso agora de qualquer jeito. E você nem teve a decência de me contar.–
Fernando deu um passo à frente, a expressão fechada.
–Você não pertence a esse mundo, Duda. E nunca pertenceu. Eu não quero te ver mais aqui. Fica longe disso.–
Eu ri, amarga.
–Ah, agora você quer me controlar? Depois de me esconder tudo? Me poupe.–
O olhar dele ficou sombrio, e ele apertou a mandíbula.
–Vai embora, Duda. E não volta mais. Eu tô falando sério.–
Antes que eu pudesse retrucar, vi um movimento à minha direita. Terror estava lá, encostado em uma parede, observando a confusão. O olhar dele era frio, distante, mas eu sabia que ele estava prestando atenção em tudo. Meu corpo congelou por um instante. Ele não fez nada, só ficou ali, assistindo.Fernando se virou, seguindo meu olhar.
–Ele não é problema seu, Duda. Some daqui antes que piore.–
Eu quis responder, quis gritar com ele, mas sabia que continuar naquela briga só me levaria para um caminho sem volta. Então, virei as costas e fui embora, sentindo o peso dos olhares nas minhas costas, especialmente o de Terror.
Horas depois, cheguei à casa de Caleb. Precisava de alguma normalidade, de alguém que não me tratasse como um segredo ou uma ameaça. Ele me recebeu como sempre, tranquilo, como se nada demais tivesse acontecido.
– Você já sabia, não é? – perguntei assim que entrei. – Sobre o Nando. Que ele é o Coronel.
Caleb suspirou, sabendo que não adiantava mentir. – Sabia, Duda. Mas ele não queria que você soubesse.
– Por quê? Eu não sou uma criança! Eu tenho direito de saber quem é meu irmão.
– Ele achou que te manter fora disso te protegeria. O Nando sabe o que esse mundo pode fazer com as pessoas, e ele não quer você envolvida – Caleb falava com aquela calma que às vezes me irritava, mas eu sabia que ele não estava mentindo.
– Ele até ameaçou vizinhos pra garantir que ninguém falasse – continuou Caleb.
A raiva que eu sentira antes já não tinha mais força. Suspirei, derrotada. – Eu só queria que tivessem confiado em mim.
A conversa não durou muito mais. Depois de um tempo, fui embora, ainda perdida entre os segredos de minha família e o caos que minha vida tinha se tornado.
Mais tarde, no baile, a música pulsava forte, e o ambiente fervilhava de energia. Eu estava lá, tentando esquecer tudo por um tempo, mas Fernando, o Coronel, não me deixaria em paz. Ele apareceu de novo, me puxando para longe dos outros.
– O que você tá fazendo aqui de novo? Eu já te disse pra ficar longe desse ambiente, Duda.
Eu o encarei, o peito apertado. – Você não tem mais direito de me dizer o que fazer, Nando. Se você não me contou antes, é porque não queria que eu soubesse, mas agora eu sei. E eu não vou fugir mais.
Ele parecia furioso, mas antes que pudesse responder, virei as costas e fui para a pista de dança. A música tomou conta de mim, e fingi que nem tinha ouvido suas últimas palavras.
Enquanto dançava, meus olhos cruzaram com os de Terror do outro lado do salão. Ele ainda estava lá, assistindo a tudo. Não tinha participado, mas eu sabia que ele tinha visto cada detalhe. E, de alguma forma, eu sabia que isso ainda voltaria para me assombrar.
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Atualizado até capítulo 62
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