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Rio de Janeiro 2022

Eu era o dono daquele pedaço, todo mundo sabia. No morro da Rocinha, meu nome, "Terror", já era respeitado. O baile tava rolando, e eu tava na minha, observando tudo de cima do camarote, onde a visão era completa. Era sempre assim, eu gostava de ficar no controle, vendo o movimento lá embaixo. Só que naquela noite, as coisas mudaram.

Eu nem tava na intenção de me levantar do camarote. Tava tranquilo, vendo a galera se acabar de dançar e beber, quando a Gina chegou perto de mim, meio afobada.

– Terror, desce lá embaixo e chama a Duda. Ela tá lá sozinha. A mina é famosa, e a galera tá começando a reparar. Vai dar merda se deixar ela ali muito tempo.

– Duda quem, Gina? Que porra é essa?

– Aquela influencer lá, pô. A que você esbarrou mais cedo.

Puxei na memória. Ah, a tal garota que eu esbarrei e que não teve medo de me enfrentar. Boca afiada, personalidade forte. Sorri de canto, lembrando da cena. Não é sempre que alguém tem coragem de me peitar daquele jeito, principalmente no meio de um baile na Rocinha. Gostei tanto da filha da puta que até chamei ela pra subir e quem disse que veio.

– E o que eu tenho a ver com isso, Gina? Por que tu não chama?

– Porque eu pedi! – ela rebateu. – Eu gosto da mina, acompanho ela há mó tempão na internet. É minha chance de trocar ideia com ela. Faz esse favor, porra.

Suspirei, sem paciência, mas levantei. Gina era minha amiga de longa data, e sabia que não ia sossegar até conseguir o que queria. Além disso, ela era fã da Duda. Fazer o quê? Desci as escadas do camarote e fui andando até o meio da galera.

No caminho, esbarrei no Beto, que já tava de papo com duas minas. Ele tava solteiro, como sempre, pegando todas, mas eu sabia que ele tinha uma parada pela Gina. Ele nunca admitia, mas eu via nos olhos dele. Só que Gina tava presa num namoro escroto, tóxico. A mina nem falava nada, mas dava pra ver que não tava feliz. E o Beto, como um covarde, não fazia nada. Só ficava observando de longe e se afogando em mulher.

– E aí, Terror, de boa? – ele falou, com um sorriso de quem tava prestes a se dar bem naquela noite.

– Tranquilo. Tu viu a Duda por aí?

– A influencer? Vi sim, tá lá perto do bar. Quer que eu vá lá com você?

– Não precisa, valeu.

Segui em frente, e logo avistei a Duda. Ela tava cercada de olhares, como eu já tinha imaginado. O que Gina disse fazia sentido, e a garota chamava atenção. Mesmo num lugar onde a maioria não tava nem aí pra internet, ela se destacava. Talvez fosse a postura dela, ou o jeito confiante de quem não tava acostumada com esse tipo de ambiente. De qualquer forma, eu fui direto ao ponto.

– Duda, vem comigo – falei, parando na frente dela.

Ela levantou o olhar pra mim, sem surpresa, mas com uma mistura de desconfiança e curiosidade.

– E por que eu iria contigo?

Revirei os olhos. Tava de saco cheio desse joguinho.

– A Gina pediu. Tá querendo te conhecer melhor, e quer trocar ideia lá em cima, no camarote.

Ela fez uma pausa, como se estivesse decidindo se confiava em mim ou não. Aí, soltou:

– Então foi por isso que você veio de novo me chamar ? Pra me arrastar até lá?

– Foi. Agora, cê vem ou não?

Ela hesitou mais um segundo, mas acabou levantando e me seguindo. Enquanto a gente subia, percebi que os olhares continuavam em cima dela. Gina não tava errada, a galera do morro tinha essa curiosidade por "carne nova", especialmente quando vinha de fora.

Chegando no camarote, a Gina quase deu um pulo de felicidade. Ela correu até a Duda e começou a falar mil coisas sobre como era fã dela, como acompanhava seu trabalho. Duda, por sua vez, sorriu educadamente, mas dava pra ver que tava meio desconfortável. Enquanto elas conversavam, sentei no meu canto, de olho no movimento.

A Ingrid, minha irmã, chegou do nada. Ela não confiava em ninguém de fora e, como sempre, ficou desconfiada de ver a Duda ali. Ingrid tinha uma postura protetora, principalmente comigo, e não gostava quando novas figuras apareciam no nosso círculo.

– Quem é essa aí, Terror?

– É amiga da Gina – respondi, sem dar muita importância. Não queria prolongar o assunto.

Ingrid soltou um suspiro, mas não falou mais nada. Ela conhecia meu jeito, sabia que eu não gostava de explicações longas. A noite foi passando, e, enquanto Gina conversava com a Duda, percebi que a garota parecia relaxar um pouco. Mas não era só ela que estava no meu radar. O Abelha e a Ingrid, que formavam um casal, também tavam por perto, trocando olhares. Aquilo era um lembrete de que, apesar de eu ser o dono daquele morro, o baile também era um lugar de encontros e desencontros.

De repente, o clima começou a ficar pesado. A Ingrid, mesmo sem falar, ainda mantinha um ar desconfiado em relação à Duda. Já o Beto, que subiu depois de um tempo, começou a flertar com uma mina qualquer, mas dava umas olhadas de canto pra Gina. Todo mundo tinha seu próprio drama rolando, mas meu foco tava em outra coisa. O jeito como a Duda interagia com tudo ao redor me deixava intrigado.

Lá pelas tantas, a Duda se virou pra mim e perguntou:

– E aí, vai ficar aí me encarando o tempo todo ou vai falar alguma coisa?

Eu não esperava por essa. Sorri de canto, achando graça da ousadia dela.

– Tô só vendo se você tá confortável. Tá gostando do baile?

Ela deu de ombros.

– É diferente do que eu tô acostumada, mas até que é divertido.

Era a primeira vez dela num baile funk, e isso tava estampado na cara. Ela era famosa, sim, mas vinha de um mundo diferente, um mundo que não se misturava muito com o nosso. E isso me deixava mais curioso. Mas antes que eu pudesse responder, Gina interrompeu.

– Terror, leva a Duda pra conhecer uma das suas casas. Ela deve tá cansada já, e lá é mais tranquilo. – valeu Gina.

– É oque? eu ?

– É isso mesmo, Duda? Tá afim de sair daqui? – perguntei, olhando pra ela.

Ela me olhou, avaliando a situação, como se estivesse tentando entender minhas intenções. Aí, soltou:

– Por que não? Esse lugar já deu o que tinha que dar.

Sorrimos um pro outro, e sem prolongar mais, a convidei pra ir comigo. Deixei a Gina lá com os outros, e eu e a Duda saímos do baile. O caminho até uma das minhas casas foi tranquilo. Ela não falava muito, e eu também não tava com pressa de puxar papo. Quando chegamos, abri a porta e deixei ela entrar primeiro.

– E aí, o que você acha? – perguntei.

– Bonito. Não esperava menos – ela respondeu, dando uma olhada ao redor.

Ela sentou no sofá, e eu fiquei de pé, observando a cena. Duda era interessante, não só por ser famosa ou por ter aquele jeito desafiador. Tinha algo mais, algo que eu ainda tava tentando entender. E era isso que me mantinha ligado nela.

– Então, qual é a tua, Duda? O que você tá procurando aqui no morro?

Ela me olhou nos olhos, sem desviar.

– Tô aqui pra matar a saudade do Caleb, só isso.

– Só isso?

– É. Mas parece que você esperava outra coisa.

– Eu não espero nada de ninguém – respondi, me aproximando um pouco mais. – Só acho curioso você estar aqui, nesse baile, no meio de gente que você não conhece.

Ela deu um sorriso enigmático.

– Às vezes, o melhor lugar pra se esconder é onde ninguém te conhece.

Aquela frase ficou ecoando na minha cabeça. Havia muito mais por trás daquela garota do que ela deixava transparecer. E eu tava disposto a descobrir cada parte disso.

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