Rio de Janeiro 2022
Maria Eduarda
A energia do baile de Halloween estava no auge. A batida da música vibrava, ressoando em cada canto do morro e misturando-se ao som das conversas e risadas altas. O cheiro de bebida e fumaça preenchia o ar, e eu, no meio daquele caos organizado, observava tudo atentamente, com uma intenção clara.
Eu estava vestida de Velma, mas minha escolha de fantasia não foi só pra combinar com o tema. Era uma peça no meu jogo. Eu precisava descobrir quem estava passando informações que colocavam minha vida em risco. Um traidor se escondia entre nós, e eu queria sair daquele baile com uma lista de suspeitos mais curta.
Meu olhar vagava pelo salão, disfarçando meu foco. Coronel, que estava ao meu lado, parecia à vontade, mas eu sabia que ele não tinha nada a ver com o que estava acontecendo. Meu irmão podia ser muita coisa, mas jamais seria estúpido o suficiente para arriscar sua própria irmã. Então, com ele, eu tinha paz de espírito, ao menos nessa parte.
Comecei a pensar nas outras pessoas. Beto? Não fazia sentido. Ele era um cara leal ao Coronel e, se quisesse algo de mim, teria dito na minha cara. Mas, ao observar melhor, notei que seu comportamento estava diferente essa noite. Ele era sempre o bonzinho, o engraçado da turma, mas agora, em alguns momentos, percebia algo a mais nos olhares que lançava para Terror. Um quê de inveja, talvez. E, considerando o histórico dele, essa mudança me incomodou.
E então pensei nas garotas. Havia uma possibilidade real de que uma delas estivesse tentando me prejudicar. Essas mulheres são duronas e leais a quem confiam, mas ciúmes e insegurança têm poder de manipular até a pessoa mais fiel. Poderia ser que alguma estivesse criando uma narrativa para se safar e me expor. Se elas jogassem a culpa para mim, estariam protegidas.
Desci para a pista e deixei a música me envolver enquanto tentava não parecer desconfiada. Meus olhos buscavam Terror pela multidão, e não demorou até eu notar sua figura imponente, encostada no canto, como sempre. Ele não se vestiu para o evento; até isso me irritava nele, essa incapacidade de fazer algo que todo mundo está fazendo. Ele ficava observando as pessoas como se estivesse acima de tudo e todos, com um ar de desprezo disfarçado de indiferença.
E então, para minha surpresa, vi Terror sair de um camarote improvisado, com uma loira pendurada em seu braço, rindo e se arrumando. Ele passou por mim sem notar, e eu desviei o olhar, tentando ignorar o incômodo. Voltei a dançar, mas logo depois, ele surgiu de novo, dessa vez com Camila, outra das garotas que sempre rondavam. A cena me incomodava, mas eu continuei fingindo indiferença, mesmo quando ele passou novamente, como se não tivesse acabado de sair com duas mulheres em tão pouco tempo.
E então ele se aproximou, finalmente me notando no meio da multidão. Terror me olhava com aquele sorrisinho de quem acha que pode ter o que quiser, e eu não deixei de notar o quanto ele parecia satisfeito em me provocar.
– Então é assim? Sai de um quarto com duas mulheres e já vem atrás de mim? – ironizei, cruzando os braços, deixando clara minha insatisfação.
Ele riu, com um olhar que exalava provocação.
– E você? Não quer? – respondeu, com um tom de desafio que quase me desarmou.
Eu sabia que ele estava jogando, mas mantive minha postura firme, tentando esconder qualquer traço de interesse. Ele se aproximou ainda mais, e a proximidade fez com que eu sentisse seu perfume misturado ao cheiro de cigarro. Uma tensão pairava no ar, e, por um momento, considerei ceder, mas, ao invés disso, dei um sorriso e desviei o olhar.
Voltei a focar nos meus alvos, tentando retomar o controle da noite. Precisava priorizar minha missão e me afastar dos pensamentos confusos que Terror me causava. Subi de volta para o camarote e comecei a analisar cada pessoa que passava por mim. E então, foi quando percebi que Gina estava acompanhada de um homem novo. Ele parecia desconfortável ali, e ela, estranhamente tensa, como se o estivesse evitando. Era uma visão inusitada, porque Gina sempre foi a amiga que mais se divertia nas festas. Agora, ao seu lado, ela parecia submissa e receosa.
Pensei que talvez o namorado dela estivesse pressionando ou ameaçando de alguma forma. Ela era leal a mim, mas a influência dele poderia mudar isso. Eu me perguntava se ele poderia ser o motivo pelo qual Gina estava tão quieta e arredia. Ela era próxima de todos os meninos, e o namorado talvez usasse essa proximidade para me colocar em perigo sem que ela percebesse.
Meus pensamentos vagavam entre Beto, Gina, e até as garotas do morro enquanto eu analisava cada possibilidade. Mas, quando estava prestes a me decidir em relação aos suspeitos, vi Terror se aproximando novamente. Ele parou ao meu lado, e não pude evitar a ironia.
– Você não cansa, não? – provoquei, tentando esconder meu nervosismo.
Ele me olhou de cima a baixo, os olhos percorrendo minha fantasia de Velma, e então sorriu, daquele jeito que eu odiava e adorava ao mesmo tempo.
– Não é cansaço, Duda. É insistência. – Ele disse com um tom de voz baixo, quase sussurrando. Era como se ele tivesse um magnetismo que tornava difícil eu manter a pose.
Nós continuamos trocando farpas, em um jogo verbal que não parecia ter fim. Era uma mistura de irritação e atração que me deixava em um estado de confusão mental, me fazendo questionar minhas prioridades naquele momento. A tensão entre nós crescia, mas não passei dos limites. Não era o momento para isso.
A noite foi avançando, e a cada minuto eu me via mais dividida entre os suspeitos. Cada um deles tinha algo que o tornava possível e impossível ao mesmo tempo. Ainda assim, os comportamentos de Beto e Gina me deixaram alerta. Beto com sua súbita inveja, e Gina com o namorado suspeito. Cada detalhe parecia me empurrar para a conclusão de que algo mais profundo estava acontecendo.
Saí do baile com esses pensamentos latejando na minha mente. E, naquela noite, prometi a mim mesma que descobriria quem era o traidor – fosse Beto, Gina, ou qualquer outra pessoa. Porque eu sabia que, para me manter segura, precisava desvendar esse mistério antes que fosse tarde demais.
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Atualizado até capítulo 62
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