Rio de Janeiro 2022
terror
– Há quanto tempo você está comendo a minha irmã?
A pergunta veio como uma lâmina afiada. Nando me encarava, os olhos faiscando de raiva, esperando uma resposta que eu não estava com vontade de dar. Naquele momento, eu não conseguia entender como as coisas chegaram a esse ponto. O fato de Duda ser a irmã dele não era algo que eu poderia ter previsto.
– Eu te fiz uma pergunta, Terror. Há quanto tempo?
Segurei o impulso de partir para cima dele. Eu sabia que isso não ia acabar bem. Nando não estava preocupado com respostas, ele queria briga. E eu nunca me importei com essas provocações, mas, por algum motivo, hoje era diferente. Talvez por Duda. Talvez porque ele era o irmão dela. Eu não sabia.
– Eu não sabia que ela era tua irmã – respondi, firme, mas sem elevar o tom. – Ela nunca me disse o nome completo, só a chamavam de Duda. E não tinha como eu adivinhar, Nando.
Ele riu, um riso curto e sem humor.
– Você tá me dizendo que você, o Terror, não sabia com quem estava se metendo? Desde quando você faz esse tipo de erro?
A verdade é que Maria Eduarda apareceu na minha vida de um jeito que eu não planejei. Eu a conheci nas ruas, sem identidade, sem nome de peso. Ela não era famosa, não fazia parte dos círculos que rodavam entre o crime e a favela. Pra mim, ela era só uma mulher, perdida como muitas que cruzam meu caminho. Nunca questionei de onde vinha, nunca imaginei que ela fosse alguém tão perto do Coronel.
– Ela não disse nada, e eu não perguntei – falei, sabendo que a resposta não ia aplacar a raiva dele.
Nando apertou os punhos, visivelmente à beira de perder o controle. Ele se virou, andando de um lado para o outro, tentando processar tudo.
– Você sabe onde ela tava, Terror? Quando eu achei minha irmã, ela tava em Minas, sozinha, largada... Grávida – ele disse, a voz trêmula de indignação. – Você sabia disso? Ou ela te contou só o que quis?
Eu mantive o olhar, impassível.
– Ela nunca falou nada sobre o passado. A gente não chegou nesse ponto. até porque ninguém fala do passado quando tá trepando.
Essa parte era verdade. Duda sempre foi um mistério. Eu sabia dos olhares, das fugas, mas nunca forcei para saber o que ela não queria dizer. Não era do meu feitio cavar fundo nas histórias dos outros, a menos que fosse necessário. Mas agora eu percebia que Duda escondia muito mais do que qualquer um de nós imaginava.
Mais tarde, no baile, eu fiquei observando de longe. As luzes piscavam, a batida do funk tomava conta do ambiente, e, no meio de todo o caos, eu a vi. Duda. Ela parecia alheia ao mundo ao seu redor, mas, ao mesmo tempo, completamente à vontade naquele espaço. Assim que a noite foi chegando ao fim, eu a vi se afastando.
Esperei por um momento. Quando ela estava mais distante, comecei a segui-la, sem chamar muita atenção. Não era algo planejado, mas eu sabia que precisava falar com ela. Algo naquela conversa com Nando tinha me incomodado, e eu queria respostas. Quando cheguei mais perto, finalmente chamei por ela.
– Duda!
Ela parou, mas não se virou de imediato. Por um instante, achei que ela fosse me ignorar, seguir o caminho dela e acabar com isso ali mesmo. Mas, depois de um suspiro pesado, ela olhou para mim, os olhos cansados.
– O que você quer, Terror? – A voz dela estava firme, mas havia algo mais ali. Algo que eu não tinha visto antes. Um cansaço, talvez. Uma dor oculta.
– Quero conversar. Vem comigo.
Ela hesitou, cruzando os braços como se criasse uma barreira entre nós.
– Não tenho nada pra falar com você.
– É sério. Só uma conversa. Vamos dar uma volta, pegar um ar.
Eu sabia que ela estava prestes a recusar, mas no fundo, algo a fazia considerar. E, após mais um instante de silêncio, ela finalmente cedeu.
– Tá. Mas isso não vai demorar – ela disse, começando a andar na minha direção.
Eu acenei para o meu carro, que estava estacionado a poucos metros. Ela olhou, surpresa, mas não disse nada. Abrimos as portas e entramos em silêncio. O caminho até a praia foi curto, mas pareceu que durou uma eternidade. Eu podia sentir a tensão entre nós, o peso de todas as palavras não ditas. Quando chegamos, estacionei o carro, e nós descemos.
– Vamos caminhar um pouco – sugeri.
Ela tirou os sapatos e, sem dizer nada, começou a andar descalça pela areia. Eu fiz o mesmo, seguindo ao lado dela, ouvindo o som das ondas quebrando na praia e sentindo a brisa fresca do mar. Caminhamos em silêncio por um tempo, até que finalmente ela parou, olhando para o horizonte.
– Eu menti, Terror – ela começou, a voz baixa, quase um sussurro. – Eu nunca engravidei de um menino que eu gostava. Eu... fui estuprada.
Essas palavras me atingiram como um soco no estômago. Eu mantive o silêncio, porque sabia que ela ainda não tinha terminado. Ela respirou fundo, os olhos perdidos na escuridão do horizonte.
– Foi um amigo da minha família... Ele era policial. E eu menti, menti pra todo mundo porque eu sentia nojo de mim mesma. Não queria que ninguém soubesse a verdade.Por esse motivo, eu fugi de casa. Minha genitora me disse que, independente de quem fosse o pai, eu teria que abortar a criança. Aí eu entrei na vida do Nando; eu estava com meus 3 para 4 meses de início. Fomos amigos de cara, aí eu fui morar com ele e a sua avó. Depois, conheci seus pais e eles viraram meus pais. Bom, eu menti para o Nando porque tive nojo de mim mesma, sabe? Eu disse só o básico da história: a verdade é que eu fugi por não ter coragem e menti sobre o pai.
Eu observava Duda enquanto ela falava, o jeito como seus olhos brilhavam com o peso das lembranças que ela guardava. Eu via a dor, o nojo que ela carregava dentro de si. E nesse momento, tudo ficou claro. O porquê dela ser tão distante, o porquê de nunca querer falar do passado. Eu simplesmente escutei, deixando que ela desabafasse.
– Eu não consegui contar nem pro meu irmão... Eu não conseguia. Tudo o que eu queria era fugir disso.
Ela virou o rosto para mim, e eu senti o impacto do olhar dela.
– Eu tô te contando isso porque não aguento mais carregar isso sozinha.
Eu sabia que não havia palavras que pudessem realmente consertar aquilo. O que ela tinha passado, o trauma que a perseguiu por tanto tempo. Mas o que eu podia fazer era estar ali, presente, e mostrar que ela não precisava mais carregar esse fardo sozinha.
Me aproximei dela devagar, pousando a mão no ombro dela de maneira firme, mas gentil.
– Tá tudo bem – eu disse, a voz baixa. – Você não precisa mais mentir.
Duda olhou para mim, seus olhos encontrando os meus com uma mistura de alívio e dúvida. E foi ali, naquele momento, que a tensão entre nós começou a mudar, a crescer. Algo mais profundo tomou conta do ar, algo que eu sabia que só iria parar de crescer de um jeito...
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Atualizado até capítulo 62
Comments
Awa De UwU lavita uwu
❤️
2024-11-05
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