Kelly voltou para a sua casa desolada com a última conversa com Michel. Talvez contar a ele o que estava acontecendo tenha sido uma péssima ideia. Contudo, estava decidida a voltar para sua realidade verdadeira. Ela aparecia morta em seus sonhos e necessitava saber o que estava acontecendo no mundo real. Além disso, precisava de alguma prova da existência desses dois mundos.
Chegou em casa, deitou-se na cama irritada com o Michel, apesar de entender que não podia esperar uma atitude diferente, muito menos esperar compreensão. Lembrou que o professor Thomas apareceu no sonho estranho dela e, de alguma forma, era a única ligação que conseguiu estabelecer com o mundo real e dormiu como se tentasse contato com o sobrenatural.
Depois de horas deitada sem parar de pensar um minuto, acabou dormindo e conseguiu o que buscava. O professor Thomas apareceu no sonho e disse:
– Era isso que você precisava, essa força de vontade, só assim conseguiria romper a barreira entre nós.
– O que você sabe sobre isso tudo?
– Eu sei mais do que imagina. Finalmente, você conseguiu forças para agir. Esperei por você porque acreditava no seu potencial.
– Você pode me tirar daqui? Pode me levar de volta ao mundo real?
– Talvez. Depende.
– Por favor, me ajude. Me diga o que devo fazer.
– Você é forte, constatei isso.
– O que está acontecendo? Como vou voltar?
– Você não vai poder voltar e isso causará sofrimento.
– Quem é você de verdade? Por que não me ajuda?
– Você está presa. Não vai voltar e terá consequências ruins, porém você é forte para lidar com tudo o que virá.
– Por que eu apareço morta nos meus sonhos?
– Você deve estar morrendo no mundo real. Mas, lembre-se, aquele mundo não presta, lá as pessoas são más, o mundo todo está em colapso. Aqui tudo é bom, as pessoas são boas e a realidade é perfeita. Apenas aceite seu destino e aproveite enquanto ainda pode estar em um mundo melhor. – Quando terminou de falar, ele desapareceu e tudo ficou escuro. Kelly ficou gritando para ele voltar, dizendo que queria sua realidade de volta, que não queria morrer.
Ela despertou gritando. Dessa vez, seu corpo não tremia, não tinha enjoo, só tinha raiva e indignação. Ela foi para a banheira tentar voltar para a realidade através da água e, depois de duas horas, não conseguiu. Voltou para a cama tentando ter outro sonho revelador e não conseguiu dormir. Assim, ficou por muito tempo pensando e tentando sonhar. Depois de muito pensar, lembrou-se de que teria aulas com o professor Thomas no dia seguinte e tentaria conversar com ele. Pensando nisso, acabou dormindo vencida por um cansaço mental. E nada sonhou.
Amanheceu, Kelly estava decidida a conversar com o professor e chegou mais cedo na faculdade, foi até a sala dos professores e ele não tinha chegado ainda. Foi para a sala de aula e ele estava atrasado. Depois de quinze minutos de atraso, chegou na sala sem explicações, começou a passar a matéria do dia. Dessa vez, sem fazer contato visual com a Kelly, como ele sempre fazia.
Durante a aula, ela resolveu chamar a atenção dele, fazendo perguntas sobre a matéria. Foi sagaz e pensou em algo complexo para perguntar. O professor pareceu surpreso e intrigado com a pergunta e entraram em debate. Para a surpresa de todos os alunos e até mesmo do professor Thomas, Kelly disse que não concordava com o posicionamento dele, quando ele respondeu seu questionamento.
Ele a rebateu dizendo que havia escrito um livro sobre o assunto e, mesmo assim, ela estava decidida no seu posicionamento e querendo a atenção dele. Não ficou intimidada, continuou falando:
– Um livro não é uma verdade absoluta. Todos têm direito de ter um posicionamento contrário, vivemos em uma sociedade democrática e livre, não é mesmo?
– Recomendo que você leia o meu livro antes de vir contestar, Kelly. Se pensa diferente, escreva uma doutrina ou um artigo científico e depois voltamos a conversar. – Ele falou de forma ríspida e arrogante.
– Eu já estou terminando de ler seu livro, depois vão surgir ainda mais questionamentos, vai ser ótimo assistir sua explicação. Debates servem para engrandecer, não é mesmo?
– Claro, você tem toda liberdade de discordar. Admiro sua coragem, porém, o dia que você escrever uma doutrina contestando a minha, nossa conversa pode ser mais plausível.
– E o dia em que as pessoas não se acharem superiores às outras, as conversas também serão mais plausíveis.
– O que está acontecendo aqui? Você tem algum problema comigo ou com minha aula? Se discorda dos meus estudos, que levei anos para provar, tem a liberdade para sair da sala agora.
– Que bom o senhor falar de liberdade… Eu gostaria de usar a minha, se me permite. A minha liberdade de sair ou ficar aqui.
– Claro. Obrigado pela colaboração na aula, Kelly. Agora pretendo continuar com o conteúdo. – Falou para encerrar a discussão.
– O senhor fará uso da sua liberdade, continue, por favor.
Ela não deixou se intimidar, ficou firme o tempo todo, mesmo que suas mãos estivessem tremendo e seu coração acelerado. Foi como percorrer uma maratona e, mesmo que não tenha acontecido o pior, sentiu-se como se tivesse chegado em segundo lugar. O professor continuou com a matéria, porém ninguém conseguiu mais prestar atenção e a sala ficou um burburinho.
Os alunos estavam chocados com a atitude da Kelly, alguns tinham até filmado porque ninguém acreditaria que algum aluno teve coragem de falar daquele jeito com o professor mais terrível da faculdade. Depois de dez minutos, o professor decidiu terminar a aula mais cedo porque ninguém estava focado, o fuxico não parava e ele mesmo tinha ficado desconsertado, principalmente porque foi pego de surpresa. Os alunos não costumavam falar daquele jeito com ele, tinham medo.
Com o término antecipado da aula, os alunos saíram da sala cochichando e olhando para Kelly. Ela esperou que todos saíssem da sala e foi até o professor, que ficou sentado guardando seus materiais dentro de uma pasta. Ela se aproximou e pediu para conversar. Mas, sem ao menos olhar para ela, ele respondeu que estava atrasado. Ela perguntou se podia marcar um horário. Ele relutou, dizendo que não concedia horários extras para nenhum aluno, e dessa vez olhou no rosto dela, apenas depois de fechar sua pasta e se levantar para ir embora. Ela disse:
– Professor, sobre o que falamos na aula, isso não fere a nossa liberdade? Eu não vou ter liberdade de conversar com você nunca?
--- Kelly\, você é a aluna que mais me surpreendeu depois de tantos anos como professor. Façamos o seguinte: eu marco uma hora com você\, com uma única condição: que você tire nota máxima na minha prova.
– Mas, eu preciso falar com você agora e as provas vão demorar um mês ainda.
– É sua única oportunidade de conversar comigo, eu não sou de facilitar e abrir exceções. Não converso com nenhum aluno fora do horário de aulas e não vou mudar agora. É pegar ou largar. – E imediatamente saiu da sala sem dar oportunidade de resposta.
Ela o seguiu, dizendo que tinha algo importante para falar, mas ele andou na frente dela sem se importar. Ele foi para o estacionamento e, irredutível, entrou no carro, fechou a porta na cara dela e foi embora. Ela ficou frustrada e com raiva. Não poderia esperar um mês. Além disso, os alunos diziam que as provas dele eram extremamente difíceis e ninguém conseguia tirar notas boas. As poucas pessoas que passavam na matéria tiravam o mínimo necessário para a aprovação. Ou seja, ele arrumou uma desculpa para nunca ter que conversar com ela.
Mesmo sem esperanças de conseguir tirar nota máxima, era sua única chance de conseguir conversar com o professor. Então, assim que chegou em casa, foi estudar a matéria. Estudou até a hora de dormir. E assim passou a fazer todos os dias assim que chegava da faculdade. Só parava quando sua mãe chamava para o jantar e depois continuava até dormir.
No dia em que teria outra aula com o professor Thomas, ele não compareceu e pediu que os alunos ficassem fazendo um exercício. Kelly achou estranho porque seus colegas de classe comentavam que ele nunca tinha faltado nenhuma aula antes. Ela queria encontrá-lo, mas parecia cada vez mais difícil.
Ela ficou a semana toda estudando. O Michel não tinha mais entrado em contato desde que soube a verdade sobre este mundo porque provavelmente não acreditou em nada. Porém, ela não esperava que ele entendesse, possivelmente achou que ela estava doida. E, como estava focada nos estudos, não pensou quase nada nele.
Quando chegou o fim de semana, estava exausta e desejou ter outros daqueles sonhos e poder conversar com o professor através deles. Ao adormecer de cansaço, realmente teve um sonho, mas dessa vez o professor não apareceu. O que ela viu foi sua família sofrendo novamente, tristes por sua morte.
Viu que Charlie estava em depressão profunda e foi internado com risco de tentar tirar sua própria vida. Viu seu pai entrando em um coma alcoólico por beber ainda mais que o costume por sofrer a morte da filha. Ele precisou se internar em um hospital e sua mãe e irmã estavam desesperadas com tudo. E seus amigos estavam em choque, cabisbaixos e sem energia, faltavam às aulas.
Kelly acordou triste, mas estava tão cansada que dormiu imediatamente de novo, por cerca de doze horas. No dia seguinte, acordou fraca e marcada pelo sonho assustador. Ela tentou comer algo forte e não resolveu. Era domingo de manhã, estava um dia tranquilo e pensou em fazer uma caminhada para se sentir melhor.
Enquanto andava nos arredores da sua casa, ficou cada vez mais fraca, tentou correr e não conseguiu. Parou para descansar e, depois de dez minutos, caminhou de volta para a casa. Passou o dia com enjoo. Não conseguiu comer direito. Sua mãe percebeu e lhe deu um remédio que não adiantou quase nada.
No dia seguinte, ela foi para a faculdade e, assim que chegou, desmaiou no corredor e foi levada para a enfermaria que tinha no campus. Ao despertar, insistiu que estava bem. Seus amigos ficaram preocupados com ela porque parecia muito abatida e pálida. Eles queriam levá-la para casa, mas ela resistiu porque a última aula seria do professor Thomas e precisava tirar a melhor nota, por isso não podia faltar nenhum dia de explicação da matéria.
Com isso, letárgica, com dor de cabeça e fraca, ela resistiu até a última aula. O professor Thomas chegou na sala e, como sempre, sem conversa, começou a explicar o conteúdo do dia. Durante a aula, ele percebeu que Kelly passava mal e perguntou se estava tudo bem, e ela confirmou. Novamente, ele terminou a aula um pouco mais cedo e pediu para conversar com ela. Ela se encheu de esperanças. Os alunos saíram da sala e depois ele disse:
– Eu sei por que você está passando mal. É uma consequência.
– Consequência de quê?
– Você sabe.
– Então, eu estava certa, você está sabendo de tudo. Está por trás disso, certo?
– Não afirme o que ainda não sabe. Eu não vou dizer mais nada até você conseguir tirar a nota máxima na minha prova.
– E eu estou passando mal por quê?
– Você vai aguentar. Tente se alimentar bem e não faça muito esforço físico.
– Me ajude. Você é o único neste mundo que sabe o que está acontecendo. Você também é como eu? Acordou de um coma?
– Não. Na verdade, eu sou o criador do mundo ideal. – Kelly estava tão fraca e se assustou tanto ao escutar isso que seu coração bateu de forma descompensada e ela desmaiou de novo.
Quando acordou, estava na enfermaria novamente. Ela ficou tão fraca que precisaram ligar para sua mãe lhe buscar e depois foi levada ao hospital, onde tomou vitaminas na veia para se fortalecer. Além disso, sua pressão tinha subido e ficou umas horas em observação no hospital até seus sinais vitais se regularem.
Enquanto ela estava no hospital, aquela frase do professor não saía de sua mente, ele disse que era o criador do mundo ideal. Ela tinha calafrios só de lembrar daquele momento, teve medo. Agora ele era ainda mais assustador do que antes. Na sua mente ecoava sem parar a afirmação do professor e, em seguida, a pergunta: E agora?
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Atualizado até capítulo 64
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