Kelly recebeu uma mensagem do garoto que conheceu no consultório da terapia. Como tinha ficado todos esses dias sem se interessar por seu celular, por não ter recebido nenhum telefonema ou mensagem, por todos os seus conhecidos ainda acreditarem que ela estivesse em coma, antes de olhar a mensagem recebida, decidiu vasculhar seus arquivos salvos. Encontrou mensagens e ligações de seis meses atrás, antes do coma, e nada recente.
As mensagens eram dos amigos da faculdade, pessoas que ela conhecia e tinha amizade, nada diferente do que estava acostumada. Entretanto, não tinham mensagens do Charlie e nem mesmo salvo o contato telefônico dele, não constatou nenhuma ligação recebida, deixando-a ainda mais intrigada com o sumiço dele.
Eles costumavam trocar mensagens cotidianamente. Ela pensou em ligar, mas não lembrou qual o número do telefone dele.
Depois, verificou a mensagem que recebeu. Estava dizendo: " Boa noite, nos encontramos na terapia hoje. Salve meu número para podermos conversar. Meu nome é Michel." Imediatamente, Kelly salvou o número do rapaz e respondeu à mensagem apenas o cumprimentando. Ele perguntou se podia ligar, afirmando que a conversa fluiria melhor. Kelly concordou, apesar de preferir conversar por mensagens.
Imediatamente, recebeu uma ligação e eles começaram a conversar:
— Alô!
— Oi, tudo bem?
— Sim, e você?
— Tudo. Eu me esqueci de perguntar aquele dia, qual é o seu nome?
— Me chamo Kelly.
— Foi um prazer te conhecer, Kelly. Qual é a sua idade?
— Tenho dezoito e você?
— Eu tenho dezenove.
— Legal!
— Fiquei pensando sobre o que conversamos naquele dia.
— Eu também fiquei. Achei que tínhamos histórias parecidas. Eu acordei de um coma e fiquei confusa como você.
— Sim. Pensei que pudéssemos trazer algo de bom um ao outro. Não sei o motivo, mas senti uma necessidade de conversar mais.
— Eu também. Tem certeza de não ter notado nada estranho com as pessoas? Na verdade, com tudo à nossa volta. Está tudo diferente.
— Eu não sinto mais isso. Era apenas uma confusão que tive quando despertei e foi coisa rápida. Não durou muito tempo.
— Não é possível que seja apenas comigo.
— É normal. Pode ter ocorrido pequenas lesões cerebrais e acordar depois de muito tempo confunde as ideias mesmo.
— Meus exames estão ótimos. Não constatou nenhuma lesão cerebral.
— Que ótimo! Então, acho que a terapia pode auxiliar a melhorar. Eu também estou disposto a ajudar, se você permitir.
— Não vejo solução. É bem sério, eu até sonhei. Mas minha família não acredita em mim.
— Eu vou tentar o meu melhor para acreditar. Podemos continuar mantendo contato?
— Claro!
— Eu te ligo depois. Até mais!
— Até! – Quando finalizou a ligação, foi dormir.
Nos próximos dias, não conseguiu focar em nada. Sempre que dormia, desejava ter um sonho como aquele em que uma voz contava sobre um universo paralelo. Por isso, tirou vários cochilos durante os dias, esperando explicações em sonhos. Sua família estava preocupada por notá-la estranha, distante e desligada de tudo à sua volta.
Pediram para ela entrar em contato com seus amigos e convidá-los para uma visita. Disseram que sairiam de casa e deixariam eles à vontade, afirmando que seria bom reencontrá-los. Ela concordou porque estava muito curiosa se seus amigos ainda eram os mesmos de antes e se tinham alguma nova informação sobre todas as mudanças que vivia.
No mesmo dia, deixou uma mensagem no grupo de amigos contando que tinha acordado do coma. Eles ficaram eufóricos e até acharam que era uma pegadinha. Ela precisou deixar mensagens em áudio para que acreditassem e, com isso, ficaram muito empolgados e felizes. Recebeu algumas ligações, enquanto outros inundaram seu celular de mensagens. Queriam conversar e saber como ela estava.
Falar com eles rendeu o restante do dia e noite adentro. Eles não paravam de conversar. Kelly ficou bastante cansada. Teve que dar várias explicações sobre sua saúde e escutar atualizações de acontecimentos na faculdade e na vida deles durante os últimos seis meses. Por fim, marcaram de se reunir no sábado, em apenas dois dias. Depois contou aos seus pais, que ficaram felizes e pediram para ela aproveitar e se descontrair.
Um dia antes da reunião com seus amigos, o Michel ligou. Disse que queria saber se ela estava bem. Eles conversaram:
— Estive pensando em você. Eu sei como se sente. É estranho acordar depois de um longo coma. – Ele falou. Ficou pensando nela, tinha muita curiosidade e desejava conhecê-la mais.
— Estou lidando como posso.
— Por que você ficou em coma?
— Disseram que tive um acidente de trânsito. Eu não lembro, achava ter me afogado na praia.
— Qual praia?
— Que fica perto da minha casa. Chamada Praia Solano.
— Essa praia foi fechada para banho. É muito perigosa, tem ondas muito fortes e casos de vários ataques de tubarão.
— Sério? Que estranho, não era assim antes.
— Que eu saiba, é assim há mais de um ano.
— A cada coisa que descubro, mais confusa fico.
— Tenha calma. Deixa tudo ao seu tempo.
— Você diz isso porque não sabe como tem sido difícil.
— Sua saúde está boa, certo? E sua família está bem, né?
— Sim. Bem melhor que antes.
— Então, deixa de se preocupar tanto, tente não pensar muito. Você vai ficar bem. E os seus amigos?
— Falei com eles hoje. Ficaram felizes por eu ter me recuperado.
— Está vendo, tudo está bem. Não esquente a sua cabeça com mais nada. Você está se sobrecarregando.
— Amanhã vou me reunir com eles. Falando nisso, você gostaria de vir? Será aqui na minha casa. Não é uma festa, apenas um encontro de amigos.
— Eu adoraria ir. Obrigado por me convidar. Onde você mora?
Kelly passou seu endereço e descobriram que moravam em setores próximos. Ela achou que foi impulsiva em convidá-lo tão de repente porque se conheceram há poucos dias. Mas, de alguma forma, se sentia confortável porque ele parecia ser uma boa pessoa e com boas intenções.
Por outro lado, Michel não achou precipitado o convite e ficou muito feliz. Ficou ansioso para encontrá-la pessoalmente novamente. Por alguma razão, sentia-se empenhado em conhecê-la mais e estava gostando das conversas que tinham. Parecia que tinham uma ligação que somente quem passava por situação semelhante poderia entender.
Quando chegou o dia do encontro com os amigos, os pais da Kelly saíram de casa com sua irmã para deixá-los à vontade. Seus amigos chegaram por volta das dez da manhã e pretendiam passar o dia todo juntos. Eles ficaram surpresos ao ver que Kelly não tinha mudado desde seis meses atrás, antes do coma. Estava com a mesma boa aparência de sempre. A felicidade tomava conta de cada um, seis meses sem se verem fez com que sentissem muitas saudades.
A cada amigo, Kelly recebeu com um abraço caloroso e empolgado. Eles eram um grupo bem unido de três garotos e quatro garotas, contando com ela. Também fazia parte do grupo sua melhor amiga, a Georgia, uma garota muito corajosa, que gostava de debates e lutar por causas sociais, destacando-se na faculdade por seus discursos em favor dos menos favorecidos e por ser muito extrovertida e sociável. Juntas, costumavam dialogar sobre as causas estudantis na faculdade. Era como se fossem o braço direito uma da outra, um complemento.
O grupo ficou fazendo elogios, dizendo que Kelly continuava linda. Depois, perguntaram sobre o estado de saúde dela. Um dos amigos disse que queria trazer bebidas alcoólicas para comemorarem, mas uma amiga o advertiu dizendo que Kelly ainda poderia estar se recuperando do acidente. Portanto, seria um encontro sem bebidas alcoólicas, apenas comidas e muita conversa.
Eles se sentaram no quintal da casa e ficaram conversando. Pediram pizza e bebiam refrigerante. Kelly se viu em silêncio, apenas os observando, estava aliviada depois de perceber que eram exatamente os mesmos, não tinham mudado nada, diferente de sua família. Assim, sentiu-se como antes, pela primeira vez em dias, ficou totalmente confortável e muito feliz. Como se tudo voltasse a ser como antes e nada mais estranho ao seu redor fosse lembrado. No fim da tarde, a campainha da casa tocou e Kelly se lembrou de ter convidado Michel, só achou que não fosse mais comparecer.
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Atualizado até capítulo 64
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