O Michel bateu à porta do quarto da Kelly e ela pediu para entrar. Ele iniciou o diálogo imediatamente: “Eu fiquei preocupado de que você estivesse passando mal de novo porque não atendeu minhas ligações e não respondeu minhas mensagens”. Kelly não soube explicar. Enquanto isso, sua mente vagou em admiração à imagem que via.
Ele estava muito bonito, pensou que talvez a roupa que usava tenha caído muito bem. Sentiu que estava especialmente mais atraente do que o costume. Talvez porque não o via há muito tempo. Lembrou-se do beijo que deram na última vez que ficaram juntos. Foi um beijo maravilhoso e tentou refutar da sua mente, o que foi em vão, era impossível controlar suas sensações e pensamentos involuntários.
Quando percebeu o silêncio e a falta de resposta, ele perguntou:
— Está tudo bem?
— Sim… Quer dizer, eu só estou um pouco pensativa. O que veio fazer aqui?
— Eu queria saber se você está bem. Fiquei preocupado.
— Olha, podemos esquecer esse dia em que passei mal.
— Claro. Como queira. – Na verdade, o que ela queria dizer era para esquecer tudo o que aconteceu entre eles, principalmente o beijo.
Para o Michel, passou apenas um dia desde a última vez que encontrou a Kelly, mas para ela foram vários dias, deixando-a mais confusa com aquela situação. Enquanto ele estava confortável, ela não sentiu o mesmo. De repente, teve uma ideia para tentar afastá-lo e disse:
— Michel, estive pensando durante a noite, acho melhor a gente se afastar. Tenho namorado e, da última vez que estivemos juntos acabamos nos beijando. Eu sei que fui culpada porque te chamei aqui em casa. Admito que agora estou arrependida.
— Sério? Você se arrepende, de verdade?
— Desculpa. Não devia ter acontecido.
— Foi algo natural e espontâneo. Não precisa se preocupar. Eu não vou te atacar. – Ele disse de forma irônica e visivelmente incomodado com a afirmação dela.
— Não seja exagerado. Eu sei disso. Você entende… Está claro que, se continuarmos juntos, podemos aflorar sentimentos que não devem existir.
— Você está com sentimento que não deve existir? – Kelly se surpreendeu com a pergunta, não esperava por isso e percebeu que aquela conversa foi desviada para outro caminho.
Analisou a imagem na sua frente, o semblante interessado e concentrado do Michel. Enquanto esperava alguma resposta dela, o silêncio permeou o quarto. Ela ficou nervosa, suas mãos ficaram frias e as palavras desapareceram. Com a falta de diálogo, Michel criou coragem e insistiu em obter respostas: “Você tem algum sentimento, Kelly?”.
Com tal pergunta, Kelly refletiu sobre si mesma, conseguiu enxergar que claramente tinha desenvolvido um sentimento especial por ele, mas não soube distinguir. Não conseguiu classificar e não desejou se aprofundar porque seria pior e ficaria mais intenso se desse mais importância ao que não devia.
Contudo, responder que não tinha sentimentos diferentes do esperado seria uma grande mentira. Ela não soube analisar se mentir naquela situação seria pior ou melhor. Depois de mergulhar nos seus pensamentos, tentou encontrar as palavras certas, não conseguiu e falou instintivamente:
— Eu não sei. Estou ficando confusa. Por isso, acho que é o momento de um afastamento.
— Eu não estou confuso do que estou sentindo. Mas vou te respeitar. Disse que seria um amigo, não vou passar dos limites. Por que não confia em mim?
Kelly percebeu que não confiava em si mesma. Seu interesse no Michel podia ser perigoso e arriscado. Além disso, ele era inexistente no mundo real. Por alguns segundos, questionou se a inexistência dele era boa ou ruim. Depois disso, sua mente divagou para outros pensamentos. Talvez existisse alguma razão para o Michel ter aparecido neste novo mundo. Devia ter um significado oculto.
Michel percebeu a distração e continuou:
— Kelly, só quero te ajudar. Eu tenho interesse em saber mais sobre o que você sente. Você diz que tem namorado, então me apresenta para ele. Podemos ser todos amigos, se você quiser.
— Eu não posso. Lembra… Eu disse que era complicado.
— Se é tão complicado, existe algo estranho. Não posso te obrigar a confiar em mim e me contar. Mas, acho estranho que ontem nós estávamos bem e hoje você tenta me afastar.
— Eu tenho medo de confundir as coisas. Preocupo-me de que o sentimento vindo da amizade se torne outra coisa. – Ela foi sincera porque realmente tinha esse temor.
— E por acaso você está desenvolvendo sentimentos?
As perguntas do Michel desviavam o foco da questão que Kelly desejou com aquela conversa. Enquanto isso, ela lutou contra si mesma, seu coração ficou acelerado e sentiu um nervosismo estranho transparecer, enquanto suas mãos ficavam geladas. Antes que ele insistisse ou fizesse outra pergunta pior, respondeu:
— Acho que sim. Por causa do beijo. Por isso, peço o nosso afastamento.
— E se eu não desejar me afastar? Não importa como me sinto?
— Não é assim. Não desvie a situação. Vai ser melhor para nós dois.
— Estou pronto para te ajudar, para te entender, para saber mais sobre você e limitar os meus sentimentos enquanto estou contigo. Mesmo assim, você quer me fazer desaparecer. Isso não é o melhor caminho.
Ao pensar bem, era exatamente isso que ela tentou fazer. Desejou que o Michel desaparecesse assim como o Charlie desapareceu neste mundo. Ela estava buscando a inexistência dele. E agora, depois dos questionamentos feitos por ele, pensou que podia cometer um erro causado pela confusão entre as realidades diferentes que estava vivendo. Depois da pequena reflexão, falou:
— Você está certo. Estava tentando te fazer desaparecer. Mas, pensando melhor, não posso fazer isso, nos encontramos por alguma razão qualquer. Eu acho que devemos lidar um com o outro. Talvez você possa me ajudar em algo, quem sabe não seja a minha chave para abrir respostas.
— Eu quero ser a chave do seu coração. – Ele falou espontaneamente e sem nenhum receio.
Era a declaração mais direta que ele tinha feito até o momento e Kelly não esperou algo direto. O que estava nas entrelinhas agora ficou mais claro para ela, estava acontecendo um sentimento amoroso e isso fez o coração dela acelerar e uma sensação de vibração e formigamento em seu estômago surgir instantaneamente. Ao mesmo tempo que ela gostou disso, também refutou o máximo que conseguiu e desejou bloquear toda a sensação que ele causou.
Kelly escutou o flerte de Michel e pensou que foi em vão tentar afastá-lo. Michel se mostrou irredutível e a questionou tanto ao ponto de fazê-la mudar de ideia sobre o que devia fazer. Ela decidiu não aprofundar mais a questão e respondeu, respirando fundo e contrariada:
— Michel… Assim, você dificulta a minha vida. – Foi como um desabafo.
— Eu quero ser uma solução para sua vida. – Kelly engoliu em seco e disse:
— E como podemos fazer isso dar certo se você está deixando os sentimentos verdadeiros falarem mais alto?
— Tem razão. Não vou ultrapassar nenhum limite. Posso estar apaixonado, mas tenho noção. – Kelly só conseguiu focar na palavra “apaixonado” e ficou chocada com o quão direto ele estava sendo.
— Então… Podemos ir com calma… Até mesmo na nossa amizade. Evoluímos nossa intimidade como amigos de forma muito rápida.
— Isso é normal. É só uma amizade.
— Sim, só que estamos cada vez mais íntimos. Vamos com mais calma.
— Não entendo. Apenas estamos nos conhecendo mais. Não é um problema.
— Você é realmente decidido. Difícil tentar algo aqui. – Ela cruzou os braços e revirou os olhos.
Ele começou a rir, pareceu se divertir, não estava intimidado com a conversa e as revelações que surgiram. Michel estava muito confiante de que valia a pena lutar pela amizade deles porque estavam construindo algo bonito. E Kelly estava relutante, apesar de pouco a pouco ser convencida de que ele não se deu por vencido.
Por fim, Michel foi o vencedor daquela conversa e, percebendo a situação, tentou explicar:
— Eu não vou me dar por vencido, não quero perder sua amizade. Desde o começo, me comprometi com isso. Desde quando nos conhecemos.
— Ok. Vamos manter a amizade e nada além disso.
— Tudo bem. Você que manda, não sabe disso ainda?
— Certo, engraçadinho.
— Eu estava preocupado, você tinha passado mal. E agora percebo que não respondia meu contato porque tentava me evitar.
— Deixa para lá. Inclusive, eu estou bem. Não se preocupe.
— Que bom. Você quer fazer alguma coisa? Sair para comer? Assistir a um filme?
— Não. Eu quero ficar sozinha. Podemos nos falar depois? – A conversa rendeu bastante, foi longa e reveladora. Kelly só desejou encerrá-la o mais rápido possível.
— Ok. Como eu disse, é você que manda. Vou embora. Te ligo amanhã.
—Tchau.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 64
Comments