Capítulo 14

Depois do conflito em família, o clima na casa da Kelly ficou ainda mais pesado do que o costume. Seus pais mal se olhavam. Não ficavam no mesmo cômodo. Nos dias seguintes, ele foi ao bar todas as noites e a única vez que falou com a mãe dela foi para pedir outro cartão de crédito porque tinha estourado o limite do que usava. Tudo que ele gastava com as bebidas era pago com o dinheiro dos aluguéis dos imóveis da mãe dela. Kelly achava injusto, porém ao menos não estavam tentando se matar em meio a brigas. Era ruim, mas poderia ficar ainda pior, então se calou, aceitou e tentou seguir sua vida.

Enquanto isso, na faculdade, o Daniel viu a Kelly sozinha e aproveitou o momento raro, sem seus amigos por perto, para se aproximar. Ela estava parada na porta de saída, distraída, mexendo em seu celular. Ele se aproximou e disse:

— Oi! O que espera aqui sozinha?

— Estou esperando meu namorado. Ele vem me buscar para sairmos juntos.

— Entendi. Você está melhor?

— Como assim? Eu não estava mal.

— Estava confusa. Não estava?

— Sobre o quê?

— Sobre sua vida, sua realidade, seus relacionamentos.

— Você está tentando dizer alguma coisa que não estou entendendo? – Ela ficou intrigada com o comentário, realmente tinha estado confusa, mas como ele poderia saber? Ela pensou que talvez ele fosse um médium ou alguém com alta sensibilidade para adivinhações, porém logo tirou essas ideias da mente. Ele não aparentava ser nada disso.

— Estou tentando te entender. Ainda está confusa ou não?

— Você está muito estranho. Tem algo que deseja falar? Seja mais direto. Se quer contar algo ou se sabe de alguma coisa, fala logo e para de ficar contornando, fazendo perguntas estranhas.

— O que você acha da gente sair para conversar? Eu posso explicar por que tenho te achado confusa.

— Não, obrigada. – Uma parte dela queria dizer sim apenas para escutar o que ele tinha a dizer, mas, por outro lado, tinha medo de alimentar algo que não devia.

Charlie chegou. Estava com o carro do seu pai porque ele ainda não tinha carro próprio. Estacionou na porta. Mas Kelly não notou sua chegada porque estava distraída naquele assunto misterioso. Então, ele desceu do carro e foi ao encontro dela. Quando se aproximou, foi direto e apressado:

— Vamos?

— Oi! Não te vi chegar. Vamos sim. – Quando ela começou a andar, o Daniel falou:

— Olá, muito prazer! Me chamo Daniel, sou colega de classe da Kelly. – Ela achou desnecessária tal apresentação.

— Prazer, sou Charlie.

— Você é o namorado?

— Sim.

— Já estamos indo. Até mais, Daniel. – Kelly falou, puxando a mão do Charlie e saindo de perto.

A conversa com o Daniel a deixou intrigada. Era a segunda vez que ele falava coisas estranhas. Parecia saber de algo. Ao mesmo tempo, ela não imaginava que seria possível, sendo que nem ela sabia o que tinha acontecido com sua suposta viagem a um universo paralelo. Quanto mais pensava, mais confusa ficava. Por isso, decidiu parar de lembrar daquela outra realidade e ignorar tudo o que tinha acontecido. Na verdade, queria fingir que nada daquilo tinha realmente acontecido.

Depois de muitos dias sem aparecer nas aulas de dança, Kelly resolveu voltar. Ela sentiu que estava enferrujada, como se estivesse ficado anos sem dançar. Na aula, para sua surpresa, o Daniel estava presente. Ele tinha ido todos os dias esperando que ela aparecesse, sem desistir.

Ele cumprimentou e ela respondeu friamente, logo depois se afastou. Todas as vezes que ele tentou se aproximar, como quando se sentou ao lado dela ou tentou puxar assunto, ela se afastou em todas as tentativas sem disfarçar o desconforto. Até que, ao final da aula, ele a chamou e perguntou:

— Kelly… Está me ignorando?

— Por que você continua vindo aqui? Você me disse que só vinha nessas aulas por minha causa.

— Eu passei a gostar de dançar. Eu posso ser péssimo dançarino, mas me ajuda a clarear a mente. – Kelly duvidou, ele era o aluno menos interessado na aula e mais observava do que dançava. E estava certa, ele continuou frequentando as aulas para vê-la. Ela disse:

— Ok. Então, não posso fazer nada quanto a isso. Boa sorte e até logo.

— Até!

Kelly chegou em casa exausta, seu corpo todo doía por ter se esforçado muito nas danças, ela se jogou na cama e adormeceu sem querer. Quando acordou, já era de madrugada. Estava sentindo muito calor e desejou se refrescar de alguma forma. Seu corpo estava tão quente que pareceu queimar. Ela olhou a previsão do tempo atual e, estranhamente, a temperatura não estava alta. Porém, para ela, parecia que estava fervendo. Sentiu uma enorme vontade de ir para a praia, era sempre a mesma sensação esquisita.

Era inexplicável porque a vontade se tornou incontrolável, mesmo que fosse de madrugada. Se esforçou ao máximo para controlar seu desejo, temendo que pudesse se afogar como naquele dia. Decidiu  tomar um banho. Ficou embaixo do chuveiro por alguns minutos e colocou a ducha em sua maior potência. Tentou esvaziar a mente e relaxar.

Saiu muita água do chuveiro, que podia sentir as gotas pesadas baterem em seu corpo com força. De repente, sentiu-se muito tonta, que mal conseguiu parar em pé. Suas pernas começaram a bambear e a tremer incontrolavelmente. Ajoelhou-se no chão e sentiu seu corpo estremecer e se deitar lentamente, mesmo com a água caindo em cima dela. Ela se sentiu estranha e não soube o que estava acontecendo, não teve muito tempo de pensar e apagou.

Acordou assustada e dentro da banheira. No entanto, antes estava no chuveiro e não na banheira, mas não conseguiu pensar como parou ali porque se sentiu fraca. Levantou-se ainda sentindo suas pernas bambas. Colocou a toalha e voltou para seu quarto, sentindo-se enjoada, colocou suas roupas com muita dificuldade e adormeceu em seguida sem conseguir se controlar com o corpo mole.

Quando acordou, foi até a cozinha tomar café e ir para a faculdade. Encontrou sua mãe preparando uma comida. Ela olhou à sua volta e os móveis da casa estavam diferentes, deixando-a confusa. Sua mãe parecia feliz, como não via há dias, lançou um sorriso agradável e perguntou:

— Está com fome? Preparei ovos mexidos.

— Sim. Obrigada. Eu preciso comer rápido, devo estar atrasada para a faculdade. Acordei tão estranha que não olhei no relógio.

— Como assim? Você vai voltar para a faculdade? Quando destrancou a matrícula? Você não disse nada.

Ao escutar isso, uma sensação estranha percorreu seu corpo e algo veio à sua mente, mas ela não queria acreditar. Kelly percebeu que poderia ter voltado para aquele mundo diferente de novo, aquela realidade paralela. E respondeu:

— Eu não estava indo para as aulas há um bom tempo, não é mesmo?

— Ainda acho cedo para voltar. Tenha calma. Você realmente renovou a matrícula?

— Não. Eu estava apenas brincando. – Percebeu que seus pensamentos estavam corretos, não estava mais em sua realidade normal, o que justificou a mudança dos móveis da casa e o fato de não frequentar a faculdade, que causou o espanto da mãe ao falar do assunto.

— Ah, sim! Você me pegou de surpresa. Mas… Pensando bem, talvez seja bom voltar em breve.

— Vamos pensar sobre isso.

— Claro. O que for preciso para você ficar bem, minha querida. Mudando de assunto, quando aquele rapaz educado vai voltar aqui em casa? Gostei tanto dele, o Michel.

Aquelas lembranças vieram como uma cachoeira. O mundo de Michel tinha voltado. Seu coração disparou. Ela não tinha pensado nele porque queria esquecer este mundo diferente. E agora tudo aquilo voltou como uma pancada rápida, fazendo sua mente pensar de forma descompensada, causando-lhe uma pontada na cabeça.

Kelly foi para seu quarto, tonta, assustada e abalada. De repente, ficou frenética com sua mente com tantos pensamentos misturados e sentiu dores de cabeça. Achou que estava enlouquecendo, ela queria gritar. Não podia mais lidar com essa diferença de realidade. Não queria ter voltado a viver isso de novo. Poderia surtar a qualquer momento.

Andou de um lado para o outro e ficou pensando em como foi parar ali. Lembrou-se de que, quando mudou a realidade, sentiu mal-estar e teve vontade de entrar na água, a última coisa de que lembrava era estar no chuveiro e acordar na banheira. Por isso, entrou na banheira e ficou dentro por uma hora tentando fazer algo acontecer, voltar ao normal, mas nada mudou. Desistiu e tentou pensar em outra coisa. Queria ter outro sonho estranho. Só que isso não poderia ser controlado e não tinha sono.

Sentiu-se desolada. Sentou-se na cama e começou a chorar. Estava em um círculo vicioso do qual não tinha ideia do que acontecia. Deitou-se e  forçou-se a dormir durante o dia todo. Sua mãe percebeu que ela demorou a sair do quarto e foi várias vezes bater em sua porta, e ao abrir, Kelly fingiu dormir todas as vezes.

No fim da tarde, sua mãe entrou no quarto acompanhada da sua irmã e perguntaram o que estava acontecendo. Kelly respondeu:

— Eu só estava dormindo. Não se preocupem. Inclusive, tenho uma pergunta: vocês são robôs? – Elas se olharam surpresas e logo começaram a rir muito.

— Que engraçadinha! Eu pensando que não se sentia bem e você fazendo piada. – Disse a Vivian. Mas Kelly não se deu por vencida com as gargalhadas e quis saber mais:

— Qual programa mental instalaram em vocês? Ou foi uma lavagem cerebral?

— Para de besteira, filha. Estamos preocupadas com você. Passou o dia todo fechada no quarto, sequer saiu para comer. – Sua mãe saiu da postura descontraída e ficou séria, parando de sorrir.

— Pois é.

— Pois é? É sua resposta? Fale logo o que você tem. – Vivian ficou ansiosa.

— Quanta pressão! Eu não sei. Estou me estressando.

— Amanhã podemos ir à sua faculdade pedir a reabertura da matrícula. Só tem um mês para o fim do semestre e logo você pode voltar ao curso, vai ser ótimo! – Sua mãe tentou fazê-la sentir-se melhor.

— Ok. Como queira.

— Agora saia do quarto, venha me ajudar com o jantar. Vamos fazer uma comida deliciosa, que tal?

— Não quero.

— Ok. Eu chamo quando ficar pronto. Depois podemos tomar sorvete na sobremesa. – Sua mãe falou e saiu do quarto, enquanto  Vivian permaneceu e sentou-se na cama ao lado da Kelly. Ficou  observando em silêncio e depois falou:

— Chama aquele seu amigo lindo, o Michel. Vamos assistir a um filme. Pode ser?

— Não. Eu estou tentando pensar em algo aqui, ok? Você pode voltar a ser uma chata e me deixar sozinha por um tempo? Não está me ajudando. – Vivian ficou bastante ofendida, não esperava uma reação tão irritada. Ela lacrimejou, sentindo-se decepcionada. Mas, logo, segurou seu sentimento por acreditar ser um problema de desordem psicológica da irmã e tentou entender seu comportamento estressado.

Depois de refletir e ficar paralisada por dois minutos, falou: “Está bem. Se precisar, é só chamar, vou dar um tempo da minha presença”. E se retirou do quarto. Kelly ignorou, continuou deitada e pensando. Porém, não tinha nenhuma ideia. Estava mentalmente cansada e sem perspectiva de sua vida nesta realidade distorcida.

Passado uma hora, sua mãe chamou para o jantar. Enquanto jantavam, conversavam diversos assuntos para entreter a Kelly, mas ela permanecia calada e parecia não escutar. Ela comeu rápido e voltou para seu quarto. Deixou seus pais preocupados, achando que piorou sua saúde mental.

No dia seguinte, sua mãe chamou para ir à faculdade renovar a matrícula para o semestre seguinte. Kelly não estava animada, porém, não questionou. Chegando lá, descobriu que em dois meses poderia retornar aos seus estudos.

Ao voltarem para a casa, ela recebeu uma ligação do Michel e estremeceu. Não pensava mais nele. Não sabia se atendia ou recusava. Ficou com a segunda opção. Ela achou que ficaria mais confusa em contato com ele. O Michel era a única pessoa que não existia no mundo real e talvez fosse melhor não ter nenhum contato. Com a recusa da ligação, ele mandou mensagem no celular dela. Perguntou se estava tudo bem e se precisava de alguma coisa. Ela ignorou e nada respondeu.

Pensou em bloquear o número dele, mas ele sabia onde ficava sua casa e poderia visitá-la se quisesse que sua família o receberia. De noite, ele tentou falar por ligação de novo, mas foi novamente ignorado. Amanheceu, ela acordou tarde porque tentou sonhar o máximo que podia, porém não teve nenhum sonho revelador.

Depois, almoçou na companhia da sua mãe e pouco quis conversar. Durante a tarde, foi para o seu quarto e resolveu fazer um diário de tudo o que estava passando. Começou a escrever desde o dia em que toda a esquisitice começou. Quando terminou de contar a história, anotada em um caderno velho, sua mãe bateu à porta e disse que tinha visitas. Ela perguntou quem era. Era o Michel que esperava por ela na sala. Kelly percebeu que não conseguiria fugir e pediu para deixá-lo vir até o quarto.

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