Nos cinco dias seguintes, a família de Kelly fez de tudo para deixá-la feliz, mas ela não parava de insistir que nada era como parecia. Seus pais, preocupados, a levaram para vários passeios, tentando fazê-la se sentir melhor e mais acolhida. No entanto, pouco resultado obtiveram, e os questionamentos dela continuaram, deixando-os sem respostas.
Durante esses passeios, Kelly constatou algo que confirmava o sonho que tivera dias atrás: tudo parecia ser um universo paralelo. Era um mundo diferente do que conhecia, agradável, mas profundamente estranho. As pessoas estavam sempre simpáticas e receptivas. Ninguém parecia estressado, resmungando ou brigando. O trânsito era harmonioso e respeitoso, todos sorrindo e se divertindo onde quer que fossem. A cidade era muito mais organizada e moderna do que antes. Kelly queria acreditar no que via, mas tudo só a deixava mais confusa.
Quando voltaram de um dos passeios, pararam para conversar com os vizinhos, que estavam na porta de casa cuidando do jardim. Os vizinhos pareciam surpresos ao ver Kelly tão bem, e falavam como se fosse algo extraordinário alguém sofrer um acidente ou adoecer. Isso a incomodou, e em casa Kelly comentou com sua mãe:
— Por que as pessoas parecem tão surpresas com um acidente de trânsito? Basta ligar os noticiários que vemos acidentes o tempo todo.
— O quê? O que é um noticiário? Isso é algo que você estudou na faculdade? — sua mãe perguntou, genuinamente confusa.
— Para de piada, mãe! — Kelly riu, achando que sua mãe estava brincando.
Mas a mãe de Kelly continuava olhando para ela com surpresa, esperando uma explicação. A dúvida em seu olhar parecia real.
— Noticiários... Sabe, aqueles programas jornalísticos que mostram violências, guerras, doenças, acidentes etc. Você não se lembra?
— Ah, você quer dizer aquelas pequenas chamadas entre os programas de TV? Quando acontece algo ruim?
— Não existem programas de notícias?
— Por que fariam um programa só para isso? Quase não existem acidentes, doenças ou violência. E quanto à guerra... Não sei do que se trata.
— O quê? — Kelly ficou chocada. Ouvir sua mãe dizer isso fez com que se sentisse ainda mais confusa. Algo estava definitivamente muito diferente do que ela lembrava.
Kelly ficou perplexa ao saber que não existiam programas jornalísticos porque, aparentemente, não havia conteúdo para eles. Sua mente começou a refletir sobre como aquilo era possível, comparado ao mundo violento que ela conhecia. A lembrança da voz no sonho, falando sobre um "mundo ideal", voltou à sua mente.
Notando a surpresa da filha, sua mãe falou pensativa:
— Kelly, tenho refletido sobre isso. Já faz alguns dias que você saiu do coma e seus exames médicos estão perfeitos. O médico disse que não há nenhuma lesão cerebral que explique essas coisas que você afirma. Por isso, conversei com seu pai, e achamos melhor você fazer um acompanhamento terapêutico. Talvez isso ajude. Você ainda está muito confusa por ter ficado tanto tempo em coma.
— Façam o que quiserem — respondeu Kelly, aborrecida.
Sua mãe apressou a consulta, e dois dias depois a levou ao consultório do terapeuta.
No dia da consulta, Kelly e sua mãe aguardavam na sala de espera. Foram informadas que o terapeuta se atrasaria, então sua mãe decidiu aproveitar o tempo para ir ao supermercado próximo. Kelly ficou esperando, e depois de cerca de dez minutos, um rapaz sentou-se ao seu lado e puxou conversa:
— Nunca tive que esperar tanto. Você está esperando há muito tempo? — ele perguntou.
Kelly imediatamente notou a beleza dele. Observou cada detalhe: era alto, corpulento, com cabelos castanhos claros e ondulados que caíam sedosos sobre a testa, olhos cor de mel, rosto simétrico, maxilar bem delineado e bochechas rosadas. Seu sorriso largo completava a imagem.
Ela ficou tão impressionada que não respondeu. Ele, então, continuou:
— É sua primeira vez aqui?
— O quê?
— Digo, é sua primeira vez aqui na terapia?
— Ah, sim.
— Entendo... Venho aqui há dois meses, desde que saí de um coma. Minha família achou melhor eu fazer terapia, pois fiquei um pouco confuso. Agora, estou bem.
Quando ele mencionou o coma, Kelly estremeceu. Seu coração disparou. As histórias deles eram parecidas. Ela se interessou imediatamente e perguntou:
— Você estava em coma? O que aconteceu?
— Foi um acidente. Eu faço faculdade de engenharia, e um dia resolvi ir sozinho a uma obra, sem equipamentos de proteção. Infelizmente, houve um desabamento e eu fiquei em coma por dois meses.
— Eu também estive em coma e é por isso que estou aqui, para fazer terapia. Desde que acordei, tudo parece estranho e diferente — respondeu Kelly, olhando fixamente para ele, ansiosa por mais respostas.
— Nossa, que coincidência! Nós dois passamos pela mesma situação — ele disse, sorrindo e se aproximando mais dela.
— Você também percebeu que o mundo e as pessoas estão diferentes?
— Percebi um pouco. Mas minha família estava tão feliz que eu tentei não pensar muito nisso. Moro sozinho há algum tempo, então achei que já não conhecia bem meus pais por falta de convivência. O terapeuta disse que eu estava criando coisas irreais na minha mente.
— E seus amigos? Você notou algo diferente com eles?
— Não. Meus amigos continuaram os mesmos. Com o tempo, me adaptei a tudo. Agora, está tudo normal. Já voltei à faculdade e as coisas se estabilizaram.
— Eu não sei... Nada está normal para mim. Achei que você sentisse o mesmo. Você já sonhou com algo estranho?
— Sim, tive muitos pesadelos após o acidente. A terapia me ajudou a lidar com isso.
— E sonhos sobre uma realidade diferente?
— Não me lembro de ter sonhado algo assim.
As perguntas de Kelly intrigaram o rapaz, despertando nele curiosidade e interesse. Ele sentiu uma necessidade de conhecê-la melhor, e então, com ousadia, perguntou:
— Você pode me passar o seu número de telefone? Gostaria de conversar mais sobre isso. Talvez possamos nos ajudar, trocar experiências.
— Claro. — Kelly passou seu número, sentindo-se feliz por poder manter contato com alguém que parecia compreender o que ela estava passando.
Logo depois, o telefone do rapaz tocou, e ele se afastou para atender. Nesse momento, a secretária chamou o nome de Kelly, que foi acompanhada até a sala do terapeuta. Durante a sessão, mencionou que achava tudo ao seu redor diferente desde que saíra do coma, mas o terapeuta não entrou em detalhes na primeira consulta. Kelly sabia que seria difícil convencer alguém de suas impressões. Como o rapaz dissera, provavelmente a terapia tentaria convencê-la de que tudo era uma invenção de sua mente.
Enquanto pensava nele, Kelly percebeu que nenhum dos dois havia perguntado o nome um do outro. Ela ficou imaginando como ele teria salvo seu número no celular. O que ela não sabia era que ele havia salvo o contato como "garota estranha". Mais tarde, naquela mesma noite, Kelly recebeu uma mensagem dele.
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Atualizado até capítulo 64
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