Capítulo 4

A família de Kelly estava relutante em explicar o que havia acontecido. Após um longo e perturbador silêncio, seu pai começou a falar:

— Filha, aparentemente sua memória foi afetada. Você realmente não se lembra de nada daquele dia? Não se lembra do acidente?

Sua mãe suspirava, tentando disfarçar o choro, enquanto Vivian levava as mãos à boca para conter suas emoções. Kelly, ainda confusa, respondeu:

— Claro que me lembro. Eu me afoguei na praia.

— O que está dizendo? Isso pode ser um delírio enquanto estava em coma. Na verdade...

Kelly o interrompeu, assustada, tremendo, com o coração batendo acelerado e a respiração ofegante:

— O que você quer dizer com coma? Eu fiquei em coma por causa do afogamento? Isso não é possível!

Ela sentiu as lágrimas querendo escorrer e tentou contê-las. Observou as expressões emocionadas de sua família e, sabendo que estavam brigados, imaginou que não poderia ser uma brincadeira. Começou a acreditar que talvez tivesse ficado brevemente em coma.

Seu pai continuou:

— Não houve afogamento. Você sofreu um grave acidente de carro. Estava dirigindo e caiu em um desfiladeiro perto de um rio, mas não chegou a ser submersa pela água. Ficou gravemente ferida e esteve entre a vida e a morte. Nós nunca perdemos a esperança de que ficaria bem.

— Como assim? Eu me lembro claramente de estar na praia e me afogar! — Kelly sentia seu coração bater ainda mais forte.

— Calma, filha. Você está confusa. Foram seis meses de luta.

— O quê? Seis meses? Não é possível! Você está me dizendo que fiquei meses desacordada?

Kelly ficou perplexa, incapaz de acreditar em algo tão absurdo. Era como se o choque tivesse paralisado seu corpo. O coração que antes disparava agora parecia não bater. Ela sentiu seu corpo dormente e, finalmente, as lágrimas que havia segurado escorreram pelo rosto.

— Sim, foram seis longos meses.

— Eu me afoguei, tenho certeza disso... — disse ela em um sussurro, paralisada.

Todos ficaram apreensivos. Sua mãe saiu para chamar o médico enquanto seu pai segurava sua mão, confirmando com a cabeça e com os olhos marejados. O médico chegou e fez perguntas simples, como seu nome, idade e o nome dos pais. Kelly respondeu corretamente. Até que ele perguntou o que tinha acontecido, e ela repetiu que havia se afogado na praia. Surpreso, o médico sustentou a versão da família, explicando que ela tinha sofrido um acidente de trânsito.

Kelly não disse mais nada. Apenas olhou para o médico, sem conseguir assimilar tudo aquilo. Ficou em silêncio, sem reação. O médico começou a explicar que ela estava em estado de choque e que era normal se sentir confusa. Isso pareceu acalmar um pouco seus familiares.

Depois, o médico falou em voz baixa com seus pais, mas Kelly conseguiu ouvir. Ele disse que poderia ser uma negação sobre o que havia acontecido ou uma sequela no cérebro, afetando a memória e causando confusão mental, mesmo que os exames preliminares estivessem perfeitos. Ainda em choque, Kelly perguntou:

— Por que eu estaria em negação por me afogar?

Todos a olharam com espanto. Pareciam relutantes em falar mais alguma coisa, até que sua irmã, que só chorava até então, criou coragem e disse:

— Na noite do seu acidente de carro, você saiu de uma festa e estava embriagada. Talvez tenha dormido ao volante.

— Eu machuquei alguém? — perguntou Kelly, começando a acreditar na versão da família.

— Não, você estava sozinha. Não atingiu outro veículo porque era tarde da noite, e a estrada estava vazia no momento do acidente.

— E depois de todo esse tempo, vocês estão bem? Vocês não se divorciaram? E o Charlie? Ele deve estar arrasado. Tenho medo que a depressão dele tenha piorado...

Quando ela mencionou Charlie, os olhares de sua família ficaram ainda mais assustados. Era como se a simples menção daquele nome os tivesse paralisado. Kelly sentiu algo estranho, seu corpo tremia. Tentou se cobrir com a coberta para esconder o quanto estava aflita. O silêncio tomou conta da sala novamente. Ninguém sabia o que dizer.

Após alguns minutos, sua irmã tomou coragem novamente e falou:

— Nossos pais nunca cogitaram se separar. Não se lembra de como éramos felizes? Sempre dissemos que tivemos sorte com nossa família, porque eles nunca discutem. E sobre esse nome... Charlie? Eu nunca ouvi falar dele.

Kelly ficou boquiaberta e olhou para o chão, depois observou sua própria mão tremendo. Não podia acreditar no que estava ouvindo. Era estranho, impossível. Tudo ao seu redor parecia contrário à realidade que conhecia. Ela não conseguia assimilar ou aceitar aquelas informações. Em um rompante, começou a gritar:

— Mentirosos! Por que estão mentindo? Meu pai foi embora de casa, não precisam me enganar. Me digam a verdade! O Charlie deve ter fugido porque eu fiquei em coma, não é isso?

Ela esbravejou, e todos se desesperaram com seus gritos. Seu pai correu para chamar o médico novamente, enquanto sua mãe a abraçava em lágrimas. O médico voltou apressado e aplicou uma injeção para acalmá-la. Kelly começou a se sentir mole e relaxada. Logo, seus olhos pesaram, e ela adormeceu profundamente.

Kelly dormiu por muitas horas. No dia seguinte, acordou, mas não queria falar com sua família. Eles estavam estranhos com aquela história diferente da que ela se lembrava. Sentia-se exausta mentalmente, e sua cabeça doía. O médico fez vários novos exames, e todos mostraram que ela estava fisicamente bem, sem sequelas. Não havia motivo para mantê-la no hospital, o que deixou a equipe médica chocada, já que ela havia ficado em coma por seis meses.

Seus pais a levaram para casa. No caminho, Kelly teve outra grande surpresa. As ruas da cidade estavam mais limpas e arborizadas. A casa era a mesma, mas o jardim à frente estava impecável, cheio de flores e com a grama verde brilhando à luz do sol. Era um cenário bonito e pacífico, algo que ela nunca tinha visto antes.

Ao entrar em casa, percebeu que os móveis eram completamente diferentes. Modernos e caros, nada parecidos com o que havia antes. A casa estava extremamente organizada, o que era raro, já que costumava ser bagunçada. Quando entrou em seu quarto, notou que era o único lugar que permanecia igual ao que conhecia. Foi a primeira vez desde que acordou que se sentiu conectada com algo familiar. Tudo ao seu redor parecia um sonho, uma alucinação.

Minutos depois, seus pais a chamaram para o jantar. Antes de começarem a comer, abraçaram-na, dizendo o quanto estavam felizes por tê-la de volta. Sua mãe chorava de emoção, algo muito estranho, já que sempre foi uma pessoa fria e pouco expressiva. Seu pai, por outro lado, estava sóbrio, o que também era incomum. Ambos pareciam mais simpáticos e unidos do que jamais foram.

Kelly observava tudo com atenção e falava pouco. Sua irmã, Vivian, queria ficar ao lado dela o tempo todo, sorrindo constantemente, algo que Kelly nunca tinha visto antes. Vivian nunca foi tão feliz na sua companhia. Tudo parecia estranho, como se aquela não fosse sua família de verdade. E, ao mesmo tempo, ela sentia uma conexão inexplicável com eles. Sentiu-se acolhida por uma familiaridade estranha e desconhecida.

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