Capítulo 8

Quando  Kelly abriu a porta, se deparou com o Michel. Ficou surpresa porque não achou que ele ainda fosse comparecer. Ele disse:

— Surpresa! Eu vim! – Ficou alegre em vê-la e abriu um largo sorriso.

— Que bom! Achei que não viesse mais.

— Jamais quebro meus compromissos. – Ele disse seguro.

— Entre!

— Você está muito bonita! – Falou quando lançou um olhar de cima para baixo enquanto  corou suas bochechas e não agradeceu o elogio. Logo acenou com a mão para que ele a acompanhasse.

Ele a acompanhou até o quintal da casa onde estavam seus amigos e ela o apresentou ao grupo, dizendo que se tratava de um novo amigo que conheceu na terapia. Eles foram receptivos e um deles disse: “Podemos chamá-lo de amigo decorrente do coma? Ao menos algo bom surgiu disso, uma nova amizade”. – Gargalhando, se divertiram com o comentário e Kelly concordou.

Michel se sentou ao lado dela e logo se enturmou com os seus amigos. Ele era comunicativo e com facilidade em fazer amizades. Estava sendo muito simpático com todos. Depois de um tempo,  Kelly foi levar os pratos para a cozinha e Georgia a acompanhou. Enquanto estavam sozinhas, disse:

— Esse seu novo amigo é muito lindo! Se eu fosse você, investiria nele.

— Sua doida! Eu não pensei nisso em nenhum momento. Ele é apenas um rapaz legal que parece me entender. – Kelly respondeu surpresa com o conselho da amiga.

— Para de bobeira. Por que você perderia uma oportunidade dessa? Além de lindo, parece ser uma pessoa muito agradável. Gostei do papo dele.

— Você sabe que sou comprometida, não fica me testando. – Kelly balançou a cabeça.

— Desde quando? Acabou de acordar de um coma e já arrumou um namorado? Quem é? Um médico bonitão ou um enfermeiro gentil que te tratou com cuidado? – Georgia falou muito interessada ao mesmo tempo que soltou uma gargalhada. Então, Kelly se lembrou de que ninguém dizia conhecer  Charlie e quis ter certeza:

— Você se lembra do Charlie?

— Quem? – Ela franziu a testa e depois levou a mão ao queixo, sem fazer contato visual com  Kelly, parecendo tentar se lembrar.

— Deixa para lá, amiga. Eu estava brincando, você sabe que não tenho namorado. – Disse apressadamente e com tom de decepção. Negou de forma receosa e de contra gosto. Porém, ao mesmo tempo, não queria que seus amigos achassem que estava louca ou delirando. Assim, teve certeza de que precisava descobrir urgentemente o que aconteceu com sua vida para que não se tornasse uma grande mentira.

Onde estava o Charlie? Por que ninguém mais o conhecia ? Ela sentia que não poderia aceitar tudo sem motivo, devia procurá-lo ou tentar descobrir o que aconteceu, precisava saber a verdade, só não sabia por onde começar. A única certeza que tinha era de não ter enlouquecido. Passou parte da sua vida ao lado dele e agora simplesmente ele não existia, desapareceu sem ninguém saber de sua existência, como se fosse deletado e com isso toda a história dos dois. Não poderia aceitar tal desaparecimento sem nenhuma explicação.

No fim da tarde, seus amigos começaram a se despedir. Aos poucos, foram embora. Restando apenas o Michel. Ele fez questão de ser o último a sair porque queria conversar com mais liberdade. Quando o último deles saiu, ela parecia esperar que ele fosse também. Estava parada na porta, aguardando a despedida dele. Ao perceber, Michel falou sem nenhum constrangimento:

— Eu posso ficar um pouco mais? Queria poder conversar melhor com você. Te conhecer mais.

— Tudo bem. – Ela disse sem apresentar nenhuma emoção.

— Você está se sentindo melhor? Depois desse agradável encontro com seus amigos, acho que tudo faz mais sentido.

— Eu fiquei feliz por vê-los. Ainda são os mesmos que conhecia, não mudaram nada. Me fez sentir bem.

Ele ficou em silêncio. Olhou para ela com um leve sorriso que transmitiu felicidade, enquanto seus olhos brilhavam e contemplavam o rosto dela. Quando se deixou levar pela emoção agradável que o percorreu, falou espontaneamente e logo se arrependeu:

— Seu olhar parece muito mais pleno e feliz comparado àquele dia em que nos encontramos na terapia. Eu realmente consigo sentir o seu bem-estar e leveza atual e você fica ainda mais linda. – Ele teve receio de que ela entendesse errado o comentário, por parecer um flerte, e ela realmente pareceu estranhar, seu rosto ficou vermelho enquanto desviou o olhar.

Após um minuto de silêncio desconfortável, Kelly buscou palavras que lhe faltavam e disse:

— Não vai durar muito tempo. Eu ainda tenho algo me preocupando.

— Eu poderia saber o quê?

— Acho melhor não. Eu devo parecer doida o suficiente. Afinal, nos últimos dias, você tem sido a pessoa que escuta as minhas teorias da conspiração porque a minha família acha que são delírios. Só esperam o momento em que eu pare de ser estranha. – Disse sorrindo, tentando amenizar a situação problemática que apresentou.

— Estou gostando. Sinto que posso te ajudar e ser seu confidente de teorias. Eu passei por algo semelhante e acho que por isso consigo entender melhor. Não é loucura. Espero que você consiga resolver o que te preocupa. E saiba que, se quiser desabafar, vou ter o maior prazer em escutar e ajudar no possível.

— Obrigada. Você já fez o bastante.

— Ok. Eu vou indo. Nos falamos depois?

— Claro! Até mais.

Quando sua família chegou em casa. Logo perceberam que  Kelly parecia melhor. Ficaram muito felizes e ela foi descansar enquanto eles falavam que encontraram a única coisa que a deixava menos perturbada, ficar com seus amigos. Em seu quarto, em vez de dormir, ela só pensava em como poderia encontrar  Charlie e descobrir a verdade. Tentou adormecer pensando nisso e ter um sonho revelador, mas nada aconteceu.

No dia seguinte, ela não sabia mais o que fazer para entender sua realidade e, por alguns minutos, questionou sua sanidade. Pensou que poderia ter enlouquecido sem perceber e inventado toda uma história com  Charlie apenas na sua mente, criado a existência dele somente para ela. Tais pensamentos a perturbaram muito, que chegou a passar mal. Ficou o dia todo com dores no estômago e chegou a vomitar, preferindo se deitar em seu quarto para que sua família não percebesse, não queria preocupá-los ainda mais.

Depois desse dia, Michel passou a ligar para ela todos os dias. Eles ficavam conversando por uma hora e ficavam cada vez mais amigos, confiantes e confidentes. Eles conversavam sobre a vida deles, faculdade, amigos, família e sobre os seus passatempos preferidos. Kelly contou que gostava de dançar, mas agora, com a mudança de vida, não dançava mais, achava que sua nova identidade nunca tinha realizado aulas de dança. O Michel disse que ela deveria voltar porque seria bom para distrair a mente.

Com o passar dos dias,  Kelly evitou falar sobre sua impressão de realidade alterada porque sentiu que tinha falado muito disso e queria dar um descanso de todos esses conflitos mentais que enfrentava. Por isso, passou a conversar sobre qualquer outra coisa. Enquanto isso, esquecia-se da sua dúvida em relação à realidade em que vivia e se distraía com diversos assuntos.

O Michel a convidou para comerem juntos em uma lanchonete próxima à casa dela. Disse que ela estava passando muito tempo em casa e, com isso, alimentava mais conflitos em sua mente, que precisava se distrair um pouco e entender melhor a realidade à sua volta. Por isso, ela aceitou o convite. Quando contou para seus pais que sairia com um novo amigo, eles ficaram felizes e acreditaram que uma nova amizade seria boa para ajudar a acabar com suas paranoias.

Ela foi encontrá-lo a pé porque era um local próximo de sua casa. Era uma lanchonete muito badalada e com um ambiente muito agradável que, na sua realidade anterior, não existia. Quando chegou, Michel ocupava uma mesa à sua espera. Ele sorriu lindamente quando a viu e foi retribuído de forma contida.

Ela se sentia confortável com ele e ficava mais tranquila com sua nova realidade porque, quando quisesse, podia conversar sobre suas incertezas e ele sempre fazia o possível para entendê-la. Em contrapartida, Michel começou a perceber que não conseguia parar de pensar nela, queria o tempo todo conversar ou vê-la. Quando se distraia sem se dar conta, seus pensamentos voavam para a Kelly.

Ele desconfiava que pensar nela boa parte do dia poderia ser porque estava se apaixonando e sentia muita vontade de partilhar com ela suas emoções e sentimentos com relação ao vínculo que se formava entre eles, mas não sabia em qual momento porque ela sempre estava receosa ou confusa com algo da sua vida. Enquanto isso, Kelly não percebeu o interesse especial que ele tinha nela. Na lanchonete,  achou-o muito carinhoso. Porém, pensou que era o jeito corriqueiro dele tratar as pessoas.

Ela amou a comida do lugar e ficou feliz por estar ali. Ficaram um bom tempo conversando e comendo até anoitecer. O ambiente era muito agradável, tocava as músicas mais famosas do momento, tinha vários jovens se divertindo, tiravam selfies e falavam alto nas outras mesas. A decoração era moderna, acolhedora e alegre. Um ambiente capaz de despertar os melhores sentimentos nas pessoas, onde o tempo passava rápido por ser agradável.

Na hora de ir embora,  Michel quis acompanhá-la até em casa e foram caminhando juntos. Enquanto ela observava tudo ao seu redor, achando as pessoas alegres pelas ruas,  Michel não tirou os olhos dela, contemplava e admirava, não soube disfarçar. Quando chegaram na casa, ela parou na porta para se despedir e ele segurou-a pela mão, puxando-a para muito perto e aproximando o seu rosto ao dela, se preparando para um beijo na boca. Naquele momento, ele agiu por extinto e, sem pensar em mais nada, de forma impulsiva e espontânea, simplesmente não conseguiu se segurar.

Rapidamente, ela reagiu, assustada por não esperar tal reação, e se afastou imediatamente. Ele ficou sem entender por que ela parecia tão surpresa, porque tinha demonstrado vários sinais e flertado todo o tempo que estiveram juntos na lanchonete. Vendo o espanto dela, ficou preocupado e disse:

— Desculpa, eu não queria te assustar, achei que na lanchonete nós estivéssemos tendo um clima. Mas parece que foi apenas da minha parte.

— Eu não percebi, me desculpe. Acontece que não posso te retribuir.

— Por quê? Eu sou tão ruim assim? – Ele disse claramente sabendo que não era ruim e esperava uma negação por parte dela.

— Eu sou comprometida. – Ele arregalou os olhos e perguntou:

— Que? Como assim? Sério? Me sinto um idiota por não ter percebido isso depois de todo esse tempo. Na verdade, você nunca demonstrou, quer dizer, você nunca me falou nada sobre ter um namorado.

— Eu sei. Eu queria dizer, mas seria estranho tocar nesse assunto sem razão. Também não tenho visto meu namorado desde que saí do coma.

Ele ficou confuso e balançou a cabeça em negação. Não sabia o que pensar daquela situação, achou estranho. Sentia que não devia perguntar mais nada porque ela não tinha contado durante todo o tempo que conversaram. No entanto, ele era uma pessoa comunicativa demais e não conseguiu se controlar sem expressar e falar o que vinha à sua mente. Por isso, soltou várias perguntas, notavelmente confuso:

— Como isso é possível? Onde ele está? Ele mora em outro Estado ou País?

— Não exatamente. Eu não sei como explicar sem parecer uma pessoa irracional. Desculpa, não estou preparada. – Ela disse e se afastou rapidamente, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, e entrou em sua casa apressadamente.

Através da janela, seus olhares se encontraram. Ele ficou parado no mesmo lugar e seu rosto apresentava decepção. Era expresso que se chateou com aquela situação, estava sério e reflexivo. Então, ela parou de olhar e foi para seu quarto, pensando em tudo o que aconteceu.

No dia seguinte, ele não ligou como vinha fazendo por dias seguidos. Também não mandou mensagem. Ela ficou chateada, mas, por outro lado, talvez fosse melhor assim. Seria impossível entender sobre a existência do Charlie, ou melhor, a suposta inexistência dele.

Contudo, resolveu fazer uma mudança de comportamento. Decidiu dar uma oportunidade para a sua vida atual, sua nova realidade. Tentar aceitar as coisas como se apresentavam e fazer menos questionamentos porque talvez assim se sentisse mais confortável.

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