Durante a tarde, a mãe e a irmã da Kelly voltaram para casa e ficaram conversando sobre o que fariam em relação ao pai delas. Kelly estava tão distraída que sua mente não conseguiu focar em nada do que falavam. A Vivian chamou sua atenção, dizendo para prestar atenção no problema que estavam tentando resolver, e sua mãe entrou em defesa, dizendo que ela devia estar cansada porque no dia anterior teve que apartar a briga dos pais. Enquanto isso, Kelly ficou em silêncio e pensativa.
De noite, Charlie foi até a casa dela. Ela ficou feliz por estarem juntos depois de tanto tempo. Abraçou e beijou constantemente. Queria matar a saudade e tirar o medo que teve de nunca mais o ver. Ele estranhou o comportamento grudento dela, mas aproveitou a situação que o agradou. Ela pediu que ele ficasse para dormir e, durante a noite, namoraram.
Ao amanhecer, ele a acordou quando o despertador do celular tocou. Ela dormiu tão profundamente que não escutou o barulho do alarme. Ele disse:
— Amor, é melhor você levantar ou vai se atrasar para a faculdade.
— Faculdade?
— É.
— Nossa! Esqueci disso. Fazia tanto tempo.
— Como assim? Você tem faltado às aulas?
— Não. Nada disso. Enfim, melhor eu me arrumar para sair. – Ela se levantou e foi tomar banho.
Na faculdade, Kelly encontrou seus amigos e tentou parecer que nada anormal aconteceu. Por sorte, eles estavam agitados e cheios de conversas aleatórias e sobre o fim de semana agitado deles. Enquanto isso, ela ficou refletindo sobre sua realidade de forma despercebida. Nos intervalos, eles não paravam de falar e ela ficou distraída sem ser notada. Contudo, não conseguiu prestar atenção em nenhuma aula.
No último intervalo, o Daniel se aproximou dela e pediu para conversar quando terminasse a última aula. Seus amigos acharam estranho, inclusive ela. Hesitante, concordou e seus amigos, preocupados, questionaram:
— O que esse maluco quer conversar com você? Tenha cuidado. Esse esquisito deve estar querendo vender drogas.
— Preciso saber do que se trata.
— Tenha cuidado. Não tome nada que ele oferecer porque pode estar batizado com alguma droga. Ninguém confia no Daniel. – Disse sua amiga Georgia.
— Tudo bem. Não deve ser nada de mais. Não se preocupem.
Quando as aulas do dia terminaram, ela foi ao encontro do Daniel e ele a convidou para a lanchonete dentro do campus da universidade. Ao chegar, sentaram-se em uma mesa, de frente um para o outro, e pediram um suco. Ela perguntou:
— Por que me chamou aqui? O que deseja falar?
— Quero saber se está tudo bem. Eu percebi que estava estranha e distraída nas aulas. – Kelly se assustou por ele perceber.
— Não estava. Eu estou bem. – Ela tentou manter a seriedade e fingir que não ficou surpresa.
— Tem certeza? Não aconteceu nada estranho?
— Não.
— Eu desconfio que tem algo bem estranho acontecendo, admita logo.
— Por que quer saber? Quem está agindo estranho é você.
— Vindo de mim, ser estranho é normal. Agora, você estranha desse jeito não é normal.
— Você não me conhece. Só porque estivemos juntos naquelas aulas de dança não significa que seja capaz de perceber algo de diferente e também não somos próximos ao ponto de estarmos tendo essa conversa tão estranha. – Tudo que ela desejou naquele momento era correr dali e terminar essa conversa desconfortável.
— Você costumava ser mais simpática.
— E você costumava ser menos estranho.
— Ai! Vai me atacar mesmo? Estou tentando ajudar.
— Foi mal. Mas não tenho tempo para isso. Se não tem mais nada que queira me dizer, preciso ir embora.
— Eu posso te dar uma carona?
— Se estiver com segundas intenções, eu já disse que tenho namorado. – Ela preferiu ser direta e assim encerrar logo a conversa.
— Tem mesmo? Então, por que beijou outra pessoa?
Ao escutar aquilo, o coração dela disparou. Seu corpo inteiro ficou gelado por conta do nervosismo. Ela engoliu em seco. Seus pensamentos começaram a colidir e nada fazia sentido. Estremeceu e ficou pálida. Um minuto em silêncio que pareceu uma eternidade, sem reação. Finalmente, respondeu:
— O que está dizendo? O que sabe sobre minha vida? Por que disse isso?
— Calma. Uma coisa de cada vez.
— Eu não beijei outra pessoa. Por que você disse isso? É bom você começar a explicar agora mesmo. – Ela disse irritada. Suas mãos geladas tremiam de nervosismo.
— Eu só disse por dizer, mas parece que era verdade porque você ficou tão nervosa. Está tão pálida, mais branca que esse guardanapo. Achei que fosse desmaiar.
— Você está brincando comigo? Que tipo de jogo baixo emocional tenta me aplicar? – Ela falou, elevando a voz, ainda mais irritada.
— Desculpa. Não sabia que uma simples brincadeira a tiraria do sério.
— Você chama isso de brincadeira? Você é maluco? Quer saber, para mim chega. Eu vou embora, agora. – Ela se levantou da mesa e saiu. Ainda sentia seu coração palpitar muito rápido. Às pressas, caminhou para sua casa. Tudo aquilo foi muito perturbador.
Ao chegar em casa, encontrou Charlie e sua mãe conversando. Ela ficou feliz e surpresa em vê-lo ao mesmo tempo que sentia seu corpo relaxar. Deu-lhe um abraço e disse:
— Que bom te encontrar!
— Vim te ver, mas você demorou a chegar da faculdade e sua mãe me convidou para o almoço enquanto eu esperava.
— Que ótimo!
— Ela me contou do problema que tiveram e que seu pai saiu de casa.
— Mãe! Por que contou isso? – Sua mãe nada respondeu, apenas lançou um olhar de susto. O Charlie disse:
— Eu deveria saber, sou seu namorado. Você pretendia esconder? Acha que eu não perceberia?
— Não é isso. Eu esperava o momento certo. Nada é definitivo e concreto ainda.
— Você deveria conversar mais comigo. Não existe isso de momento certo. O momento certo é quando as coisas acontecem.
— Tudo bem. Desculpe. Eu contaria em breve. – Sua mãe percebeu a tensão no ar e disse:
— O almoço está pronto. Estávamos apenas te esperando, Kelly. Vamos almoçar. – Eles almoçaram em silêncio e depois Kelly e Charlie foram sozinhos para a sala e sentaram no sofá. Tudo que ela pretendia era relaxar na companhia dele.
Ela o abraçou e repousou a cabeça no ombro dele, enquanto ele começou a afagar os cabelos dela. Depois de vários minutos de silêncio, ela disse:
— Não quero que se preocupe com meus problemas. Tudo isso na minha família vai ser resolvido. Por isso, não te disse nada. É muito recente. Esquece disso.
— Você quase nunca me fala dos seus problemas e sei que deseja me poupar. Já passou da hora de entender que posso lidar com as coisas.
— Você já tem seus problemas, amor.
— Por que sou depressivo? Por que tenho distúrbios de ansiedade? Você acha que sou incapacitado? – Ele falou enquanto se afastou dela no sofá e interrompeu os carinhos.
— Não, amor. Não é isso. Eu quero que você esteja sempre bem. Quero te ver feliz. Não gosto de trazer problemas para nosso relacionamento.
— Nós quase nunca conversamos sobre sua vida. Você me faz parecer um egoísta porque sempre sou o foco do nosso namoro.
— Não é isso. Não se trata de egoísmo. Não é grande coisa.
— Na minha opinião, é grande coisa sim.
Não era a primeira vez que os dois se estranhavam em discussões banais, sempre existiam situações delicadas com eles. Kelly sabia que quando Charlie estava ocupado com algo, era difícil tirar de sua mente e aquilo virava uma grande coisa. Por muitas vezes brigavam feio porque ele sempre fazia de tudo um grande evento. Por ser sensível, qualquer coisa se tornava grandiosa e agia com mais intensidade do que deveria. Por isso, ela tentou apaziguar:
— Amor, sinto muito. Está tudo bem. É sério! – Disse em tom calmo para que não parecesse uma discussão.
— Está tudo bem que não tenhamos diálogo no nosso relacionamento? Está tudo bem que seu pai e sua mãe se separam e você não me conta? Está tudo bem você achar que sou incapacitado para lidar com assuntos da vida da minha própria namorada?
— Não. Me desculpa. Foi um mal-entendido. Nunca pensei assim.
Kelly estava com a mente tão confusa que não conseguiria lidar com os conflitos criados pelo Charlie naquele momento. Ela não sabia mais o que dizer. Parecia que sua mente tinha entrado em colapso. Desde que retornou à sua realidade normal, estava esgotada e desgastada por pensar muito sobre os últimos acontecimentos.
Olhou para ele sem saber mais o que dizer e, enquanto isso, Vivian entrou pela porta da sala. Estava chegando do trabalho. Jogou sua bolsa de forma irritada em cima do sofá da sala e não percebeu a presença dos dois ou apenas os ignorou. Kelly notou que ela estava enfurecida. Aproveitou para mudar de assunto, dizendo:
— Parece que aconteceu algo ruim com a Vivian. Ela está claramente com raiva.
— Você quer falar com ela?
— Agora não.
Assim que terminou de falar, escutou a conversa de Vivian e sua mãe no cômodo ao lado. Elas falavam alto, pareciam estressadas. O Charlie disse:
— É melhor você saber o que aconteceu.
— Tem razão. Eu já volto. – Ela saiu, chegando onde estavam, começou a escutar a conversa. Falavam de seu pai. Kelly saiu de um conflito para cair em outro.
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Atualizado até capítulo 64
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