Capítulo 17

Kelly teve um sonho intenso e perturbador. A voz de um homem disse que ela tinha morrido no mundo real. Ela viu sua família chorando enquanto seu corpo era enterrado. Era desesperador,  fazia querer gritar que estava viva, mas era impossível falar. Ela conseguiu sentir a tristeza de todos. Seus pais choravam muito e sua irmã parecia em choque. Ela nunca experimentou uma sensação tão horripilante.

Ela estava desesperada e viu que  Charlie também estava naquele lugar. Ele pareceu consternado e amparado por seus próprios pais. Quanto mais via aquela cena triste, mais ficava horrorizada. Era muito real, ela assistiu às pessoas chorarem e se sentiu fria e vazia, seu corpo ficou paralisado aos poucos e seus pensamentos desapareceram. Uma sensação péssima.

Acordou em prantos. Seu corpo estava rígido e aquela imagem triste lhe impregnou. Começou a gritar em desespero: “Eu não quero morrer”. Gritou três vezes bem alto e sua mãe escutou e correu para ajudar a filha. Tentou acalmá-la e dizer que foi um pesadelo, porém não funcionou e  Kelly manteve o olhar distante, tremendo e chorando tanto ao ponto de soluçar. Quando conversou algo, foram coisas sem sentido. Sua mãe ficou assustada ao perceber que o corpo dela estava congelando e não se acalmava. Por isso, decidiu levá-la ao hospital.

Ligou para o marido, que tinha acabado de sair para o trabalho, e ele voltou para ajudar a levar a filha ao hospital. Enquanto ele dirigia o carro, a mãe continuou tentando acalmar a filha desesperada. No hospital, deram um medicamento calmante que a fez adormecer, mas ela não dormiu por muito tempo. Quando acordou, estava mais calma, ainda com o efeito do remédio. O médico a liberou para voltar para casa e recomendou um tratamento psiquiátrico.

Em casa, a mãe acompanhou a filha até o quarto e pediu que ela deitasse para descansar. Kelly estava com medo de dormir e sonhar novamente aquelas coisas horrorosas. Com isso, pediu para sua mãe dormir com ela até que se sentisse melhor, disse para ser acordada caso parecesse ter um pesadelo. Sua mãe aceitou, foram dormir juntas no quarto da Kelly. No entanto, ela pouco conseguiu dormir, apenas teve uns cochilos quando o cansaço falou mais alto.

Sua mãe precisou dormir com ela nos próximos três dias. Kelly arrepiava só de lembrar do sonho em que estava morta, ainda muito abalada. Depois de uma semana, ainda lembrava do sonho. Nitidamente, e sempre sentia uma sensação ruim. Ficou deprimida e seu corpo somatizou sua emoção através de problemas estomacais.

Enquanto isso, ela não contou ao Michel o que aconteceu, tampouco para seus amigos, apenas sua família sabia. Seus pais tentaram convencê-la a ir a um psiquiatra e ela recusou, dizendo que ficaria apenas com a terapia porque não queria tomar nenhum medicamento. Na verdade, ela não queria ir porque sentiu que não resolveria o problema, aquilo era muito mais do que algo psicológico.

Até que chegou o dia da sua primeira aula na faculdade. Kelly estava nervosa, temendo o desconhecido, já que neste mundo novo tudo era diferente do que estava acostumada. Ela acordou cedo, tomou café da manhã e sua mãe a levou até a faculdade de carro. Quando chegou, parecia tudo igual. Ela se encaminhou para sua primeira aula e não encontrou nenhum de seus amigos.

No grupo de mensagens, eles disseram que faltariam o primeiro dia de aula porque, segundo afirmavam, nunca tinham nada de importante no comecinho do período letivo. Porém, para Kelly, era importante porque ainda não conhecia sua turma, seus professores e seus novos colegas. Era tudo novidade. Ela não queria perder nenhum detalhe, desejava se familiarizar logo com o novo ambiente de estudos e assim tentar distrair sua mente.

Logo na primeira aula, teve uma surpresa, o professor parecia um pouco maluco. Ela ficou intrigada com ele. Era um homem diferente, estranho, falava rápido, se exibia muito, falava como se fosse muito famoso e afirmava que era premiado por seus trabalhos científicos, gabando-se constantemente. Disse que era cientista, professor das melhores universidades do país e tinha vários trabalhos e pesquisas publicadas no mundo inteiro.

Pareceu analisar cada um dos alunos presentes com um olhar de superioridade. Depois, afirmou que era extremamente rígido com seus alunos e era costume que a maioria da sua turma reprovasse porque era o professor mais exigente da faculdade. Disse que suas provas eram capciosas e não beneficiavam nenhum aluno, que todos deviam apresentar resultados excelentes. Era um homem na faixa etária de cinquenta anos, excêntrico e com um ego enorme. Kelly ficou receosa e pensou em mudar de turma.

Assim que a aula terminou, foi até a secretaria e tentou mudar para outro professor, mas descobriu que todas as outras turmas estavam cheias e não seria possível justamente porque os alunos sabiam da fama do professor e fugiam para outras turmas o mais rápido possível. Por isso, a turma desse professor tinha poucos alunos. Kelly achou que era por ser o primeiro dia de aula, mas não era o motivo, era o medo que os estudantes tinham diante da fama do professor. Com isso, ficou preocupada, sabia que aquele professor renderia dores de cabeça. Porém, não podia fazer nada, teria que ter forças e continuar.

Depois, as próximas aulas foram agradáveis e Kelly gostou de todas. Conversou com alguns novos colegas e, ao final, foi embora para casa a pé, como costumava fazer no mundo real. No caminho, observou como as ruas e os estabelecimentos eram mais organizados e bonitos, limpos e bem cuidados, bem típicos do mundo ideal porque na realidade era tudo velho, quebrado, pichado, sem cuidado, sujo ou desmazelado. Essa organização sempre chamou a atenção dela, gostou de reparar a beleza à sua volta.

Conseguiu fazer o percurso de volta para casa mais rápido que o costume porque o trânsito era pacífico e as pessoas transitavam harmoniosamente, as ruas eram lisas e bem cuidadas, as pessoas respeitavam e davam preferência de passagem por pura educação e cortesia. Chegou em casa e almoçou com sua mãe, enquanto seu pai estava no trabalho.

Inclusive, até o momento, ainda não sabia qual era o trabalho do pai e até ficou curiosa em perguntá-lo porque no mundo real ele era desempregado e parecia não ter vocação para nada, mas como ela sempre tinha outros pensamentos, sequer parou para refletir essa mudança comportamental dele. Sua irmã também estava no trabalho. Depois do almoço, foi tirar um cochilo em seu quarto. Ao adormecer, ela sonhou com o professor.

No sonho, novamente ela estava morta no mundo real e, como um fantasma, viu sua família e seu namorado chorando desesperados. Enquanto isso, o professor apareceu para conversar com eles, algo que não conseguiu escutar. Depois, ele caminhou na direção dela, enquanto ela sentiu um frio na espinha. Ninguém mais conseguia vê-la além do professor. Ele se aproximou e tocou em seu ombro , fazendo-a sentir um frio por todo o corpo e uma pontada no coração, seguida por uma rigidez corporal e sensação de desmaio.

Ela tentou falar, mas não saiu som, tentou gritar e não conseguiu. Ele a olhou friamente, sentiu-se morrer de verdade, não apenas no sonho, pareceu realidade. Até que caiu no chão, sem forças sequer para ficar em pé, e o professor a observou de cima, sem reação, e depois começou a se distanciar para ir embora e logo tudo ficou escuro à sua volta. Kelly acordou assustada e ofegante, levantou-se, foi beber água e não conseguiu mais dormir por estar assustada. Esses sonhos estranhos eram muito reais.

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