A Caçada Começa

O ar dentro do carro estava pesado, quase sufocante. O motor roncava baixo enquanto Sarah e Mendes se afastavam da casa dos Miller, mas o silêncio entre eles parecia mais ensurdecedor do que qualquer som. Sarah mantinha os olhos fixos na estrada, as mãos agarradas ao volante, como se concentrar em dirigir fosse a única coisa que a mantinha conectada à realidade. Seu coração ainda estava acelerado, o impacto do que acabaram de fazer reverberando por seu corpo.

— O que exatamente aconteceu lá? — Mendes quebrou o silêncio, sua voz trêmula, mas controlada. Ele esfregou o rosto, tentando dissipar o peso da experiência. — Quando destruímos o altar… foi como se a própria casa estivesse viva.

Sarah engoliu em seco, os olhos brevemente se movendo para o retrovisor, como se esperasse ver algo os seguindo.

— Não sei ao certo, mas algo foi quebrado, Mendes. Algo grande. Sentiu como a casa reagiu? Não era só o altar. A própria essência do lugar pareceu ruir. Namtar estava ligado àquilo de alguma forma, talvez mais profundamente do que pensávamos.

— Mas ao invés de bani-lo, o enfurecemos ainda mais — Mendes concluiu, quase amargo. — Foi um erro?

— Não — Sarah balançou a cabeça. — Precisávamos quebrar a conexão física. Isso o enfraqueceu, mas também o provocou. Agora, ele sabe que estamos perto demais. E vai fazer de tudo para impedir que cheguemos ao fim disso.

O silêncio se instalou novamente, dessa vez mais pesado, mais desesperador. Sarah sabia que Namtar não iria esperar muito antes de atacar. Eles o haviam desafiado, o ferido, e agora estavam na mira de algo muito mais sinistro do que poderiam imaginar.

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Já era madrugada quando chegaram ao escritório da delegacia. O local estava quase deserto, com apenas alguns policiais de plantão cochilando em suas mesas. A luz fria dos fluorescentes piscava intermitentemente, criando uma atmosfera ainda mais perturbadora do que o normal.

Sarah e Mendes entraram rapidamente, suas mentes correndo com os eventos da noite. Precisavam descobrir um modo de se proteger antes que Namtar fizesse sua próxima jogada. No fundo, Sarah sabia que já estavam sendo observados.

— Precisamos revisar tudo o que temos — Sarah disse, colocando sua bolsa sobre a mesa e pegando as anotações e documentos que haviam reunido. — Cada detalhe, cada ritual, cada menção sobre Namtar. Alguma coisa aqui deve nos dizer como detê-lo.

Mendes suspirou, cansado, mas determinado. Ele abriu o notebook e começou a revisar suas próprias anotações. Ambos sabiam que o tempo era curto, mas o que mais os preocupava era a imprevisibilidade do que estavam enfrentando. Namtar não seguia as regras convencionais. Ele brincava com as emoções humanas, manipulava o medo e a desesperança como um maestro sombrio.

— Aqui está — disse Sarah de repente, seus olhos fixos em um documento que a Dra. Hollis havia enviado para eles horas antes. Era uma tradução de um texto antigo, que falava sobre rituais de banimento para entidades sobrenaturais. Mas o que chamou a atenção de Sarah foi uma nota ao pé da página. — “Banir a entidade exige mais do que uma ruptura física. É necessário um símbolo de poder contrário, algo ou alguém que represente o oposto da essência da entidade.”

— Um símbolo contrário? — Mendes repetiu, inclinando-se sobre a mesa para ver o documento. — O que isso significa? Algo como uma força oposta a Namtar?

Sarah assentiu.

— Sim. Namtar é uma entidade ligada à morte, ao desespero, ao fim. Precisamos de algo que represente a vida, a esperança, talvez até um renascimento. É isso que pode nos dar uma chance real contra ele.

— E onde vamos encontrar algo assim? — Mendes perguntou, uma nota de ceticismo em sua voz. — Não é como se pudéssemos simplesmente comprar “esperança” em uma loja de conveniência.

— Talvez não tenhamos que encontrar isso em um objeto — Sarah disse, sua mente correndo com a nova ideia. — E se for alguém? Uma pessoa que simbolize exatamente o que Namtar odeia: a vida e a renovação?

Mendes franziu a testa.

— Está falando de Evan? Ele foi a vítima. Como pode simbolizar esperança e vida?

— Exatamente por isso — respondeu Sarah, quase instantaneamente. — Ele foi tirado deste mundo de forma brutal, mas algo nele, ou na sua família, ainda pode ser a chave. Lembra do que Elisa Miller escreveu no diário? Ela falou sobre um sacrifício, mas também mencionou que havia uma maneira de proteger a linhagem. Talvez Evan, ou algo sobre ele, ainda possa ser a chave.

Mendes se afastou, cruzando os braços, claramente desconfortável com a direção da conversa.

— Então você quer usar Evan? Um garoto morto, que provavelmente está sendo manipulado por Namtar? Isso é loucura, Sarah. Pode ser exatamente o que ele quer.

Sarah fechou os olhos por um momento, tentando acalmar a maré de dúvidas que também a invadia. Mendes tinha razão, era arriscado. Mas também sabia que estavam ficando sem opções. O tempo não estava do lado deles, e Namtar estava jogando com as regras dele.

— Não estou dizendo que devemos usá-lo — corrigiu Sarah, abrindo os olhos novamente. — Mas talvez haja algo que não estamos vendo. Talvez a própria conexão de Evan com Namtar possa ser revertida. Um ciclo de morte pode ser transformado em um ciclo de vida, se encontrarmos a peça certa para reverter isso.

Mendes olhou para ela por um longo momento, os olhos cansados mas alertas. Ele sabia que não havia um caminho seguro nesse jogo. Qualquer movimento poderia ser o último. Mas também sabia que Sarah estava certa em pelo menos uma coisa: eles não podiam simplesmente esperar para serem atacados.

— Certo — ele finalmente disse, a voz baixa, mas firme. — Qual é o próximo passo?

— Precisamos voltar para onde tudo começou — Sarah respondeu, já pegando seu casaco novamente. — O túmulo de Evan. Se há algo sobre ele que pode nos ajudar a entender essa conexão, é lá que vamos descobrir.

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O cemitério estava envolto em uma névoa espessa quando chegaram. As árvores ao redor pareciam sombras retorcidas na penumbra, e o som de seus passos no cascalho da trilha era abafado pelo silêncio opressivo do lugar. O luar era fraco, e Sarah sentiu um arrepio ao olhar para as fileiras de lápides sombrias.

— Tem certeza de que isso é uma boa ideia? — Mendes perguntou, segurando uma lanterna enquanto caminhavam em direção à sepultura de Evan.

— Não — respondeu Sarah, sem hesitar. — Mas não temos outra escolha.

Quando chegaram ao túmulo, algo imediato chamou a atenção de Sarah. As flores que haviam sido deixadas pela família estavam mortas, secas como se o tempo tivesse corrido mais rápido ali. O solo ao redor do túmulo parecia perturbado, como se algo tivesse sido mexido recentemente.

— Isso não está certo — disse Mendes, iluminando o local com a lanterna. — Alguém esteve aqui.

Sarah se abaixou, examinando o solo mais de perto. Havia marcas de passos, leves, mas recentes. Alguém realmente estivera ali, e não fazia muito tempo. Seu coração disparou ao considerar quem poderia ter sido.

— Namtar — sussurrou Sarah. — Ele esteve aqui. Ele sabe que estamos tentando.

Antes que Mendes pudesse responder, o ar ao redor deles pareceu se congelar. Uma sombra se moveu entre as árvores, grande, quase líquida em sua forma, mas claramente maligna. Sarah se levantou de um salto, o coração batendo freneticamente.

— Ele está aqui — Mendes disse com uma voz tremida.

Sarah segurou a lanterna firmemente, mas sabia que a luz não seria suficiente para afastar Namtar. Eles estavam em seu território agora, e o confronto que tentavam evitar parecia inevitável.

— Se corremos, estamos perdidos — disse Sarah, a voz firme apesar do medo crescente. — Precisamos enfrentá-lo.

As sombras ao redor deles começaram a se intensificar, e Sarah sabia que o momento havia chegado. Namtar estava prestes a atacar, e eles precisavam estar prontos para lutar com todas as forças que tinham.

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