O Encontro com Claire

O dia seguinte trouxe uma tensão que Sarah não conseguia dissipar, mesmo após várias xícaras de café e uma tentativa frustrada de distrair-se com outras tarefas na delegacia. Ela e Mendes haviam passado a manhã preenchendo a papelada necessária para a visita à instituição psiquiátrica onde Claire Miller estava internada. O peso do que descobririam ao falar com Claire era palpável, mas também a possibilidade de finalmente obter respostas era um alívio.

A instituição ficava a quase uma hora de distância, um edifício antigo que, assim como a casa dos Miller, parecia carregar décadas de histórias sombrias. Sarah observava a paisagem do lado de fora do carro, sem realmente prestar atenção. A mente dela estava focada em Claire — a mulher que perdera o filho e o marido em circunstâncias misteriosas, e que desde então, havia sido internada por insanidade. O que ela ainda guardava? Havia uma verdade que estava enterrada nas memórias perturbadas de Claire?

Mendes, ao volante, parecia igualmente apreensivo. Desde que encontraram o diário de Evan, ele ficara mais calado, mais introspectivo. O ceticismo habitual de Mendes estava sendo corroído, substituído por uma crescente curiosidade. Algo naquela investigação mexia profundamente com ele, talvez pela complexidade emocional ou pelos traços inexplicáveis que começavam a surgir.

— Alguma expectativa para hoje? — Mendes perguntou, tentando soar casual, mas Sarah podia sentir a tensão em sua voz.

— Não sei. Claire está institucionalizada há anos, e seu estado mental é delicado. Mas ela é a única que pode nos ajudar a entender o que aconteceu naquela casa. Se ela estiver disposta a falar, talvez possamos finalmente juntar as peças — respondeu Sarah, sem tirar os olhos da estrada à frente.

Eles chegaram à instituição pouco antes do meio-dia. O prédio era um grande casarão de tijolos, cercado por um gramado bem cuidado, mas sua aparência de fachada não escondia o fato de que, ali dentro, moravam pessoas cujas mentes estavam quebradas de alguma forma. Sarah sentiu um arrepio enquanto cruzavam o portão.

Ao entrarem, foram recebidos por uma enfermeira de meia-idade, com uma expressão calma, mas um olhar atento, que os conduziu ao escritório do diretor da instituição. O ambiente era austero, com paredes bege e móveis antigos de madeira. O diretor, um homem baixo e magro chamado Dr. Moretti, os cumprimentou com uma formalidade distante.

— Bom dia, oficiais. Fui informado de que desejam falar com a Sra. Claire Miller. Posso perguntar qual o motivo da visita? — disse o Dr. Moretti, ajustando os óculos no rosto e observando-os com uma curiosidade contida.

Sarah se adiantou, tentando manter o tom profissional, embora soubesse que a natureza do pedido não seria fácil de explicar.

— Estamos reabrindo a investigação sobre a morte de Evan Miller. Há novos elementos que nos levaram a acreditar que Claire pode ter informações importantes. Sabemos que o estado dela é delicado, e respeitaremos os limites, mas acreditamos que ela é uma testemunha-chave.

O Dr. Moretti ponderou por alguns segundos, os lábios franzidos em uma linha fina. Ele finalmente suspirou, entrelaçando as mãos sobre a mesa.

— A Sra. Miller está aqui há mais de duas décadas. Seu quadro é de esquizofrenia paranóide severa. Ela tem surtos ocasionais, mas, na maior parte do tempo, mantém-se estável com medicação. No entanto, devo adverti-los de que Claire vive em uma realidade diferente. Há dias em que parece lúcida, mas suas memórias estão profundamente distorcidas. Não sei até que ponto ela pode ser útil para a investigação, mas, se desejam falar com ela, permitirei uma breve visita. Peço que não a pressionem — disse ele, enquanto escrevia algumas anotações.

Sarah assentiu, ciente de que estava prestes a entrar em terreno emocionalmente instável. Ela e Mendes seguiram o Dr. Moretti por corredores longos e silenciosos, onde apenas o som de portas ocasionalmente rangendo e vozes abafadas quebravam o silêncio opressivo. Finalmente, chegaram a uma pequena sala de visitas, com paredes de tom claro e uma mesa de metal no centro. Não havia janelas. Tudo no espaço transmitia uma sensação de contenção.

— Por favor, aguardem. Vou buscar Claire — disse o diretor, saindo da sala.

Sarah e Mendes trocaram olhares tensos, sem dizer nada. O ar estava denso com expectativa e apreensão. Após alguns minutos, a porta se abriu, e Claire Miller entrou, acompanhada por uma enfermeira. Ela estava muito diferente da mulher que Sarah tinha imaginado. Claire era pequena e magra, com o rosto marcado pelo tempo e pela dor. Seus cabelos grisalhos estavam presos em um coque frouxo, e seus olhos, embora atentos, pareciam distantes, como se uma parte dela estivesse sempre em algum lugar longe dali.

— Sra. Miller, estes são os detetives que gostariam de falar com você — disse a enfermeira em um tom suave, ajudando-a a se sentar.

Claire olhou para Sarah e Mendes com uma expressão que misturava curiosidade e cautela. Sarah se inclinou um pouco para frente, tentando manter o contato visual, mas sem pressioná-la.

— Sra. Miller, sou a detetive Sarah Martins, e este é o detetive Mendes. Estamos investigando o caso do seu filho, Evan, e gostaríamos de falar com você sobre isso. Sabemos que deve ser difícil, mas qualquer coisa que a senhora puder nos dizer pode ajudar.

Claire permaneceu em silêncio por alguns segundos, seus olhos vagando pela sala, como se tentasse captar algum fragmento de lembrança. Finalmente, ela falou, sua voz era surpreendentemente calma, mas carregada de uma dor antiga.

— Evan... meu menininho. Ele estava tão doente. Ninguém acreditava em mim. Eu disse... eu disse que havia algo errado naquela casa — ela começou, suas mãos finas e enrugadas tremendo levemente enquanto falava.

— A senhora mencionou isso em várias ocasiões — Sarah continuou com cuidado. — Pode nos explicar o que havia de errado com a casa? O que fazia você acreditar que algo estava... errado?

Claire olhou para Sarah, seus olhos perdidos e, ao mesmo tempo, intensos.

— Ele... o homem escuro... ele estava sempre lá, observando. No começo, eu pensei que era só minha mente. Richard dizia que era minha imaginação, que eu estava cansada. Mas eu sabia. Eu sentia ele. À noite, quando Evan dormia, eu podia vê-lo perto da cama. Parado. Esperando.

Sarah sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O "homem escuro" que Evan mencionara em seu diário. Claire acreditava que ele era real.

— Esse homem... ele fazia mal a Evan? — Mendes perguntou, a voz mais firme do que esperava.

Claire assentiu lentamente, suas mãos agora apertando as bordas da cadeira com força.

— Ele estava sempre ali. Eu tentei afastá-lo. Eu fiz de tudo... mas Evan começou a ficar doente. Não era uma doença comum. Era algo que o consumia de dentro para fora. Eu sabia que o homem escuro estava fazendo isso. Eu sabia. Richard... ele também começou a ver. Mas foi tarde demais. Tarde demais para todos nós.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Sarah e Mendes trocaram um olhar. O que Claire estava descrevendo parecia fruto de delírios, mas havia uma consistência assustadora entre seu relato e os desenhos de Evan.

— Sra. Miller, o que aconteceu na noite em que Evan... — Sarah começou, mas foi interrompida quando Claire colocou as mãos no rosto, os ombros tremendo.

— Eu tentei salvá-lo. Eu tentei... mas ele já estava morto — ela sussurrou, suas palavras afogadas em lágrimas.

A porta se abriu novamente, e a enfermeira entrou rapidamente para acalmar Claire, que agora chorava incontrolavelmente. Dr. Moretti apareceu logo em seguida, com um olhar de desculpas.

— Acho que isso é o suficiente por hoje — ele disse suavemente.

Sarah e Mendes se levantaram, sabendo que não poderiam forçar mais nada naquele momento. Saíram da sala em silêncio, com mais perguntas do que respostas, mas com a certeza de que o "homem escuro" era uma peça importante nesse enigma.

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