O Altar

A porta da casa dos Miller se fechou atrás de Sarah e Mendes com um som que parecia ecoar na alma. A escuridão dentro da residência parecia densa, quase tangível, como se a própria casa estivesse viva com a presença de Namtar. Sarah sentiu um arrepio percorrer sua espinha e, por um breve momento, questionou a sanidade de voltar àquele lugar. Mas sabia que era inevitável. Era ali, no coração daquele pesadelo, que encontrariam as respostas que precisavam.

Mendes estava logo atrás dela, sua mão firme na lanterna que iluminava o caminho à frente. Eles já tinham explorado cada canto daquela casa, ou pelo menos pensavam que tinham. Mas havia algo que ainda estava escondido, algo que Namtar queria desesperadamente manter oculto.

— Sarah — Mendes chamou baixinho, interrompendo seus pensamentos. — Não podemos perder mais tempo. Quanto mais ficarmos aqui, mais ele se fortalece.

Sarah sabia que ele estava certo. O tempo estava contra eles, mas também sabia que não podiam se precipitar. Namtar jogava com a paciência, manipulação e medo. Se fossem descuidados, acabariam caindo em suas armadilhas.

— Vamos começar pelo sótão — sugeriu Sarah, seus olhos voltados para o teto escuro. — Foi lá que encontramos o diário de Elisa Miller, e tenho a sensação de que ainda há mais por lá.

Mendes acenou com a cabeça, e juntos subiram as escadas que rangiam a cada passo, o som ecoando pela casa vazia. O ar no sótão era denso, quase sufocante, como se o espaço estivesse impregnado com o peso dos anos e da dor que ali residia. A lanterna de Mendes iluminava as paredes repletas de teias de aranha, enquanto Sarah tentava se concentrar em qualquer detalhe que pudesse ter passado despercebido da primeira vez.

Ela parou em frente ao baú onde encontraram o diário. O objeto agora parecia mais macabro do que antes, como se tivesse absorvido a própria escuridão que envolvia a casa.

— Olhe isso — disse Sarah, apontando para o chão embaixo do baú. — As tábuas estão desgastadas, como se algo tivesse sido arrastado repetidamente para lá.

Mendes se aproximou, iluminando o local com a lanterna. Ele franziu a testa.

— Tem algo estranho com essas tábuas. Elas parecem mais velhas que o restante do piso.

Sarah se ajoelhou e começou a tocar as tábuas com cuidado, até que encontrou uma que parecia solta. Com esforço, ela a ergueu, revelando um compartimento oculto no chão. Seus olhos se arregalaram ao ver o que estava escondido ali.

— É um altar — disse Sarah, sua voz um sussurro.

Dentro do compartimento, havia um pequeno altar de pedra. Sobre ele, estavam velas derretidas, um cálice antigo e uma estátua que Sarah reconheceu de imediato. Era uma representação de Namtar, o rosto da figura esculpida distorcido em um sorriso macabro, como se estivesse zombando deles.

— Parece que a família Miller fez mais do que tentar se proteger — disse Mendes, ajoelhando-se ao lado dela. — Eles estavam venerando Namtar.

Sarah não respondeu imediatamente. Estava absorvida na estátua, a frieza da pedra parecia irradiar uma energia malévola. Tudo fazia sentido agora. A família Miller, desesperada para se proteger, acabou se voltando para a própria entidade que os assombrava. Eles não estavam apenas tentando afastá-lo, estavam tentando controlá-lo — e, nesse processo, acabaram marcando sua própria descendência para a condenação.

— Eles pensaram que poderiam dominá-lo — murmurou Sarah. — Achavam que, com os rituais certos, poderiam manter Namtar sob controle. Mas ele é mais antigo e mais poderoso do que qualquer ritual humano.

Mendes olhou para ela com um misto de medo e curiosidade.

— E agora? O que fazemos com isso?

Sarah se levantou lentamente, tentando acalmar o turbilhão de pensamentos que a dominavam. Precisavam de um plano. Namtar ainda estava oscilando entre este mundo e o próximo, e o sacrifício era apenas mais uma peça no jogo.

— Precisamos destruí-lo — respondeu ela, determinada. — Este altar, esta conexão entre os Miller e Namtar, deve ser quebrada.

Mendes deu um passo para trás, o olhar cauteloso.

— E como você pretende fazer isso? Estamos lidando com uma entidade poderosa, Sarah. Não é como se pudéssemos simplesmente derrubar algumas pedras e acabar com tudo.

— Eu sei — admitiu ela. — Mas há uma maneira. Se quebrarmos o elo físico que o mantém ligado a esta casa, poderemos enfraquecer sua influência. Não o baniremos completamente, mas será um golpe suficiente para nos dar tempo de descobrir como bani-lo de vez.

Mendes hesitou, mas sabia que Sarah tinha razão. Aquele altar era a chave. Se o destruíssem, poderiam ganhar uma vantagem crucial.

— Certo — ele concordou, olhando em volta em busca de algo que pudessem usar para quebrar o altar. — Vamos acabar com isso.

Sarah pegou uma das ferramentas que haviam trazido para a investigação, uma pequena marreta que estava em sua mochila. Sem hesitar, ela se abaixou diante do altar e, com toda a força que tinha, golpeou a base da estátua.

O som que seguiu não era apenas o de pedra quebrando. Foi um som muito mais profundo, quase visceral, como se a casa estivesse gritando em protesto. As velas sobre o altar se apagaram instantaneamente, e o ar no sótão pareceu ficar mais denso, quase irrespirável.

Sarah golpeou novamente, e uma rachadura percorreu a estátua de Namtar, como uma ferida aberta. O chão sob seus pés começou a tremer, e, por um breve momento, ela sentiu que a própria casa poderia desmoronar.

— Sarah! — Mendes gritou, puxando-a para trás quando o altar começou a desmoronar completamente.

Ela tropeçou, mas se manteve firme, observando enquanto o altar se desfazia em pedaços. A estátua de Namtar caiu ao chão com um estrondo, e por um momento, o silêncio tomou conta do sótão.

Mas a calmaria durou pouco.

Um som distante, um murmúrio, começou a preencher o ambiente. Não era um som humano, mas algo mais primitivo, mais aterrador. Sarah sentiu seu coração acelerar enquanto o som se intensificava, preenchendo seus ouvidos, sua mente. Namtar estava ciente do que haviam feito. E ele não estava feliz.

— Precisamos sair daqui — Mendes sussurrou, sua voz carregada de urgência.

Sarah concordou, mas seus pés pareciam grudados no chão. Havia uma presença na casa agora, algo mais forte, mais palpável do que antes. Namtar não estava mais apenas observando. Ele estava vindo.

Os dois correram para fora do sótão, descendo as escadas apressadamente enquanto o som aumentava ao redor deles. As sombras pareciam se estender pelas paredes, como se a própria escuridão estivesse viva, tentando envolvê-los.

Ao saírem da casa, o ar frio da noite os recebeu, mas nem mesmo o exterior parecia seguro agora. Eles olharam para a casa dos Miller, que permanecia imóvel, mas Sarah sabia que algo havia mudado. Haviam destruído o altar, mas isso não era o fim. Era apenas o começo.

Namtar estava mais enfurecido do que nunca.

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Dentro do carro, Mendes ofegava enquanto tentava recuperar o fôlego. Sarah estava em silêncio, olhando fixamente para a casa à distância.

— O que vem agora? — perguntou Mendes, sua voz trêmula.

Sarah respirou fundo.

— Agora, ele vai nos caçar.

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