A Maldição dos Miller

A noite parecia mais densa quando Sarah finalmente deixou a delegacia. A voz de Namtar ainda ecoava em sua mente, uma lembrança perturbadora de que o perigo estava longe de ser dissipado. Mesmo com o amuleto destruído, a entidade ainda estava presente, e agora parecia mais próxima do que nunca. Ela olhou para o céu nublado e envolto pela escuridão, sentindo uma inquietação em seu peito. Sabia que o tempo estava se esgotando.

Mendes, que havia saído da delegacia logo após Sarah, a alcançou no estacionamento. Seus olhos estavam sombrios, refletindo a tensão de tudo que haviam vivido nas últimas horas.

— O que faremos agora? — perguntou ele, com uma voz cansada, mas firme. — Temos uma pista clara, mas o caminho à frente parece cada vez mais nebuloso.

Sarah, com os braços cruzados, fitou o horizonte, onde a cidade se misturava à escuridão da noite.

— Vamos à casa dos Miller novamente — respondeu ela. — Há algo lá que não vimos da primeira vez. Agora que sabemos o que procurar, podemos encontrar a conexão entre a família e Namtar.

Mendes concordou com um aceno de cabeça, embora sua expressão revelasse o quanto ele estava desconfortável com a ideia de voltar àquela casa. O lugar onde Evan foi encontrado morto ainda carregava o peso do desespero e do mistério. Algo naquela residência continuava os chamando, como se o próprio espaço fosse uma chave para as respostas que tanto procuravam.

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Ao chegarem na antiga residência dos Miller, a sensação de desconforto que os envolvera da primeira vez estava mais intensa. As janelas escuras da casa pareciam olhos que observavam cada movimento dos dois. A fachada decadente e o jardim mal cuidado reforçavam a ideia de que a tragédia havia se impregnado ali, como uma cicatriz profunda na alma do lugar.

Mendes caminhou até a porta da frente, hesitante, mas determinado. Ele segurou a maçaneta por alguns segundos antes de girá-la e empurrar a porta. O som rangeu alto, ecoando pela casa como um aviso sinistro. Sarah seguiu logo atrás, com os sentidos aguçados.

— O que exatamente estamos procurando? — perguntou Mendes enquanto avançavam pela sala de estar, o local onde a família Miller havia tentado, em algum momento, viver uma vida normal antes da escuridão os consumir.

Sarah fez uma pausa, ponderando a pergunta.

— Qualquer coisa que nos indique por que Namtar os escolheu. Pode ser um objeto, documentos antigos, até mesmo algum tipo de diário ou livro de família que revele um padrão. Algo que conecte os Miller a Namtar.

Os dois começaram a vasculhar os cômodos da casa. A sensação de opressão parecia aumentar com cada passo, como se a própria casa estivesse impregnada pela presença maligna que outrora estivera ali. Sarah olhou para as paredes desgastadas e os móveis abandonados. A vida havia parado naquele lugar no momento em que Evan morreu.

Depois de mais de uma hora de busca minuciosa, Sarah finalmente encontrou algo que chamou sua atenção. No sótão da casa, atrás de uma pilha de caixas velhas, havia um baú de madeira. Era antigo, coberto de poeira, e parecia não ter sido tocado em anos. Sarah sentiu um arrepio ao ver o objeto, como se ele emanasse uma energia fraca, mas palpável.

— Mendes, aqui! — chamou Sarah, gesticulando para que ele subisse as escadas até o sótão.

Mendes, ao ver o baú, franziu o cenho.

— Isso estava aqui antes? Não me lembro de termos visto isso na nossa primeira visita.

— Nem eu — admitiu Sarah, mas a intuição a guiava. — Vamos ver o que há dentro.

Com algum esforço, ela abriu a tampa do baú. No interior, estavam velhos livros e papéis amarelecidos pelo tempo. No topo de tudo, havia um diário. Sarah pegou-o com cuidado e o abriu. A caligrafia era antiga, difícil de ler, mas ainda legível. O diário pertencia a uma mulher chamada Elisa Miller, uma ancestral da família, datado do final do século XIX.

Enquanto folheava as páginas, algo começou a se encaixar. Elisa Miller descrevia em detalhes uma série de rituais que sua família realizava, rituais destinados a "proteger" a linhagem de influências malignas. No entanto, conforme Sarah lia mais, ficou claro que algo havia dado errado. Em uma das passagens, Elisa mencionava um nome que gelou o sangue de Sarah: Namtar.

"Tememos que as nossas práticas antigas tenham atraído a atenção de Namtar, o senhor da doença e da morte. Tentamos controlar suas influências, mas ele se infiltrou em nossa família, corrompendo nossa linhagem. Se não encontrarmos uma maneira de quebrar esse vínculo, temo que ele voltará para reclamar nossa descendência no futuro."

Sarah e Mendes trocaram um olhar carregado de compreensão e horror.

— Eles estavam tentando proteger a família de uma ameaça, mas acabaram atraindo Namtar — disse Sarah, sua voz tensa. — Isso explica por que Evan foi alvo. A linhagem dos Miller estava amaldiçoada.

Mendes balançou a cabeça, perplexo.

— Eles abriram uma porta para ele. E ele esperou. Séculos, talvez. Até encontrar a oportunidade certa para atacar novamente.

— Isso significa que o amuleto, de alguma forma, foi ligado a essa maldição — disse Sarah, voltando seu olhar para o diário. — Talvez os Miller tenham criado o amuleto na tentativa de controlar ou conter Namtar, mas ele acabou sendo usado para o oposto.

Os dois ficaram em silêncio por um momento, absorvendo o peso da revelação. Aquela família, sem saber, havia selado o próprio destino séculos antes. E agora, Evan havia sido o último a pagar o preço.

— Precisamos levar isso para a Dra. Hollis — disse Mendes, interrompendo o silêncio.

Sarah concordou, mas antes de fechar o diário, algo no final chamou sua atenção. A última página parecia diferente, como se tivesse sido escrita com pressa, quase como um último aviso.

"Se Namtar for despertado novamente, a única forma de pará-lo será através de um sacrifício. Ele exige não só uma vida, mas uma alma disposta. Aquele que se oferecer deve fazê-lo de livre vontade, ou Namtar tomará o que quiser."

Sarah sentiu o peso daquelas palavras. Um sacrifício. Uma alma disposta. Seu estômago se revirou com a ideia. Não havia outra maneira de derrotar Namtar?

— Um sacrifício… — ela murmurou, o horror tomando forma em sua mente. — É isso que ele quer.

Mendes olhou para ela, alarmado.

— Não podemos considerar isso. Deve haver outra maneira.

Sarah fechou o diário, mas as palavras continuavam ecoando em sua mente. Se Namtar estava atrás de um sacrifício, alguém teria que se oferecer. Mas quem seria?

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De volta ao carro, enquanto dirigiam pela estrada escura de volta à cidade, Sarah não conseguia se livrar da sensação de que estavam se aproximando do confronto final. As peças estavam todas se encaixando, mas o preço a pagar parecia mais alto do que ela jamais imaginou. E Namtar, mesmo sem seu amuleto, ainda os observava das sombras, esperando o momento certo para agir.

A escolha estava diante deles: enfrentar a entidade ou fazer o sacrifício que ele exigia. E Sarah sabia que, no fundo, a batalha estava apenas começando.

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Cecilia geralda Geralda ramos

Cecilia geralda Geralda ramos

e só expulsar no nome de Jesus Cristo não há demônio que possa vencer o Rei dos Reis.

2025-02-18

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