A capela estava em silêncio, exceto pela respiração pesada de Sarah e Mendes, que se recuperavam do esforço físico e emocional do ritual. O amuleto, agora reduzido a cinzas, deixara no ar uma sensação de alívio, mas também uma tensão subjacente. Algo não parecia completamente certo. Dra. Hollis, que ainda segurava a tigela de cerâmica, observava os restos do objeto com olhos fixos, como se tentasse interpretar sinais invisíveis.
— Acabou? — perguntou Mendes, rompendo o silêncio com uma voz baixa e rouca.
Dra. Hollis hesitou antes de responder. Ela sabia que as entidades como Namtar raramente desapareciam sem deixar um rastro ou consequência.
— O amuleto foi destruído — ela disse, calmamente. — Mas entidades como Namtar não se vão de forma tão simples. Elas deixam uma marca. É possível que ele ainda tenha uma influência residual, mesmo sem um objeto para canalizar seu poder.
Sarah engoliu seco, tentando absorver o que isso significava. O terror que haviam acabado de enfrentar parecia ser apenas o começo de algo maior, algo que ainda não entendiam completamente.
— Então o que fazemos agora? — ela perguntou, sentindo o cansaço começar a pesar em seu corpo.
Dra. Hollis caminhou até a entrada da capela, observando a neblina que se dissipava lentamente. A atmosfera ao redor parecia mais leve, mas uma tensão invisível pairava no ar, como um alerta silencioso.
— Agora, precisamos ficar atentos. O amuleto foi a âncora que mantinha Namtar aqui, mas ele pode procurar novas formas de se manifestar. Alguém próximo a vocês pode estar em risco — ela disse, olhando fixamente para Sarah.
O coração de Sarah acelerou. Pensou imediatamente em pessoas próximas: sua irmã, seus colegas na delegacia... Evan. O garoto que morrera tantos anos atrás ainda estava em sua mente, sua morte envolta em mistério e dor. Será que o espírito de Namtar estava, de alguma forma, conectado à tragédia que rodeava Evan e sua família?
— Evan — sussurrou Sarah. — A morte daquele garoto... há algo que ainda não faz sentido.
Dra. Hollis virou-se para Sarah, intrigada.
— Evan Miller, certo? O garoto cuja morte desencadeou tudo isso?
— Sim — Sarah confirmou. — Não acho que sua morte tenha sido um simples acidente ou resultado da possessão. Há mais coisas envolvidas. A mãe dele delirava que ele ainda estava vivo, e o pai se suicidou, deixando uma carta que reabriu o caso. E agora, com Namtar... tudo parece conectado.
Mendes, que até então havia se mantido em silêncio, cruzou os braços e franziu a testa.
— Se Evan esteve de alguma forma ligado ao amuleto, isso explicaria os eventos estranhos ao redor de sua morte — ele comentou. — Talvez Namtar tenha se manifestado através dele, e a morte de Evan foi apenas o início de uma cadeia de tragédias.
— Isso é possível — Dra. Hollis respondeu, pensativa. — Namtar pode ter se aproveitado da vulnerabilidade emocional da família para se alimentar de seu desespero. Mas precisamos de mais informações para entender como exatamente isso aconteceu.
— A carta — Sarah disse, subitamente se lembrando. — A carta que o pai de Evan escreveu antes de se suicidar. Nunca consegui ler o conteúdo completo. Talvez haja algo lá que explique o envolvimento de Namtar.
— Precisamos ver isso — disse Dra. Hollis, já traçando os próximos passos. — Cada detalhe é crucial neste momento.
De volta à delegacia, Sarah sentou-se em sua mesa e puxou a gaveta onde guardava cópias dos arquivos do caso Miller. A carta de Richard Miller estava no topo da pilha. Ela a desdobrou com cuidado, sentindo um arrepio percorrer sua espinha enquanto lia as palavras escritas à mão. O desespero de um pai que perdera seu filho estava estampado em cada linha. Sarah havia lido trechos antes, mas agora, depois do ritual e de Namtar, haviam palavras nas cartas que ela poderia jurar que não estavam lá antes.
A carta começava com frases que revelavam a angústia de Richard:
"Eu tentei proteger Evan. Eu juro que tentei. Mas algo estava errado. Algo entrou em nossa casa, algo que não consigo explicar."
Sarah continuou a leitura, e as palavras que antes pareciam apenas divagações perturbadas agora tomavam um novo significado.
"Ele mudou, começou a ver coisas. Ouvi vozes que não estavam lá. E eu... eu também ouvi. Não sei como, mas ele foi tomado por algo. Isso não era apenas uma doença, era algo mais. Algo antigo."
— “Algo antigo…” — Sarah murmurou. Namtar. Richard Miller estava descrevendo os primeiros sinais de possessão.
Dra. Hollis, que estava sentada ao lado de Sarah, inclinou-se para observar a carta mais de perto.
— Parece que Richard percebeu a presença de Namtar antes que qualquer outra pessoa pudesse notar. Ele estava certo ao pensar que seu filho havia sido tomado por algo maligno — comentou Dra. Hollis. — Isso é consistente com o comportamento das entidades antigas. Elas primeiro se manifestam através de comportamentos estranhos, até que finalmente tomam controle total.
A carta continuava:
"Eu pensei em fugir, em tirar Evan de casa, mas sabia que não adiantaria. A coisa já estava dentro dele. E agora, está dentro de mim também. Eu o ouço. Ouço seus sussurros todas as noites. Ele diz que não há escapatória. Que meu destino já está selado."
Mendes, que observava de pé ao lado da porta, suspirou, cruzando os braços.
— Esse homem estava completamente desesperado. O que quer que Namtar tenha feito com Evan, ele conseguiu continuar a perturbar a família depois da morte do garoto.
Sarah virou-se para o final da carta, que continha as últimas palavras de Richard antes de tirar sua própria vida.
"Eu não posso viver assim. Prefiro a morte do que continuar ouvindo sua voz, seus gritos. Perdoem-me, mas eu não posso mais lutar."
Um silêncio pesado recaiu sobre a sala. Sarah colocou a carta de lado e esfregou os olhos, exausta.
— Agora sabemos que Namtar estava por trás da morte de Evan e do suicídio de Richard. Mas isso ainda não explica por que ele escolheu essa família — disse Sarah, refletindo. — Por que Evan? Por que os Miller?
Dra. Hollis se levantou, pensativa.
— Namtar não escolhe vítimas aleatoriamente. Pode haver algo no passado da família que o atraiu. Talvez um antigo ritual ou um erro cometido por algum ancestral. Precisamos investigar mais a fundo a história dos Miller.
— Talvez devêssemos visitar a casa deles novamente — sugeriu Mendes. — Pode haver algo lá que perdemos. Agora que sabemos o que estamos procurando, talvez encontremos mais pistas.
Sarah concordou. Sentia que a resposta estava mais próxima do que nunca, mas também sabia que cada nova descoberta os levava a mais perguntas. Namtar ainda estava lá fora, esperando, e a luta contra ele estava longe de terminar.
Mais tarde, naquela noite, enquanto Sarah se preparava para sair da delegacia, sentiu uma presença ao seu redor, uma leveza no ar que a fez se arrepiar. Ela virou-se rapidamente, mas não havia ninguém.
No entanto, uma voz sussurrou em sua mente, fria e cheia de malícia:
"Você pode ter quebrado meu vínculo, mas eu ainda estou aqui."
Sarah congelou, o medo tomando conta de seu corpo. Sabia que a batalha com Namtar estava apenas começando.
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Atualizado até capítulo 25
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