A Revelação

A chuva continuava a cair pesadamente quando Sarah e Mendes finalmente chegaram à delegacia. O edifício parecia seguro, uma fortaleza em meio ao caos que haviam experimentado no apartamento. Mas Sarah sabia, no fundo, que o refúgio era temporário. Algo sinistro estava acontecendo, e a sensação de ser observada a seguia como uma sombra.

Entraram apressadamente, e o calor seco da delegacia foi uma mudança bem-vinda do frio úmido lá de fora. Mendes passou direto para a sala de arquivos, enquanto Sarah seguiu até sua mesa, tentando acalmar os nervos. Ela abriu a gaveta onde guardava seu bloco de notas, tirando o papel com as informações sobre o amuleto. O nome de Richard Miller, a data em que ele o adquiriu, e a palavra que Sarah não conseguia tirar da cabeça: proteção.

Ela sabia que, para Richard, o amuleto não tinha sido um simples objeto decorativo. Ele acreditava que possuía algum tipo de poder. Claire tinha dito que ele o usara para proteger a família, mas, de alguma forma, a presença do amuleto havia feito exatamente o oposto. Richard estava morto, Evan também, e Claire estava trancada em um hospital psiquiátrico. Sarah olhou para o pedaço de papel, tentando conectar os pontos.

Logo, Mendes voltou com uma pilha de arquivos em mãos.

— Achei algumas coisas que talvez nos ajudem a entender o que estamos enfrentando — ele disse, jogando os papéis sobre a mesa de Sarah. — Fiz algumas pesquisas no caminho para cá. O amuleto que encontramos parece se assemelhar a um símbolo antigo, um que era usado em rituais de proteção... mas de uma maneira distorcida.

— Distorcida como? — Sarah perguntou, intrigada.

— Bem, essa versão do amuleto foi usada por uma seita que acreditava que o poder de proteção vinha de entidades obscuras, não de qualquer tipo de força benigna. Eles acreditavam que, ao invocar essas entidades, poderiam proteger suas famílias, mas o preço era alto. Segundo as lendas, essas entidades exigiam algo em troca... algo muito mais sinistro.

Antes que Mendes pudesse continuar, o telefone de Sarah tocou, quebrando o silêncio. Ela olhou para o visor e reconheceu o número. Era Dra. Valentina Hollis, uma especialista em objetos históricos e ocultismo com quem Sarah havia entrado em contato anteriormente. Sarah atendeu rapidamente, sabendo que aquela ligação poderia ser crucial.

— Dra. Hollis, obrigado por retornar minha ligação. Precisamos muito da sua ajuda — Sarah disse, mantendo o tom urgente.

Do outro lado da linha, a voz calma e precisa da Dra. Hollis respondeu:

— Recebi suas mensagens, Sarah. Desculpe pela demora. Fiquei analisando as fotos e a descrição do amuleto que você me enviou, e encontrei algo. O objeto que vocês encontraram... não é um simples amuleto de proteção. É muito mais antigo e mais perigoso do que parece à primeira vista.

Sarah sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— O que é exatamente, Dra. Hollis? Que tipo de amuleto estamos lidando?

— O amuleto que você tem em mãos é conhecido como O Lacre de Namtar, um artefato com raízes na antiga Mesopotâmia, mais precisamente na Suméria. Namtar, na mitologia suméria, era o deus da morte e da desgraça. Mas o que torna este objeto especialmente sinistro é o papel que ele desempenhava em rituais proibidos... rituais de proteção que, em última análise, envolviam a invocação de forças das trevas para proteger o usuário, mas sempre a um custo terrível.

Sarah apertou o telefone com mais força. O nome "Namtar" já fazia seu estômago revirar, mas a ideia de um ritual envolvendo a morte e desgraça era ainda pior.

— E o que esses rituais exigiam? — Sarah perguntou, tentando manter a calma.

— Estes amuletos eram usados por aqueles que estavam desesperados por proteção. Guerreiros antes de batalhas, reis temendo traição, até mesmo pais preocupados com a segurança de suas famílias. A lenda diz que, ao realizar o ritual com o amuleto, o usuário invocava o favor de Namtar. O amuleto agia como um escudo contra inimigos, doenças e até a própria morte. Mas, em troca, a entidade exigia algo precioso. Em alguns casos, isso significava a vida de uma pessoa próxima, ou o sacrifício da própria alma do usuário. O mais assustador é que, muitas vezes, a pessoa que realizava o ritual não tinha consciência de qual seria o preço exato até que fosse tarde demais.”

Sarah sentiu um nó na garganta ao ouvir aquilo. Tudo começava a fazer sentido agora. Richard Miller, em seu desespero para proteger a família, tinha recorrido ao amuleto sem saber o que estava realmente invocando.

— Você acha que Richard Miller realizou esse ritual? — Sarah perguntou.

— Com base no que você me disse sobre a história da família e o estado mental de Claire, eu diria que é quase certo. Ele pode ter acreditado que estava protegendo sua família, mas o que ele fez foi selar o destino deles. O preço que Namtar cobra é cruel. E o fato de que ele manteve o amuleto sugere que ele nunca conseguiu completar o pagamento total. O amuleto ainda está ativo, o que significa que a dívida está em aberto.

— Então a entidade... ainda está aqui? — Sarah perguntou, seu coração acelerando.

— Sim, e se as lendas forem verdadeiras, ela vai continuar reivindicando o que lhe foi prometido até que o pagamento seja concluído ou o amuleto seja destruído. Se Namtar não puder levar a alma de Richard, ele procurará outros membros da família, ou qualquer um que entre em contato com o objeto.

Sarah ficou em silêncio, digerindo a gravidade da situação. O amuleto não era apenas um símbolo de desespero. Ele era uma sentença de morte.

— Existe alguma maneira de destruí-lo? — Sarah perguntou, tentando se concentrar em uma solução.

A Dra. Hollis fez uma pausa antes de responder.

— Destruir esse tipo de amuleto não é uma tarefa fácil. A maioria dos objetos ligados a entidades como Namtar estão protegidos por antigas maldições. Não pode ser quebrado ou destruído por meios comuns. O amuleto precisa ser purificado por um ritual específico, algo que envolva cortar todos os laços entre ele e a entidade. Isso pode exigir um sacrifício... mas não de vida. A chave está em quebrar o vínculo de poder com Namtar sem satisfazer sua fome por almas.

— E como fazemos isso? — Sarah perguntou, desesperada.

— Há um antigo ritual babilônico que pode neutralizar o amuleto. Envolve um conjunto de símbolos e encantamentos destinados a dissipar a energia maligna que o envolve. Mas vou ser honesta, Sarah: é arriscado. Se não for feito corretamente, pode piorar as coisas. Precisamos fazer isso em um local protegido, longe de qualquer pessoa que possa ser influenciada pela entidade.

Sarah suspirou, percebendo a complexidade da situação. Mas o que mais poderia fazer? Ela não podia simplesmente esperar enquanto Namtar continuava rondando, reivindicando vítimas.

— Certo. O que precisamos? — ela perguntou, determinada.

— Eu vou enviar uma lista de itens que você precisará. Quando tudo estiver pronto, traga o amuleto até mim. Precisamos agir rápido. Quanto mais tempo o amuleto estiver ativo, mais forte a presença de Namtar ficará — a Dra. Hollis disse, sua voz séria.

Sarah agradeceu e desligou o telefone, virando-se para Mendes, que tinha escutado a maior parte da conversa.

— Temos um plano, mas vai ser complicado — ela disse. — Precisamos encontrar os materiais certos e levar o amuleto até a Dra. Hollis. Só assim podemos acabar com isso.

Mendes balançou a cabeça lentamente, o peso da situação claramente estampado em seu rosto.

— E se não conseguirmos? — ele perguntou, hesitante.

— Então mais pessoas vão morrer — Sarah respondeu, com firmeza.

Eles não podiam falhar. O destino das vidas inocentes — e deles mesmos — dependia de acabar com a maldição de Namtar, de uma vez por todas.

Sarah e Mendes se prepararam para a tarefa à frente, sabendo que estavam prestes a enfrentar forças que ultrapassavam sua compreensão. O tempo estava se esgotando, e a escuridão se aproximava mais a cada momento.

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