A Escuridão Dentro da Casa

O eco dos passos de Sarah e Mendes no piso de azulejo da delegacia era o único som a preencher o vazio do final da tarde. O vídeo que acabaram de assistir havia deixado uma marca profunda em ambos, e as emoções estavam emaranhadas em seus rostos. Sarah sentia um nó no estômago, a visão da mãe de Evan ao lado do corpo inerte do filho gravada em sua mente como uma sombra que se recusava a desaparecer.

— Precisamos entender o que realmente aconteceu naquela casa — Sarah murmurou, mais para si mesma do que para Mendes, enquanto caminhava ao lado do colega de trabalho.

— Sim, mas por onde começamos? — Mendes perguntou, seu tom é um misto de ceticismo e desconforto. — Temos uma mãe claramente em estado de negação e um pai que se matou após escrever uma carta sobre “algo” estar na casa. Mas o que isso quer dizer? Você acredita na carta dele?

Sarah parou por um momento, apoiando-se contra a parede fria da delegacia, e olhou para Mendes com uma expressão séria.

— Não sei o que pensar ainda, mas tenho certeza de que aquela fita é apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior. A carta de Richard Miller parecia ser um grito de socorro, um aviso desesperado. Não podemos simplesmente ignorar isso.

Mendes balançou a cabeça, como se lutasse contra uma onda de incredulidade.

— Eu sou um homem de evidências, Sarah. E o que temos até agora não é o suficiente. É difícil acreditar que algo sobrenatural possa estar envolvido.

Sarah não respondeu de imediato. Algo no fundo de sua mente a incomodava. Ela sabia que, para avançar, precisariam voltar ao lugar onde tudo começou: a casa dos Miller. Precisavam revisitar aquela casa com um olhar novo, agora armados com o conhecimento que obtiveram da carta e da fita.

— Precisamos voltar à casa — Sarah disse finalmente, sua voz firme. — Há algo que ainda não vimos. Algo que estamos perdendo.

Mendes suspirou, esfregando a mão no rosto.

— Você tem certeza de que isso é uma boa ideia? — ele perguntou, mas já sabia a resposta.

— Não, não tenho certeza de nada — respondeu Sarah, com um sorriso forçado. — Mas é a única coisa que faz sentido agora.

De volta à casa dos Miller

O caminho até a casa dos Miller parecia mais sombrio do que na última vez que estiveram lá. O céu estava nublado, e o sol se escondia atrás de uma camada espessa de nuvens cinzentas. A rua onde a casa ficava era silenciosa, quase como se a vizinhança soubesse do peso que aquele lugar carregava e evitasse passar por ali.

Ao chegarem à frente da casa, Sarah sentiu o mesmo arrepio percorrer sua espinha. A estrutura antiga tinha um ar de decadência. As janelas empoeiradas, as telhas desgastadas e a porta da frente que rangia como um lamento ao ser aberta... tudo contribuía para o clima de abandono e tristeza que envolvia o lugar.

— Pronta? — Mendes perguntou, abrindo a porta e deixando que Sarah entrasse primeiro.

Sarah respirou fundo e deu o primeiro passo. O interior da casa estava praticamente do mesmo jeito de antes, mas agora, após assistir ao vídeo, cada detalhe parecia mais macabro. Era como se as paredes tivessem absorvido a tristeza e a insanidade que ali ocorreram.

— Vamos começar pelo quarto de Evan — sugeriu Sarah, sem hesitação.

Eles subiram as escadas em silêncio, o rangido de cada degrau ecoando como um aviso. Quando chegaram ao quarto, tudo estava tão quieto quanto antes, mas algo no ar parecia diferente. Havia uma sensação de opressão, como se a casa estivesse viva e observando seus movimentos. Sarah olhou ao redor, os olhos percorrendo as paredes decoradas com desenhos infantis e os brinquedos que ainda estavam ali, esperando pelo menino que nunca mais voltaria.

— Tem algo que não vimos aqui — Sarah disse em voz baixa, caminhando pelo quarto. — Talvez algo escondido, algo que ainda não percebemos.

Mendes não disse nada, apenas observava enquanto Sarah explorava o espaço. Ela se ajoelhou ao lado da cama de Evan, onde ele foi encontrado, e passou a mão pelo chão de madeira, procurando por qualquer sinal de algo fora do lugar. Seus dedos tocaram um pequeno buraco entre as tábuas, e ela puxou uma faca de bolso do casaco.

— O que você está fazendo? — perguntou Mendes, se aproximando.

— Há um compartimento aqui — respondeu Sarah, tentando remover a tábua solta.

Com um esforço considerável, ela finalmente conseguiu levantar a madeira, revelando um pequeno espaço vazio. Dentro dele, estava um caderno de capa preta, velho e desgastado, quase caindo aos pedaços. Sarah o puxou cuidadosamente, como se estivesse manuseando uma relíquia antiga e frágil.

— Um diário? — Mendes perguntou, arqueando as sobrancelhas.

Sarah abriu o caderno, suas mãos ligeiramente trêmulas. As primeiras páginas eram rabiscos infantis, desenhos coloridos de dinossauros, super-heróis e casas com grandes janelas. Mas à medida que folheava, os desenhos se tornavam cada vez mais perturbadores. Figuras estranhas começaram a aparecer, formas escuras e indefinidas que cercavam o que parecia ser Evan e seus pais. Em algumas páginas, havia apenas rabiscos violentos, como se Evan estivesse tentando apagar algo da memória ou expressar um medo profundo.

— Olhe isso — Sarah sussurrou, mostrando uma página específica a Mendes. Nela, Evan desenhara o que parecia ser um vulto, uma sombra com olhos grandes e vazios, pairando sobre sua cama. Abaixo do desenho, em letras trêmulas e quase ilegíveis, estava escrito: “O homem escuro me observa enquanto durmo”.

Mendes olhou fixamente para o desenho, suas sobrancelhas se unindo em confusão.

— O que diabos isso significa?

Sarah fechou o diário, os olhos agora cheios de determinação.

— Não sei, mas é a segunda vez que essa presença é mencionada. Primeiro na carta de Richard, agora nos desenhos de Evan. Seja o que for, eles acreditavam que algo estava dentro desta casa. Algo que os assombrava.

Mendes suspirou, cruzando os braços.

— Você realmente acredita que essa sombra, esse “homem escuro”, seja real? Parece mais um pesadelo infantil, algo que Evan desenhava para lidar com o que quer que estivesse acontecendo na família.

Sarah balançou a cabeça, ainda segurando o diário.

— Pode ser que sim. Mas também pode ser que não. Algo fez Richard se matar. Algo fez Claire perder a sanidade a ponto de cuidar de um filho morto por dias. Não podemos descartar nada, Mendes. Precisamos entender mais sobre o que aconteceu aqui.

Mendes olhou para Sarah, incerto, mas algo em sua expressão indicava que ele estava disposto a seguir o instinto dela.

— Certo, por onde começamos?

— Precisamos falar com Claire Miller — disse Sarah. — Ela é a única pessoa viva que esteve aqui durante tudo isso. Ela pode nos dar as respostas que precisamos.

O nome de Claire Miller pairou no ar como uma ameaça. Sarah sabia que encontrar a mulher não seria fácil. Ela estava internada em uma instituição psiquiátrica há anos, e seu estado mental era frágil. Mas se alguém pudesse lançar luz sobre o que aconteceu na casa dos Miller, seria Claire.

— Vamos ver se conseguimos marcar uma visita — sugeriu Mendes, enquanto guardava o diário de volta no compartimento.

Sarah assentiu, sentindo um misto de apreensão e determinação. Sabia que estava se aproximando da verdade, mas também sabia que quanto mais se aprofundava, mais assustadora a realidade se tornava. O que quer que tivesse acontecido naquela casa, ainda não havia terminado. A escuridão que Evan desenhou continuava a espreitar, esperando para ser revelada.

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