De volta à delegacia, o ambiente parecia mais pesado do que nunca. O interrogatório com Claire Miller havia deixado Sarah e Mendes perturbados, não só pelas palavras da mulher, mas também pelo impacto emocional que a história dela causava. Sarah sentia-se exausta, como se uma nuvem densa e sombria pairasse sobre ela desde que saíram da instituição. O relato de Claire sobre o "homem escuro" não era apenas inquietante — era algo que ressoava com o que já haviam encontrado, principalmente o diário de Evan. Tudo parecia interligado de uma maneira que não podiam ignorar.
Mendes, normalmente o mais cético e racional, estava visivelmente abalado. Ele se mantinha em silêncio enquanto revisavam as anotações na pequena sala de conferências da delegacia. Sarah podia sentir a hesitação dele, mas também uma nova disposição para acreditar que o inexplicável poderia estar mais próximo da verdade do que gostariam de admitir.
— Você está muito calado — comentou Sarah, tentando aliviar a tensão enquanto folheava os papéis à sua frente.
Mendes suspirou e passou a mão pelos cabelos curtos, balançando a cabeça levemente.
— É difícil processar tudo isso. A princípio, achei que era apenas mais um caso trágico de uma família desestruturada, mas agora... não sei o que pensar. Essa história de “homem escuro” parece loucura, mas Claire acreditava nisso de verdade. E não podemos ignorar que Evan mencionou o mesmo no diário dele.
Sarah assentiu, compreendendo o conflito interno de Mendes. Ela própria estava lutando para equilibrar o ceticismo profissional com o instinto de que algo muito além do comum estava em jogo.
— Eu concordo, Mendes. Tem algo estranho aqui. Não estou dizendo que seja sobrenatural, mas talvez seja algo que ainda não conseguimos entender. O comportamento de Claire, o que aconteceu com Evan, a forma como Richard lidou com tudo antes de se matar… Há uma ligação entre todas essas peças, e precisamos descobrir qual é — disse ela, sua voz firme, mas ponderada.
— E como vamos fazer isso? Claire claramente não está em condições de nos ajudar muito mais. O que nos resta? — Mendes perguntou, abrindo as mãos em um gesto de frustração.
Sarah ficou em silêncio por um momento, seus olhos fixos em um ponto da parede à sua frente, perdida em pensamentos.
— Acho que precisamos voltar para o início — ela finalmente disse. — Richard Miller. Ele deixou uma carta antes de se suicidar, mas há mais sobre ele que não investigamos a fundo. Se ele começou a ver o que Claire estava vendo, talvez tenha deixado outras pistas. Precisamos saber mais sobre a vida dele, sobre quem ele era antes de tudo isso acontecer.
Mendes franziu o cenho.
— Você acha que o passado de Richard pode nos dar alguma resposta?
— Sim. Talvez tenha algo que estamos ignorando. O comportamento de uma pessoa não muda de uma hora para outra. Ele provavelmente vinha lidando com algo que o levou ao suicídio muito antes do que sabemos. Se encontrarmos um padrão, algo que nos mostre como ele foi afetado, talvez possamos entender melhor o que realmente estava acontecendo naquela casa.
Mendes pensou por um momento antes de assentir.
— Certo, vamos por esse caminho, então. Temos acesso aos registros antigos dele? — perguntou, já tirando o celular do bolso para ligar para o cartório e verificar a disponibilidade dos documentos.
— Sim, vou pedir para a equipe forense dar uma olhada também nas coisas antigas de Richard. Ainda temos acesso aos objetos da casa. Talvez haja algo que deixamos passar — sugeriu Sarah, pegando o telefone na mesa e começando a fazer as ligações necessárias.
Enquanto aguardavam a resposta dos arquivos sobre Richard Miller, Sarah decidiu usar o tempo para examinar novamente os arquivos que tinham. Ela sentou-se à mesa com Mendes e puxou para mais perto o relatório do crime, focando em um detalhe que, até aquele momento, parecia irrelevante: a linha do tempo dos eventos antes da morte de Evan.
— Mendes, olhe isso aqui — disse Sarah, apontando para uma anotação no canto inferior do relatório original do caso. — A polícia foi chamada ao local três vezes antes da morte de Evan. Todas as ligações foram feitas por Claire, alegando que havia "algo estranho" acontecendo na casa. Na primeira vez, disseram que ela parecia agitada, mas não encontraram nada de anormal. Na segunda, ela mencionou ruídos, e da terceira vez, ela relatou que havia "alguém" na casa, mas novamente, nada foi encontrado.
Mendes observou o relatório, franziu a testa e então olhou para Sarah.
— Se ela estava tão desesperada assim, por que ninguém fez nada? Talvez tivessem prevenido o que aconteceu com Evan.
— Parece que na época foi tratado como alucinações causadas pelo estresse. O histórico médico dela já apontava episódios de instabilidade mental. Eles não levaram as queixas a sério — explicou Sarah.
Mendes cruzou os braços, pensativo.
— Isso se encaixa com o que Claire disse. Ela falava sobre o “homem escuro”, mas ninguém acreditava nela. Talvez ela estivesse vendo algo que os outros não podiam ver, ou então, o trauma pelo qual estava passando fez com que sua percepção da realidade fosse distorcida.
— Exatamente. E se Richard começou a acreditar nas mesmas coisas, isso explicaria o colapso dele — Sarah refletiu, ainda folheando os papéis. — Mas precisamos de algo mais concreto.
Pouco tempo depois, o telefone de Sarah tocou. Era a equipe do cartório, informando que haviam encontrado alguns registros antigos de Richard Miller, incluindo documentos pessoais e até mesmo algumas correspondências que ele trocara com um colega de trabalho nos meses anteriores ao incidente. Um dos registros chamou a atenção deles: uma conta de consulta psiquiátrica feita por Richard um mês antes do suicídio.
— Isso é interessante — Sarah comentou ao desligar o telefone. — Richard consultou um psiquiatra pouco antes de se matar. Talvez ele estivesse lidando com algo mais profundo do que suspeitávamos. Precisamos descobrir o que era.
— Talvez o psiquiatra possa nos dizer algo — sugeriu Mendes, levantando-se e já pegando seu casaco. — Vamos ver se conseguimos falar com ele.
No consultório psiquiátrico
O consultório do Dr. Julian Vega ficava em uma área movimentada da cidade, em um prédio de escritórios moderno que contrastava fortemente com a atmosfera pesada que envolvia o caso. Eles chegaram ao local e foram recebidos por uma recepcionista simpática, que logo os encaminhou ao escritório do doutor. O ambiente era acolhedor, com tons suaves de azul e cinza, e estantes repletas de livros de psicologia e psiquiatria.
O Dr. Julian, um homem de meia-idade com uma barba bem aparada e óculos finos, os cumprimentou com uma expressão de preocupação. Ele já havia sido informado da visita pela polícia e parecia preparado para discutir o caso, embora houvesse uma sombra de desconforto em seus olhos.
— Obrigado por nos receber, Dr. Julian — começou Sarah, sentando-se diante do homem. — Estamos investigando o caso de Richard Miller, e sabemos que ele consultou com o senhor pouco antes de sua morte. Gostaríamos de saber se há algo que possa nos dizer sobre o estado mental dele naquela época.
O psiquiatra respirou fundo, cruzando os dedos sobre a mesa.
— Richard era um homem perturbado, com certeza. Quando ele veio até mim, estava visivelmente abalado, mas não por causa de estresse comum ou problemas familiares. Ele descreveu... visões. Coisas que o perseguiam dentro da própria casa. Ele falou sobre sombras, sobre uma presença constante que ele acreditava estar influenciando sua família, especialmente o filho. No início, pensei que ele estivesse sofrendo de alucinações induzidas pelo estresse, talvez resultado de algum trauma não resolvido. Mas o medo dele era tão intenso, tão visceral, que comecei a suspeitar que havia algo mais.
Sarah e Mendes trocaram um olhar significativo. A história de Richard estava começando a se alinhar com o que Claire havia descrito, e o "homem escuro" parecia cada vez mais real — pelo menos nas mentes daquelas pessoas.
— O senhor recomendou algum tratamento específico para ele? — perguntou Mendes, curioso.
O Dr. Julian balançou a cabeça, pensativo.
— Recomendei medicação e terapia regular, mas Richard estava convencido de que isso não o ajudaria. Ele acreditava que o que estava enfrentando era algo... além da medicina. Ele disse que estava sendo perseguido por algo que não podia ser explicado cientificamente. Não havia muito mais que eu pudesse fazer, além de tentar mantê-lo calmo e convencê-lo de que aquilo era apenas um reflexo do seu estado mental.
— E ele mencionou alguma vez que achava que sua esposa ou filho estavam vendo a mesma coisa? — Sarah perguntou.
O Dr. Julian assentiu lentamente.
— Sim, ele acreditava que Claire também via, mas que estava tão consumida pela própria dor que não conseguia reagir. Quanto ao filho, Richard disse que Evan se tornava cada vez mais doente e retraído, como se algo estivesse drenando a vida dele. Foi perturbador ouvir aquilo.
Sarah ficou em silêncio, processando o que acabara de ouvir. As peças começavam a se encaixar, mas ainda havia algo indefinível — algo
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Atualizado até capítulo 25
Comments
Katoka Tsukaga~
Man...tô amando esse!
2024-11-27
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