Sarah olhava fixamente para a estrada, enquanto o silêncio no carro parecia tão denso quanto a noite ao redor deles. O diário de Elisa Miller, agora seguro no banco ao lado, havia mudado tudo. As palavras sobre o sacrifício, a necessidade de uma alma disposta, ecoavam na mente de Sarah como um sinistro aviso. Havia uma escolha a ser feita, e ela sabia que, de algum modo, estava mais envolvida nisso do que jamais poderia imaginar.
— Não podemos deixar que isso aconteça — Mendes disse de repente, interrompendo o fluxo dos pensamentos de Sarah. Ele estava sério, o rosto refletindo as luzes esparsas que passavam pela janela do carro. — Ninguém precisa se sacrificar. Não podemos simplesmente aceitar isso.
Sarah concordou em silêncio, mas dentro de si, o peso da responsabilidade parecia esmagador. Como poderiam enfrentar uma entidade como Namtar sem perder mais vidas? Cada tentativa até agora tinha apenas os levado mais fundo nas teias de sua influência.
— Precisamos falar com Dra. Hollis — disse Sarah finalmente. — Ela vai saber o que fazer.
Mendes assentiu, mas o cansaço estava estampado em seus olhos. As últimas semanas haviam levado os dois ao limite, tanto física quanto emocionalmente. Tudo parecia conspirar para levá-los a esse momento decisivo.
---
No laboratório de Dra. Hollis, o ambiente era estranho e quase reconfortante, com seus frascos de líquidos brilhantes, textos antigos e velas que iluminavam fracamente o ambiente. Ao chegarem, a mulher já os aguardava, seus olhos graves, como se soubesse que algo terrível havia sido descoberto.
— O que encontraram? — ela perguntou, gesticulando para que entrassem e se sentassem à mesa de trabalho.
Sarah tirou o diário de Elisa Miller de sua bolsa e o colocou sobre a mesa.
— Este diário pertence a um dos antepassados de Evan Miller — explicou ela. — Aparentemente, a família dele estava envolvida em rituais que tentavam afastar Namtar, mas parece que algo deu errado e eles acabaram atraindo a atenção dele. As palavras de Elisa são claras: Namtar marcou a linhagem dos Miller. E agora... agora ele voltou.
Dra. Hollis folheou o diário em silêncio, os olhos atentos enquanto lia as palavras. Sua expressão se tornava cada vez mais séria à medida que absorvia a história.
— Esse tipo de entidade é muito poderosa e astuta — disse Dra. Hollis finalmente, fechando o diário. — Ela se alimenta do medo e do desespero, mas também das conexões familiares. Quando uma linhagem é marcada, o espírito maligno pode retornar através das gerações, até encontrar uma nova vítima.
Mendes, que estava encostado na parede, perguntou:
— E quanto ao sacrifício? Elisa escreveu que Namtar pode ser detido, mas isso exigiria uma alma disposta. É essa realmente a única solução?
Dra. Hollis hesitou por um momento, um olhar grave se fixando em Sarah antes de responder.
— O sacrifício é a maneira mais comum de lidar com entidades dessa natureza. Elas exigem um tributo, uma vida para restaurar o equilíbrio. Mas... não é a única maneira. Existem outras opções, mas nenhuma delas é garantida. E todas envolvem grande risco.
— Que opções? — Sarah perguntou, inclinando-se à frente. Sentia que estavam finalmente perto de entender como lidar com Namtar, mas o custo parecia terrivelmente alto.
Dra. Hollis respirou fundo, como se preparando para uma explicação longa e complicada.
— Há rituais de banimento que poderiam enfraquecer a conexão de Namtar com este mundo, mas eles exigem uma compreensão profunda das forças em jogo. Isso não é algo que se possa simplesmente realizar. Além disso, há o risco de que, se o ritual falhar, Namtar se torne ainda mais forte, alimentado pelo fracasso.
Mendes balançou a cabeça, frustrado.
— Então, ou conseguimos bani-lo e arriscamos torná-lo mais poderoso, ou alguém tem que se sacrificar? Parece que estamos presos.
— Infelizmente, essas entidades jogam com as regras do desespero — disse Dra. Hollis. — Quanto mais desesperada for a situação, mais forte elas se tornam. O medo e a ansiedade que vocês estão sentindo agora são exatamente o que Namtar quer.
Sarah franziu o cenho, pensativa. Sentia que havia algo mais, algo que eles ainda não haviam considerado. O diário, as mortes, a história da família Miller... Namtar havia esperado pacientemente durante décadas, talvez séculos. Mas por que agora? Por que Evan e por que, de repente, esse ciclo recomeçou?
— E se o sacrifício não for o que pensamos? — disse Sarah, quebrando o silêncio. — E se Namtar estiver nos manipulando para que acreditemos que é a única solução?
Dra. Hollis inclinou a cabeça, intrigada.
— O que você está sugerindo?
— Não sei ao certo, mas Namtar tem nos conduzido a cada passo — Sarah continuou, a lógica de seus pensamentos ganhando força à medida que falava. — Desde o momento em que Evan morreu, ele tem manipulado os eventos para nos levar a este ponto. Talvez o sacrifício seja o que ele quer, mas não porque é a única forma de pará-lo. E se isso for parte do plano dele? E se o sacrifício for a última peça que ele precisa para se libertar de vez?
Mendes olhou para Sarah, surpreso com a possibilidade. Dra. Hollis permaneceu em silêncio por alguns segundos, ponderando a nova perspectiva.
— Entidades como Namtar muitas vezes jogam com enganos e ilusões — disse Dra. Hollis, lentamente. — É possível que você esteja certa, Sarah. O sacrifício pode ser uma armadilha. Se for isso, então precisaríamos encontrar uma maneira de enfrentá-lo sem seguir suas regras.
O silêncio que se seguiu foi pesado. A complexidade da situação aumentava a cada nova descoberta, e agora parecia que o próprio conceito de sacrifício estava sob suspeita.
— Precisamos investigar mais sobre Namtar — sugeriu Sarah, levantando-se da cadeira com determinação. — Talvez haja algo que ainda não descobrimos. Se o sacrifício é uma armadilha, precisamos entender como evitar que ele se torne o que Namtar deseja.
— Concordo — disse Dra. Hollis. — Há textos antigos que podem nos ajudar. Mas precisaremos agir rápido. Namtar está ciente de que estamos perto de descobrir a verdade. Ele fará tudo ao seu alcance para impedir que consigamos.
— O que sugere que façamos? — perguntou Mendes, cruzando os braços, visivelmente preocupado com a crescente complexidade.
Dra. Hollis se levantou e começou a recolher alguns de seus livros mais antigos.
— Vou pesquisar nos textos antigos sobre Namtar, mas enquanto isso, vocês dois devem retornar à casa dos Miller. Há mais naquele lugar do que imaginamos. Algo que ele ainda esconde de nós. Se Namtar quer um sacrifício, deve haver algo naquele local que revele sua verdadeira intenção.
Sarah e Mendes se entreolharam. A perspectiva de voltar à casa dos Miller, agora cientes do quão envolvido o local estava na história de Namtar, era assustadora. Mas não tinham escolha. Se quisessem resolver isso sem pagar o preço final, teriam que enfrentar o mal de frente mais uma vez.
— Vamos — disse Sarah, colocando seu casaco. — Antes que Namtar faça a próxima jogada.
---
Naquela noite, a casa dos Miller parecia ainda mais sombria do que antes. O ar estava mais pesado, como se a própria escuridão fosse viva, pulsando ao redor dos dois. A porta rangeu quando eles entraram, e o silêncio que os recebeu era mais profundo do que qualquer outro que já haviam experimentado.
Sarah sentiu um frio correr por sua espinha. Estava ali, naquele momento, que tudo se desenrolaria. E sabia, no fundo, que Namtar estava observando cada movimento deles, esperando, com paciência sinistra, pela próxima escolha.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 25
Comments
Cecilia geralda Geralda ramos
assustador tudo isso.
2025-02-18
0