De volta à delegacia, Sarah não conseguia tirar a imagem da fita VHS da cabeça. Era algo tão simples, tão anacrônico nos dias de hoje, mas carregava um peso gigantesco. A fita estava ali, em suas mãos, e com ela, uma possível revelação sobre o que realmente aconteceu com Evan Miller.
O carro de Mendes deslizou pelas ruas tranquilas da cidade, o sol da tarde projetando sombras compridas sobre as casas antigas. Nenhum dos dois falava muito, mas o silêncio entre eles não era confortável. Havia uma tensão não verbalizada, algo que se arrastava desde o momento em que encontraram a fita no quarto de Evan. O mistério ao redor do caso parecia aumentar a cada passo, a cada nova descoberta.
— Sabe onde podemos ver isso? — perguntou Sarah, finalmente rompendo o silêncio.
Mendes olhou para ela rapidamente, o cenho franzido.
— Ainda temos um gravador de vídeo velho na sala de evidências. Não é exatamente tecnologia de ponta, mas vai servir. — Ele fez uma pausa, os dedos batendo nervosamente no volante. — Se você está preparada para o que quer que a gente veja.
Sarah assentiu, embora estivesse longe de se sentir preparada. Mas ela sabia que esse caso exigia respostas. E, de alguma forma, sentia que aquela fita poderia ser a chave para desvendá-lo. Tudo que ela havia visto até agora apontava para um mistério muito maior do que imaginara ao aceitar aquele emprego. Algo que ia além das explicações racionais.
Quando chegaram à delegacia, o ambiente estava quieto. Era o tipo de silêncio que prenunciava a aproximação da noite, quando as luzes fluorescentes tornavam o ambiente mais frio e impessoal. Sarah sentiu um calafrio enquanto caminhavam pelos corredores estreitos até a sala de evidências. Mendes pegou a chave e abriu a porta com um estalo, revelando o depósito escuro e cheio de caixas de papelão empilhadas até o teto.
— Aqui — disse Mendes, enquanto puxava um velho aparelho de VHS de uma prateleira. — Ainda funciona. Pelo menos, funcionava da última vez que o usamos.
Ele limpou a poeira com a mão e ligou o aparelho em uma televisão pequena, colocada sobre uma mesa metálica. A tela estava em preto e branco, cheia de ruídos. Sarah tirou a fita da caixa, sentindo o peso psicológico daquele momento. Ela entregou a fita para Mendes, que a inseriu com cuidado no videocassete.
— Vamos ver o que temos aqui — disse ele, apertando o botão "play".
Por um momento, apenas estática preencheu a tela. Mas então, a imagem começou a aparecer. Não era uma gravação profissional, era óbvio. A câmera balançava ligeiramente, como se estivesse sendo segurada por alguém sem muita experiência. O que surgiu na tela fez Sarah prender a respiração.
Era o quarto de Evan. O mesmo quarto que eles haviam acabado de visitar. Mas naquela época, ele estava arrumado. As paredes estavam limpas, a cama feita, e brinquedos estavam organizados em uma prateleira ao fundo. Evan estava ali, na cama, deitado com um pequeno dinossauro de pelúcia nos braços. A câmera focava nele, e a imagem tremia, como se a pessoa que gravava estivesse nervosa ou emocionada.
— Evan? — a voz de uma mulher ecoou na gravação. Era suave, mas havia algo de errado. Um tom de desespero mal contido. — Você está pronto para dormir, querido?
Evan não respondeu. O silêncio durou alguns segundos, e então a mulher — provavelmente Claire, a mãe de Evan — continuou falando.
— Você sabe que a mamãe está sempre aqui, não sabe? — Sua voz soava gentil, mas também carregava um peso, uma tensão emocional que Sarah não conseguia ignorar. — Você é tão forte. Tão corajoso.
Mendes deu uma olhada para Sarah, mas ela estava completamente focada na tela. Algo sobre aquela cena parecia profundamente errado, e a expectativa de que algo horrível estava para acontecer era quase insuportável.
A câmera se moveu levemente, e agora focava na mãe de Evan, que estava ajoelhada ao lado da cama. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, como se ela não tivesse dormido em dias. Seu sorriso parecia forçado, distorcido pelo cansaço e pela dor.
— Mamãe vai ficar com você para sempre — ela sussurrou, passando a mão pelo cabelo do garoto, que continuava deitado imóvel. — Nada vai nos separar.
O vídeo balançou de novo, e agora a câmera estava mais próxima de Evan. Sarah pôde ver o rosto do garoto mais claramente. Seus olhos estavam fechados, e seu corpo parecia tenso, como se estivesse preso em algum pesadelo do qual não podia acordar. Mas havia algo mais. Algo no tom de sua pele, na rigidez de seus membros, que fez o estômago de Sarah revirar.
— Meu Deus... — Mendes murmurou, enquanto a compreensão começava a se formar.
Sarah olhou para ele, tentando processar o que ele acabara de perceber. O vídeo não era uma gravação de uma noite qualquer na vida de Evan. Aquele não era um garoto dormindo. Evan já estava morto.
A ficha caiu pesada. A mãe estava ali, ao lado do corpo do filho morto, fingindo que ele ainda estava vivo. A negação dela ia além da tristeza; era uma desconexão completa da realidade. Sarah sentiu uma onda de náusea ao perceber o que estavam testemunhando.
Na tela, a mãe de Evan continuava a murmurar palavras de consolo ao filho falecido. Ela falava sobre os planos para o futuro, sobre o que fariam no dia seguinte, sobre como ele seria forte e saudável. A câmera, agora mais tremida do que antes, se afastava e balançava de um lado para o outro. O som de passos apressados podia ser ouvido, e a imagem escureceu abruptamente.
— Isso foi... — Sarah começou, mas não conseguia completar a frase. O horror do que havia acabado de ver ainda a impedia de articular seus pensamentos.
— Ela estava vivendo em uma ilusão — disse Mendes, quebrando o silêncio pesado. — Cuidando do corpo do próprio filho como se ele ainda estivesse ali. Essa é a pior coisa que eu já vi.
O vídeo continuava, mas agora era apenas uma tela escura, com o som distante de alguém soluçando. Sarah apertou os braços ao redor do corpo, tentando processar a magnitude do que acabara de testemunhar.
— Isso não explica tudo, no entanto — disse Mendes, quebrando o silêncio. — Ainda não sabemos o que aconteceu de verdade com Evan. A mãe pode ter enlouquecido, mas o que o pai escreveu na carta... o que ele quis dizer com “algo estava naquela casa”?
Sarah sabia que a fita não havia contado toda a história. Na verdade, ela só havia levantado ainda mais perguntas. Algo mais estava por trás daquela tragédia. Algo que talvez fosse mais perturbador do que o que haviam acabado de assistir.
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Atualizado até capítulo 25
Comments
Cecilia geralda Geralda ramos
/Gosh//Gosh//Gosh//Gosh/
2025-02-17
0
Maria Eduarda Oliveira
😱😱
2024-10-18
0