Na Calma Antes da Tempestade

Na manhã após a festa de noivado, o apartamento estava silencioso, mas não era um silêncio comum. Era como se o ar estivesse cheio de lembranças da noite anterior, cada canto da casa ainda guardando o eco das risadas, das músicas, dos sorrisos sinceros que tanto Marina quanto Lucas tentaram manter. A luz do sol entrava pelas frestas das cortinas, tingindo o chão com padrões dourados, e Lucas acordou primeiro, sentindo o peso do cansaço no corpo. Os últimos dias tinham sido intensos, e a festa de noivado foi um esforço para manter a felicidade viva, mesmo que ele soubesse que aquilo era uma tentativa desesperada de ignorar a realidade.

Marina dormia ao seu lado, a respiração leve e ritmada, o cabelo espalhado pelo travesseiro. Lucas ficou deitado ali por alguns minutos, apenas observando-a dormir, se permitindo aquele momento de paz antes que as ondas de ansiedade e dor o atingissem novamente. Ele desejou que aquela manhã nunca terminasse, que pudessem ficar ali para sempre, presos na simplicidade de acordar juntos, longe de tudo.

Quando ele finalmente se levantou, tentou fazer tudo o mais silenciosamente possível, indo para a cozinha e preparando o café da manhã. O cheiro de café fresco e pão torrado encheu o apartamento, trazendo uma sensação de normalidade. Ele se agarrou a essa rotina como se fosse a última coisa que pudesse mantê-lo inteiro, como se preparar o café para Marina fosse a única coisa que ele ainda podia controlar.

Enquanto a torrada dourava na frigideira, ele olhou pela janela da cozinha, vendo a cidade lentamente acordando. As pessoas começavam a aparecer nas ruas, as lojas se abriam, e a vida seguia seu curso normal, como se nada tivesse mudado. Mas para Lucas, o mundo parecia ter parado. Cada dia era uma batalha para se manter firme, para aproveitar o tempo que lhe restava sem se afundar na tristeza de saber que estava chegando ao fim.

— Bom dia... — A voz de Marina veio suave por trás dele, e quando ele se virou, ela estava parada na porta da cozinha, os olhos ainda pesados pelo sono, mas cheios de um amor que fazia o peito de Lucas doer.

— Bom dia... — Ele respondeu, tentando sorrir. Ele sabia que cada sorriso dela era como uma luz que o mantinha vivo, uma esperança que ele tentava manter, mesmo quando a realidade parecia pronta para engoli-los. — Estou fazendo o café... Você deve estar exausta depois de ontem.

Ela riu, se aproximando dele e segurando-o por trás, envolvendo-o com os braços em um abraço apertado. — Eu estou exausta... mas foi uma noite perfeita. — Ela disse, encostando a cabeça nas costas dele, como se estivesse tentando se ancorar nele, naquele momento de tranquilidade. — Obrigada por isso... Obrigada por estar lá comigo.

— Eu sempre vou estar com você. — Ele disse, a voz baixa e suave. E mesmo sabendo que a promessa era frágil, ele queria acreditar nela, queria viver naquela ilusão por mais alguns momentos.

Eles se sentaram juntos à mesa, compartilhando o café da manhã em silêncio, trocando olhares e sorrisos cúmplices, como se aquele momento simples fosse suficiente para curar todas as feridas. Lucas passou manteiga nas torradas, e Marina pegou a xícara de café com as duas mãos, sentindo o calor se espalhar pelos dedos. Por um instante, parecia que estavam vivendo um daqueles dias normais de antes, antes de todo o peso do câncer se instalar em suas vidas, antes de as palavras "sem cura" se tornarem uma sombra constante.

— Sabe... — Marina começou, hesitando antes de continuar. — Eu estava pensando... talvez a gente devesse fazer algo diferente hoje. Só nós dois. Sei que você está cansado, e eu também estou, mas... que tal uma escapada? Um dia só para nós. Sem pensar em nada, sem preocupações... só eu e você.

Lucas olhou para ela, surpreso, mas também grato. Marina tinha essa habilidade de transformar os momentos mais simples em memórias preciosas, e ele queria tanto viver aquilo com ela. — Isso... parece perfeito. — Ele disse, sentindo a energia dela lhe dar força.

— Ótimo. — Ela disse, sorrindo como uma criança que acabou de ganhar um presente. — Então, vamos arrumar algumas coisas e sair daqui. Só nós dois.

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O dia estava ensolarado e quente quando eles deixaram o apartamento. Marina havia decidido que eles iriam para uma pequena cidade costeira que ficava a pouco mais de uma hora de distância. Ela adorava o mar, e Lucas sabia que era o lugar onde ela se sentia mais livre, mais conectada a algo maior. Eles pegaram a estrada com as janelas abertas, a brisa salgada do litoral batendo contra os rostos deles, misturando-se com o som da música suave que tocava no rádio. Por alguns momentos, era como se fossem dois adolescentes em fuga, prontos para viver um dia de liberdade.

— Eu lembro da primeira vez que fomos à praia juntos... — Marina disse, rindo enquanto dirigia. — Você ficou todo envergonhado porque não sabia nadar, e eu tive que te ensinar... foi tão fofo!

Lucas riu, lembrando-se daquele momento com clareza. — Claro, e você praticamente me jogou na água, como se achasse que eu fosse aprender a nadar por osmose.

— Funcionou, não funcionou? — Ela provocou, olhando de relance para ele enquanto a estrada se estendia à frente deles. — Você aprendeu.

— Aprendi. — Ele concordou, e os dois riram juntos, deixando que a memória do passado levasse embora, ainda que temporariamente, o peso do presente.

Quando chegaram à pequena cidade costeira, o aroma de sal e maresia encheu o ar. Marina dirigiu diretamente para uma praia mais afastada, longe do movimento dos turistas, onde apenas algumas poucas pessoas estavam espalhadas na areia. A água era cristalina, e o som das ondas batendo nas rochas criou um ritmo relaxante, como uma melodia que acalmava os nervos de Lucas.

Eles caminharam pela praia de mãos dadas, os pés descalços afundando na areia quente, as ondas tocando levemente os tornozelos. O vento trazia o cheiro do mar e acariciava os cabelos de Marina, que dançavam ao redor de seu rosto como fios de ouro. Para Lucas, era como se cada detalhe estivesse gravado em sua mente com uma clareza dolorosa. Ele queria se lembrar de cada momento, de cada sensação, de cada toque.

— Vamos nadar? — Marina perguntou de repente, soltando a mão dele e correndo em direção à água como uma criança, o riso dela enchendo o ar. Lucas a seguiu, sentindo a adrenalina pulsar em suas veias, e quando a alcançou, eles se jogaram juntos na água.

A água estava fria e refrescante, e o choque da temperatura contra a pele de Lucas fez com que ele se sentisse vivo de uma forma que não sentia há tempos. Eles nadaram, mergulharam, e Marina o puxou para brincar de jogar água um no outro, rindo e gritando como se fossem dois adolescentes apaixonados. E naquele momento, tudo parecia possível. O câncer, a dor, o medo... tudo parecia distante, como se tivesse ficado para trás, preso na rotina da cidade que eles deixaram.

— Eu quero que a gente viva assim... para sempre. — Marina disse, se aproximando de Lucas e envolvendo os braços ao redor do pescoço dele. A água chegava até a cintura dela, e o corpo dela estava quente contra o dele. — Quero que a gente tenha muitos dias como esse. Só eu e você, sem nada para atrapalhar.

Lucas a segurou com força, fechando os olhos e desejando que aquelas palavras fossem verdade. Mas ele sabia que, para ele, o “para sempre” era uma promessa impossível. Mesmo assim, ele não queria estragar aquele momento, não queria lembrar que o tempo estava se esgotando. — Então... vamos viver como se fosse para sempre. — Ele disse, a voz embargada pelo nó em sua garganta. — Cada dia, como se não houvesse outro.

Eles se beijaram, o gosto de sal em seus lábios, e para Lucas, aquele beijo era tudo. O presente, o passado, o futuro... tudo estava naquele momento, naquele toque, naquela sensação de estar vivo e ser amado.

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Depois de saírem da água, se deitaram na areia para secar sob o sol. Marina descansou a cabeça no peito de Lucas, ouvindo os batimentos do coração dele, sentindo a vibração de sua respiração, como se estivesse tentando guardar cada detalhe dele para sempre. E ele a segurou, passando os dedos pelo cabelo dela, observando o céu azul que se estendia acima deles.

— Obrigada por hoje. — Marina sussurrou, a voz suave, quase um segredo compartilhado apenas entre os dois. — Obrigada por ainda lutar... por nós.

Lucas engoliu em seco, tentando não deixar que as lágrimas caíssem. — Eu sempre vou lutar por nós, Marina. Até o fim.

E ali, deitados na areia, sob o sol quente e o som das ondas, eles viveram como se fossem eternos. Mesmo sabendo que o tempo estava se esgotando.

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