Vozes Não Ditas

Os dias seguintes pareciam se misturar, como se o tempo estivesse correndo contra Lucas. As consultas médicas estavam se tornando mais frequentes, e cada exame revelava um pouco mais da verdade que ele estava tentando esconder. A dor em seu corpo era uma presença constante, um lembrete cruel de que o câncer estava avançando, de que seu tempo estava acabando. No entanto, ele se esforçava para continuar vivendo como se nada estivesse acontecendo, aproveitando cada momento ao lado de Marina, tentando manter a normalidade que tanto desejava proteger.

Naquela manhã, enquanto Lucas se levantava para preparar o café, ele se pegou observando Marina dormir. A luz suave da manhã iluminava o rosto dela, e ele sentiu um aperto no peito, como se todo o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões. Ela era a única coisa boa na vida dele, o motivo pelo qual ele acordava todos os dias e tentava agir como se estivesse bem. A ideia de vê-la sofrer, de quebrar o coração dela com a verdade que ele carregava, era quase insuportável. E, no entanto, ele sabia que não poderia continuar escondendo por muito mais tempo.

Enquanto preparava o café, ele tentava ignorar a dor que irradiava por seu corpo, concentrando-se nos sons familiares da cozinha — o café sendo derramado na xícara, o chiado da frigideira com ovos. Tudo parecia tão... normal. Tão simples. Ele queria guardar aqueles momentos como se fossem pedaços de uma vida perfeita que, de alguma forma, ele pudesse continuar vivendo.

Marina apareceu na cozinha minutos depois, como sempre fazia. Ela estava usando uma camiseta velha de Lucas, e os cabelos estavam bagunçados. Era uma visão que, para ele, era a perfeição em sua forma mais pura.

— Bom dia, amor. — Ela disse, sorrindo enquanto se aproximava dele para dar um beijo na bochecha. — Já preparando o café?

Lucas tentou sorrir, mas a dor em seu corpo estava especialmente forte naquela manhã. — Claro. Não posso deixar você começar o dia sem o seu café perfeito.

Ela riu, pegando a xícara que ele havia preparado e se sentando à mesa. — Você é o melhor. Sabe disso, né?

Ele assentiu, mas o sorriso não alcançou seus olhos. E Marina percebeu.

— Lucas... você tem certeza de que está tudo bem? — A preocupação na voz dela era inconfundível, e ele sentiu o coração apertar ao ver os olhos dela fixos nos dele. — Faz dias que eu sinto que você está distante. Parece que... você está aqui, mas ao mesmo tempo não está.

Ele respirou fundo, tentando manter a compostura. As palavras dela o cortavam, mas ele sabia que não podia ceder. Não ainda. — Estou bem, Marina. — Ele disse, tentando manter a voz firme. — Só... muito trabalho, e acho que estou pensando demais no casamento. Mas não se preocupe, tá? Eu estou bem. E nós estamos bem.

Ela suspirou, balançando a cabeça como se não estivesse convencida. — Eu só quero ter certeza de que você não está escondendo nada de mim. Porque eu... eu sinto que algo está errado, e eu não quero que você se sinta sozinho.

Lucas se aproximou, segurando as mãos dela. Ele olhou nos olhos de Marina e tentou se focar na única verdade que ele conseguia dizer. — Eu nunca esconderia nada de você. E você nunca está sozinha, ok? Eu sempre vou estar aqui.

Era uma mentira e uma promessa ao mesmo tempo. Ele sabia que não poderia manter aquele segredo para sempre, mas queria proteger a felicidade dela pelo máximo de tempo possível.

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Aquela tarde foi diferente. Lucas decidiu tirar o dia de folga e surpreender Marina com um passeio. Ele sabia que as oportunidades de criar memórias juntos estavam diminuindo, e ele queria aproveitar cada segundo que pudesse ao lado dela. Eles pegaram o carro e foram para uma praia distante da cidade, um lugar onde costumavam ir quando começaram a namorar.

O dia estava ensolarado, com o céu azul refletindo-se nas águas do mar. Quando chegaram, Marina riu, surpresa com o destino escolhido. — Não acredito que você me trouxe aqui! — Ela exclamou, saindo do carro e correndo até a areia. — Faz tanto tempo que não vínhamos a esta praia.

Lucas se aproximou, sorrindo ao ver a alegria dela. — Eu achei que poderíamos ter um dia diferente. Sem preocupações, sem trabalho... só nós dois.

Ela sorriu e o puxou para a areia, tirando os sapatos e se sentando de frente para o mar. Lucas se sentou ao lado dela, observando o movimento das ondas e ouvindo o som suave do mar batendo contra a praia. O vento acariciava seus rostos, e ele sentiu como se, por um momento, tudo estivesse em paz.

— Você lembra da primeira vez que viemos aqui? — Marina perguntou, olhando para ele. — Você estava tão nervoso para me pedir em namoro que derrubou suco em cima de mim. — Ela riu, relembrando o momento.

— Claro que eu lembro. — Lucas disse, rindo também. — E eu passei o resto do dia pedindo desculpas, e você disse que se eu derrubasse mais uma vez, você iria aceitar o pedido. Então... eu derramei de novo. — Ele olhou para ela, vendo o reflexo do sol nos olhos dela, e, por um instante, esqueceu de toda a dor. Esqueceu do câncer, do medo, do futuro incerto.

— Eu te amo, Lucas. — Marina disse suavemente, inclinando-se para ele e repousando a cabeça em seu ombro.

— Eu também te amo. — Ele respondeu, e por um momento, ele acreditou que tudo ficaria bem.

Eles passaram horas ali, conversando sobre os sonhos que tinham, as viagens que fariam juntos, o futuro que desejavam. Lucas ouviu cada palavra, tentando gravar cada detalhe, cada riso, como se pudesse transformar tudo aquilo em uma lembrança eterna. O sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa, e eles continuaram sentados na areia, observando o espetáculo silencioso.

— Sabe... — Marina começou, olhando para o horizonte. — Eu acho que a gente deveria viajar mais. Ver o mundo. Fazer coisas malucas... só nós dois. O que você acha?

Lucas fechou os olhos por um momento, tentando segurar as lágrimas que ameaçavam cair. — Eu acho... que deveríamos fazer tudo isso. E mais. — Ele respondeu, a voz embargada. Ele queria tanto viver tudo aquilo, queria ver o mundo ao lado dela, mas sabia que o tempo não estava a favor deles.

— Promete? — Ela perguntou, segurando a mão dele com força. — Promete que a gente vai viver tudo isso juntos?

Ele a puxou para perto, segurando-a em um abraço apertado, como se estivesse tentando se fundir a ela. — Eu prometo. — Ele sussurrou, a voz quase falhando. Mesmo que soubesse que aquela promessa poderia ser quebrada.

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Quando voltaram para casa naquela noite, Marina estava mais feliz do que nunca, e Lucas se esforçou para corresponder à alegria dela. Eles cozinharam juntos, riram das pequenas coisas e se aconchegaram no sofá para assistir a um filme. Mas, enquanto Marina adormecia ao lado dele, Lucas permaneceu acordado, encarando o teto e pensando em como o tempo estava correndo contra ele.

A decisão de contar a verdade estava ficando cada vez mais próxima. Ele sabia que não podia continuar escondendo para sempre, mas, ao mesmo tempo, não sabia como destruir o mundo de Marina com a notícia de sua doença. Ele não queria que ela vivesse sob a sombra do câncer, não queria vê-la perder a luz nos olhos por causa da dor que ele estava enfrentando.

Enquanto segurava Marina em seus braços, ele fechou os olhos e fez uma oração silenciosa, pedindo mais tempo. Mais tempo para fingir, mais tempo para amá-la, mais tempo para proteger aquele sorriso que o fazia querer viver.

Porque ele sabia que, quando a verdade viesse, tudo mudaria para sempre. E ele ainda não estava pronto para isso.

Mas o relógio continuava a marcar o tempo, e Lucas sabia que a sombra do que estava por vir estava cada vez mais próxima.

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