Desmoronando Juntos

O ar no apartamento estava pesado naquela manhã, como se todas as palavras não ditas e emoções reprimidas estivessem pairando no ambiente. Lucas e Marina passaram a noite chorando, abraçados no sofá, sem saberem como lidar com a revelação que havia mudado tudo. Agora, a luz da manhã entrava pela janela, mas não trazia o consolo que Lucas esperava. Havia apenas um silêncio doloroso entre eles, o tipo de silêncio que vem quando não há palavras suficientes para cobrir a profundidade da dor.

Marina estava na cozinha, de costas para Lucas, mexendo em uma xícara de chá que ela nem sequer beberia. Ele a observava da sala, a distância entre eles era física e emocional. Ela parecia frágil, como uma porcelana prestes a se quebrar, e ele odiava a si mesmo por ser o motivo disso. Durante a noite, ela tinha feito todas as perguntas possíveis: “Como isso aconteceu?”, “Por que você não me contou antes?”, “Existe alguma chance de cura?”, e ele respondeu com a honestidade brutal que a situação pedia. Não, não havia cura. Sim, ele estava tentando esconder para protegê-la. E agora, nada estava claro para nenhum dos dois.

— Você... quer conversar? — Lucas perguntou, a voz rouca pelo choro e pelo cansaço. Ele sabia que a última coisa que Marina queria era falar, mas o silêncio estava insuportável.

Ela se virou lentamente, os olhos vermelhos de tanto chorar e o rosto pálido, quase vazio. — Não sei... — Ela disse, segurando a xícara como se fosse uma âncora. — Eu não sei o que pensar, o que sentir. — As palavras saíam entrecortadas por soluços contidos. — Tudo o que eu sabia sobre o nosso futuro, sobre o que iríamos viver juntos... parece que tudo foi... destruído.

Lucas queria abraçá-la, queria segurá-la e dizer que tudo ficaria bem, mas sabia que seria mentira. Em vez disso, ele se aproximou lentamente e sentou-se à mesa, de frente para ela, tentando encontrar as palavras certas. — Eu sei... e eu sinto muito por ter escondido isso de você. — Ele disse, tentando manter a voz firme. — Mas eu... eu só queria te proteger, queria que você tivesse o máximo de felicidade possível antes que soubesse de tudo isso.

— Me proteger? — Ela soltou uma risada amarga, passando as mãos pelo rosto. — Lucas, como você achou que esconder algo assim... esconder que você está morrendo... seria me proteger? Eu tenho o direito de estar ao seu lado, de passar por isso com você!

— Eu sei, eu sei... — Ele assentiu, tentando segurar as lágrimas novamente. — E eu estava com medo... medo de te ver sofrer, medo de perder todos esses momentos juntos. Eu... eu não queria te ver assim. Eu estava tentando... segurar o mundo, mesmo que fosse por pouco tempo.

Ela balançou a cabeça, como se estivesse tentando se livrar dos pensamentos que a estavam sufocando. — E o que a gente faz agora, Lucas? — Ela perguntou, e sua voz quebrou na última palavra. — Como a gente continua depois disso?

— A gente... faz o que sempre fizemos. — Ele disse, estendendo a mão para segurar a dela, embora ela não tenha retribuído o gesto imediatamente. — A gente continua vivendo, Marina. Um dia de cada vez. Eu sei que é pedir muito... mas eu preciso de você ao meu lado.

Ela finalmente segurou a mão dele, apertando-a com força, como se estivesse tentando se agarrar a alguma forma de normalidade em meio ao caos. — Eu não vou a lugar nenhum. — Ela disse, e embora a voz dela estivesse trêmula, havia uma firmeza ali, uma força que ele não esperava encontrar tão cedo. — Eu vou ficar ao seu lado, Lucas. Não importa o que aconteça. Não importa quanto tempo a gente tenha.

Lucas sentiu uma onda de alívio e dor ao mesmo tempo. A culpa de tê-la feito carregar aquele peso agora era acompanhada pelo medo de vê-la enfrentar tudo ao lado dele. Ele sabia que o amor de Marina era mais forte do que qualquer coisa que ele pudesse imaginar, mas também sabia que a jornada seria árdua para ambos.

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Nos dias que se seguiram, a rotina do casal mudou completamente. As consultas médicas se tornaram mais frequentes, e Marina fez questão de acompanhar Lucas em cada uma delas. Mesmo quando ele tentou convencê-la de que ficaria bem sozinho, ela insistiu. “Eu não vou deixar você fazer isso sozinho”, ela dizia, com uma determinação inabalável que apenas tornava o amor dela mais evidente.

A cada consulta, a esperança diminuía. O doutor Henrique, sempre paciente e cuidadoso, explicou as opções de tratamento paliativo, as terapias para aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida. Marina fazia perguntas detalhadas, tentando entender cada procedimento, cada possível efeito colateral, enquanto Lucas apenas observava, tentando se manter presente. Era estranho ouvir sobre seu próprio corpo como se fosse um objeto de estudo, algo que estivesse perdendo o controle.

— Vamos fazer o que for preciso, doutor. — Marina disse em uma das consultas, segurando a mão de Lucas com firmeza. — Nós vamos lutar.

Lucas assentiu, mas por dentro sabia que o termo "lutar" significava apenas tentar ganhar mais tempo. O câncer no pâncreas era implacável, e ele já sabia o que isso significava. Mas não iria tirar a esperança dela; ao menos não agora, não enquanto ela ainda estivesse disposta a enfrentá-lo de cabeça erguida.

Depois das consultas, Marina sempre tentava agir com normalidade. Fazia o jantar, sugeria assistirem a um filme, e falava sobre os detalhes finais da festa de noivado que, surpreendentemente, ela ainda estava determinada a realizar. Ela parecia estar tentando agarrar-se a qualquer vestígio de normalidade, a qualquer momento feliz que pudessem ter. Mas, ao mesmo tempo, Lucas via que ela estava sofrendo. As noites eram longas, e ele a ouvia chorando baixinho, mesmo quando ela tentava esconder.

Uma noite, quando os dois estavam deitados juntos, ela se virou para ele, os olhos marejados, e sussurrou: — Eu tenho medo, Lucas. Tenho tanto medo de te perder...

Ele a puxou para perto, segurando-a com força, sentindo o calor do corpo dela contra o seu. — Eu também tenho medo... — Ele admitiu, a voz baixa e rouca. — Mas eu prometo que, enquanto eu estiver aqui, eu vou fazer de tudo para que cada momento ao seu lado seja perfeito. Eu quero que... quando você olhar para trás, você se lembre de todos os dias felizes, de todas as vezes que rimos juntos, de cada sonho que tivemos.

Ela assentiu, as lágrimas escorrendo silenciosamente. — Então... vamos viver todos esses momentos, Lucas. Vamos viver cada dia como se fosse o último.

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A preparação para a festa de noivado continuou. Marina parecia determinada a realizar aquele evento, não como uma celebração do futuro que talvez nunca viesse, mas como uma forma de honrar o presente, de comemorar o amor deles enquanto podiam. Thiago e Fernanda ajudaram com os preparativos, e Lucas sentiu como se estivesse vendo tudo de fora, como se sua vida estivesse se desenrolando como um filme ao qual ele estava assistindo sem saber o final.

Thiago, embora não soubesse de tudo, parecia perceber que algo estava muito errado. Ele se aproximou de Lucas algumas vezes, tentando puxar conversa, tentando encontrar uma brecha para oferecer ajuda, mas Lucas sempre desviava o assunto, tentando proteger o amigo da verdade dolorosa que carregava.

— Cara, você sabe que pode confiar em mim, certo? — Thiago disse em uma noite, enquanto estavam sentados no escritório, depois de todos terem ido embora. — Sei que tem algo acontecendo, e sei que é sério. E... eu só queria que você soubesse que não importa o que seja, eu estou aqui.

Lucas assentiu, grato pelo apoio, mas incapaz de dizer qualquer coisa. — Obrigado, Thiago... sério. Eu sei que você está aqui, e isso já é o suficiente para mim agora.

E Thiago respeitou o silêncio, mesmo que não o entendesse completamente.

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Finalmente, o dia da festa de noivado chegou. Marina estava linda, usando um vestido simples, mas elegante, o sorriso dela era a coisa mais brilhante em todo o salão. Lucas tentou aproveitar cada momento, sorrir para os amigos, dançar com Marina como se o mundo inteiro fosse apenas os dois. Mas ele sabia que aquela noite era uma despedida silenciosa do futuro que eles imaginavam. Aquele era o presente que ele sempre quis proteger, e, por um momento, conseguiu.

Naquela noite, enquanto dançavam sob as luzes penduradas na árvore centenária, ele fechou os olhos e sussurrou no ouvido dela: — Eu te amo, Marina. Sempre vou te amar.

E ela respondeu com um sorriso, segurando-o como se nunca quisesse deixá-lo ir.

E eles dançaram, dançaram como se aquela noite pudesse durar para sempre.

Mas Lucas sabia que o tempo estava se esgotando. E quando a última música tocou, ele segurou Marina em seus braços, tentando guardar aquele momento como o presente mais precioso de todos.

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