O Eco da Revelação

Dois dias depois da tomografia, Lucas recebeu a ligação que ele temia mais do que qualquer coisa. Era da clínica, e a voz do assistente ao telefone era profissional e calma, mas para ele soava como o prenúncio de uma sentença.

— Senhor Lucas, os resultados da sua tomografia estão prontos. O doutor Henrique gostaria de discutir os resultados pessoalmente. Podemos agendar para amanhã às 10h?

A voz do assistente parecia vir de um lugar distante. Lucas respondeu automaticamente, a mão segurando o telefone com tanta força que seus dedos ficaram brancos.

— Sim... estarei lá. — Ele respondeu, e depois de anotar o horário, desligou.

Ele ficou parado no meio da sala, o telefone ainda em sua mão. O apartamento estava silencioso, apenas o som do relógio de parede preenchia o espaço. Marina estava no trabalho, e ele estava sozinho para processar o peso daquela notícia. A mente dele girava, mil possibilidades surgindo e desaparecendo em um redemoinho caótico. Por um momento, ele teve vontade de jogar o telefone contra a parede, de gritar, de fazer qualquer coisa que aliviasse aquela pressão que parecia esmagar seu peito.

Mas ele não fez nada disso. Ao invés disso, sentou-se no sofá, a cabeça entre as mãos, tentando respirar devagar. O medo era como um veneno que corria por suas veias, e ele sabia que não adiantava mais fingir que tudo estava bem. No fundo, algo dentro dele já sabia a verdade — o que quer que fosse dito na consulta no dia seguinte seria algo que mudaria tudo.

Durante o restante do dia, Lucas vagou pelo apartamento como uma alma perdida, incapaz de se concentrar em qualquer coisa. Tentou ver TV, ler um livro, qualquer coisa que pudesse afastar os pensamentos sombrios, mas tudo parecia fútil. Ele olhava para as paredes, para as fotos dele e de Marina espalhadas pela casa, e tudo aquilo parecia um eco distante de uma vida que ele estava prestes a perder.

Quando Marina chegou, ele tentou agir normalmente, mas sabia que estava falhando. Ela o abraçou e beijou com carinho, mas ele não conseguiu evitar que o abraço fosse mais curto e que o sorriso fosse vazio. Marina percebeu, claro. Ela sempre percebia.

— Lucas, sério... O que está acontecendo? — Ela perguntou enquanto jantavam, a voz tentando ser calma, mas cheia de preocupação. — Você está diferente. Não é só o trabalho, tem algo mais. E... — Ela hesitou, como se não quisesse continuar. — Eu estou começando a ficar preocupada. Você sabe que pode falar comigo, certo?

Ele olhou para o prato, empurrando a comida com o garfo, tentando encontrar palavras que não existiam. A voz dela era um apelo para que ele fosse honesto, para que dividisse o peso que ele estava carregando sozinho. Mas ele não conseguia. Não queria derrubar sobre ela a tempestade que estava por vir. Não antes de saber exatamente o que ele estava enfrentando.

— Amor, eu... — Ele começou, mas a voz falhou. Ele respirou fundo, tentando manter a calma. — Só... confia em mim, por favor. Está tudo bem. Eu vou ficar bem. — Era uma promessa vazia, e ele sabia disso, mas precisava mantê-la em segurança, ao menos por mais um dia.

Marina olhou para ele, seu rosto uma mistura de frustração e tristeza. Ela queria insistir, queria empurrá-lo a dizer a verdade, mas ela também sabia quando recuar. Apenas estendeu a mão por cima da mesa, cobrindo a mão dele com a dela, apertando-a suavemente.

— Tudo bem... Mas saiba que estou aqui. — Ela disse simplesmente, e Lucas não conseguiu conter as lágrimas que começaram a se formar em seus olhos.

Ele se levantou, andando até a pia, de costas para ela, tentando limpar o rosto e manter a compostura. “Eu não posso fazer isso... não agora”, pensou. Ele precisava ser forte. Precisava proteger Marina daquela dor, ao menos até que ele tivesse certeza de tudo.

Naquela noite, eles foram para a cama mais cedo. Marina deitou-se ao lado dele, mas o silêncio entre eles era pesado, carregado de palavras não ditas e de verdades ocultas. Quando ela finalmente adormeceu, Lucas se afastou dela na cama, deitando-se de costas, encarando o teto, as mãos trêmulas repousando sobre o peito. O sono não veio para ele. Apenas uma longa vigília que se estendeu até a manhã seguinte, quando o alarme tocou, anunciando o que parecia ser o dia mais longo de sua vida.

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Lucas chegou à clínica antes da hora marcada. A ansiedade o levou a caminhar até lá, embora a distância fosse longa e o tempo estivesse frio e úmido. Ele precisava sentir o vento no rosto, o corpo em movimento, como se o simples ato de caminhar pudesse afastar o medo que crescia dentro dele. Quando finalmente entrou no prédio, o lugar parecia o mesmo de sempre — a recepção calma, os pacientes aguardando consultas, o som distante de conversas — mas para ele, tudo parecia diferente, ameaçador.

A enfermeira o chamou para entrar na sala do doutor Henrique, e ele sentiu como se estivesse andando em direção a uma forca. Ao entrar, viu o médico sentado à mesa, os resultados de seus exames dispostos sobre ela. O olhar do doutor Henrique era grave, mas havia uma gentileza em seus olhos. Lucas se sentou, os nervos à flor da pele.

— Bom dia, Lucas. — O médico começou, a voz tranquila, mas carregada de seriedade. — Tenho os resultados aqui... e é importante que discutamos isso com calma.

O coração de Lucas batia tão forte que ele mal conseguia ouvir as palavras do médico. Ele assentiu, como se pedisse para que ele prosseguisse logo.

O doutor Henrique ajeitou os papéis e começou a explicar os resultados, mas as palavras mal chegavam a Lucas. "Lesões", "massa tumoral", "pâncreas"... tudo parecia embaçado, como se ele estivesse ouvindo debaixo d'água. Até que o médico disse claramente:

— Lucas, os exames confirmam que você tem um tumor no pâncreas. Pela localização e características, precisamos considerar que seja maligno. Ainda precisamos de uma biópsia para determinar o estágio exato e o melhor curso de tratamento, mas... é importante que você entenda a seriedade da situação. Precisamos agir rápido.

Lucas sentiu o chão sumir. O pânico subiu por sua garganta como uma onda crescente, e ele ficou mudo, incapaz de processar aquelas palavras. Tumor. Câncer. Palavras que sempre pareceram tão distantes, agora ecoavam em sua mente como sinos de morte. Ele tentou falar, mas a voz não saiu. Tudo ao seu redor estava girando, e o ar parecia estar desaparecendo da sala.

O doutor Henrique estendeu a mão, tocando o ombro de Lucas de forma reconfortante. — Eu sei que isso é muito para processar. Vamos trabalhar juntos para entender o que está acontecendo e encontrar a melhor forma de tratar isso, mas... vai ser uma batalha difícil. E... talvez seja a hora de conversar com sua família sobre isso.

Família. Marina. Aquele nome o atingiu como uma lâmina afiada. Como ele poderia contar a ela? Como poderia destruir todos os sonhos, todos os planos, com uma única palavra? Lucas fechou os olhos, tentando conter o choro. O medo, a tristeza, a culpa, tudo o envolvia como uma onda esmagadora.

Ele saiu do consultório sem saber como, os passos automáticos o levando até a rua. A chuva caía, fina e fria, encharcando-o enquanto ele caminhava sem rumo. Ele não se importava. O mundo ao seu redor parecia desfocado, e cada gota de chuva era como uma punhalada em sua pele, um lembrete cruel da dor que ele estava prestes a causar.

Lucas sabia que não poderia mais esconder a verdade de Marina. A mentira estava corroendo tudo, e ele precisava dividir esse peso. Mas como poderia olhar nos olhos dela e dizer que o futuro que eles tanto planejavam estava desaparecendo? Como poderia enfrentar a tristeza que veria nos olhos dela quando ela soubesse que ele estava morrendo?

O telefone em seu bolso vibrou, tirando-o de seus pensamentos. Era uma mensagem de Marina.

> "Oi amor, estou indo para casa agora. Você está bem? Parece que saiu cedo hoje... Como foi o dia?"

Ele olhou para a mensagem por um longo tempo, as palavras tremendo em seus dedos enquanto ele pensava em uma resposta. Mas naquele momento, ele não sabia o que dizer. Ele queria desaparecer. Queria fugir. Queria acordar de um pesadelo que parecia não ter fim.

E então, com mãos trêmulas, ele digitou uma resposta curta.

> "Estou indo para casa agora também. Preciso falar com você."

Lucas sabia que, ao atravessar a porta do apartamento naquela noite, ele deixaria para trás a paz que conhecera. E, finalmente, teria que encarar o olhar de Marina enquanto dizia a ela a verdade que poderia destruir tudo o que eles tinham construído juntos.

A tempestade estava prestes a começar, e ele não sabia se teria forças para sobreviver a ela.

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