O silêncio da manhã estava quebrado apenas pelo som suave da respiração de Marina, ainda adormecida ao lado de Lucas. Ele a observava como sempre fazia nos últimos dias, tentando gravar cada detalhe do rosto dela, cada linha de expressão, cada curva suave dos lábios. O aperto no peito estava mais forte, e o fardo do segredo que ele guardava estava se tornando insuportável. A conversa com Fernanda na noite anterior o deixou mais consciente de que o tempo estava se esgotando. A festa de noivado estava a dias de distância, e ele sabia que não poderia esconder a verdade de Marina por muito mais tempo.
Mas como ele poderia destruir o mundo dela com uma única palavra? Como poderia olhar nos olhos dela e dizer que o futuro que estavam construindo estava desmoronando antes mesmo de começar? Ele fechou os olhos, tentando afastar esses pensamentos e viver apenas aquele momento, ao lado da mulher que amava.
Marina acordou minutos depois, com o sorriso habitual que ela sempre tinha ao vê-lo. — Bom dia... — Ela disse, a voz suave e cheia de amor.
— Bom dia... — Lucas respondeu, se esforçando para sorrir de volta. — Dormiu bem?
— Sim, mas... acho que você não, né? — Ela o observou, estreitando os olhos. — Seus olhos estão vermelhos... teve uma noite difícil?
Lucas se virou para ela, tentando esconder a exaustão e o medo que carregava. — Ah, nada demais. Só... muitos pensamentos, acho. Mas estou bem, juro.
Ela se inclinou para beijá-lo, e ele se agarrou àquele beijo como se fosse uma boia no meio de um mar agitado. Quando ela se afastou, ele a segurou por um momento, passando os dedos pelos cabelos dela e tentando absorver toda a energia que ela transmitia.
— Hoje é o último dia para decidirmos algumas coisas sobre a festa. — disse Marina, se levantando e começando a arrumar a cama. — Você pode me acompanhar até o local? Queria que desse a palavra final sobre as flores e as mesas. Eu sei que você não liga tanto para esses detalhes, mas... é importante pra mim.
Lucas se esforçou para manter o sorriso. — Claro, vou com você. Quero que tudo saia perfeito. — Ele sabia que, mesmo se fosse por apenas mais um dia, queria fazer parte de cada decisão, de cada detalhe daquela festa que simbolizava um futuro juntos.
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O local onde seria realizada a festa de noivado era uma pequena chácara nos arredores da cidade. Marina havia encontrado o lugar perfeito — cercado por árvores altas e jardins floridos, com um salão amplo e arejado para a celebração. Lucas ficou impressionado com a beleza do local, e Marina estava animada, andando de um lado para o outro e mostrando a ele cada cantinho, cada detalhe que ela havia planejado.
— Aqui... — disse ela, apontando para uma árvore centenária. — É onde pensei em pendurar aquelas luzes que a gente viu. Vai ficar lindo à noite, não acha?
Lucas assentiu, imaginando a cena como ela descrevia. — Sim, vai ser... incrível. — Ele tentou se manter presente, tentou aproveitar o entusiasmo de Marina, mas sentia a dor em seu corpo aumentando, como se seu próprio corpo estivesse protestando contra o momento de felicidade que ele estava tentando criar.
Eles passaram algumas horas andando pelo local, conversando com o organizador da festa, discutindo sobre flores, iluminação, mesas. Marina estava radiante, rindo e fazendo brincadeiras sobre como a festa seria o início da vida deles juntos. E Lucas tentava corresponder, tentava acreditar que aquilo poderia ser verdade, mesmo sabendo que a realidade era muito diferente.
Enquanto Marina estava ocupada com alguns detalhes finais da decoração, Lucas se afastou para respirar. Ele foi até o lado de fora do salão, onde podia ver o campo aberto e o horizonte se estendendo até onde os olhos alcançavam. A brisa suave do campo trouxe uma sensação de calma, mas ela durou pouco, logo sendo engolida pela dor e pelo medo que ele carregava.
Foi então que ele sentiu uma mão em seu ombro. Ao se virar, viu Thiago, que estava chegando para ajudar com algumas tarefas da festa. O amigo o observava com um olhar sério, mas preocupado.
— Cara, você está estranho... — Thiago disse, tentando sorrir, mas sem esconder a preocupação. — Eu sei que já te perguntei isso antes, mas... está tudo bem mesmo?
Lucas desviou o olhar, encarando o campo à sua frente. Por um momento, ele quis contar tudo. Quis gritar, chorar, dividir o fardo que carregava. Mas ele não podia. Não enquanto Marina estava tão feliz, tão alheia à tempestade que se aproximava.
— Sim, está tudo bem. — Ele respondeu finalmente, tentando soar convincente. — Só estou cansado, acho... muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Thiago assentiu lentamente, mas não parecia convencido. — Sei que a festa e o casamento podem ser coisas grandes para lidar, mas... você sabe que estou aqui, certo? Se precisar de qualquer coisa, falar sobre qualquer coisa... não hesite.
Lucas tentou sorrir e agradeceu, sentindo o nó apertar ainda mais em sua garganta. Thiago era um bom amigo, e ele sabia que estava tentando ajudar, mas havia coisas que nem mesmo a amizade podia aliviar.
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Na volta para casa, Marina parecia mais feliz do que nunca. Ela falava sobre como tudo estava se encaminhando para a festa e sobre como mal podia esperar para ver a reação dos amigos e familiares. Lucas dirigia em silêncio, tentando manter o sorriso enquanto a ouvia falar. Ele sabia que aqueles momentos eram preciosos, que cada risada e cada palavra eram algo que ele queria guardar para sempre. Mas a dor estava se tornando insuportável, e ele sabia que não podia mais continuar fingindo que estava tudo bem.
Quando chegaram em casa, Marina foi direto para o quarto para guardar as amostras de decoração, e Lucas ficou na sala, sozinho com seus pensamentos. Ele sabia que precisava contar a verdade, sabia que não podia mais esconder o câncer de Marina. Mas como poderia começar? Como poderia olhar nos olhos dela e dizer que o futuro deles estava sendo destruído?
Enquanto pensava, ouviu o som de passos no corredor e se virou. Marina estava parada ali, observando-o, com uma expressão séria e preocupada.
— Lucas... — disse ela, a voz baixa. — Eu sei que tem algo errado. Eu posso ver nos seus olhos, posso sentir. Você está... diferente. E não é só o casamento, não é só o trabalho. O que está acontecendo? Por favor... fale comigo.
Ele olhou para ela, sentindo o peso da verdade o sufocar. Ele sabia que aquele era o momento, que não poderia mais esconder o segredo. Mas as palavras ficaram presas em sua garganta, como se o ar tivesse sumido de seus pulmões.
— Marina, eu... — Ele começou, mas a voz falhou. As lágrimas começaram a se formar em seus olhos, e ele sentiu como se estivesse prestes a desmoronar.
— Amor... — Ela se aproximou, segurando o rosto dele com as mãos e o olhando nos olhos. — Seja o que for... nós vamos enfrentar juntos. Só me diga o que está acontecendo.
Lucas segurou as mãos dela, sentindo o calor que emanava dela, e fechou os olhos. Era como se, naquele momento, o tempo tivesse parado. Ele sabia que, uma vez que dissesse a verdade, nada seria como antes. Mas ele também sabia que não podia mais mentir.
— Eu... eu estou doente, Marina. — Ele finalmente disse, a voz saindo como um sussurro. — E... é sério. Muito sério.
Os olhos de Marina se arregalaram, e ela ficou em silêncio por um longo momento, como se estivesse tentando entender as palavras. — Doente? Como assim? Doente do quê?
Lucas respirou fundo, tentando manter a calma. — Eu... tenho câncer, Marina. Câncer no pâncreas. E... não tem cura.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Marina parecia congelada, como se tivesse levado um golpe que a deixou sem ar. Ela piscou algumas vezes, tentando processar, tentando entender o que ele estava dizendo.
— Não... não pode ser. — Ela murmurou, balançando a cabeça. — Como assim... câncer? E... por que você não me contou antes?
Lucas sentiu as lágrimas descerem pelo rosto, sem conseguir mais segurar. — Porque... eu não queria te machucar. Não queria tirar essa felicidade que a gente tem... eu... eu só queria aproveitar cada momento com você antes de ter que contar.
Marina se afastou por um momento, cobrindo o rosto com as mãos, tentando processar o que estava acontecendo. As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, e Lucas sentiu como se o mundo estivesse se despedaçando ao vê-la chorar. Ele sabia que, naquele momento, havia destruído tudo o que eles tinham construído juntos. E não havia como voltar atrás.
Ela se jogou nos braços dele, chorando descontroladamente, e Lucas a segurou, tentando consolá-la mesmo sabendo que não havia consolo possível. E enquanto os dois se abraçavam, chorando juntos no meio da sala, Lucas percebeu que a mentira havia finalmente chegado ao fim.
E a tempestade que ele tanto temia finalmente havia começado.
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Atualizado até capítulo 40
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